Pink Floyd – The Wall estreou há 30 anos: A construção e demolição de uma parede

A história de ‘Pink’ ou ‘Mr. Floyd’, realizada por Alan Parker, foi exibida pela primeira vez nos Estados Unidos há 30 anos. O conceito inicial de Roger Waters englobava um disco, um espetáculo e um filme. É considerado por muitos o “maior álbum conceptual da História do rock”, mas há quem o caracterize como uma megalomania sobrevalorizada de Waters. Segue-se uma análise de todas as canções de The Wall, a descrição do projeto e várias curiosidades. Circulou o rumor de que os três elementos sobreviventes dos Pink Floyd (Waters, Gilmour e Mason) iam encerrar os Jogos Olímpicos em Londres, o que foi negado pelo grupo.

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Há 20 anos, uma fã dos Pink Floyd (que, por acaso, era também minha professora), disse-me que assistira a um dos espetáculos deles, em Londres, na Wembley Arena, em 1977. Obviamente entusiasmado, perguntei-lhe o que achara. Disse-me que, a nível musical, foi fantástico, mas que se pressentia uma grande frieza; “não conseguiam comunicar com o público, notava-se que havia qualquer barreira”, para não dizer parede, entre a audiência e o grupo. Durante essa digressão, a meio de «Pigs», Waters gritava um número, 21 ou 46 ou 54. Ninguém percebia o motivo, até que alguém reparou que era o número de concertos que os Pink Floyd tinham dado na tournée. Parecia que Waters mal podia esperar o fim daquele suplício.

pink floyd the wall (23)A ideia de The Wall remonta ao último concerto da digressão de Animals, no Estádio Olímpico de Montreal, a 6 de julho de 1977, em que Waters reparou num fã fanático e começou a dirigir-lhe a sua performance, encorajando-o a aproximar-se. Enojado com a idolatria de que era alvo, cuspiu-lhe na cara, ficando depois chocado com o seu próprio comportamento. David Gilmour não regressou para o encore. Ninguém reparou que estava já entre o público.

Dois meses depois de a tournée acabar, em setembro de 1977, Roger começou a trabalhar num álbum conceptual sobre os sentimentos de alienação que sentia em relação ao público. Em julho seguinte, mostrou aos colegas dois ciclos de canções, gravadas rudemente em maquete: Um tornar-se-ia The Wall, outro seria o primeiro álbum a solo de Roger Waters, The Pros and Cons of Hitch Hiking. Segundo David Gilmour, “as maquetes de Roger eram inaudíveis, e soava tudo ao mesmo. Mas, apesar disso, The Wall sempre era um tema universal, ao passo que Hitch Hiking…”

Em Inglaterra, Waters revelou à Rolling Stone que havia “uma enorme barreira” entre o público e o que o compositor tentava fazer. E já se tornava quase inultrapassável. Roger jurou que, se os Pink Floyd voltassem a atuar ao vivo, seria literalmente atrás de uma parede, ideia que Nick Mason achou “alarmante”…

As gravações começaram em abril de 1979 e a maioria teve lugar nos Superbear Studios, em França. Os Floyd trabalharam também na CBS, em Nova Iorque, e no The Producers Workshop, em Los Angeles, sendo algum trabalho gravado no estúdio do grupo – o Britannia Row em Londres –, embora tal não fosse divulgado por motivos fiscais. Durante esta fase, a banda sofria de graves problemas financeiros devido à falência da empresa de contabilidade Norton-Warburg, na qual tinha investido milhões de libras.

O MEDIADOR BOB EZRIN

Devido à complexidade e escala do projeto, e também para mediar os conflitos entre ele próprio e David Gilmour, Waters fez uma primeira e única escolha para o papel de produtor, seguindo a sugestão da sua esposa. Bob Ezrin já produzira Alice Cooper e os Kiss, assim como a obra-prima de Lou Reed, Berlin, que só encontra paralelo em The Wall, a nível de álbuns conceptuais. Ezrin também assistira ao triste incidente de Montreal e estava habituado a lidar com conflitos entre egos.

Bob Ezrin, o mediador entre Gilmour e Waters, cuja relação rapidamente se desagregava.
Bob Ezrin, o mediador entre Gilmour e Waters, cuja relação rapidamente se desagregava.

Quando Ezrin chegou a Londres para se reunir com os Pink Floyd, verificou que o seu estilo de vida era “tudo menos a loucura do rock and roll”. Em Britannia Row, Ezrin, Gilmour e Waters analisaram as maquetes: “Discutimos o que era melhor, o que não era tão bom e deitámos fora muita coisa. Roger e Bob passaram muito tempo a alinhavar a história, tornando o conceito mais linear. Bob é o tipo de pessoa que pensa sob vários ângulos e procura encurtar a narrativa”, descreve David.

pink floyd the wall (29)“Numa sessão noturna ininterrupta, reescrevi o álbum”, diz Bob Ezrin. “Usei todos os elementos de Roger, mas reorganizei-os por ordem e sob uma forma diferente. Escrevi The Wall em 40 páginas, como um livro… atuei como editor de Roger, e podem acreditar que as suas letras eram tão boas que não precisavam de grandes acertos.”

Além disso, Ezrin convenceu o grupo a mudar a sua política de não lançar singles, insistindo para que encontrassem um êxito, pelo menos. “Eles mostraram-se recetivos”, afirma Ezrin.

Nas palavras de Gilmour, “muito do melhor trabalho veio da pressão de dizermos a Roger, ‘isso não presta, arranja melhor!’” Waters estava determinado em que mais ninguém obtivesse créditos na composição, mas acabou por partilhar quatro.

Importantes eram também os efeitos sonoros, desde bombardeiros a aeroplanos, helicópteros, choros de bebé, vozes no recreio de uma escola, ruídos telefónicos e diálogos. A lista de sons foi entregue a Nick Griffiths, enquanto outro engenheiro de som mais experiente, James Guthrie, supervisionava as sessões fora do Reino Unido.

A contribuição mais relevante de Griffiths foi gravar um coro infantil. Roger e David, que cantam juntos em «Another Brick in the Wall, Part II», acharam que seria boa ideia terem alunos a cantar também. “Fui a uma escola ao virar da esquina, mesmo junto a Britannia Row, e perguntei ao professor de música se toda a turma podia vir cantar ao estúdio. Ele ficou encantado. Concordámos, em contrapartida, que, caso ele quisesse gravar uma orquestra escolar ou algo assim, cederíamos as instalações”, explica Griffiths.

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Assim, o professor Alan Redshaw e 23 alunos da Islington Green School foram parar ao estúdio dos Floyd. “O professor torceu o nariz à letra, ‘we don’t need no educa-shun’, mas comecei aos saltos para pôr os miúdos com o espírito certo”, recorda Griffiths. “Não foi premeditado mas correu bem, demorou apenas meia hora, e todos se divertiram. Depois, só sobrepus as vozes 12 vezes.”

Os Pink Floyd receberam a fita em Los Angeles e ficaram tão entusiasmados que decidiram dar destaque ao coro. “Mas sem que eu e Roger perdêssemos as nossas vozes lá no meio”, sublinha Gilmour.

A SAÍDA DE RICHARD WRIGHT

pink floyd the wall (18)Os créditos do disco não estão corretos: Como compositores, só surgem Roger Waters, David Gilmour e Bob Ezrin. As primeiras cópias nem mencionavam Richard Wright e Nick Mason. Em The Wall, tocaram vários músicos de estúdio que não foram creditados; Ezrin e Gilmour fizeram grande parte do trabalho de Wright, cujo input foi mínimo.

Quando as gravações estavam quase terminadas, Waters fez um ultimato a Richard Wright: Ou ele abandonava os Floyd, ou o projeto não avançava, o que faria com que nenhum elemento da banda conseguisse recuperar as perdas do caso Norton-Warburg. O teclista acedeu, sendo o único membro dos Floyd a atuar nos espetáculos como assalariado e também o único a não comparecer na estreia londrina do filme.

“Não nos entendíamos”, diz Wright. “Era pessoal. Tudo o que eu fazia ou sugeria, ele desaprovava. Era-me impossível trabalhar com ele. Quando ameaçou que pararia o projeto, se eu não saísse… não sei se foi bluff, mas eu não receberia royalties pelo álbum. Concordei e, de certa forma, fiquei muito feliz, pois estava saturado daquela atmosfera.”

Bob Ezrin considerou Wright vítima da crueldade de Roger, ao passo que outros observadores culparam o consumo excessivo de cocaína do teclista. “Ele não estava em si.”

pink floyd the wall (30)Wright recapitulou esta fase “difícil e triste” em 2000: “Quis fazer os espetáculos como uma espécie de adeus definitivo. Foram difíceis e não sei como consegui. Julgo que bloqueei completamente a minha cólera. A situação foi constrangedora para nós os quatro, mas, à maneira britânica, seguimos em frente com o trabalho. Recordo-me da estranha sensação de não ver o público; que ficou extasiado. Ninguém fez nada assim antes, nem desde então.”

Ironicamente, a saída de Richard e a sua participação nos espetáculos como assalariado, fez dele o único elemento do grupo a ganhar dinheiro com os concertos. O custo da produção foi tão elevado que os restantes elementos perderam uma fortuna.

A banda despendeu 500 mil dólares para pagar o equipamento de 45 toneladas. O P.A. tinha uma potência de 45 mil watts. A parede branca de 340 tijolos de cartão, com mais de 50 metros de largura e 10 de altura, foi o maior desafio logístico.

Visto que Waters concebeu The Wall com três facetas, é mais simples abordar o projeto do princípio ao fim ou, neste caso, música a música, para melhor compreendermos a história.

TEMA A TEMA

When the Tigers Broke Free: A música que inicia o filme descreve a morte do pai de Waters em Anzio, durante a campanha Aliada em Itália, em janeiro de 1944.

In the Flesh?: O disco começa com as palavras quase inaudíveis, “we came in”, o que só faz sentido no final, quando se ouve, “isn’t this where”. Ouve-se também a imitação dos sons de um bombardeiro Stuka, que matou o pai de ‘Pink’. O título provém da denominação dada à digressão de Animals: «Pink Floyd In The Flesh Tour». Repare-se no ponto de interrogação do título.

A banda nunca tocou o tema ao vivo. Todos os concertos abriam com a banda substituta, usando máscaras dos elementos dos Floyd, enquanto os verdadeiros elementos só surgiam no fim. O público não se apercebia deste golpe teatral.

O quarteto serviu também de apoio durante os espetáculos: Snowy White (guitarra), Willie Wilson (bateria), Andy Bown (baixo) e Peter Woods (teclados). Nos concertos de 1981, Andy Roberts substituiu Snowy White. No final do tema, um avião Spitfire cruzava a sala, explodindo do lado direito do palco.

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The Thin Ice: O primeiro flashback do nascimento e da infância de ‘Pink’.

Another Brick in the Wall, Part I: O primeiro tijolo é a perda do pai de ‘Pink’. O trabalho de guitarra de Gilmour é atmosférico, bem como o riff de baixo de Waters.

The Happiest Days of Our Lives: Waters não considera os dias de escola como os mais felizes das nossas vidas, ao contrário do mito. No filme, ‘Pink’ é apanhado a escrever poemas durante uma aula. O professor humilha-o, recitando o que a criança escrevia: O verso inicial de «Money».

Gilmour com a sua Gibson Les Paul Gold Top, usada para o solo de «Another Brick in the Wall - Part II».
Gilmour com a sua Gibson Les Paul Goldtop, usada para o solo de «Another Brick in the Wall, Part II».

Another Brick in the Wall, Part II: Além do êxito que foi, o tema serviu de arma para os críticos atacarem os Pink Floyd, alegando que um rico e bem-educado Waters criticava a falta de sentido em educar as massas. O objetivo de Roger não era esse, mas sim, o de denunciar professores vingativos e cruéis que podem afastar as crianças da educação. Foi editado como single antes do Natal e, curiosamente, foi o último single a atingir o nº 1 do top nos anos 70 e o primeiro a lá chegar nos anos 80. Foi banido na África do Sul depois de ser adotado como canção de protesto dos alunos das townships.

Roger Waters venceu um BAFTA (o Óscar britânico) por Melhor Canção integrada num filme. A imprensa tabloide atacou os Floyd, sustentando que o coro infantil não fora pago, mas o acordo previa que as crianças recebessem aulas de música em Britannia Row. Waters certificou-se de que todos receberiam uma cópia de The Wall. Gilmour também criticou Waters por se autointitular autor de tudo: “Ele não escreveu o solo nem os acordes que o suportam.” O ritmo disco foi inspirado por Saturday Night Fever e o famoso solo foi tocado por David na sua Gibson Les Paul Goldtop de 1959, uma mistura de elementos que se uniu na perfeição.

Mother: Waters declarou que não se trata de um ataque à sua própria mãe, mas sim, a todas as mães sufocantes que impedem o desenvolvimento normal dos filhos. Na faixa, tocam vários músicos não creditados: Um teclista não identificado, Jeff Porcaro (bateria) e Lee Ritenour (guitarra).

Goodbye Blue Sky: Entre o ameaçador e o bucólico, o tema é uma espécie de interlúdio para refletir nas cicatrizes psicológicas de ‘Pink’, no final da Guerra. No filme, acompanha uma excelente sequência de animação de Gerald Scarfe, que, tal como Roger, era um cínico incorrigível. O desenhador e escultor concebeu também as marionetas e ilustrações inconfundíveis de The Wall.

Empty Spaces: A animação favorita de Alan Parker é a das flores a fazerem amor, que acompanha este tema no filme. É aqui que surge a mensagem secreta, para quem tem gira-discos que toquem ao contrário (ou leitores de CD que façam o mesmo…). A mensagem diz: “Congratulations, you have just discovered the secret message. Send your answer to Old Pink, care of the Funny Farm, Chalfont.”

What Shall We Do Now: Não consta no disco. Foi excluído à última hora, quando o material era reordenado, para impedir que se transformasse num álbum triplo, mas demasiado tarde para que a letra fosse retirada da capa, visto que já se encontrava na tipografia. Nos concertos e no filme, o tema, uma das canções/lista de Waters, é usado para exibir as animações de Gerald Scarfe.

pink floyd the wall (6)Young Lust: Waters pediu a Gilmour que cantasse como em «The Nile Song». É um tema sobre uma banda de rock em digressão, altura em que ‘Pink’ descobre a existência das groupies. No filme, a atriz Joanne Whalley é a única das raparigas a manter-se vestida da cintura para cima. A chamada em que ‘Pink’ liga para casa e é o amante da mulher a atender, foi encenada, mas a operadora telefónica nada sabia e os seus comentários são genuínos. “There’s a man answering… he keeps hanging up…”

One of My Turns: Neste ponto, perturbado com o modo como tratou uma groupie e pela infidelidade da esposa, ‘Pink’ destrói o quarto de hotel. A guitarra ritmo foi tocada por Lee Ritenour (e não creditada) já que Gilmour admitiu que não lhe ocorria uma contribuição interessante. O tema foi o lado B do single «Another Brick in the Wall, Part II». Nalgumas cópias, surgiu, por erro tipográfico, com a denominação «One of My Tunes»…

Don’t Leave Me Now: ‘Pink’ não compreende por que razão a mulher o deixou, embora exponha o modo como a tratava.

Another Brick in the Wall, Part III: ‘Pink’ rejeita tudo o que as pessoas lhe possam dar. As versões ao vivo incluíam um dramático instrumental/medley no fim, para que os auxiliares de palco tivessem tempo de encaixar os últimos tijolos. Uma versão mais acelerada é ouvida no filme.

Goodbye Cruel World: A parede está completa, ‘Pink’ isolou-se totalmente dos amigos e dos que ama. É o fim do primeiro disco e da primeira metade do concerto, em que o último tijolo era encaixado na parede, tapando Waters.

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Hey You: Originalmente, a ideia era construir a parede e atuar por detrás dela durante a segunda parte, que retrata a queda de ‘Pink’. “Mas isso era demasiado rude… demasiado ‘fuck you’”, considerou Waters. Na capa do álbum, esta letra surge fora de sequência, mais uma indicação do trabalho exasperante de ordenação do material, levado a cabo por Bob Ezrin, para que o álbum encaixasse em dois discos de vinil, sem deixar de fazer sentido na linha narrativa. O baixo fretless é tocado por David Gilmour. O tema foi excluído do filme. Ao vivo, era tocado no fim do intervalo, sem pré-aviso e com a banda oculta pela parede.

Durante o intervalo, David Gilmour comia sushi ou jogava com um Cubo de Rubik, com aparente indiferença, perante o espanto de quem visitava o backstage.

pink floyd the wall (5)Is There Anybody Out There?: ‘Pink’ compreende os apuros em que se encontra. David Gilmour admitiu que não conseguia tocar a parte de guitarra clássica com os dedos, sem usar palheta, pelo que trouxe um músico para a interpretar. O guitarrista alega que Bob Ezrin devia ter recebido crédito pela coautoria do tema. O diálogo ouvido foi retirado da série de TV americana Gunsmoke, de um episódio chamado «Fandango».

Nobody Home: No seu quarto de hotel, «Pink’ reflete sobre a situação. A frase, “elastic bands keeping my shoes on” é uma referência direta a Syd Barrett, durante as últimas semanas em que integrou os Floyd. Outra frase, “grand piano to prop up my mortal remains” é, alegadamente, uma piada sobre Richard Wright. Ao vivo, Waters cantava o tema numa abertura da parede, um quarto de hotel com TV incluída. Roger chegava a mudar de canal, o que era captado pelo P.A.

Vera: ‘Pink’ recorda o final da Guerra e sente-se traído por o seu pai não ter regressado, embora Vera Lynn tivesse prometido, “we will meet again, some sunny day”.

Bring the Boys Back Home: O pai de Jeff Porcaro (Joe) toca tarola. O tema foi regravado com o Pontarddulais Male Voice Choir para o filme e usado como lado B do single «When the Tigers Broke Free».

Comfortably Numb: O manager de ‘Pink’, interpretado por Bob Hoskins no filme, chega para levar ‘Pink’ para o concerto, mas este não está em condições de atuar. O manager arranja um médico que lhe injeta uma substância, o que deriva de um episódio real, em que Waters foi convencido a entrar em palco, apesar de sofrer os efeitos de fortes medicamentos para o que se revelaria ser hepatite. David Gilmour escreveu a música quando terminava o seu álbum a solo de 1978. A versão ouvida no disco é uma amálgama de dois takes. David Gilmour alcunhou o seu solo de “Come On Big Bum”.

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The Show Must Go On: Waters pretendia que o tema soasse a Beach Boys e combinou que eles participassem. Contudo, a banda americana achou que a temática do álbum não se enquadrava na sua imagem (fabricada) de rapazes saudáveis e simples e recusou. A letra é expandida na versão ao vivo, mais um exemplo dos cortes de Bob Ezrin. Não surge no filme.

In the Flesh: ‘Pink’ consegue ir ao concerto, mas julga-se um líder fascista num comício. O ponto de interrogação desapareceu. O órgão Hammond é tocado por Freddie Mandel e, no filme, o tema é novamente cantado por Bob Geldof. A diatribe xenófoba e homofóbica em que consiste a letra deste tema e dos seguintes, embora ficcional, foi adotada por membros da extrema-direita. Em 1987, grafitis racistas em Londres faziam-se acompanhar pelo logotipo dos martelos cruzados. Nas filmagens, Alan Parker perdeu o controlo dos figurantes, que levaram as cenas de destruição e pilhagem para além do grito, “corta!”

pink floyd the wall (10)Run Like Hell: Um ritmo militar de 2/4 e a guitarra em stacatto de Gilmour acompanham uma letra ameaçadora. Nos espetáculos, marcava a reaparição do porco voador. Waters apresentava o tema como «Run Like Fuck» e dedicava-o a todos os “paranoicos no público”.

Waiting for the Worms: Enquanto os fascistas invadem as ruas, ‘Pink’, de megafone, ou Roger, no estúdio, descreve o trajeto por áreas multirraciais de Londres, até Hyde Park. Para Waters, os “vermes” do tema simbolizam a decadência moral e mental.

Stop: ‘Pink’ questiona-se finalmente sobre aquilo em que se tornou.

The Trial: Para se salvar, ‘Pink’ submete-se a um julgamento, onde é acusador, juiz e júri em simultâneo. O seu castigo e única salvação é deitar abaixo a parede e retomar o contacto com a sociedade.

As defesas sobrecarregadas do demagogo do rock entram em colapso e a parede é derrubada, mostrando-o como um ser humano exposto e vulnerável, apesar de tudo. No filme, a queda dos tijolos é acompanhada por um grito de dor, que enfatiza a dificuldade psicológica desta simbólica demolição.

O tema foi escrito por Roger em parceria com Ezrin, ao estilo de uma opereta de Gilbert e Sullivan.

Outside the Wall: Segundo Waters, “o tema final equivale a dizer, ‘acabou, era isto. Já viram. É o melhor que podemos fazer, a sério. E aquilo não éramos nós. Nós somos estas pessoas. Interpretámos uma peça teatral sobre vários temas e, na verdade, gostamos de vocês”. Ao vivo, a interpretação do tema diferia de noite para noite, com Gilmour no bandolim e Nick Mason na guitarra acústica.

Mason e Gilmour no final.
Mason e Gilmour no final.

A GUERRA ENTRE ROGER E DAVID

Em 1982, David Gilmour já declarava publicamente a sua aversão a algumas partes de The Wall: “O conceito foi muito forte, mas irrelevante para mim. Não sinto a pressão de uma ‘parede’ entre mim e o público; nunca acho que há algo que ele não compreenda. Algumas coisas que me aconteceram na infância e juventude não foram nada agradáveis, mas não julgo que tenham afetado a minha vida do mesmo modo que Roger acha que afetaram a dele.”

Sobre a relação hostil entre Gilmour e Waters, Bob Ezrin comentou:

“Debaixo da postura britânica, de esquerda, que eles assumem, com voz suave e sorrisos nos rostos, a guerra entre aqueles dois tipos era inacreditável.”

"A guerra entre aqueles dois tipos era inacreditável."
“A guerra entre aqueles dois tipos era inacreditável.”

Nick Griffiths afirma que “algumas coisas boas derivaram desse atrito. Roger é um indivíduo competitivo e gosta de uma boa discussão. Pode ser muito difícil trabalhar com ele, mas tem integridade, não renuncia àquilo em que acredita”.

“Os ressentimentos eram originados pela personalidade de Dave Gilmour, um tipo extremamente terra-a-terra, mas que também sabe o que lhe agrada ou não. Tornou-se muito difícil para ambos estarem no estúdio em simultâneo, já que passavam o tempo todo a discutir. David adotou uma atitude inteligente. Só passava tempo com Roger quando tinham mesmo de trabalhar juntos. A nível social, os seus caminhos não se cruzavam. Aliás, nem as esposas deles tinham algo em comum”, acrescenta Griffiths.

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Não era raro que Roger gravasse vocais num estúdio, enquanto, mesmo ao lado, David gravasse a guitarra, o que também era mais prático, perante a carga de trabalho que a banda enfrentava.

Nomeado para o papel fulcral de “diretor musical”, David Gilmour ensaiava os músicos e, no palco, passava o tempo todo a encaminhar roadies e instruir auxiliares de palco, “a empurrar uns para aqui e outros para acolá, a parar imóvel no momento certo, a ouvir instruções por auscultadores… era tão coreografado que se tornava mecânico”, diz o guitarrista. Além disso, tinha de tocar e cantar, pelo que confessou que só respirava fundo quando interpretava «Comfortably Numb», depois de subir num elevador hidráulico até ao cimo da parede, com quatro focos de luz a aquecerem-lhe as costas e a sua sombra projetada sobre o público.

ÚLTIMOS TIJOLOS

Grande parte do público achou The Wall difícil de ouvir por ser deprimente, constrangedor e cheio de autocomiseração, e um crítico acusou Waters de se engasgar com tanta verborreia. Mas, nos EUA, o álbum duplo venderia mais de 11 milhões de cópias, sendo o terceiro álbum mais vendido de sempre nos EUA, galardoado com 23 discos de platina. Ao todo, os Floyd venderam entre 175 a 200 milhões de cópias dos seus discos em todo o mundo. 

No início do espetáculo de estreia, o fogo-de-artifício incendiou as cortinas do palco e Waters interrompeu o concerto até à chegada dos bombeiros. Fotógrafos profissionais eram impedidos de trabalhar, chegava a ser rotineiro que lhes confiscassem os rolos.

O realizador Alan Parker com Bob Geldof.
O realizador Alan Parker com Bob Geldof.

The Wall foi apenas tocado ao vivo 31 vezes em quatro cidades: Nova Iorque e Los Angeles em fevereiro de 1980, Londres em agosto, e Dortmund em fevereiro de 1981. Foi o próprio Alan Parker a abordar a EMI sobre a possibilidade de realizar o filme, depois de ter ficado espantado com os espetáculos da banda. Seguiram-se mais concertos na capital inglesa, para que o realizador pudesse filmá-los e inclui-los na longa-metragem. “Cinco tentativas, todas fracassadas”, afirmou Alan. A ideia inicial era misturar excertos do grupo ao vivo com as animações de Scarfe, mas Parker achou que não resultaria.

Waters pretendia protagonizar o filme, mas os seus testes de câmara provaram que não era ator. Ao assistir a alguns vídeos dos Boomtown Rats, Alan Parker gostou da “imprevisibilidade física e da sensação de perigo” projetadas pela atuação de Bob Geldof e sugeriu-o para o papel de ‘Pink’. Geldof, que detestava os Pink Floyd, afirmou, anos depois, que “eles nasceram para a Era multimédia e estavam adiantados no tempo”.

Waters atento às filmagens, que decorreram sob bastante pressão.
Waters atento às filmagens, que decorreram sob bastante pressão.

De acordo com Bob Geldof, “o ambiente nas filmagens parecia um campo de minas, cheio de egos prestes a explodir”. Ignorando as discussões intermináveis entre o produtor e o realizador, Waters e Scarfe, o cantor confiou em Alan Parker: “Pelo que percebi, ele sabia o que estava a fazer.”

Geldof identificou-se tanto com o papel que, na cena em que destrói o quarto de hotel, cortou uma das mãos num vidro, mas, a sangrar realmente e para espanto da equipa, recusou tratamento até que Parker desse a cena por finalizada:

Em 2000, Nick Mason sublinhou que “os Pink Floyd sempre se interessaram mais pela apresentação teatral do que pela promoção, enquanto personalidades em palco, dos seus elementos. Esta subordinação da banda às imagens relacionadas com a música sempre incorporou o nosso trabalho, e a performance de The Wall foi o ápice desse desenvolvimento”.

The Wall sobreviveu e permanecerá como uma metáfora psicológica complexa: As defesas de uma personalidade criam uma muralha face ao exterior. Na Era da Internet e da comunicação global, assume novos significados, já que temos ao alcance todo o tipo de ferramentas que, paradoxalmente, nos podem isolar cada vez mais uns dos outros, colocando em segundo plano o contacto humano. Mal usadas, não serão, “apesar de tudo, mais tijolos na parede”?

David Furtado

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