Centenário Samuel Fuller: O realizador (1949-54)

samuel fuller 1949 1954 (4)O soldado regressou aos EUA e retomou o seu trabalho de argumentista. Casou e estabeleceu-se na Califórnia. Queria dar o passo seguinte – realizar. Os seus filmes independentes conquistam um sucesso inesperado, e conhece Darryl Zanuck, patrão da 20th Century Fox, que o apoia. A audácia do seu material pôs o dedo na ferida; foi premiado, atacado pela crítica, e teria um face a face com o poderoso chefe do FBI, J. Edgar Hoover, que quis cortar um filme seu.

(Continuação de «Centenário Samuel Fuller: O jornalista e o soldado».)

Depois de vários projetos que não avançaram, o argumentista é contactado por Robert L. Lippert, um produtor independente, pioneiro dos drive-ins, que controlava cerca de 100 cinemas americanos. Lippert queria apoiar um dos seus projetos. Perguntou-lhe o que tinha, e Sam respondeu:

– Quero fazer um filme sobre um assassino. Cássio!
– Quem é esse?
– O homem que teve a ideia de matar César. Foi Brutus que o matou, mas Cássio planeou. Quero que o público fique a perguntar quem foi o culpado. Quem planeia ou quem age?
– César… – respondeu Lippert. – Queres fazer um filme sobre tipos nus, nos banhos romanos, vestidos com lençóis?
– Exato.
– Esses tipos não eram… sabes, engraçados? – Lippert era demasiado austero para dizer a palavra “homossexual”, o que deu vontade de rir a Fuller. Este conteve-se e fez-se de desentendido.
– O que queres dizer, Bob?
– Olha, Sammy, não quero fazer um filme sobre tipos com lençóis. Quero um filme com uma boa história, e que ambos possamos obter um pequeno lucro.
– Ok, tenho outra história sobre outro assassino, Bob Ford. Grande personagem. Nunca fizeram um filme sobre ele.
– E quem é que ele matou?
– Jesse James.
– Jesse James! – disse Lippert. – Agora, sim, temos um filme!

I Shot Jesse James (1949).
I Shot Jesse James (1949).

O verdadeiro Jesse James era bissexual, mascarava-se de mulher para assaltar comboios que transportavam medicamentos, “era um ladrãozeco”, diz Fuller, “um pervertido e um filho da mãe. Mas não se podia mostrar isso no ecrã, nesses tempos, e desmistificar um dos grandes ícones americanos. A verdade toda não ajudava a fazer filmes. Por isso, decidi ser esperto e calei-me”.

Em Lippert, Sam Fuller encontrou um homem de negócios honesto e inteligente, que respeitava um aperto de mão. Concordaram em avançar com I Shot Jesse James (Matei Jesse James), de 1949. Fuller não estava interessado em westerns convencionais. “A verdadeira agressão e violência do filme ocorreriam na mente de um assassino psicótico.” Bob Ford mata Jesse pelas costas e passa o resto do filme atormentado pelo seu ato. Fuller quis também relatar como Bob Ford é doentio e como se vai apercebendo disso. Havia também um subtil laço homossexual entre Jesse James e Bob Ford. Os críticos entenderam e chamaram-lhe “o primeiro western adulto”.

Novato na realização, Fuller chegou muito nervoso ao primeiro dia de trabalho. Iam filmar a última cena do filme. Em vez de gritar, “ação!”, Sam disparou para o ar com um revólver Colt 45 do departamento de adereços. Deram todos um salto, mas entenderam. Em vez de dizer, “corta”, Sam gritou, “esqueçam!” “Caramba, eu agora era um realizador!”

Adorou a rodagem, apesar das restrições de tempo e orçamento. Correra um grande risco, ao realizar “um western que não era bem um western”, e estava ansioso com a receção. I Shot Jesse James estreou em Los Angeles e teve boas críticas. Foi exibido no Sul e no Midwest, o público aderiu e, num golpe de sorte, acabou por ser projetado num dos maiores cinemas americanos, o The Palace em Nova Iorque.

Tanto Lippert como Fuller ficaram mais do que satisfeitos, ao verem um filme independente a singrar no circuito comercial. O produtor dá-lhe novamente liberdade de opção, e Sam mantém-se fiel a quem apostara nele, ainda que recebesse agora ofertas de muitos outros produtores. Interessado em relatar a história de James Reavis, o maior burlão americano, que conseguiu convencer o Governo de que era dono do Estado do Arizona, Fuller escreveu o seu argumento seguinte, The Baron of Arizona (O Barão do Arizona), baseando-se num artigo jornalístico.

Ao assistir a uma peça na Broadway, Sam reparou num ator com “voz impressionante e os gestos e postura de uma época passada”. Foi ao camarim e apresentou-se. Nunca tinham ouvido falar um do outro. Enquanto fumavam charutos, Fuller explicou-lhe o projeto. O ator em causa, Vincent Price, gostou e aceitou.

Outra surpresa foi a colaboração com James Wong Howe, um dos melhores operadores de câmara de Hollywood. Howe apareceu no escritório de Fuller e disse-lhe que queria trabalhar com ele. “Deves estar doido, James! O filme inteiro custa menos do que o teu salário!” “Não me importa o dinheiro”, disse Howe, “há coisas mais importantes na vida”. James recebeu apenas uma fração do seu pagamento habitual.

Zanuck e Fuller.
Zanuck e Fuller.

A obra tornou-se um filme de culto, mas não foi um sucesso de bilheteira. Tendo adorado a experiência, James Howe quis trabalhar novamente com o realizador, o que sucedeu em The Steel Helmet, (que abordei neste artigo). O grande sucesso da obra despoletou ofertas dos grandes estúdios. Louis B. Mayer, Jack Warner e Harry Cohn queriam produzir um filme de Samuel Fuller, apenas interessados nos lucros.

Portanto, foi com o chefe da 20th Century Fox, Darryl Francis Zanuck, que Fuller se entendeu melhor. Zanuck também era um magnata do cinema, mas nunca falava em dinheiro. Fora o argumentista não creditado do grande filme de gangsters Little Caesar (1930) com Edward G. Robinson, além de ser responsável pelo sucesso dos filmes de Rin Tin Tin. “Darryl adorava histórias”, recorda Sam. “Adorei o tipo mal o conheci. Eu explicava-lhe as minhas ideias e ele até recriava cenas comigo.” Samuel assinou contrato para seis filmes.

OITO VIDAS POR 40 CÊNTIMOS

Trabalhando agora para a Fox, era mais bem pago e, com a confiança de Zanuck, Fuller pôde comprar uma casa nova, para satisfazer as ânsias materialistas da esposa. Esta fase de criatividade não coincidiu com uma vida conjugal feliz. Sam quis realizar um filme sobre a Rússia, mas a astúcia de Zanuck demoveu-o. O produtor tinha visão comercial, embora adorasse as histórias do seu novo protegido.

“Nesses tempos, a suavidade era bem-vinda em Hollywood. Os estúdios eram fábricas, debitando salsichas insalubres, ansiosos por agradar aos censores de direita, que escrutinavam tudo, em busca de ideias suspeitas”, comenta Sam, que era apenas um peão numa competição feroz.

Antes que a concorrência lançasse imitações de The Steel Helmet, Zanuck aconselhou-o a dedicar-se a outro filme sobre soldados na Coreia. “Sammy, és o único tipo que pode fazer um filme tão bom como esse, e o teu ego não deixará que te copies a ti mesmo.” “Está bem, mas quero filmar na neve.” Bastou um telefonema de Zanuck: “É possível? Obrigado… Ok, Sam, está feito.”

Richard Basehart em Fixed Bayonets (1951).
Richard Basehart em Fixed Bayonets (1951).

Fuller escreveu o excelente Fixed Bayonets! (Baionetas Caladas) que começou a ser filmado no verão de 1951. O próprio exército americano pediria autorização para exibir o filme nas academias de treino. No seu primeiro (pequeníssimo) papel no cinema, surge James Dean. “Gostei da cara do miúdo e dei-lhe uma oportunidade, para lhe dar sorte”, recorda Fuller.

Ao pré-visionar o filme, o produtor perguntou a Fuller se os ricochetes dentro de uma caverna eram mesmo assim. Este olhou para as paredes de cimento da sala e, visto que trazia consigo uma Luger de 9mm, que usava em vez de dizer ‘ação’, fez uma aposta com Darryl. Substituiu as balas de salva por verdadeiras, e estendeu a arma a Zanuck. A aposta era 100 charutos. O produtor disparou duas vezes e as balas ricochetearam pela sala, produzindo um eco ensurdecedor. Felizmente, nenhum dos dois se feriu.

Samuel Fuller no set de FIxed Bayonets.
Samuel Fuller no set de Fixed Bayonets.

Mais uma vez, o cineasta quis transmitir a futilidade da guerra e a trágica perda de vidas. “O preconceito comum é o de que os soldados se alistam por motivos idealistas. Na verdade, a maioria dos homens alistava-se pois queria ter um teto sobre a cabeça, ou não tinha objetivos de vida.”

Uma das melhores cenas do filme é aquela em que Richard Basehart, aterrorizado por ter de assumir o comando, salva o seu superior. A sua motivação é egoísta, não se sente capaz de liderar homens. Por isso, percorre um terreno minado, pega no superior às costas e regressa, pé ante pé, numa sequência de suspense que parece durar o triplo do tempo. Será que alguma mina explode? É nestes momentos que notamos a mestria de Fuller, o seu ritmo certeiro, o modo visceral como transmite o perigo, expondo a coragem na vertente egoísta e irracional.

Basehart não se sente capaz de matar outro homem, o que aconteceu ao próprio Fuller. “Algo muda dentro de nós para sempre. É como um punho que nos retorce as entranhas e fica sempre assim, não larga o aperto. Mas depois, não temos receio de matar outro e outro. Porque todos eles são aquele primeiro homem. E, se não o fizermos, morremos nós.”

“Uma bala custava cinco cêntimos naqueles dias. Cada soldado tinha oito no carregador. Oito vidas por 40 cêntimos. Quis mostrar ao público como uma vida era insensivelmente barata.”

TRIBUTO INTEMPORAL AO JORNALISMO

Fixed Bayonets! foi um sucesso e Zanuck ficou orgulhoso. Fuller voltou a insistir com ele acerca de Park Row. “Olha, adoro o teu guião, Sam, mas o público não vai comprar isto. Precisamos de estrelas, de cor, de CinemaScope. Só se for um musical.” “O quê?!” Propuseram-lhe que realizasse vários filmes de guerra como O Dia Mais Longo, com John Wayne, o que Samuel recusou. Achava-as produções enganosas e inexatas. “Não tenho nada contra Wayne pessoalmente, mas, nos seus filmes de guerra, aparece sempre alguém com aquela estúpida frase: ‘Estes rapazes deram a vida pela pátria!’ Isso é falso. Se nos dissessem que íamos dar a vida pela pátria, ninguém se alistava! Todos queriam regressar, sãos e salvos, à sua namorada ou mãe.”

Park Row, provavelmente o melhor filme alguma vez realizado sobre jornalismo.
Park Row, provavelmente o melhor filme alguma vez realizado sobre jornalismo.

Optando pela sua visão pessoal, Sam decide produzir e realizar Park Row. “Para o diabo com a Fox e Zanuck! Que se fodesse o studio system! Eu sabia exatamente o que fazer com Park Row.”

O filme começa com milhares de títulos de jornais passando no ecrã. Em grandes letras, lê-se: “Estes são os nomes dos 1,772 jornais diários dos Estados Unidos. Um deles é o que você lê. Todos eles são as estrelas desta história. Dedicado ao jornalismo americano.”

Gene Evans trabalhou pela terceira vez com Fuller, interpretando um jornalista, ‘Mitchell’, que funda um jornal, o Globe, tendo de enfrentar a feroz concorrência do poderoso Star, com a sua rica proprietária, ‘Charity’ a tentar esmagar o idealismo e originalidade de ‘Mitchell’. Este confronto descamba em golpes cada vez mais baixos, enquanto se desenvolve uma atração entre os protagonistas.

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Este extraordinário tributo ao jornalismo teve uma estreia especial em Nova Iorque, no Waldorf-Astoria, durante a Convenção Nacional de Editores da Imprensa. Estavam lá representantes de 1,700 diários do país. Entre os convidados, encontravam-se o General MacArthur, o Presidente Hoover e William Randolph Hearst Jr. Os aplausos foram muitos, grande parte do público chorou. “Eles perceberam realmente o espírito do filme e a importância da liberdade jornalística”, recorda Sam.

Anos depois, Fuller é convidado para presidir um festival de cinema em Estrasburgo, cuja edição era dedicada à relação entre a imprensa e o cinema.

“Estavam lá jornalistas e editores dos EUA e da Europa. Exibiram Park Row. O editor de uma grande revista francesa abordou-me para dizer o quanto o filme o afetara. Todas as cenas do filme disseram algo àquele homem; foi sincero e quase começou a chorar. Fiquei surpreendido e comovido pelo facto de algo que eu realizara 30 anos antes ser capaz de afetar tão fortemente aquele homem. Bem, espero que os meus filmes continuem a tocar as pessoas enquanto houver filmes!”

Zanuck também adorou a obra, mas, tal como previa, foi um fracasso de bilheteira, ainda que se tornasse um sucesso de crítica e um ponto de viragem para Fuller, que se sentiu mais confiante que nunca. Tecnicamente, inventou até um processo de filmagem equivalente à Steadicam de hoje, amarrando uma câmara às costas de um cameraman.

CONFRONTO COM J. EDGAR HOOVER E O FBI

Odeio violência. Isso nunca impediu que a mostrasse nos meus filmes. Integra a natureza humana. As pessoas escrevem sobre violência desde a Bíblia. Com os diabos, e esse é um livro bastante violento; um relato de guerras, contendas, corrupção e vingança! Dois mil anos depois, vejam a obra de Shakespeare. As suas peças estão repletas de um derramar de sangue cru e explícito. Crianças são atiradas sobre muralhas de castelos, pais e mães são assassinados, há gargantas cortadas, línguas arrancadas, cabeças decepadas. É certo que toda esta violência é deplorável, mas, lamentavelmente, faz parte da nossa brutal herança.

Jean Peters e Richard Widmark em Pickup on South Street (1953).
Jean Peters e Richard Widmark em Pickup on South Street (1953).

Zanuck entrega a Sam um argumento que este reescreve por completo: A história de um carteirista antissocial, um outsider que se está marimbando para o resto do mundo. Um dia, no Metro, ‘Skip’ rouba a carteira de ‘Candy’, uma rapariga de passado nebuloso, e apodera-se acidentalmente de um microfilme com uma fórmula, que lá foi posto pelo namorado de ‘Candy’, que pretende vendê-lo a espiões comunistas. O polícia, ‘Tiger’, quer prender o carteirista, e temos também ‘Moe’, a informadora, que vende o que sabe apenas para juntar dinheiro para um lugar decente num cemitério.

“Em todo o mundo, há pessoas como estas”, assinala Fuller. “Vivem à margem da sociedade, lutando pela sobrevivência através de esquemas, obedecendo apenas ao seu próprio código ético. Vi muitas destas pessoas quando era repórter de crime. São individualistas, não confiam em ninguém, subsistem para além da política, mudanças de Governo, rótulos intelectuais e modas.”

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Pickup on South Street (Mãos Perigosas), tornou-se um clássico do film noir e um dos filmes mais amados de Fuller. Até Marilyn Monroe apareceu de surpresa, ambicionando entrar no filme. (Episódio relatado aqui.) Em 1953, a obra é selecionada para o Festival de Cinema de Veneza.

Samuel Fuller fala sobre cinema e aborda especificamente este filme:

Fuller já trabalhava na obra seguinte, quando Tyrone Power apareceu no set com o Los Angeles Times. “Parabéns, Sammy, estás na primeira página. Pickup ganhou um prémio em Veneza.” Era o Leão de Bronze. Fuller ficou entusiasmado por saber que o presidente do júri era Luchino Visconti. No entanto, só muitos anos depois descobriu que Visconti se opusera à vitória do filme, devido às suas convicções comunistas, opinião não partilhada pelos restantes jurados. Thelma Ritter foi nomeada para Melhor Atriz Secundária nos Óscares, e o realizador ganhava cada vez mais estatuto.

samuel fuller 1949 1954 (13)A certa altura, ‘Skip’ é questionado acerca do microfilme. E responde, “estão-me a acenar com a bandeira?” Os liberais aplaudiram o filme por ser frontal acerca do disparate da Guerra Fria. Os conservadores classificaram-no de pró-comunista. Regressava a polémica de The Steel Helmet. “Um dos temas do filme é sobre formar juízos precipitados. Ninguém, naquele meio, era rápido a julgar outros, já que todos tentavam sobreviver”, explicou Fuller.

J. Edgar Hoover, o temível chefe do FBI, ficou perturbado com a obra e convocou Fuller e Zanuck para uma reunião, onde apareceu acompanhado de vários homens de negro. Disse-lhes que tinham ido longe de mais. Não gostou que o herói negociasse simultaneamente com comunistas e americanos.

– Como é que um americano pode pensar apenas em dinheiro, numa época como esta, na nossa História?
– A ele, não lhe interessa a História. É um marginal. Só quer lucrar – disse Fuller.
Mas o que mais incomodou Hoover foi a tal frase.
– “Estão-me a acenar com a bandeira?” – disse ele, lendo as suas notas. – Que raio de coisa é esta? Um americano a dizer isto?
– É o personagem – retorquiu Fuller. – Se fosse outro, talvez dissesse: “Meu Deus, faço tudo pelo meu país!”

O cineasta compara Hoover aos críticos preconceituosos que encontrou ao longo dos anos. “Só veem as coisas sob a sua perspetiva. Se um filme está de acordo com as suas ideias, é bom, se não, é mau.”

Hoover ficou também chocado com a cena em que um agente do FBI, juntamente com um polícia, suborna um informador.
– O Departamento de Justiça nunca faria tal coisa – comentou Hoover.
– Mr. Hoover, fui repórter em esquadras, e vi polícias a regatearem com agentes federais o dinheiro a pagar a bufos. Até vi agentes do FBI a darem dinheiro a polícias para pagar a informadores.

“Na época, o seu poder era incrível. E ali estava ele, a questionar a minha integridade, enquanto chantageava pessoas para se manter no poder, como se saberia depois.” Hoover exigiu a Zanuck que estas cenas fossem cortadas e filmadas de novo. Educadamente, Zanuck ripostou:

– Mr. Hoover, o senhor não percebe de cinema.

Hoje, podemos assistir ao filme tal como Fuller desejava, graças a Zanuck.

DE ANTIAMERICANO A ANTICOMUNISTA

O filme seguinte, Hell and High Water (O Demónio dos Mares) de 1954, é a obra que Fuller menos apreciava, entre o seu trabalho, “de longe”. Foi um favor que fez a Zanuck, que sempre o defendera e tinha uma opinião honesta acerca das suas ideias. Sam aceitou, na condição de poder reescrever o argumento. Havia imposições. Teria de ser filmado em CinemaScope, um formato de ecrã que ampliava a imagem 25 por cento na horizontal. Muitos realizadores não se adaptavam. Fritz Lang protestou que só servia para filmar cobras e funerais. Quanto a Samuel Fuller, a tarefa era complicada. Grande parte da ação desenrolava-se dentro de um submarino. A amplitude de campo podia ser um problema.

samuel fuller 1949 1954 (1)

Paciente, Fuller encontrou-se, na Califórnia, com Henri-Jacques Chrétien, criador da lente anamórfica. Deram-se bem, e o inventor ofereceu a Sam uma das suas lentes para que a adaptasse à sua câmara de 16 mm. Determinado em conseguir que a tecnologia funcionasse a seu favor, o cineasta fez experiências e disse a Zanuck que iria incluir muitos movimentos de câmara. “Podes fazer o que quiseres com a maldita câmara”, disse o produtor. “Vê é se consegues que as pessoas esqueçam que é em CinemaScope.”

“E foi assim que a pus sempre em movimento, em Hell and High Water, até encenei o combate final como um bailado, com a maldita câmara a baloiçar por todo o lado.” Um dos atores era o belga Victor Francen, que apareceu no set com uma revista chamada Cahiers du Cinema. Os colaboradores eram os jovens Jean-Luc Godard, François Truffaut e Luc Moullet. O ator traduziu a Sam várias passagens elogiosas. Durante muitos anos, a conceituada publicação defendeu estoicamente a obra de Fuller, e este, por seu lado, era fã da revista.

Bella Darvi.
Bella Darvi.

Para o papel feminino, o estúdio sugeriu Bella Darvi, uma protegida de Zanuck. Fuller não percebeu bem a relação entre ambos, mas disse que teria de a testar e não prometia nada. Darvi agradou imenso a Sam. Além de boa atriz, era poliglota e divertida no set. Só mais tarde, Sam descobriu que Darvi e Zanuck eram amantes.

“Ela tornou-se num bode expiatório para quem queria atacar Darryl. Os rumores eram horrendos. Não me interessam as vidas privadas dos outros. Desde que sejam profissionais, o resto é com eles. Queria lá saber com quem dormiam ou não. Além disso, a maioria dos rumores é uma treta. Evito ouvir essas patranhas, a não ser que sejam engraçadas e invulgares, e as possa usar num guião. Os boatos são horríveis, mais as pessoas que os originam. Fui alvo disso, de mentiras e insinuações desde que entrei no negócio. O meu conselho a jovens realizadores? Riam-se e esqueçam.”

Para se preparar, Fuller até passou dois dias num submarino da marinha, bombardeando o capitão com perguntas. Toda a tripulação assinou um diploma, para que Sam recordasse os momentos ali passados.

Pessoalmente, acho Hell and High Water um filme imparável, interessante, muito bem filmado, com excelentes interpretações.

Nomeado para o Óscar de Melhores Efeitos Especiais, valeu também um Globo de Ouro a Bella Darvi, na categoria de Estreante Mais Promissora. Fuller é nomeado para o Directors Guild Award. A obra saiu-se bem na bilheteira, mas… os críticos europeus de esquerda classificaram-no de “propaganda anticomunista”! Era de bradar aos céus.

E foi essa a reação do realizador:

“Por amor de Deus, era um filme de aventuras. Não faço filmes propagandistas, só estou interessado numa boa história. Se há conflito, há ação. Se há ação, há emoção. Isso, para mim, é um filme. Sabem, 95 por cento de todos os filmes são produzidos porque há pessoas que têm de receber um ordenado. Isso está certo. Apenas cinco por cento são feitos porque um homem, ou mulher, com paixão teve uma ideia e nada o impediu, a ele ou a ela, de a pôr no ecrã. É certo que realizei filmes como ganha-pão. Mas a maioria deles, tive de os fazer. Ocorria-me uma história e queria contá-la.”

David Furtado

(Continua no próximo artigo.)

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