Helen Mirren aos 67 anos: A vida e a carreira de uma atriz

hellen mirren (20)Hoje, dispensa apresentações, mas nem sempre foi assim. A grande notoriedade do Óscar consagrou Helen Mirren por uma vida dedicada aos palcos e ao grande ecrã. Atrevida, sexy, talentosa e dedicada, continua a sentir-se em casa quando rodeada de atores, partilhando com eles o processo criativo. “Os prémios são divertidos, uma viagem surreal e agradável, são irrelevantes, são injustos, são tontos. São um importante instrumento de marketing, são uma honra, são tudo isso. Mas é muito mais divertido trabalhar.” Tal como Mirren disse, numa ocasião especial, “ladies and gentlemen, I give you the Queen!”

O camarim torna-se no nosso território, durante uma peça. Vivemos exultação e desespero naquela sala, o coração acelera, as mãos suam; nunca o queremos abandonar, mas receamos entrar lá. Torna-se uma parte intrínseca da nossa existência, mais familiar do que a nossa casa. Quando o abandonamos, é uma cápsula vazia, perde o significado. Aguarda o ator que se segue, o seu júbilo, as suas lágrimas, a sua maquilhagem, a sua angústia.

A expressão anglo-saxónica “I give you the Queen” significa “propor um brinde”, mas a história de Helen Mirren começou na Rússia. O seu avô, Pyotr Vassili Mironov, era descendente dos nobres Kamensky e membro leal do exército czarista, tendo combatido no conflito entre japoneses e russos de 1904. Com a revolução bolchevique, Pyotr é forçado a emigrar, em vez de herdar as propriedades da sua família em Kuryanovo. Tornou-se taxista em Londres, para sustentar a mulher e a família. O seu filho teve de terminar a educação cedo e começar a trabalhar. Vasiliy Petrovitch torna-se taxista como o pai e troca o apelido Mironov pelo (falsamente escocês) Mirren, mais aceite na sociedade londrina de 1939. Conhece então Kathleen Rogers, uma rapariga de West Ham, e casam. Em Chiswick, subúrbio de Londres, nasce, a 26 de julho de 1945, Ilyena Lydia Vasilievna Mironoff… que se tornaria uma das atrizes mais versáteis e respeitadas de sempre.

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O primeiro papel de Helen foi ‘Gretel’ em Hansel e Gretel, mas, na infância, tinha pavor à escola, descrevendo-a como um mundo de “bullying, traição, troça, lutas, e solidão generalizada”. Não gostava das festas de aniversário dos colegas.

“Nunca fui o tipo de miúda que gosta naturalmente de representar ou de atrair as atenções. Sentia-me desconfortável com facilidade, e representar, até nos tempos de escola, estava mais relacionado com ‘desaparecer’ do que com ‘olhem para mim’. Ainda hoje, a minha relação com o público é ambivalente. Continuo a sentir esse vago desconforto quando olham para mim e tenho de me abstrair dele por completo, para me deixar levar por um mundo imaginário, com o qual o público permite que eu me envolva.”

hellen mirren (3)Helen cresceu nos anos do pós-guerra, sob as limitações do racionamento, pelo que não havia dinheiro para luxos. Mas adorava os pais, o irmão, Peter, e a irmã, Kate. A atriz não consegue determinar donde veio a sua atração pela representação. Os pais levaram-na ao teatro, pela primeira vez, aos seis anos, experiência que adorou. Em Southend, no Essex, para onde a família se mudou, Helen frequentou um colégio de freiras, St. Bernard’s, e pensou em seguir a via eclesiástica, “seduzida pelo culto de Maria e pela serenidade da Ordem”. A fase religiosa terminou quando descobriu outros interesses e, é claro, os rapazes. “Sempre adorei os blues, desde que os ouvi. Nunca gostei de nenhum artista pop. Preferia Edith Piaf ou Big Bill Broonzy. Mas abri uma exceção quanto a Elvis. Gostava de tudo o que fosse francês, especialmente Brigitte Bardot.”

Aos 13, assistiu a uma produção amadora de Hamlet: “Certamente, era muito má, recordo-me de meias a cair, etc. Não acho que tenha ficado cativada com a poesia incrível da peça, a profundidade da filosofia ou a compreensão da psicologia humana. Achei, sim, que aquele mundo era muito mais empolgante do que o enfado que me rodeava. Ofélia a enlouquecer, Gertrudes a tomar veneno, Hamlet a falar com uma caveira e a matar Polónio acidentalmente, Hamlet a combater Laertes até à morte. A vida não era assim em Leigh-on-Sea, pelo menos, na minha rua…” Atraída pelo mundo de Shakespeare, leu as peças todas, sem perceber a maioria do conteúdo. “Mas havia fantásticas personagens femininas.”

No colégio, interpretou Caliban de A Tempestade, e a sua professora de inglês aconselhou-a a inscrever-se na National Youth Theatre. “Não sei se me teria tornado atriz se não fosse Mrs. Welding”, relata Helen Mirren, que fez uma audição e foi aceite.

SEM TALENTO PARA O ENSINO

O primeiro papel no teatro: Cleopatra.
O primeiro papel no teatro: Cleopatra.

Em várias cidades inglesas, começou a representar Shakespeare, encarnando Helena, de Sonho de uma Noite de Verão, ou Cleópatra. Ingressou na faculdade, para se tornar professora de elocução e drama. Era algo a que se poderia agarrar, caso o teatro não resultasse, mas depressa se tornou claro que não fora talhada para o ensino; as suas aulas de estágio eram um caos, e, além disso, um agente, Al Parker, assistira à sua representação em António e Cleópatra, oferecendo-se para auxiliar a sua carreira.

Por esta altura, era já óbvio o talento de Helen, bem como os seus atributos físicos. Tornar-se-ia conhecida por encarar a nudez sem contemplações, nos palcos, nos filmes e em sessões fotográficas. Mas a relação com o sexo oposto não começou bem:

“Em Londres, é claro, encontrei o sexo, ou melhor, ele encontrou-me. Não foi uma descoberta maravilhosa e não a procurava. Tornou-se na fonte de muito sofrimento, quando me deparei com as calúnias dos rapazes. Chegara lá com inocência, de corpo e mente, com noções deveras românticas que, de algum modo, conviviam com a veemência do meu feminismo. Revelou-se uma mistura letal. A minha natureza romântica desiludiu-se imenso, e o meu feminismo foi confrontado. Senti-me inútil, cheia de vergonha, tornei-me desconfiada, magoada e furiosa até encontrar alguém que realmente gostou de mim. Nos dias de hoje, ainda me sinto ‘pissed off’, para dizer a verdade.”

A pessoa que Mirren refere foi um colega, ator na National Youth Theatre. “Como todos os homens com quem tive um relacionamento digno do termo, transformou-me numa pessoa melhor do que eu era antes.”

Trabalhou como arrumadora em Hampstead, num cinema. Foi aí que assistiu a muitos clássicos, recordando, em especial, Citizen Kane, que reviu muitas vezes. Não era um meio que exercesse nela a mesma atração dos palcos. “No [teatro] Old Vic, vi Olivier e Joan Plowright, Maggie Smith, Frank Finlay. Nada se lhes comparava no grande ecrã, embora adorasse filmes estrangeiros, como os de Fellini, Antonioni, Renoir, Alain Resnais e todos os franceses. Eu queria ser atriz de teatro.”

O talento notório de Helen no papel de Cleópatra, durante o terceiro ano com a companhia, originou convites para audições cinematográficas, “algumas odiosas”, classifica Mirren. “Uma foi com Michael Winner [que trabalhou várias vezes com Charles Bronson]. Obteve o meu eterno desprezo e repugnância, ao dizer-me para me levantar e girar, como se fosse uma escrava no mercado. Foi humilhante, e ainda mais humilhante foi o facto de eu não ter tido tomates para lhe virar a escrivaninha ao contrário e mandá-lo foder. Nunca mais me submeti a tal coisa.”

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Convidada para integrar a prestigiada Royal Shakespeare Company, Mirren aceitou de imediato, o que provocou o orgulho dos pais. Já conhecia as agruras da vida de atriz – os baixos salários, os quartos sujos, sem água a sair das torneiras, os ensaios laboriosos. “Depois de uma atuação, os atores precisam de um espaço para descontrair. É física e mentalmente impossível ir para a cama, mal saímos do palco. Como toda a gente, os atores precisam de se queixar, de bisbilhotar e contar anedotas. O problema é que saem do trabalho às 11 da noite. O pub Dirty Duck prestou um extraordinário serviço a imensos atores, antes e depois de mim, durante muitos anos.”

Já não havia volta a dar; Helen Mirren ia ser atriz.

“Tive a experiência de ouvir a mesma linguagem, noite após noite, e o modo como Shakespeare funciona, encontrando novos significados de cada vez. Apenas ao ouvir a repetição de um discurso de grande beleza e complexidade, encontrei uma espécie de crença. O teatro tornou-se na minha religião e eu queria servi-la.”

Durante quatro anos, a companhia itinerante deu-lhe também a oportunidade de conhecer outros países. Viajou pelos EUA e também representou na Rússia, o que, devido à sua ascendência, foi especial, embora se vivesse o clima pós-Estalinista da Guerra Fria. O pai disse-lhe para não revelar as suas raízes russas sob circunstância alguma. “As pessoas pediam-me direções, por eu parecer russa, mas a realidade era sombria e infeliz. Gritavam-nos se atravessávamos a rua fora da passadeira, o riso era inaceitável e as lojas exibiam filas e filas de produtos idênticos.”

Um dos primeiros papéis no cinema, Herostratus (1967):

Os atores encorajavam-na, e Mirren aprendia com eles. Recorda Ian Richardson pela sua generosidade e por ter partilhado com ela muito do seu conhecimento. Em Stratford-upon-Avon, terra natal de Shakepeare, Mirren caminhava pelas margens do rio e sentava-se junto à estátua do dramaturgo, pedindo inspiração. Foi por esta altura que a convidaram para protagonizar o filme de Michael Powell, Age of Consent (Homens Maduros), com James Mason, na Austrália. O ano era 1969, e a “rainha” dava os primeiros passos.

ENTRE PALCOS E VIAGENS

Age of Consent.
Age of Consent.

O agente de Mirren era o mesmo de Mason, o que também influiu e, em Age of Consent, encontramos uma atriz madura, apesar de ter apenas 24 anos. É uma obra acima da média, mas tornar-se-ia mais conhecida pela desinibição de Helen Mirren, que protagonizou várias cenas de nudez integral. Entrou em contacto com o mundo do cinema: Voo de 1ª classe, champanhe… e ninguém à espera no aeroporto. “Fui ao balcão dos ‘perdidos e achados’ e disse que estava perdida e precisava de ser achada.” Foi conduzida a uma suite de luxo e, de manhã, tomou o pequeno-almoço com James Mason.

Nesta época, surge o artigo: «Stratford’s very own sex queen», de Philip Oakes, um rótulo que perdurou, “durante os 20 anos seguintes ou mais”, indignou-se a atriz, que nunca perdoou ao jornalista por a retratar como símbolo sexual. Isto influenciou a entrevista desagradável de Michael Parkinson, nos anos 70 (que abordei aqui).

Em 1970, Helen Mirren junta-se à companhia itinerante de Peter Brook, composta por atores internacionais, para trabalhar de modo experimental em Paris. Tanto a família como o agente acharam suicídio profissional, uma vez que Mirren começava a atrair a imprensa e a receber convites para o cinema. Com o apoio do Ministério da Cultura francês, o grupo, chamado Le Centre International de Recherche Théâtrale (CIRT), usava música, som e mímica, ambicionando, “um modo de comunicar que não se restringia à linguagem ou a qualquer cultura específica”, segundo a atriz. Esta opção de Mirren permitiu-lhe viajar pelos EUA, pela Europa e África, representando para o público na rua e em teatros e até no deserto do Saara.

Quando atuou numa reserva índia, no Minnesota, Helen quis que uma rapariga lhe fizesse uma tatuagem, “depois de alguns brandies”. “Nesses tempos, só os marinheiros, os Hell’s Angels e os condenados tinham tatuagens. Na realidade, foi um grupo de prisioneiros que me inspirou. Em França, tínhamos representado numa antiga prisão, na Abadia de Fontevraud, onde Jean Genet estivera preso. Os condenados tinham todos tatuagens. Foi uma combinação da poderosa atmosfera de Fontevraud e desses prisioneiros que me fez querer a minha tatuagem.”

Convidada para ir a Cannes pela primeira vez, Helen apareceu com ar de turista de mochila às costas, no meio de colegas envergando vestidos encantadores, o que horrorizou os executivos da Warner Brothers. Lindsay Anderson disse-lhe, “tens de te comportar mais como uma estrela, Helen, por amor de Deus!” Inexperiente em tais situações, foi comprar um vestido à pressa, aproveitando o dinheiro dos estúdios para comprar também uns sapatos para o namorado.

A PROFISSIONAL

Depois de abandonar o CIRT, Helen começou realmente a sua carreira de atriz profissional. “Embora, para mim, o processo de aprendizagem não tenha fim, foi a altura em que a aprendizagem acabou e o verdadeiro trabalho começou.” Sem abandonar o teatro, participou no filme O Lucky Man! (1973) com Malcolm McDowell, de quem ficaria amiga.

hellen mirren (13)No palco, entre muitas personagens, foi Lady Macbeth, em 1975, em que a única maldição foi o catastrófico relacionamento com o ator Nicol Williamson, que a odiava. Adorou representar Nina em A Gaivota de Tchekhov, no West End londrino, embora, nalguns sábados à noite, durante o seu discurso dramático de “sou uma gaivota”, se ouvissem, cá fora, “os gritos ‘AAARRRSSSENAAALLL’ e as inevitáveis sirenes da polícia”.

Na peça Teeth ‘n’ Smiles (1975), interpretou uma estrela de rock. Um bêbedo bateu-lhe à porta do camarim. Era Keith Moon, o lendário baterista dos The Who. “Ele elogiou a peça, e fiquei encantada por o conhecer, mas chamaram-me ao palco e tive de me despedir. Ele quis vir comigo, mas dissuadi-o. Foi impedido pela segurança de me seguir. Sempre me arrependi de não ter partilhado o palco com uma lenda como Keith, embora completamente embriagado. Fui demasiado atriz e pouco roqueira, nessa noite.”

Enquanto ensaiava Espelho de Duas Faces (1989), no Old Vic, outra visita impressioná-la-ia: O dramaturgo Arthur Miller. “Passou uma semana connosco. Como todas as pessoas extraordinárias que conheci, era profundamente inteligente, mas simples e de abordagem fácil. Possuía absoluto amor e dedicação pela sua arte e pela forma que escolhera para a expressar: O teatro.”

Com Arthur Miller.
Com Arthur Miller.

SUCESSOS E FRACASSOS

O imponente genérico inicial de Caligula, obra arruinada pelos produtores, mas com um desempenho extraordinário de Malcolm McDowell, o ‘Alex’ de Laranja Mecânica:

Em 1979, Malcolm McDowell sugere ao realizador Tinto Brass o nome de Helen para o papel da sua esposa no infame Caligula. Com as participações de Peter O’Toole e John Gielgud, foi produzido pela Penthouse Films, cujos responsáveis, após o trabalho dos atores, inseriram longas cenas de hardcore, sem o conhecimento destes, o que causou enorme celeuma.

“Não apreciei particularmente a experiência”, diz Helen, “mas um dos pontos positivos foi o realizador, Tinto Brass, pessoa que adorei. Mergulhado na confusão que é Caligula, está um arrojado e enérgico filme de Brass. Uma memória duradoura que tenho dessa rodagem é a visão da minha mãe, sentada ao lado de um enorme falo dourado, a conversar com um figurante italiano seminu como se estivesse num clube de bridge. Conseguia conversar com qualquer pessoa em qualquer lado”.

Em Calígula.
Em Calígula.

Helen Mirren considera que participou em três dos seus mais importantes filmes na Irlanda, apaixonando-se pelo país e, num deles, por um irlandês, Liam Neeson, durante a rodagem de Excalibur, em 1980. No papel de Morgana, contracenaria com Merlim, interpretado por… Nicol Williamson, com quem tão mal se dera em Macbeth, mas pensou, “o passado já lá vai”. Quando se ia encontrar com o realizador John Boorman, Mirren ficou presa no trânsito. No carro ao lado, seguia Williamson e, quando a atriz lhe acenou, este fitou-a inexpressivo. “Virei a cara, embaraçada e, por acaso, vi a placa da rua: Macbeth Street. Nem preciso de acrescentar que achei aquilo um péssimo agoiro.”

Mirren e Liam Neeson.
Mirren e Liam Neeson.

Durante as filmagens, Helen sentia-se angustiada devido à sua relação com Liam Neeson por culpa da diferença de idades. Um dia, o temível Williamson virou-se para ela e perguntou-lhe o que se passava. Helen confessou, e o ator respondeu: “Não te preocupes, provavelmente também não resultaria se fosses oito anos mais nova do que ele. Vai em frente.” Nicol tornou-se um bom amigo de Helen, para sua surpresa, e a atriz revela que muitas vezes pensou naquelas palavras de “sabedoria pessimista”. Liam Neeson e Helen viveriam juntos quatro anos.

Outro filme passado na Irlanda foi Cal (1984), com o qual Mirren foi premiada como Melhor Atriz no Festival de Cannes, mas não pôde comparecer na cerimónia. Voltaria a vencer o galardão em 1994, por The Madness of King George. Devido a motivos profissionais, voltou a faltar. O terceiro “filme irlandês” de Mirren seria Some Mother’s Son (Em Nome do Filho…) de 1996.

Em 1980, foi lançado O Plano Diabólico do Dr. Fu Manchu, um fiasco em que Helen contracenou com Peter Sellers, no que seria o último filme do ator. “Apesar de ter desaparecido sem deixar rasto, tive a oportunidade de trabalhar com um dos nossos génios da comédia. Demo-nos bem, e ele demonstrava até a gentileza de se rir das minhas piadas, o que, vindo dele, foi um enorme elogio.”

ATRIZ DE CORPO E ALMA

Não me interesso por “escavações psicológicas”, a não ser quando toca à representação. Sempre achei o mundo exterior mais interessante do que o meu mundo interior.

Helen Mirren considera os atores “uma tribo” e afirma que um dos melhores aspetos da sua vida profissional foi o tempo que passou com atores e atrizes. “A minha profissão permite às pessoas serem o que são. Nos meus tempos idos de Stratford, havia machismo e racismo. Atores negros ou asiáticos não obtinham as oportunidades merecidas. Melhorou muito, mas temos algum caminho a percorrer.” Mirren não acha que, quanto às atrizes, o quadro tenha melhorado muito. “Contudo, de modo geral, a atmosfera no teatro é de liberdade e aceitação, pelo menos a nível pessoal. Além disso, os atores são as pessoas mais mordazes, inventivas, imaginativas e das mais inteligentes. Passei muitos dias a chorar de tanto rir na companhia deles.”

Nos anos 70: Uma da
Nos anos 70: Uma da “tribo”.

Além dos brilhantes desempenhos de Mirren e Lynch, Cal possui também uma excelente banda sonora de Mark Knopfler:

Não é de estranhar que Mirren aponte baterias aos críticos:

“Enraivece-me a escrita preguiçosa que rotula os atores de superficiais, vaidosos, parvos ou obcecados com a autopromoção. É o oposto. Os atores têm de ser compenetrados, já que o seu trabalho é refletir o mundo que os rodeia. Têm de meditar, não no aparente significado de peças, cenas ou deixas, mas no que está oculto sob elas. Têm de colaborar com muitas pessoas, desde técnicos a argumentistas, realizadores e colegas. E depois enfrentam uma constante crítica pública ao seu trabalho.”

O brilhante desempenho em Cal (1983).
O brilhante desempenho em Cal (1983).

“Também somos vagabundos e patifes no fundo do coração. Somos a tribo. É isto que torna um ator no que ele é. Não tem nada em comum com ser uma estrela ou um megalómano; sim, isso existe na profissão, e é essencial uma dose de egotismo para ter a coragem de pisar um palco e representar. Falando por mim, o narcisismo exacerbado é raro. A generosidade é muito mais comum, o que surpreende, já que os atores se movem num mundo extremamente competitivo, e a contratação de um equivale ao desemprego de outro.”

ANOS 80

Em 1984, Mirren é convidada para participar em 2010 – O Ano do Contacto, a sequela da obra-prima de Stanley Kubrick. Fascinada com os estúdios da MGM, “a casa de Gable, Harlow, Garbo, Crawford, Fred Astaire, Gene Kelly”, como descreve. O seu coprotagonista, Roy Scheider, passava muito tempo a apanhar banhos de sol. “Como tudo se passa dentro de uma nave, filmámos em sequência. E, se repararem, Roy fica  cada vez mais moreno no espaço…”

Peripécias com Roy Scheider em 2010.
Peripécias com Roy Scheider em 2010.

Helen deu-se bem com Roy, e este fazia brincadeiras para lhe estragar os takes e a fazer rir. “Até que eu lhe disse amigavelmente, ‘Oh, Roy, ‘you cunt’.” Todos ficaram estarrecidos. Ele ficou chocado. Eu não sabia que, nos EUA, é a palavra mais ofensiva que existe [ao contrário de Inglaterra, onde também é um insulto, mas pode ser uma expressão amigável, em certos contextos]. Pedi-lhe desculpa e tentei explicar-lhe um pouco melhor o historial dos palavrões britânicos. Espero que Roy me tenha perdoado.”

Em Los Angeles, Helen ficou também amiga de Brad Davis: “Quando o conheci, acabara de sair da desintoxicação. Obteve um enorme sucesso com O Expresso da Meia-Noite e não suportou as pressões de Hollywood. Ultrapassado esse solavanco, que quase lhe destruiu a carreira, mostrou ser um anjo/diabinho de pessoa.” Porém, durante esta fase de drogas e álcool, Davis contraiu SIDA e viria a falecer em 1991.

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O Sol da Meia-Noite (1985) foi importante para Helen, por motivos pessoais. O realizador era o aclamado Taylor Hackford. Mirren estava reticente por não apreciar encontros com realizadores em Los Angeles. “É um sítio onde todas as empregadas e barmen querem ser estrelas de cinema. Depois da audição, o processo pouco tem a ver com a capacidade de representar. Eles querem saber se somos ‘certos para o papel’.” Mas Helen gostou do argumento sobre dois bailarinos, um deles Mikhail Baryshnikov. Farta de esperar pelo realizador que se atrasara, Mirren saía, furiosa, do escritório quando a porta se abriu e Taylor Hackford entrou. “E entrou também nos 20 e tal anos seguintes da minha vida.” Continuam juntos hoje.

Quando começou a ir a festas com o companheiro, em Hollywood, a sua tatuagem na mão esquerda provocava um grande embaraço. “Eu era uma atriz série Y… ‘o Taylor com aquela criatura?’ Na época, era um sinal de depravação, mas hoje todas as atrizes têm tatuagens, é claro.”

PRIME SUSPECT: A “LICENCIATURA”

hellen mirren (19)A transição do teatro para o cinema não foi sempre fácil e Mirren, intuitiva, aprendeu a observar.

“Representar em cinema, no seu melhor, combina uma sensação de total liberdade com uma disciplina extremamente técnica e controlada. E eu vi-a no seu melhor. O meu marido realizou O Advogado do Diabo com Al Pacino [também ele ator de teatro e cinema] e impressionou-me o tecnicismo inacreditável de Al. Sabia, com precisão, quais os ângulos da câmara, as lentes, a continuidade, o que devia dar num close-up, num plano médio, num plano à distância, tudo isso. E, ainda assim, atuava com absoluta liberdade e improvisava, dentro destas limitações.”

Aconteceu o mesmo nas selvas de Belize, durante a rodagem de A Costa do Mosquito (1986), com Harrison Ford, “outro tecnicista consumado”. O realizador, Peter Weir, não gostou da liberdade com que Helen abordou o papel.

Eu sempre disse que as minhas inspirações para representar em cinema são os animais, os bebés e, bom, a Anna Magnani, já que não ligam nenhuma a uma câmara. Num filme, representar é uma questão de comportamento, e por isso é que temos grandes atores de cinema que não conseguem fazer teatro.”

Com Harrison Ford e River Phoenix em A Costa do Mosquito.
Com Harrison Ford e River Phoenix em A Costa do Mosquito.

Enquanto, numa peça, tudo se desenrola em sequência, “no cinema, o processo é totalmente baralhado, já que, muitas vezes, começamos por filmar a última cena, saltamos para o meio, depois para o início, e regressamos ao fim. É crucial que tenhamos uma noção muito clara do modo como a personagem se desenvolve.”

O extraordinário sucesso de Prime Suspect, na década de 90, garantiu a Helen Mirren convites para filmes nos EUA. Trabalhou em The Pledge com Jack Nicholson; os seus fãs eram Robert Redford ou Kevin McDonald.

Em 2003, foi nomeada Dame Commander of the Order of the British Empire, pelo seu trabalho de representação, na Queen’s Birthday Honours List. Apesar de tudo, Mirren considera que três dos seus melhores papéis em cinema não foram exibidos na Grã-Bretanha: The Passion of Ayn Rand, The Roman Spring of Mrs. Stone e Door to Door. E, por falar na Grã-Bretanha…

XEQUE-MATE

The Queen.
The Queen.

Helen Mirren vive então os 18 meses mais bem-sucedidos da sua carreira. Começou tudo com Shadowboxer, em 2005, continuou com a minissérie Elizabeth I, que originou algumas das melhores críticas que já obtivera e culminou com The Queen, em 2006. Quando lhe propuseram que interpretasse a Rainha de Inglaterra, a atriz confessa que ficou de queixo caído, bem como aterrorizada. “Interpretar uma pessoa viva é intimidante, nunca podemos ser tão boas como essa pessoa e, se somos más, então somos só más. Além disso, era a Rainha, com todo o interesse colossal e as emoções contraditórias que a monarquia desperta nos corações e nas mentes da nossa nação. Achei que seria o meu fracasso mais embaraçoso. Por isso, mais uma vez… tive de o fazer.”

Nervosa e insegura, Mirren estudou horas de gravações da Rainha, quadros de diversos pintores, e apercebeu-se que a melhor abordagem seria não procurar a imitação mais perfeita, mas sim, a sua própria imitação, de acordo com as suas perceções, tal como um pintor. O guarda-roupa exerceu grande influência em Helen: “Comecei a caminhar como ela, entrei dentro da sua cabeça e achei muito confortável, como se ela fosse a capitã de um submarino, firme mas com uma certa simplicidade.” A atriz não fazia ideia de como iria ser recebido o filme.

Terminado o trabalho em Prime Suspect, estes projetos foram lançados quase em simultâneo.

Daniel Day-Lewis faz uma vénia à rainha...
Daniel Day-Lewis faz uma vénia à rainha quando esta lhe entrega um Óscar…

A Rainha estreou no Festival de Cinema de Veneza e, no final da exibição, “o público levantou-se e aplaudiu durante bastante tempo. Empolgada pelo momento, ergui os braços como uma estrela de ópera. E pensei, ‘que diabo estás a fazer, Helen? Estás armada em Evita?’ Fiquei muito embaraçada. O meu marido começou a fazer troça de mim. De vez em quando, cantarola, ‘don’t cry for me Argentina’…”

O Kodak Theatre, situa-se em Hollywood Boulevard, e vários quarteirões estão cortados. É a noite dos Óscares, e Helen fica presa no engarrafamento de limusines. À medida que se aproxima do Kodak, depara-se com uma autêntica barricada de cartazes, erguidos por cidadãos, proclamando “vocês vão morrer no Inferno” e outros dísticos. Esta é a faceta que ninguém vê, na noite dos Óscares. Depois da morte de Heath Ledger, Mirren avistou um que dizia, “Heath está no Inferno”. “De acordo com todos que com ele trabalharam, e que eu conheço, era uma pessoa generosa e gentil, de bom fundo e espiritual.”

hellen mirren (1)“Parece que chego sempre à passadeira vermelha ao mesmo tempo que Nicole Kidman ou Tom Hanks, e sou empurrada sem contemplações pelos seus batalhões de seguranças. Que diabo! Aproveito-me dos gritos empolgados que lhes dirigem e aceno como se fossem para mim.”

Começa então a cerimónia. “Se formos nomeadas para Melhor Atriz Secundária, a agonia e o êxtase terminam rapidamente, já que abrem o envelope e sorrimos, enquanto aplaudimos a Escolhida. Damos o lugar a um atraente figurante e vamos para o bar, celebrar a derrota.”

Mas, em 2007, Helen estava nomeada para Melhor Atriz. “É muito, muito depois… já ouvimos muitos aplausos e risos nervosos, já vimos lágrimas, até. De vez em quando, uma câmara foca-nos e temos de a ignorar, fazendo de conta que estamos só a apreciar o espetáculo.”

Helen perdeu a noção do tempo, já não fazia ideia de quando seria anunciada a sua categoria. “De repente, era eu. E depois, o impossível aconteceu. Levanta-te, Helen, antes que eles digam, ‘oh, desculpe, foi engano. Li mal. É claro que não é você.’” Com a pesada estatueta quase a cair-lhe da mão suada, a atriz pensou: “My God, I’ve just won a fucking Oscar!”

Mas o discurso foi outro: “Durante mais de 50 anos, Elizabeth Windsor manteve a sua dignidade, o seu sentido do dever e o seu penteado. Teve os pés bem assentes no chão, o chapéu na cabeça e a mala debaixo do braço, atravessou imensas tempestades, e saúdo a sua coragem e coerência, e agradeço-lhe a ela, porque, se não fosse ela, eu, de certeza, não estava aqui. Ladies and gentlemen, I give you the Queen!”

Além do Óscar, receberia mais 28 prémios pela sua interpretação em A Rainha. Não é pelos galardões que se traça a carreira de uma atriz. É pelo sangue, suor e lágrimas, e pela passagem por muitos camarins.

David Furtado

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