Cécile De France faz 37 anos: “O meu coração está na Bélgica”

Em 2002, chamaram-lhe a nova esperança do cinema francês, apesar de ser belga. Dotada de uma beleza sem artifícios, dando vida a personagens díspares, Cécile De France tornou-se reconhecida pela crítica e popular entre o público, com a sua figura atlética e, por vezes, andrógina. Depois do triunfo de O Miúdo da Bicicleta, participou no terceiro capítulo de A Residência Espanhola, Casse-tête chinois, de novo sob a direção de Cédric Klapisch. “Uma jovem atriz corre com frequência o risco de ser catalogada, mas fico satisfeita por sempre me terem proposto papéis muito diferentes.” Conheçamos um pouco mais da sua carreira e o modo como a encara.

cecile de france mauvaise foi 2006
Mauvaise foi (2006).

Amante de filmes de piratas, obras de capa e espada e westerns quando era pequena, disfarçava-se de índia e inventava várias personagens. Hollywood fazia-a sonhar, mas estava longe de imaginar que integraria esse mundo. Na adolescência, seguia as tendências grunge e era um pouco gorda. “Talvez por isso, no início da minha carreira, não estava muito à-vontade com o meu físico, não me sabia vestir e não seguia as normas. Isto entrava em conflito com o modo como os aspirantes a atores de cinema se apresentavam, mas eu estava mais interessada no teatro.”

Acerca dos seus primeiros passos nos palcos, em Namur, a sua terra natal, descreve que “integrava uma trupe de amadores, mas, na Bélgica, é duro trabalhar em comédia”. Quando chegou à capital francesa, dizia a todos que era belga, e os franceses riam-se. “Eu não percebia onde estava a graça”, diz Cécile. Só depois entenderia a razão de tantas piadas. E achou até “um elogio ser belga entre franceses”.

ASCENSÃO METEÓRICA

Partiu para a capital francesa, aos 17 anos, porque queria sonhar. “O meu professor de representação disse-me ‘vai para Paris, encontrarás lá algo para ti, de certeza’.” Mas, quando chegou, não conhecia ninguém. Tirou vários cursos de teatro, graduando-se pela ENSATT (École Nationale Supérieure des Arts et Techniques du Théâtre), em 1998.

A vocação surgiu muito cedo, segundo conta, ao ouvir o avô cantar: “Mas só na casa de banho. Senti a sua frustração de não ter podido evoluir artisticamente. Isto incitou-me a consagrar-me à minha paixão. Aos seis anos, já fazia teatro e depois fui para Paris. Não me queria tornar numa estrela, apenas viver.”

Revela que passou tempos felizes na Cidade Luz, mas também alturas difíceis e de grande solidão. Fazia espetáculos de rua, atividades como cuspir fogo, o que consideraria “realmente perigoso, uma completa idiotice”.

O agente mais importante do cinema francês, Dominique Besnehard, assistiu a um dos seus projetos de final de curso, Electra, sob a direção de Claudia Stavisky. Gostando do que viu, Besnehard sugeriu-a para papéis em TV e curtas-metragens. Quando Richard Berry procurava uma jovem atriz desconhecida para o seu primeiro filme, a comédia romântica L’art (délicat) de la séduction (2001), escolheu-a. O filme não se tornou num grande sucesso, mas foi o primeiro papel de relevo de Cécile, que nunca mais parou.

A sua ascensão parece ter sido fulgurante; em 2003, era considerada a atriz europeia mais promissora. Mas Cécile considera que foi “passo a passo” que isto sucedeu. “Lentamente mas com segurança. Tive tempo para afinar os meus gostos, a minha atração pelo cinema evoluiu.” Nos sets dos filmes ficou intrigada com a caracterização e a maquilhagem. “Venho de uma família onde as mulheres não se maquilhavam, pelo que isso me fascina.”

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De France e Romain Duris em A Residência Espanhola (2002).

A verdade é que se tornou, em poucos anos, numa das atrizes mais amadas do cinema francês, processo que teve início com o sucesso de A Residência Espanhola (L’auberge espagnole), em 2002, em que interpreta ‘Isabelle’, uma lésbica com personalidade forte – papel que lhe valeu a Étoile d’Or por Revelação Feminina do Ano, além do César (o Óscar francês), ofuscando atrizes como a popular francesa Audrey Tautou e outras esperanças do cinema europeu e independente, como a catalã Cristina Brondo e a inglesa Kelly Reilly. Neste ano, foram lançados mais dois filmes com Cécile: As comédias românticas Irène e A+ Pollux.

cecile de france haute tension
Haute tension: Um dos filmes que mais a celebrizou.

Em 2003, conquista o prémio de Melhor Atriz no Festival Internacional de Cinema de Sitges, por Haute Tension de Alexandre Aja, obra de terror que realmente lhe abriu as portas à internacionalização. Mas a atriz considera que obteve novos papéis devido ao seu trabalho e não à custa dos prémios.

LEITURAS E GOSTOS

Quanto à literatura, The Demon de Hubert Selby Jr., foi um livro de que gostou. “É um pouco negro, mas eu gosto do que é negro. Carrion Comfort, de Dan Simmons, perturbou-me. Também aprecio os livros de James Ellroy. Gosto da literatura do ‘pós-caos’. Adorei Alias Grace, de Margaret Atwood, e A Confederacy of Dunces, de John Kennedy Toole, foi a minha bíblia.” Confessa-se admiradora de Dostoiévski e dos poemas de Jim Morrison e Baudelaire.

No cinema, a sua personagem fictícia favorita é ‘Mabel’ (Gena Rowlands) em A Woman Under the Influence (1974) de John Cassavetes. Na vida real, as suas heroínas são Rowlands e Tilda Swinton. Também gosta de filmes de terror: “Sinto-me viva quando tenho medo! Embora prefira o suspense.”

Amante do cinema nórdico, o seu filme preferido é, contudo, Pelle, o Conquistador (1987), o primeiro que a fez sonhar. Entre as personalidades históricas que menos aprecia, encontram-se o General Custer, e admira a resistência lendária dos índios nos EUA.

cecile de france (5)“A FRANÇA NÃO ME ANEXOU!”

Em 2004, protagonizou A Volta ao Mundo em 80 Dias (Around the World in 80 Days) ao lado de Jackie Chan e Arnold Schwarzenegger. Cécile achou que representava um risco para a produção. “Mas foi uma escolha que pretendeu manter a autenticidade da personagem, ‘Monique’, uma pintora francesa incompreendida.” A atriz constatou, porém, que não conseguiria viver em Hollywood. “Procurava cafés, terraços, ruelas, e só via carros enormes com uma única pessoa lá dentro!” Mas ficou impressionada com Schwarzenegger, ator com quem filmou durante três dias. Esta experiência em Hollywood foi agradável, por outro lado, visto que Cécile pôde manter o seu sotaque francês, trabalhando com a mesma ensaiadora de diálogos daquele que diz ser o seu ator favorito, Tim Roth.

Embora não goste de entrevistas televisivas, nas que dá à imprensa, Cécile não se comporta como uma estrela. Disponibiliza o tempo necessário e não chega atrasada. Mas admite que nem sempre foi assim. “Houve dois ou três anos em que me passei da cabeça. É evidente que… se, de um momento para o outro, todos nos tratam como uma princesa, é tentador. É como se nos dessem um enorme bolo de chocolate, 24 horas sobre 24 horas. Passamos por um instante de gula, mas há uma altura em raciocinamos e já não o queremos.”

Cécile De France obstina-se em rejeitar a noção convencional de estrela, sublinhando que “o filme é mais importante que os atores”. Insiste que não se sente mudada, depois destes anos de sucesso, e que o seu coração “bate da mesma maneira e pelos mesmos motivos”.

Todavia, com tantas viagens e trabalhos, há algo que a faz sentir saudades da sua “querida Bélgica”. “O ritmo de vida, as pessoas e a sua simplicidade, os traços do carácter belga. A cortesia. Abrem-nos as portas, dizem por favor. E também tenho saudades de um bom fricadelle com batatas andaluzas [prato típico]. Gosto do campo. Sempre me causou um certo receio viver em Paris, dá-me a impressão que tenho demasiados compromissos. Há quem goste, mas é difícil para mim. Se comprasse uma casa, seria no campo, na Bélgica. É ótimo, a não ser que tenhamos algo contra a chuva, o que não é o meu caso. A terra é rica, o verde é denso e, quando surge um raio de sol, é verdadeiramente belo.”

“Talvez tenhamos um pequeno complexo de inferioridade. Os meus compatriotas receiam sempre que eu seja ‘anexada’ à França! Sinto-me grata pelo reconhecimento que me deram, mas o meu coração está na Bélgica.”

Em 2005, reencontra o realizador de A Residência Espanhola, Cédric Klapisch, e o restante elenco em Les poupées russes (As Bonecas Russas). Venceu outro César por Melhor Atriz Secundária. Seria nomeada para mais três destes prémios: Em 2006, por Melhor Atriz em Quand j’étais chanteur e por O Lugar Ideal (Fauteuils d’orchestre). No ano seguinte, foi nomeada novamente na categoria de Melhor Atriz por Un Secret. Venceu ainda o Prix Romy Schneider.

cecile de france 2

GOSTO PELO DESAFIO

Cécile De France identificou-se com alguns papéis, uns mais do que outros. Em Quand j’étais chanteur, contracenou com Gérard Depardieu. “‘Marion’ é uma mulher fragilizada, que se apaixona por um homem muito mais velho, um cantor em decadência, por ele respeitar o segredo dela. Compreendo bem esse tipo de amor. E foi um modo de conhecer os êxitos da música francesa, que estiveram totalmente ausentes da minha infância! Fiquei a gostar de alguns deles, como «T’es Beau» de Pauline Croze ou as canções de Christophe, e fico rapidamente de lágrimas nos olhos ao ouvi-las.” A atriz acrescenta que os seus compositores favoritos são Keziah Jones e Angelo Badalamenti.

Cecile de France Quand j'étais chanteur (2006).
Quand j’étais chanteur (2006).

Procurou evitar, desde cedo, que a rotulassem como “menina bonita e inofensiva”. A sua versatilidade chamou imediatamente a atenção. Como a própria afirma, “talvez tivessem um bocado essa imagem de mim, no início da carreira. Mas dediquei-me a papéis distintos”. Em Mesrine: L’instinct de mort, de Jean-François Richet (2008), desempenha uma das cúmplices do brutal gangster Jacques Mesrine.

“‘Jeanne’ é uma delinquente, uma marginal. Apareço com longos cabelos negros. Quando, nas revistas, me chamam de ‘rapariga da porta ao lado’ é um pouco duro. Mas não será grave, suponho, já que é uma imagem que corresponde a mim.”

Grande parte do público ainda a vê desta forma, embora tenha sido militar em Meu Coronel (Mon colonel) de 2006, nadadora de alta competição assombrada por visões em Où est la main de l’homme sans tête (2009) e polícia em Guardiões da Ordem, (Gardiens de l’ordre), em 2010.

Quando interpretou Jeannine Deckers em Soeur Sourire (2009), o filme biográfico sobre a freira belga que se tornou numa estrela da canção com «Dominique», Cécile De France interessou-se de imediato pela personagem. Passou semanas a ler biografias e a estudar entrevistas da freira dominicana. Durante cinco meses, aprendeu a cantar e a tocar guitarra. O produtor já a contactara “sete ou oito anos antes, mas entretanto o projeto não avançou por questões de financiamento”.

O realizador, Stijn Coninx, considerou De France perfeita para o papel e realça o empenho da atriz: “Mesmo quando não sabíamos se o filme iria ser produzido, ela já sabia tocar as canções na guitarra.” Cécile canta no filme, e também toca, embora se tenha deparado com dificuldades nas seis cordas. O realizador deixou-a rever os próprios diálogos e o argumento. A atriz encara deste modo a difícil personagem de Jeannine Deckers: 

“Foi uma rebelde e insubmissa que ultrapassou os limites consagrados pelo seu estatuto. Pretendeu também dar uma imagem mais humana da Igreja. Através das suas canções, acreditava que poderia realmente chegar aos jovens católicos. Foi também uma mulher interessada pelas realidades sociais da sua época e pelos mais pobres.”

“Chegou mesmo a confrontar a Igreja e os seus fãs, com as suas ideias relativamente aos contracetivos, no tema «La Pilule d’Or». Não hesitava em correr riscos e assumir os seus ideais progressistas. Na época, consideram-na uma punk!” Mas De France quis também mostrar a faceta agressiva de Deckers. “Creio que era uma adolescente instável que nunca cresceu e não conseguiu enfrentar as realidades da vida. Tinha pânico ao amor e, já muito depois de abandonar o convento, caiu em depressão, no vício do álcool e dos ansiolíticos, acabando por se suicidar.”

CLINT E CÉCILE

Foi uma surpresa para os franceses verem a “pequena comediante belga”, acarinhada pela França, numa superprodução internacional de Clint Eastwood, e a atriz ficou agradada com o realizador americano que lhe facilitou o trabalho, encarando o papel como “uma oportunidade quase alucinante”.

Em Hereafter – Outra Vida, De France desempenha uma jornalista que quase morre e visiona o Além. Não foi um dos projetos mais bem recebidos de Eastwood nos últimos anos, devido, talvez, a este tema da morte iminente e das experiências detalhadas da quase-morte. Porém, a atriz defende o teor do filme e o realizador. “Ele abre uma porta e não dá respostas, numa sociedade ocidental, na qual este tema não está necessariamente na moda. Penso que o mistério foi aquilo que mais o interessou.”

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Com Clint Eastwood na rodagem de Hereafter.

Eastwood permitiu que Cécile traduzisse as suas falas para francês, interpretando-as ao seu modo, dando assim ênfase à autenticidade.

“Fiquei a ver como ela se safava, e foi tão brilhante desde o início que pensei, ‘esta miúda apanhou o jeito e tem um grande timing’”, comenta Clint. “Não se tratou de uma daquelas situações em que dizemos, ‘não deixes arrastar as coisas’ ou ‘mais ânimo aqui’. Ela fluiu, e estávamos lá para captar o trabalho. Por isso, durante o resto das filmagens, soube que podia contar com ela.”

Nas palavras de Cécile, “há também a ideia de que a morte não é o fim. Três personagens vivem uma tragédia pessoal e são confrontadas com a morte ou com a possibilidade do que se segue. Penso que quem enfrentou tais situações, de acordo com a minha pesquisa, viveu uma experiência traumática positiva. Foi construtivo, porque deixaram de temer a morte e construíram a vida sobre uma fundação mais sólida. A personagem que interpreto perde toda a credibilidade no seu trabalho, perde o namorado, mas é corajosa, arrisca perder essa posição confortável e materialista.”

Quanto à relação com Clint, refere: “O tema era pesado, mas todos os dias bebíamos os dois uma cerveja para descontrair… foram bons momentos.”

“Isto não mudou, nem vai contra a minha filosofia pessoal de viver o momento presente em pleno e com intensidade. As personagens também o fazem, encaram a vida de acordo com o que é importante, agora.”

Cécile De France 37UM PEQUENO ADULTO

O Miúdo da Bicicleta (Le gamin au vélo), realizado pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, foi um enorme êxito de crítica e público e venceu o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes, além de ter sido nomeado para Melhor Filme Estrangeiro nos Globos de Ouro americanos deste ano. É a história aparentemente simples de uma criança que, rejeitada pelo pai, conhece uma cabeleireira que se interessa por ele e pela sua dor.

Cécile De France deu espaço a Thomas Doret para mostrar o que valia. “Para mim, Thomas não é um miúdo, mas sim, um pequeno adulto. Sabia mais do que eu. Passou muito tempo com os realizadores, para que entendesse o estilo, adiantou-se em relação a mim. E a sua virgindade profissional, digamos, é como uma página em branco.”

Thomas sentiu-se pressionado por filmar ao lado de uma estrela: “Já tinha a pressão dos meus pais, e esta foi mais uma…” A atriz contrapõe que “foi ele o coração do filme”. Relativamente ao argumento, Cécile comenta que “foi um instinto maternal, a necessidade de um contacto afetivo que guiou a minha personagem. Mas ele, quando vem ter comigo, só tem interesse em ver o pai”.

Com este filme, rodado na Bélgica, Cécile regressou à sua terra natal, mas tratou-se também de um projeto totalmente diferente de Hereafter. “Baseei-me em várias pessoas que conheço na Bélgica e que são como ela. Não foi muito difícil, já que os irmãos estiveram presentes durante a conceção.”

Depois disto, Cécile participou em Un baiser papillon e Möbius (com o seu ator favorito, Tim Roth). Parece que não é desta que irá representar o seu papel de sonho: O de mulher-pirata.

David Furtado

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