Marilyn Monroe, 50 anos após a sua morte: Quatro facetas de Norma Jeane

No dia em que se assinalam os 50 anos da morte da atriz, em vez de relatar a sua vida, homenageio-a de quatro modos: Recorrendo às memórias do seu amigo Marlon Brando, descrevendo a relação que Marilyn teve com o seu ator favorito, Montgomery Clift; cito o testemunho do realizador Samuel Fuller, com quem a atriz quis colaborar duas vezes e, por fim, refiro a origem da imagem icónica de Andy Warhol. Marlon Brando sempre achou que a amiga foi assassinada.

love happy 1948

Os pormenores que rodearam a morte da atriz nunca foram esclarecidos. Ao longo destes 50 anos, surgiram diversas teorias da conspiração e boatos, e foram escritos mais de 100 livros sobre Marilyn Monroe, que variam entre o sério e o sensacionalista. Tal como Andy Warhol previa, a atriz tornou-se num produto de consumo. Contrariando essa tendência, acho mais importante recordar a mulher e não o mito. Norma Jeane Mortenson como foi registada à nascença, ou Norma Jeane Baker, como foi batizada.

Depois das filmagens de Um Elétrico Chamado Desejo, em 1951, Marlon Brando regressou a Nova Iorque. De vez em quando, passava pelo Actors Studio para conhecer raparigas. “Uma delas foi Marilyn Monroe, que estava a ser explorada por Lee Strasberg”, comenta o ator. “Eu conhecera-a, num encontro que durou breves instantes, depois da guerra, e dei de caras com ela, literalmente, numa festa em Nova Iorque.”

Quatro facetas de Marilyn Monroe. Há mais na vida real. Foto de Como Se Conquista Um Milionário (1953).
Quatro facetas de Marilyn Monroe. Há mais na vida real. Foto de Como Se Conquista Um Milionário (1953).

Brando recorda que “enquanto as outras pessoas na festa bebiam e dançavam, ela estava sentada, sozinha, quase despercebida, a um canto, a tocar piano. Eu falava com alguém, de copo na mão, divertido, quando alguém me bateu no ombro. Virei-me rapidamente e dei-lhe uma forte cotovelada na cabeça. Foi mesmo em cheio e deve ter doído. ‘Oh, meu Deus’, disse eu, ‘desculpa. Peço imensa desculpa. Foi acidental’. Marilyn olhou-me frontalmente e disse, ‘nada é acidental’.”

“Ela pretendeu abordar aquilo com humor, e ri-me. Sentei-me a seu lado e disse-lhe, ‘deixa-me mostrar-te como se toca piano. Não tocas nada de jeito’. Dei o meu melhor durante alguns compassos; conversámos, e comecei a telefonar-lhe de vez em quando. Até que, um dia, lhe liguei e disse: ‘Quero ir a tua casa ver-te, agora, e se não me deres uma boa razão para que não o faça… talvez simplesmente não queiras que vá… diz-me já.’ Ela convidou-me, e não demorou muito até que o sonho de todos os soldados se tornasse realidade.”

marilyn brando

De amantes passaram a amigos, o que perdurou cerca de 10 anos, até à morte da atriz. O perspicaz Marlon recorda-a de uma maneira diferente da maioria das pessoas.

“Marilyn era uma pessoa sensível e incompreendida, muito mais inteligente do que geralmente se presumia. Fora magoada, mas possuía uma forte inteligência emocional, uma intuição rigorosa no que respeita aos sentimentos dos outros, o tipo mais refinado de inteligência.”

“Depois dessa primeira visita, tivemos um caso e encontrámo-nos intermitentemente até à morte dela, em 1962. Às vezes, ela ligava-me e conversávamos durante horas; por vezes, sobre o modo como ela se ia apercebendo que Strasberg e outros a tentavam usar. Emocionalmente, estava a tornar-se numa pessoa muito mais saudável.”

lutando contra a gravidade 1952Marlon Brando falou com Marilyn, “dois ou três dias antes da sua morte”. “Ela telefonou-me de sua casa, em Los Angeles, e convidou-me para ir lá jantar com ela. Disse-lhe que já tinha planos para essa noite e não podia, mas prometi-lhe que lhe ligaria na semana seguinte para marcarmos um jantar. Ela disse, ‘ótimo’ e foi só isso. Especulou-se que ela tivera um encontro secreto com Robert Kennedy nessa semana, e se sentia perturbada por ele querer terminar o caso entre ambos. Mas não me pareceu deprimida, e não acho que, se andasse a dormir com ele, nessa época, me convidaria para jantar em sua casa.”

“Sou bastante bom a sondar as disposições das pessoas e a aperceber-me dos seus sentimentos”, afirma Brando. “E, com Marilyn, não notei qualquer depressão ou pista de uma iminente autodestruição durante a chamada dela. É por isso que tenho a certeza de que não se suicidou. Se alguém está deprimido a um nível terminal, não importa a sua inteligência ou a perícia com que o tenta ocultar, descai-se sempre. Ao longo da vida, tive uma curiosidade insaciável por pessoas, e acredito que teria pressentido alguma coisa de errado, se pensamentos de suicídio andassem algures, perto da superfície da mente de Marilyn. Eu sabê-lo-ia. Talvez tenha morrido de uma overdose acidental de drogas, mas sempre acreditei que foi assassinada.”

“UMA PESSOA MARAVILHOSA”

Em 1953, Samuel Fuller fazia audições para o papel de ‘Candy’ em Pickup on South Street (Mãos Perigosas). Ainda não encontrara a atriz certa. Um dia, estava no seu escritório na Fox, ensaiando com dois atores e o diretor de casting. “Uma miúda bonita apareceu à porta, com um lenço sobre o cabelo, de óculos escuros, um camisolão e sem maquilhagem. Durante uma fração de segundo, não a conseguimos reconhecer.”

“Posso só sentar-me aqui e ver-te trabalhar, Sammy?”, perguntou Marilyn Monroe, com a sua voz sensual. “Fico calada e não me intrometo.”

Fuller fez-lhe sinal para que entrasse com um aceno. “Eu cruzara-me com Monroe nos estúdios, e tínhamos uma relação de camaradagem”, recorda o realizador. “Quem poderia esquecer aqueles olhos brilhantes e aquela pele radiosa? Monroe sentou-se a um canto a ver-nos ensaiar, sem dizer uma palavra. Depois de terminarmos, Marilyn perguntou-me se podia ler para o papel de ‘Candy’. Dei-lhe uma cópia do guião e mostrei-lhe a cena que queria que ela interpretasse. Havia algo de infantil nela, que queríamos proteger, uma inocência sincera e imaculada”, comenta o cineasta.

the seven year itch pausa

“Depois de ela ler durante algum tempo, percebi que não era nada do que eu tinha idealizado para o papel. Marilyn não falava, ronronava. Disse-lhe com franqueza que, se ela caminhasse pela minha linha costeira decrépita, a sua enorme sensualidade ofuscaria a minha história. Ela ficou muito desiludida. Pus-lhe a mão sobre os ombros e disse que procuraríamos outro filme para fazermos juntos.”

Marilyn voltaria a abordar Samuel Fuller, três anos depois, em 1957, quando o realizador trabalhava no seu escritório, já tarde. Preparava-se para começar a produção de mais um dos seus clássicos, Forty Guns (Quarenta Cavaleiros). “Marilyn apareceu para dizer olá. Vestia um dos seus camisolões de lã e trazia um gordo romance de Dostoiévski. Soubera que Barbara Stanwyck interpretaria a minha heroína. Monroe perguntou-me por que não a deixara ler para o papel. Respondi-lhe que seria uma comédia se ela fizesse o papel. ‘Mas porquê?’ perguntou-me.”

“Resumi a minha história, indo direto ao assunto. Os meus ‘forty guns’ eram ‘quarenta falos’. A minha poderosa heroína tinha ido para a cama com todos, para depois os pôr de lado quando surge o 41º ‘pistoleiro’. A frescura de Monroe não seria credível, a sua inocência estaria desajustada e tornar-se-ia, por fim, apenas humorística. Marilyn ouviu e assentiu com a cabeça, pensativa. Não havia nada de falso nela. Disse-lhe que adoraria trabalhar com ela, e prometi-lhe que continuaria à procura de um papel para ela.”

Cantou para mais de 100 mil soldados na Coreia: "Foi a melhor coisa que jamais me aconteceu... nunca me sentira uma estrela no coração."
Cantou para mais de 100 mil soldados na Coreia: “Foi a melhor coisa que jamais me aconteceu… nunca me sentira uma estrela no coração.”

“Monroe era uma pessoa maravilhosa”, descreve Fuller. “Sempre tive estima por ela por ter sido graciosa, ao ponto de aceitar sair com o meu irmão, Ving, sem o conhecer. No início dos anos 50, Ving veio da Costa Leste visitar-me, e pediu-me que lhe arranjasse alguém com quem sair à noite. Marilyn aceitou o meu pedido com todo o gosto. Quando Marilyn Monroe apareceu, Ving ficou de boca aberta. Eles divertiram-se, jantaram e dançaram em qualquer sítio elegante. O meu irmão tratou-a com respeito. Ela passou um serão agradável com um tipo normal, sem falar uma única vez do show business. Ela disse-me que se sentia feliz quando podia ser apenas uma miúda normal.”

Monroe a ler Ulisses de James Joyce (1952).
Monroe a ler Ulisses de James Joyce (1952).

Outra impressão é a de Natalie Wood, que foi a uma festa com Warren Beatty, no início de agosto, em Malibu. Uma das convidadas era Marilyn, que, dois meses antes, completara 36 anos. Wood recordaria que Marilyn murmurou para consigo a noite inteira, “36, 36, 36… acabou tudo”. A morte de Monroe, dias depois, chocou Natalie Wood, que não queria “acabar como Marilyn, sozinha, morta com excesso de comprimidos”, uma estrela cadente com livros de recortes e memórias.

Ironicamente, 19 anos depois, no funeral de Natalie Wood, em novembro de 1981, no Westwood Memorial Park, o caixão branco e dourado de Natalie estava coberto por 450 gardénias brancas. A poucos metros, encontrava-se a cripta onde estava sepultada Marilyn Monroe, com apenas uma rosa vermelha, deixada por Joe DiMaggio.

“GÉMEOS PSÍQUICOS”

Em 1960, Marilyn teve a oportunidade de contracenar com o ator que mais admirava, Montgomery Clift, em The Misfits (Os Inadaptados). Durante um jantar em casa do argumentista do filme, Arthur Miller, e de Marilyn (eram casados na altura), Clift comportou-se de um modo frenético, cambaleando e dizendo coisas sem nexo, o que provocou o seguinte comentário da atriz: “É a única pessoa que conheço que está em pior estado do que eu.”

Com Montgomery Clift no set de Os Inadaptados.
Com Montgomery Clift no set de Os Inadaptados.

John Huston filmou em Reno, no Nevada, e nas imediações. A localização foi visitada por muitos jornalistas, devido ao rumor de que Monroe se separara de Miller. A equipa – excetuando a atriz – estava apreensiva devido a Monty Clift e à sua reputação de bebedor e consumidor de diversas substâncias. A própria Marilyn encontrava-se, por esta altura, tão viciada em comprimidos, que mal conseguia funcionar. Quando conseguia trabalhar, discutia com Huston, Miller e Eli Wallach, provocando inúmeros atrasos.

O seu casamento com o dramaturgo estava realmente terminado, embora tentassem manter as aparências. Não foi o que sucedeu num dia, em que a atriz fechou a porta da sua limousine na cara dele, diante de toda a equipa. Quando Marilyn surgia no set, parecia sonâmbula – sofria de insónia aguda e tomava quatro Nembutal por noite, abrindo as cápsulas e lambendo o conteúdo da palma da mão. Mas nem assim conseguia dormir. Uma pessoa que compreendeu Marilyn foi Monty Clift, que sofria do mesmo problema e até mandara vir a sua cama de Nova Iorque. Ainda assim, ficava acordado até ao amanhecer.

Em 1956, a rainha do cinema conhece a rainha de... um país. Em Inglaterra.
Em 1956, a rainha do cinema conhece a rainha de… um país. Em Inglaterra.

O produtor Frank Taylor afirma que “Monty e Marilyn eram gémeos psíquicos. Estavam no mesmo ‘comprimento de onda’. Reconheciam o desastre no rosto um do outro, e riam-se disso.” Quando filmaram a sua cena mais extensa juntos – uma sequência romântica de cinco minutos, à saída de um saloon em Dayton –, o trabalho arrastou-se durante o dia inteiro. Brincavam como crianças, esqueciam-se das falas e, entre os takes, abraçavam-se e trocavam impressões sobre modos de superar a insónia.

Os problemas emocionais de Marilyn obrigaram a que a produção fosse interrompida três vezes. A rodagem terminaria 40 dias depois do previsto, com o orçamento ultrapassado em meio milhão de dólares. É uma das obras-primas de John Huston, mas tristemente o seu trio de protagonistas não viveria muito mais tempo.

Monroe sentindo-se cada mais negligenciada na rodagem de Misfits.
Monroe sentindo-se cada mais negligenciada na rodagem de Misfits.

Em novembro de 1960, Clark Gable faleceu. Em 1962, Marilyn foi encontrada morta em sua casa, despida e deitada de barriga para baixo.

Quando soube da morte de Monroe, Clift comentou: “Ela dava tanto como atriz; trabalhar com ela foi como subir e descer escadas rolantes sem parar. Não, Hollywood não a matou… ela tinha vários problemas profundos.”

Monty achava que, depois dos colegas, seria a vez dele. Montgomery Clift faleceu em 1966.

sozinha e pensativa na rodagem de misfits 1960

O ÍCONE DE WARHOL

Aquando da morte de Marilyn, circularam diversos rumores, e a primeira causa da morte foi adiantada como sendo suicídio. Andy Warhol teve uma das suas “premonições”, originando uma das imagens mais icónicas de sempre. Poucos dias depois da morte de Monroe, o artista escolheu uma imagem e começou a trabalhar num quadro, ao qual se seguiria uma série ilimitada de retratos semelhantes – serigrafias com pintura acrílica sobre tela ou serigrafias sobre papel. Retratou-a como uma deusa da sensualidade e do erotismo. Contudo, Warhol não tinha apenas isto em mente.

marilyn warhol

O artista achou que a vida e a personalidade da atriz seriam alvo de uma comercialização repugnante, na qual participariam até escritores conhecidos, com o mero intuito do lucro. “Deste modo, ergueu-lhe um monumento, fixando para sempre os seus traços numa imagem que se tornaria uma espécie de lei. A imagem não reflete a realidade, tratando-se de uma representação imaginária, na qual, de certo modo, a realidade é transcendida”, afirma o autor Klaus Honnef.

Ainda segundo Honnef, “os retratos de Monroe feitos por Warhol não focam nenhum aspeto do destino pessoal da atriz, perseguida por voyeurs até aos recantos mais secretos. A máscara é também uma proteção. O tema de Warhol é a imagem que se fez de Marilyn Monroe e nada mais que esta imagem”.

Para o crítico Werner Spies, “o que empurrou Marilyn Monroe para a morte foi precisamente este beijo dirigido a todo o mundo que Warhol imortalizou, a sua obrigação de permanecer sempre uma imutável marca registada”.

com arthur miller acenando aos fotógrafos

Quanto ao seu trabalho, Andy Warhol disse ambiguamente: “Para mim, Marilyn é apenas uma pessoa entre muitas outras. E, quanto à questão de saber se é um ato simbólico pintá-la em cores tão vivas, posso apenas dizer isto: Foi a beleza que me interessou, e ela é bela; e se há alguma coisa que seja bela são as cores bonitas. É tudo. A história é esta, ou parecida.”

A verdadeira história? Talvez nunca a saibamos.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. José Souza diz:

    David Furtado, já se passaram 50 anos que ela se foi e, mesmo assim, continua sendo um ícone constante em qualquer lista de estrelas de Hollywood.

    1. Sim, José Souza, e a imagem dela ofuscou a pessoa que era. Um ícone com todo o mérito.

Comentários:

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