Pat Metheny celebra 58 anos: A guitarra que fala por Pat

A colaboração entre o lendário guitarrista de jazz e o prodígio do piano remonta a dezembro de 2005, quando fizeram várias gravações. O primeiro resultado foi o álbum de duetos Metheny/Mehldau, lançado em 2006. O sucesso originou uma segunda edição, baseada nas mesmas sessões, Metheny/Mehldau Quartet, álbum deste ano, em que os dois músicos que habitualmente tocam com Mehldau, assumem um papel mais proeminente: O baterista Jeff Ballard e o baixista Larry Grenadier, que acompanharam os dois virtuosos e provaram que a noite não foi de protagonismos.

pat metheny (1)

“Geralmente, o concerto dura três horas e, no fim, ele está completamente esgotado”, disse-nos fonte da organização, quando perguntámos se seria possível entrevistar Pat Metheny. Ok, veremos o concerto e depois… não falamos…?

A digressão do quarteto já percorreu os EUA e o Canadá. No fim de junho, foi a vez da Europa. O quarteto tocou na sexta-feira passada em Galapagar, Espanha e, depois do Coliseu, subiu ao palco no domingo, no CCB. A 30 de julho, regressam a Portugal. Observando o programa da digressão, percebe-se que os músicos não têm muitas folgas, atuando em dias sucessivos.

Mehldau em perfeita sintonia com Metheny.
Mehldau em perfeita sintonia com Metheny.

O Coliseu estava praticamente cheio, e a plateia era composta por conhecedores da obra de ambos os músicos. Entraram sozinhos em palco, Mehldau mais taciturno e Metheny com o seu sorriso simpático. O primeiro tema foi interpretado com o guitarrista de pé, junto ao piano. Pat Metheny começou por dominar o tema, utilizando a palheta e prendendo-a entre os dentes para dedilhar. O público ouviu em silêncio enquanto alternava entre a fluidez no solo e os acordes. O guitarrista empregou as oitavas, enquanto Mehldau fugia ligeiramente à linha melódica. Ambos regressam, terminando o tema com uma fusão de guitarra e piano.

O segundo instrumental foi iniciado por Mehldau, com Metheny a complementar, em segundo plano, por vezes fazendo a guitarra soar como um contrabaixo. O diálogo entre os músicos ficou desde logo explícito. Por vezes, cada um fugia para seu lado, mas a interpretação nunca soava a jam-session.

«Unrequited» mostrou o que é ouvir dois músicos que obviamente têm grande admiração mútua, já que procuram sempre complementar e não sobressair. Sobretudo, sabem ouvir-se um ao outro. Quando terminam – e no fugaz silêncio antes dos aplausos –, alguém no público grita “yeah…”, o que diverte Metheny e o incentiva.

Neste início, Pat ouvia as notas do pianista, enquanto este tocava as notas graves com a mão esquerda, pondo um braço por cima do outro. O guitarrista só entrou a meio do tema, adicionando alguns harmónicos.

A certa altura, um acorde não saiu bem a Metheny, que, abanando a cabeça, se lançou logo num improviso tão fluente que ninguém deu pelo erro. Aliás, percorreu toda a escala da sua Ibanez, alternando entre acordes e solo com tanta destreza que recordou o epíteto: “O homem que reinventou a guitarra jazz.” De facto…       

Algumas variações, os dois músicos olham-se e parecem dizer, “regressemos à melodia”. E é o que fazem, com Metheny a executar alguns glissandos e Mehldau a demonstrar por que é considerado um prodígio no piano. «Ahmid-6» foi um exemplo de perfeita sincronia. Metheny trocou então a guitarra elétrica pela acústica, explorando tonalidades celtas. O pianista reencontra-o a meio do tema, depois de ter ouvido Pat a executar técnicas de guitarra clássica.

À DISTÂNCIA DE UMA NOITE

pat metheny (3)Mehldau estala os dedos, 1, 2, 3, dando início ao tema seguinte, numa atmosfera mais jazzy. Ballard troca as baquetas pelas vassouras; o contrabaixo e a guitarra entram em diálogo, com Pat a incluir algumas notas em staccato. A certa altura, esboça alguns acordes com os dedos, mas prefere ouvir o trio, deixando-o brilhar. Os músicos dão espaço de manobra uns aos outros. A sonoridade é agora de um jazz mais clássico, a lembrar um filme negro dos anos 50, com o contrabaixista Grenadier a desenhar a espinha dorsal do tema. O baterista mantém-se discreto, por enquanto. Apesar do virtuosismo com a tarola e os timbalões, lembra a máxima “less is more”.

GUITAR HERO DEIXA BRILHAR

Há uma óbvia empatia entre os músicos, embora o baixista lidere o tema seguinte, debruçando-se sobre o contrabaixo e percorrendo a escala a um ritmo latino, enquanto Metheny executa acordes reminiscentes de Chet Atkins. O solo de Grenadier é um dos mais aplaudidos da noite.

A segurança e a versatilidade dos músicos é inegável, com Metheny a respirar cada nota, o que transparece no seu rosto. É o mesmo guitarrista de há 25 anos, o cabelo comprido está grisalho, mas a maneira como toca é exatamente igual. Põe-se em bicos de pés, e avança para o centro do palco, mas nunca musicalmente.

O tema seguinte abre de maneira fulgurante, com a bateria de Ballard em grande plano. Pat é mais um dos músicos, sem deixar que o seu estilo interfira no rumo sonoro do quarteto. Brad Mehldau faz um solo, e a improvisação já vai longa quando reparamos que o ritmo agora parece mais de rock and roll. Metheny troca então a Ibanez eletroacústica pelo sintetizador de guitarra, executando um solo em que solta os agudos e paira por cima do quarteto com uma intensidade que faz o recatado Mehldau acenar repetidamente com a cabeça com ar aprovador.

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A secção rítmica abandona o palco, e é Mehldau que finalmente dirige algumas palavras ao público, compensando a sua reserva com um português inseguro: “Boa noite. Estamos muito felizes por estar aqui no Porto.” Regressa ao inglês para dizer que o quarteto está a tocar músicas do novo disco.

A GUITARRA DE PICASSO

“Pat vai tocar uma música dele, chamada «The Sound of Water»”, diz Mehldau. É então que Metheny pega numa guitarra bastante original, a Picasso guitar de 42 cordas. Por vezes, parece que toca dois instrumentos ao mesmo tempo, explorando a tonalidade da guitarra de 12 cordas e misturando-a com sons semelhantes aos de uma harpa.

A "Picasso Guitar".
A “Picasso Guitar”.

A certa altura, inclui tonalidades de baixo, dá umas palmadas na caixa da multifacetada guitarra, em jeito de percussão, e perguntamos o que Brad Mehldau poderá adicionar a este “one man show”, em que as cordas se cruzam literalmente. Mas, alguns minutos depois, o pianista adiciona algumas cores da sua própria paleta e torna “o som da água” mais cinemático.

Ballard e Grenadier regressam ao palco, Metheny volta à Ibanez e o seu estilo domina por momentos um tema com raízes latinas. Versatilidade é a palavra-chave nas texturas exploradas pelo quarteto.

Pat Metheny fala ao público, depois de ter deixado a guitarra falar por si. “I want to thank you guys for coming out here tonight…” O guitarrista apresenta então o “último tema” e pede mais aplausos para os companheiros. O baterista Ballard faz um solo em que alterna entre vários ritmos, tocando com as baquetas, com as vassouras e com as mãos, enquanto os outros três músicos o observam atentamente. Demorou até que Ballard recebesse o aplauso merecido.

Os quatro músicos regressaram para dois encores, depois de serem aplaudidos de pé. Interpretaram dois temas jazzy e descontraídos, alternando entre diversos ritmos, com precisão. Mehldau, mais desenvolto, deixou escapar um sorriso.

No fim do concerto, algumas pessoas cantarolavam o riff de «A Night Away». Damos conta que afinal não passaram três horas, mas sim, cerca de duas horas e meia. E a tal entrevista? Valerá a pena insistir? Nem por isso. Deixem descansar os guerreiros. A guitarra falou por Pat. Num bom concerto, nada mais há a acrescentar.

7: O NÚMERO DE METHENY

A 7 do 7 de 2007, Pat Metheny atuou no Porto. É interessante recordar que o Pat Metheny Group arrecadou sete Grammies consecutivos por sete álbuns consecutivos. No total, o músico ganhou 16 Grammies e passou a maior parte da sua vida em digressão, com uma média de 120-240 espetáculos por ano desde 1974.

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Ao longo da sua carreira, o eclético Metheny colaborou com artistas tão diferentes como Steve Reich, Ornette Coleman, Herbie Hancock, Milton Nascimento, Joni Mitchell ou David Bowie. Compôs para guitarra solo, instrumentos acústicos e elétricos, orquestras, pequenos grupos e até peças para bailado, num registo que varia entre o jazz moderno, o rock e a música clássica.

Aos 18 anos, foi o professor mais jovem da Universidade de Miami. Desde sempre um pioneiro musical, um dos primeiros músicos de jazz a tratar o sintetizador como um instrumento sério. Anos antes da invenção da tecnologia MIDI, Pat Metheny usava o Synclavier como ferramenta de composição. O seu papel também foi decisivo no desenvolvimento de instrumentos inéditos como a Guitarra Acústica Soprano, a Guitarra Picasso de 42 cordas, ou a guitarra de jazz Ibanez PM-100.

David Furtado

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