The Steel Helmet de Samuel Fuller: A realidade dilui-se na ficção

Considerado o primeiro filme sobre a guerra e, ainda hoje, um dos melhores, O Capacete de Aço foi uma obra rapidamente escrita e filmada. A inspiração foi a Guerra da Coreia, que se travava na época, bem como as experiências do próprio realizador durante a Segunda Guerra Mundial. O filme foi um sucesso, de tão realista, mas quem não gostou foi o FBI nem o Pentágono, que convocou o realizador para dar satisfações.

steel helmet fuller (2)

Samuel Fuller já conhecera o sucesso e o fracasso como realizador. Depois de I Shot Jesse James (1949), um western bem recebido pelo público e crítica, realizou The Baron of Arizona (1950), o qual, apesar da presença de Vincent Price, não foi um êxito. Em 1951, para seu terceiro filme, Fuller achou natural utilizar as suas memórias da infantaria e mostrar às pessoas que a guerra não era aquilo que aparecia nas primeiras páginas dos jornais. “Nunca víamos o sofrimento genuíno dos nossos soldados, ou dos inimigos, nos filmes. A confusão e a brutalidade da guerra, e não o heroísmo falso, precisavam de ser retratadas. As pessoas que entoavam o hino, ‘nós estamos certos, eles estão errados’ precisavam de ser expostas.”

A escrita do argumento foi rápida, como se se tratasse de um artigo de jornal – um trabalho em que Fuller também era experiente, tendo sido jornalista em Nova Iorque durante anos. Imaginou a história de um grupo de soldados na Coreia, para lá das linhas inimigas. São de raças diferentes e têm passados diferentes. Juntos, têm de assaltar um templo budista, que agora é um posto de observação do inimigo, integrados numa grande ofensiva. A primeira imagem que surge no ecrã é o capacete de um soldado com um buraco de bala.

steel helmet fuller (3)

“O capacete ergue-se lentamente, mostrando a expressão resoluta do ‘Sargento Zack’, de charuto na boca – um veterano da Segunda Guerra Mundial. O buraco da bala torna aquele capacete ‘sortudo’. Torna-se num símbolo essencial de sobrevivência durante todo o filme”, explica Sam Fuller.

Quando o realizador se encontrou com o produtor, disse-lhe que o final não seria o típico “The End”, mas sim, “Não há Fim para esta História”. “Foi o meu modo de dizer que, enquanto não acabarmos com a violência, isto era apenas mais um episódio numa sequência de horríveis relatos de guerra. Felizmente, [o produtor Robert] Lippert deu-me luz verde, já que, para ser feito como eu queria, The Steel Helmet teria de ser um filme independente.

Um dos grandes estúdios ouviu falar do projeto e ofereceu-se para o produzir, com John Wayne no papel de ‘Zack’. “Isso tiraria toda a realidade do filme”, afirma o realizador, que recusou a oferta. “Isto não era um filme de guerra gung-ho e cheio de valentias. Eu estava determinado em que parecesse real, queria os meus soldados humanos e cheios de falhas. A guerra traz ao de cima o melhor e o pior de nós. Com Wayne, eu acabaria com um relato moralista e simplório.”

steel helmet fuller (5)

AQUI NÃO SÃO ADMITIDOS PRODUTORES

Havia que acelerar: O orçamento era baixo e a produção só dispunha de 10 dias para filmar, mas Fuller obteria uma maior percentagem dos lucros. Os ensaios com os atores começaram, mas ainda faltava quem interpretasse o ‘Sargento Zack’. Poucos dias antes do início da rodagem, Samuel Fuller estava no escritório dos produtores quando um agente entrou, acompanhado por um ator de nome Gene Evans. “Evans era um sujeito alto, de ombros largos, que nunca desempenhara um papel principal. Gostei imediatamente daquele tipo corpulento que falava devagar”, recorda Fuller.

– Estiveste na guerra? – perguntou o realizador.
– Sim, Mr. Fuller – disse Gene. – Três anos e meio.
– Infantaria?
– Engenheiros do exército.
– Que pena.
– Bom – disse ele, sorrindo com modéstia –, limpámos muita coisa para a infantaria.

Fuller tinha uma espingarda M1 na secretária. “Sem aviso, atirei-a na direção do peito de Gene. Ele agarrou-a no ar.”

– Destrava-a – disse Fuller.

Sem pensar, as mãos de Gene moveram-se sem esforço sobre a patilha de segurança.

– Segue-me – disse Fuller a Evans. Subiram ao andar de cima para que fosse apresentado ao produtor.
– Encontrei o meu ‘Zack’ – disse o realizador a Lippert.

Mais tarde, o produtor disse a Fuller:

– Sammy, este tipo é desconhecido.
– Pois é, mas eu quero-o. É exatamente o que procuro.

Gene reapareceu no escritório de Fuller, duas horas depois.

– Mr. Fuller – disse ele –, o ‘Sargento Zack’ só tem quatro ou cinco páginas de diálogos num guião com 90 páginas, mas entra na maioria das cenas. Tem de haver mais para dizer, não?
– Não, meu velho – respondeu o realizador –, ao resto chama-se representar.
– Bem, não gosto lá muito de algumas frases…
– Ouve, Gene – interrompeu o realizador –, eu escrevo as palavras, tu chegas lá e falas. Tudo correrá bem se compreenderes isso. Começamos daqui a três dias.

O produtor associado tentou boicotar a escolha de Gene Evans para protagonista, escolhendo um ator mais conhecido. Já no set, o realizador perguntou ao desiludido Evans o que se passara. Ao saber, disse, furioso: “Fica aqui! Tu és o ‘Zack’ ou então não há nenhum maldito filme!” O realizador, acompanhado pelo ator, pegou no carro e dirigiu-se ao hotel barato onde Evans se hospedara. Este recolheu as suas posses e instalou-se em casa de Fuller. Na manhã seguinte, estavam de regresso ao set.

O realizador escreveu e pendurou um enorme letreiro à porta do local de filmagens: “Não são admitidos produtores associados, coprodutores, produtores executivos ou quaisquer produtores nestas instalações.”

“SHORT ROUND”

A rodagem começou. No início de The Steel Helmet, a vida de ‘Zack’ é salva por um miúdo, um órfão coreano, ‘Short Round’, que se torna num devoto seguidor do Sargento durante o filme. Há aqui um paralelismo evidente com Indiana Jones e o Templo Perdido, uma vez que o miúdo asiático tem um nome exatamente igual e também ajuda o protagonista. Desde logo, é estabelecida a relação entre ambos, através de um diálogo notável escrito por Fuller:

Sargento: Pára de me seguir.
Short Round: Cachi Cachida. Significa que temos de viajar juntos.
Sargento: Vai cachi cachi sozinho.
Short Round: Mas o seu coração está nas minhas mãos.
Sargento: O meu quê está onde?
Short Round: Buda diz que, quando salvamos um amigo, o coração dele está nas nossas mãos.
Sargento: Olha, já fizeste a tua boa ação do dia. Agora, pira-te! Não gosto de miúdos à minha volta.
Short Round: Mas eu ser bom batedor.
Sargento: Não preciso de um.

William Chun ('Short Round').
William Chun (‘Short Round’).

A escolha do pequeno William Chun para o papel foi excelente. ‘Zack’ acaba por deixar que o miúdo o siga. Encontram mais soldados americanos e capturam o templo budista. É então que se segue um diálogo entre um prisioneiro de guerra coreano e o ‘Cabo Thompson’, um negro, o que provocou polémica.

Prisioneiro: Não o compreendo. Não pode comer com eles, a não ser que haja uma guerra, não é?
Cabo (enquanto faz um curativo no braço do prisioneiro): É verdade.
Prisioneiro: Paga um bilhete, mas tem de se sentar no fundo de um autocarro público, não é?
Cabo: É verdade! Há 100 anos, nem sequer podia andar de autocarro. Pelo menos, agora posso sentar-me lá atrás. Talvez daqui a 50 anos me sente no meio. Um dia, talvez à frente. Há coisas que não se podem apressar, meu sacana.
Prisioneiro: Você é um homem estúpido.
Cabo: Você é que é o estúpido. Veja se ganha juízo, palerma.

Ao confrontar o racismo na América, Fuller quis expor o sofrimento de outras minorias. Ao mostrar o combate do ponto de vista de um soldado na frente, o realizador evitou a posição confortável de um general examinando um mapa. E, quando filma ‘Zack’ a abater o prisioneiro de guerra a sangue-frio, Sam Fuller acabou por ter problemas com o Pentágono. No clímax do filme, o ‘Sargento Zack’ surge, desorientado, numa névoa de fumo e confusão, sem conseguir falar sequer. Esta cena foi copiada por Martin Scorsese (e é o próprio que o admite), num dos combates de Jake LaMotta em O Touro Enraivecido. Aliás, Scorsese é um enorme admirador de The Steel Helmet, destacando-o entre todos os filmes de guerra que se seguiriam.

steel helmet fuller

UM REALIZADOR NO PENTÁGONO

Quando estreou, o filme causou grande polémica. A Guerra da Coreia ainda se travava. Um jornalista chamou a Fuller pró-comunista e anti-americano. Outro escreveu que o realizador era “financiado secretamente pelos comunas e devia ser investigado pelo Pentágono”. A mãe de Sam Fuller telefonou-lhe, congratulando-o pelo sucesso do filme. “Olá, camarada!”, disse com ironia.

Era surrealista que Fuller, com o registo militar que possuía, fosse investigado pelo FBI e J. Edgar Hoover, mas foi o que sucedeu. Chamaram-lhe também reacionário, e a conservadora colunista Hedda Hopper disse que The Steel Helmet era anticomunista. O realizador não queria saber se a esquerda e a direita atacavam o seu filme:

“Era suposto que o nosso país fosse fundado na liberdade de expressão. O meu objetivo era mostrar a insanidade organizada da guerra. Tocou nalgumas feridas, não era o que eu queria, mas, que diabo, era um país livre, não?”

Samuel Fuller é então chamado ao Pentágono, em Washington, para ser interrogado perante 20 oficiais. Tinham acabado de assistir ao filme num ecrã, na sala, quando o realizador entrou.

– O seu filme parece uma doutrinação comunista, Fuller – disse um general.
– Deve estar a brincar! – respondeu o realizador.
– De todo – disse outro general. – Este médico negro… ‘Thompson’, é esse o nome?
– Sim, ‘Thompson’.
– Por que lhe chamou ‘Thompson’? – perguntou outro general.
– Não sei. Sempre gostei do nome por causa do meu amigo Turkey Thompson, o pugilista, peso-pesado. É um nome forte para um personagem.
– Soou-lhe bem para o personagem? – disse outro general. – Thompson – explicou o coronel – é o nome de código para os trabalhadores comunistas clandestinos nos EUA.

Fuller ficou estupefacto. Nada sabia sobre a matéria.

– É pura coincidência – respondeu apenas.
– Pura coincidência, Fuller? – perguntou outro oficial.
– Conhecem o Turkey Thompson? – Todos acenaram com a cabeça, visto que o pugilista era bastante conhecido, na época. – Então liguem para minha casa. Turkey está lá a cuidar do sítio, na minha ausência. Perguntem-lhe sobre isso.

O coronel mudou de assunto.

– Mostra o esquadrão a esconder-se num templo budista, Fuller. Eu estive na Coreia. Não há lá templos budistas.

Fuller tirou um mapa da sua pasta; fora-lhe dado pelo consulado coreano enquanto escrevia o argumento.

– Vejam! – disse, apontando para o mapa. – Esta é a localização de um templo budista ancestral.
– Fuller, o que mais nos preocupa é o facto de ter mostrado um soldado americano a assassinar um prisioneiro de guerra. Por que o fez?
– Porque acontece! Eu combati na guerra. Essas coisas sucedem, e os senhores bem o sabem!

Samuel Fuller pediu então para fazer um telefonema. Trouxeram-lhe um telefone, e ligou ao Coronel Taylor, o seu antigo comandante de companhia, que agora era General Brigadeiro.

– Algum prisioneiro de guerra alguma vez foi abatido? – perguntou-lhe.
– Claro que sim – disse o General Taylor. Fuller agradeceu-lhe e desligou.

“Todos conhecíamos as regras da Convenção de Genebra, mas a guerra é irracional. Um tipo que nos tentou matar, agita os braços no ar e diz que é prisioneiro. Às vezes, isso não pega, porque ele acabou de matar o nosso amigo. Matamo-lo. É vergonhoso. É contra a Convenção. Mas acontece, raios. Eu só o mostrei com a câmara.”

– Já respondi a todas as vossas malditas perguntas! – declarou Fuller, erguendo-se. – Se têm mais alguma, tratem-me por Mister Fuller! Agora, sou um civil. E muito feliz por isso!

“Os soldados tinham sido treinados para combater fascistas durante a guerra. Agora, os ventos intolerantes de McCarthy varriam a América democrática, espalhando as sementes de outro tipo de fascismo. A única forma de lutar contra essa gente, nos EUA, era expondo as suas ideias estúpidas e irracionais. Senti-me orgulhoso por ter esburacado o seu fundamentalismo de merda”, comentou Fuller.

steel helmet fuller (1)

Em 1996, ao participarem num documentário sobre Samuel Fuller, Tim Robbins e Quentin Tarantino visitaram a garagem/escritório onde o realizador trabalhara, em Los Angeles. Na época, Fuller vivia em Paris, mas deu-lhes as chaves. Tim diz a Quentin, pegando num objeto, “isto parece-te familiar?” “Meu Deus!”, exclama Tarantino. “É o capacete… o capacete de aço!”

The Steel Helmet tornou-se num enorme êxito de bilheteira. Esta “pedra atirada à intolerância e à mesquinhez de espírito”, como definiu Sam Fuller, é hoje, passados 60 anos, uma obra que merece ser apreciada, já que, infelizmente, o seu conteúdo permanece atual.

Esta História não tem Fim.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s