Harrison Ford: Fugitivo do império

Embora o triunfo de Star Wars tenha sido unânime, tornando ‘Han Solo’ numa das estrelas mais brilhantes da galáxia de Lucas, a carreira do ator, longe deste personagem, estagnou. Durante a década de 80, Ford ponderou e correu riscos, libertando-se dos rótulos. Anthony Hopkins chamou-lhe “o maior ator de cinema americano”. Não é um homem perfeito, mas a dedicação à família, os pés assentes na terra e um profissionalismo à prova de bala, trouxeram-lhe a fama e o sucesso, perante críticas nem sempre justas. Tornou-se obcecado pelo perfecionismo e pela privacidade. Como disse uma jornalista britânica, “nos filmes de Harrison, ele é a ação”. Portanto… ação.

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(Continuação de «Harrison Ford faz 70 anos: Igual a si próprio».)

Os quatro filmes em que Harrison participou depois de A Guerra das EstrelasHeróis (1977), Force Ten From Navarone (Os Comandos de Navarone) (1978), Hanover Street (Ao Encontro da Guerra e do Amor) e The Frisco Kid (Desculpe, Onde Fica o Far West?), ambos de 1979 – não obtiveram grande sucesso. Fred Roos não perdera a fé no seu protegido, sugerindo-o para vários projetos e ouvindo recusas. Roos afirma que “mesmo quando se tornou fácil, não foi fácil. Surgiu a teoria de que Harrison era um falhado, que as mulheres não o achavam atraente, que não tinha perfil para protagonista. Achei isto uma treta”.

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The Frisco Kid (1979). Após Star Wars, a carreira de Ford não foi… meteórica.

Carrie Fisher e Mark Hamill depararam-se com o mesmo impasse (embora Hamill tenha participado na obra-prima de Samuel Fuller, The Big Red One). O trio de protagonistas não teve outra opção a não ser regressar em O Império Contra-Ataca. Em 1979, Irvin Kershner filmava as primeiras cenas na Noruega sob um frio extremo. Peter Mayhew (o wookie ‘Chewbacca’) elogiou o colega: “Harrison é Harrison. Atura coisas que outros atores não conseguem. Andar pelo frio gélido dos glaciares e ainda conseguir demonstrar sentido de humor, após três ou quatro horas àquela temperatura… Para mim, é um verdadeiro profissional.”

Carrie Fisher e Harrison Ford
Continuava a relação difícil com Carrie Fisher. Filmagens de O Império Contra-Ataca.

Nos já familiares estúdios britânicos de Elstree, a interação de Ford com Kershner foi boa.

“Ótimo, corta”, disse o realizador. “Disseste isso por causa dos efeitos especiais ou por minha causa”, perguntou Ford, inseguro. “Não o diria se não fosse para ti, Harrison.” Apesar disto, a relação entre Carrie Fisher e Harrison esfriou como o Planeta Hoth, onde decorria a ação do filme. À medida que crescia a tensão sexual entre ‘Han Solo’ e a ‘Princesa Leia’, os atores discutiam imenso, o que todos achavam ser a continuação de algo que sucedia fora das filmagens.

Han: Tens medo de ir embora sem me dares um beijo de despedida?
Leia: Preferia beijar um wookie.

Han: Não suportas ter um tipo bonitão como eu longe de ti.
Leia: Não sei onde vais buscar essas ilusões, cérebro de laser.

Esta relação de “quem desdenha quer comprar”, culminou na cena em que ‘Darth Vader’ ordena o congelamento de ‘Han Solo’ em carbonite. ‘Leia’ diz, “amo-te”, e ‘Han’ devia responder o mesmo. Mas Harrison achou demasiado previsível, pelo que disse, ‘eu sei’. Corta! Grande confusão no set e berros entre os dois atores no camarim de Carrie. Mas o diálogo manteve-se no filme:

ESCOLHIDO À REVELIA

O dinheiro já não era um problema. Harrison comprou uma casa em Benedict Canyon, longe das moradias dos famosos, dedicando-se a reconstruí-la por si mesmo. Regressou à carpintaria. De certo modo, reconstruía a sua vida, com saudades dos filhos.

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Novo acaso do destino. Surge Indiana Jones.

Quando George Lucas e Steven Spielberg procuravam o protagonista para Os Salteadores da Arca Perdida, não queriam Harrison. Tom Selleck ficou indisponível, e Lucas telefonou a Harrison (que já fumegava), dizendo-lhe que andavam a pensar nele para o papel. O ator não se mostrou fácil, exigindo que os diálogos de ‘Indiana Jones’ fossem reescritos. “Não queria que se tornasse num Professor Solo!”

Lucas e Spielberg (nada convencido com a escolha) aceitaram as exigências e também o aumento de salário que Harrison impôs, reconhecendo o potencial do personagem. Na primavera de 1980, Ford, que não fazia exercício, começou um programa de ginástica em casa. “Quando as pessoas me perguntam como me mantenho em forma, digo que os filmes já bastam como exercício”, gracejou. Passou também duas semanas a aprender a manejar um chicote, ferindo-se no rosto e nos ombros.

As filmagens de Raiders of the Lost Ark não foram fáceis. Spielberg atirou cobras verdadeiras para as saias de Karen Allen, pretendendo que os seus gritos soassem mais realistas. “Ele encara os atores como parte do cenário”, irritou-se Allen. Ford não se deixou dominar pelo realizador, a ponto de este perguntar, “o que vais fazer nesta cena, Harrison?” O ator filmou várias cenas de alto risco, como aquela em que se agarra à dianteira de um camião, o que os duplos acharam uma loucura. As filmagens terminaram no Havai, com a cena que começa o filme (foi rodado, como é hábito, fora de sequência).

‘Indiana Jones’ foge dos nativos e salta para um hidroavião. Ninguém esperava que tal desequilibrasse a aerodinâmica do aparelho, pelo que este subiu ligeiramente, despenhando-se entre as árvores. Por milagre, Harrison e o piloto não sofreram nada. “Mas tivemos de repetir a cena, claro”, brincou o ator.

BEIJOS INTENSOS NUMA RODAGEM PENOSA

harrison ford blade runnerHarrison Ford aceitou então a proposta de Ridley Scott para protagonizar Blade Runner. Scott idealizara um detetive de gabardina e chapéu, ao estilo de ‘Philip Marlowe’, de Raymond Chandler, mas Harrison opôs-se e decidiu cortar o cabelo. As filmagens começaram em março de 1981 e desagradaram imenso a Ford, que não apreciou o estilo frio e distanciado de Ridley Scott. Um amigo do ator refere que “Scott filmava um take com Harry e Sean Young e 500 takes com a tecnologia”.

Além disso, o ator achava que a relação com ‘Rachael’ (Sean Young) não era desenvolvida o suficiente. Contudo, Young não foi a primeira a ficar empolgada com o ator.

“Cada vez que me beijava, o pessoal da maquilhagem tinha de vir ‘consertar os estragos’. Que barba aquele homem tem. É um dos homens mais sexy que conheci.”

O relacionamento entre Ford e Ridley Scott deteriorava-se. Uma noite, quando Scott inspecionava um artefacto tecnológico pela milionésima vez, sem prestar atenção aos atores, Harrison perdeu as estribeiras e ia-lhe dando o mesmo tratamento que aplicara a Richard Dreyfuss, anos antes. Só a intervenção da equipa o impediu. Todos respiraram fundo quando as filmagens terminaram.

Um entrevistado pouco à-vontade:

“OS MIÚDOS DERAM-ME O SUCESSO”

Harrison vivia agora com Melissa Mathison, e passava todo o tempo que podia com os filhos. “Eu não tinha um humor estável em casa; muitas vezes era cínico, agressivo e amargo com as pessoas com quem trabalhava. Francamente, fui um marido e um pai inadequado no meu primeiro casamento.” Por vezes, Willard e Ben assistiam aos filmes em que o pai entrava, divertidos. “Foram os miúdos e os adolescentes que me deram o sucesso”, admitiu Ford ao ver a reação.

Quando se juntara ao companheiro na rodagem de Os Salteadores da Arca Perdida, Melissa Mathison falou a Spielberg, de quem se tornara amigo, na história de um miúdo que conhece um extraterrestre. O realizador gostou da ideia e, visto que já apreciara o trabalho de Melissa, enquanto argumentista de The Black Stallion (1979), não esqueceu o conceito. Encorajada por Harrison, Melissa Mathison viria a ser nomeada para o Óscar de Melhor Argumento Original por E.T., e o curioso é que se inspirou nos filhos do companheiro, incluindo no guião muito do que eles diziam.

Depois do sucesso de O Império Contra-Ataca, impunha-se o terceiro capítulo, O Regresso de Jedi. Os atores estavam fatigados. “Filmes com efeitos especiais são difíceis para os atores”, desabafou Mark Hamill. “Damos por nós a dirigir um discurso fervoroso a uma grande lagosta envergando um fato de pilotagem.” Com esta terceira parte, Harrison fechou um ciclo, atingira o sucesso e vencera a velha Hollywood, mas voltou a avisar, amargamente, “nunca perdoarei ao negócio do cinema o que ele me fez”.

O casamento feliz com Melissa Mathison acalmou as facetas mais intolerantes do seu carácter, mas a teimosia não foi uma delas. Fred Roos descreve-o como “o oposto de Jack Nicholson, o boémio, animal das festas, que vai a concertos e jogos. Mas têm algo em comum: São espertos, sabem como funciona o negócio e possuem um certo cinismo”. Harrison tornou-se quase eremita, justificando-se: “Se as pessoas souberem demasiado sobre mim, acabam por ir ver os filmes por minha causa e não para verem as personagens que represento.”

Uma amiga, a romancista Susanna Moore, conhecera-o quando era anónimo, e acrescenta:

“Ao contrário da maioria dos atores, ele não tem necessidade de seduzir ou encantar toda a gente que conhece. Não está interessado em se aproximar demasiado. Isto não é uma crítica. Ele tem uma reserva e uma serenidade que me agradam muito.”

Um dos poucos passos em falso que ia modificando esta imagem pública foi a entrevista de Harrison à GQ, em Londres, quando filmava Jedi. O entrevistador perguntou-lhe por que razão um ator famoso enrolava os seus próprios cigarros. Harry respondeu com outra pergunta: “Queres uma passa deste charro 100 por cento americano?” A conversa prosseguiu, com Ford a demonstrar vastos conhecimentos sobre os méritos da Cannabis Sativa, totalmente pedrado… Mas ninguém pegou na história, embora a GQ tivesse feito manchete.

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O ator voltou a encarnar o arqueólogo ‘Dr. Jones’ em Indiana Jones e o Templo Perdido, insistindo em fazer cenas perigosíssimas. Alarmado, Spielberg telefonou a George Lucas, já que o ator se encontrava numa cama, no set, cheio de dores e recusando tratamento. O duplo Vic Armstrong dizia-lhe, “H, não podes ficar magoado nesta cena, porque temos aqui uma equipa que está a ganhar a vida. E ele respondia, ‘sim, tens razão’. E fazia a cena na mesma.” Ao cair de uma vagoneta na cena da mina, não aguentou, sendo internado com duas hérnias discais.

Quando regressou ao set, para terminar as últimas cenas, foi amarrado, pois deveria ser flagelado. Mas quem apareceu com o chicote foi Barbra Streisand, vestida de cabedal negro. “Esta é pelo fracasso de Hanover Street”, disse, aplicando-lhe o primeiro açoite. “Esta é por teres ganho tanto dinheiro com Star Wars.” Segunda chicotada. Seguiu-se Carrie Fisher, gritando, “não, não!” e protegendo as costas expostas do confundido Harrison. Apareceu então Irvin Kershner, que disse a Spielberg: “É assim que realizas os teus filmes?” Tratou-se de uma brincadeira da Paramount, celebrando a recuperação do ator que simbolizava cifrões.

LIBERTADO PELA TESTEMUNHA

Harrison Ford queria fugir aos rótulos que lhe haviam aplicado e procurava um veículo para tal, enquanto a sua agente, Pat McQueeney, rejeitava uma “montanha de guiões” baseados na sua imagem prévia.

Até que Pat entrou de súbito na cozinha de Harrison e colocou um guião em cima da mesa, entusiasmada. “Harrison, penso que o encontrei! Diz-me o que achas.” À uma da manhã, a agente atendeu o telefone e ouviu aquela voz grave e inconfundível: “Patricia… Harrison. Acho que encontraste!”

Era a história de um polícia que se envolve na comunidade dos Amish, na Pensilvânia, para proteger uma criança que testemunhou um crime. Harrison já possuía por esta altura, autoridade para aprovar realizador e argumento. A sua primeira escolha foi Peter Weir, um australiano que já dirigira dois filmes com Mel Gibson. O ator pensava que a história resultaria melhor se filmada por um estrangeiro. Weir preparava-se para filmar A Costa do Mosquito, mas ficou sem financiamento e aceitou, pouco convencido.

Quando foi visitar Harrison, encontrou-o à espera dele no aeroporto. Enquanto conduzia rumo a casa, Ford pediu a Weir para parar, porque precisava de ir ao supermercado. Weir não sabia o que esperar da estrela.

“Fomos buscar umas coisas à mercearia e vimos a foto de ‘Han Solo’ numa caixa de cereais. Ele olhou-me, lacónico e ergueu as sobrancelhas, dizendo, ‘será que isto não tem fim?’ Percebi logo que era diferente, tinha a cabeça no lugar.”

Conversaram, e Peter Weir ficou espantado pois “ele parecia mais um realizador do que um ator a falar”. Jantaram e trocaram ideias sobre o projeto. “Não fazia ideia que isto era a minha audição com Harrison!”, ri-se Weir.

Durante a preparação, Harrison acompanhou polícias. Quando fizeram uma visita a um bar do submundo, em busca de um informador, o agente disse-lhe para entrar pela porta da frente, enquanto ele entraria pela de trás: “Não olhes para ninguém, entra com calma e saberão que és chui. Vai para o meio do bar, eu vou lá ter contigo.” O agente descobriu, contudo, que a porta das traseiras estava trancada. O ator passou assim alguns minutos complicados no bar, lidando com a situação hostil e vários criminosos, até que o agente conseguiu juntar-se a ele. Peter Weir desaprovou tais comportamentos: “Harrison, isto é só um filme! O que farei, se te matam?”

Durante A Testemunha, há uma cena em que ‘John Book’ ajuda a comunidade a construir um celeiro, aproveitando para demonstrar a sua perícia na carpintaria.

“Há uma analogia entre os dois trabalhos”, explicou Ford. “Temos de ter um plano coerente. Temos de o construir de base. Estabelecemos uma fundação firme. Então, cada passo integra um processo lógico.”

Este raciocínio resultou em pleno. O brilhante desempenho do ator valeu-lhe uma nomeação para o Óscar. O filme foi um sucesso de crítica e público. Harrison libertara-se do mundo de Lucas e Spielberg, surpreendendo tudo e todos.

“SER NORMAL É UMA VITÓRIA”

A colaboração excelente entre Peter Weir e Harrison motivou o ator, que se interessou pelo projeto A Costa do Mosquito. Aliás, o autor do livro, Paul Theroux, comentou, aprovador, que ‘Allie Fox’ era muito parecido com Ford na vida real. Antes de começarem as filmagens, Weir organizou um piquenique com os protagonistas e alguns elementos da produção. Harrison conduzia a carrinha, com Helen Mirren e River Phoenix a seu lado, enquanto o realizador observava a interação. Se as crianças brincavam, Mirren admoestava-as: “Não distraiam o Harrison, ele está concentrado.” A certa altura, virou-se para o colega: “Estás perdido?” “Eu nunca me perco”, ripostou Ford. A química já funcionava, para satisfação de Weir.

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Helen Mirren, atriz respeitada, que contracenara nos palcos, em peças de Shakespeare, com John Gielgud e Olivier, viria a confessar: “É estúpido, mas tenho medo de celebridades. Fiquei arrasada quando conheci Harrison Ford.” Durante as filmagens, Ford mostrou também habilidade para brincar com crianças e aconselhou River Phoenix a “manter a cabeça no lugar”: “Isto é só um negócio.” Infelizmente, Phoenix não soube lidar com o sucesso.

Harrison não venceu o Óscar por A Testemunha e, depois da cerimónia, num tom diplomático mas contundente, declarou: “Senti-me lisonjeado pela companhia, mas não acredito na competição. Não se pode comparar dois esforços diferentes em dois filmes diferentes e dizer que um é melhor do que o outro. Acho um disparate.” Quando lhe perguntaram do que menos gostava na sua personalidade, Ford repondeu: “Não esqueço… Guardo rancores e não devia fazê-lo.”

Lançado em 1986, A Costa do Mosquito não foi um grande sucesso. Mas Harry envolveu-se noutro filme, dos que mais o marcou a nível pessoal: Acompanhou a mulher, Melissa Mathison, a Paris, onde ela se encontraria com Roman Polanski, para que discutissem o argumento de Tintin, que haveria de ser adiado (até recentemente). Harrison apreciou a vitalidade de Polanski, e o realizador explicou-lhe, animado, a ideia de Frenético. Esta história, em que um cirurgião procura desesperadamente a mulher, raptada em Paris, agradou a Ford: “Se o guião for como me contaste, entro no filme”, garantiu a Polanski.

Em Frantic com Emmanuelle Seigner.
Em Frantic com Emmanuelle Seigner.

Ford ficou muito magoado pelas críticas negativas a A Costa do Mosquito, e o afastamento dos EUA veio a calhar. Por esta altura, disse ao crítico Gene Siskel:

“O meu trabalho não é mostrar-vos o que eu tenho em comum com a minha personagem. O meu trabalho é mostrar-vos que vocês e a personagem – mesmo uma que seja um tanto louca – partilham algo.”

A pressão psicológica de interpretar ‘Dr. Walker’ afetou o ator. Começou a recear pela sua família, tal como o personagem, e a sua disponibilidade para correr riscos horrorizou a equipa. Numa sequência, tinha de ficar pendurado num telhado, a 10 metros do solo. “Polanski e Harrison andaram a passear por aquele telhado íngreme como dois miúdos, a conceber os planos. Se tivessem caído, tinham morrido”, diz o editor Sam O’Steen, que abandonou o set, assustado, após três takes.

Terminado o trabalho, Harrison regressou ao seu rancho de 325 hectares no Wyoming, elaborando a casa, o celeiro e a oficina, novamente dedicado à carpintaria e determinado em preservar a vida selvagem, impedindo construções que poriam em perigo águias, veados, alces e falcões.

O seu filme seguinte foi Uma Mulher de Sucesso, de Mike Nichols, com Sigourney Weaver e Melanie Griffith. A química com Griffith acabou por ser um dos pontos fortes da obra, com a atriz a afirmar: “Foi tão fácil trabalhar com ele. Olhamo-lo nos olhos e sentimos que está uma verdadeira pessoa ali. Ele ouve, reage, dá imenso. Ajudou-me muitíssimo.”

Durante uma pausa na rodagem, um jovem e tímido caçador de autógrafos andava pelo set, ansioso por conhecer ‘Indiana Jones’. Aproximou-se de um ator e perguntou: “Desculpe, senhor, onde posso encontrar Harrison Ford?” “Oh, ele está por aqui, algures. Tem calças claras e um blusão”, respondeu o ator. “Oh! É o senhor!”, disse a criança. O realizador Mike Nichols comenta: “Harrison típico. Encontrou a forma mais gentil de o dizer ao miúdo, sem lhe ferir os sentimentos.”

Mas, entre projetos, era difícil encontrá-lo. Regressava ao seu rancho, para “recuperar o equilíbrio”. “Preciso de estar numa situação onde os meus caprichos não são satisfeitos. Procuro os meus pregos, faço as minhas compras, lavo os meus pratos.” Harrison tinha por hábito dizer que “ser normal é uma espécie de vitória”.

AMIGOS

Presumível Inocente, de Alan J. Pakula, foi outro sucesso, com Ford a interpretar magistralmente um advogado reprimido e adúltero, acusado de assassinar uma colega. Pakula, um realizador de topo em Hollywood, até ficou embaraçado ao ver o trabalho do ator. “A meio da filmagem, fui-lhe dizer: ‘Não quero soar paternalista, Harrison, mas, quando começámos o filme, achava-te um ator/estrela de cinema muito bom, o que respeito. Mas és mais do que isso. Sabes o que me surpreendeu? O facto de eu não saber o que ias fazer a seguir.’”

Regarding Henry (1991).
Regarding Henry (1991).

Numa das cenas mais intensas do filme, o foco iria para Bonnie Bedelia, que defenderia o marido. Mas foi Harrison que dominou silenciosamente a cena. Começou inesperadamente a chorar. Pakula não lho pedira. E os takes repetiam-se, sempre com a mesma reação: lágrimas. O realizador interpretou isto como Harrison a reviver a culpa que sentia pelo fracasso do primeiro casamento, transferindo essa angústia para o personagem.

Desde Uma Mulher de Sucesso, Ford ficara amigo íntimo de Mike Nichols. Decidiram colaborar novamente em O Regresso de Henry (1991), e o ator preparou-se como nunca. Entrevistou neurologistas e cirurgiões e observou discretamente vítimas de danos cerebrais. “Não queríamos ofender a realidade”, comentou Harrison. “Sentíamos uma grande responsabilidade.” O filme não foi um sucesso comercial, apesar de um desempenho poderoso de Harrison Ford.

Para mudar de ritmo, Ford aceita o papel de ‘Jack Ryan’ em Jogos de Poder (1992), onde a componente de ação sobressaía. Roubou o papel a Alec Baldwin, pela segunda vez (a primeira fora em Uma Mulher de Sucesso) e este (modestíssimo) não levou a bem: “Harrison não é sexy, e o público não vai ver o filme.” A receção não foi das melhores, mas o ator empenhou-se: Ao filmar uma cena debaixo de água, num tanque enorme, frio e repleto de bactérias, durante três noites, nunca se queixou. Ao terceiro dia, desabafou, “espero que terminemos hoje”. Foi então que a equipa descobriu que contraira uma infeção dolorosa na pele.

Anne Heche elogiou-o desta forma:

O pequeno Malcolm Ford, inocentemente, respondeu assim à típica pergunta da professora, “o que faz o teu pai?”, na escola: “O meu pai é ator em filmes. Às vezes, faz de bom, outras de mau, e às vezes faz de advogado.” O público queria Harrison num verdadeiro filme de ação. Farto das megalomanias controladoras e dos insultos de Tom Clancy, (autor do romance Jogos de Poder), e depois de recusar JFK, interessou-se por O Fugitivo.

Três semanas depois do início da rodagem, sofreu uma lesão no ligamento do joelho direito. Por sorte, não foi na perna esquerda, lesionada nas filmagens de Os Salteadores da Arca Perdida. Cheio de dores, teve de aguentar horas mergulhado em água gelada. Noutra perseguição, voltou a ferir o joelho. Vemo-lo a coxear no filme, e com razões para isso. No final, o obstinado Ford teve de ser operado duas vezes e acabou de canadianas. O filme foi um sucesso.

Ao filmar Perigo Imediato (1994), Harry já estava novamente em ação. Uma cena de pancadaria envolvia o ator português Joaquim de Almeida, que ficou pasmado ao ver a sua habilidade em tais coreografias, resultado de anos de experiência. Almeida insistiu que queria substituir o seu duplo, e Ford, reticente, concordou.

A meio da luta, Joaquim de Almeida acertou um pontapé entre as pernas de Harrison, que ficou dobrado em dois. Alguém murmurou, “céus, em cheio na ‘mercadoria’…” Harry ergueu-se a custo e puxou o braço para trás de punho fechado, pronto a agredir o ator português. Esticou o braço e mostrou-lhe o dedo médio, antes de rugir: “É exatamente por isto que não vais fazer esta cena!”

Entretanto, Harrison não esquecia os amigos – tanto ele como a esposa ajudaram Carrie Fisher a superar a toxicodependência. “Não é à toa que ele interpreta tantos heróis. É alguém em quem nos podemos fiar, seja para salvar a galáxia ou para fazer um curativo num dedo de uma criança”, elogiou a atriz. Também Cindy Williams não esquece que, em 1974, enquanto Harrison filmava The Conversation em São Francisco, foi internada com uma grave infeção viral. Acordou uma manhã com um violinista a tocar no quarto. Não fora enviado por Coppola ou Fred Roos, mas por um dos elementos mais pobres do elenco.

Tributo a Harrison Ford:

Inventaram romances entre ele e Julia Ormond, com quem filmou Sabrina, em 1995. A irreverente atriz riu-se:

“Se Harrison Ford tivesse um caso com alguém, ia pôr-se aos linguados no meio de uma ponte pública em Paris? Tenham juízo. Não sei que vida sexual têm os jornalistas, mas, com o resto do mundo, há genitais envolvidos.” Julia achou Harrison inseguro e acrescentou: “Acho que ele não tem noção da estima que sentem por ele.”

O amigo Mike Nichols resumiu a importância que a privacidade tem para Ford: “Os atores de grande sucesso pagam um tremendo preço – a vergonha de fazerem algo que não é suficientemente sério ou másculo. Por isso, bebem, drogam-se; por isso é que andam no engate. O rigor e o sentido prático de Harrison, a sua dedicação à família, as suas fugas a eventos sociais, a abordagem de carpinteiro com que encara a representação, protegeram-no, em certa medida, da inquietude e da perda do amor-próprio.”

Já multimilionário, Harrison doou quantias enormes a causas que defendia, de Madagáscar à Amazónia, passando pela comunidade Amish, a associações de combate ao cancro infantil, fundações de arqueologia, apoiando o Tibete. Mas uma cláusula nestes donativos era indispensável: O anonimato.

Tal foi difícil de manter, o que o irritou. Harrison Ford tornara-se no fulcro dos seus filmes, um rosto conhecido em todo o mundo. Mas, tal como Julie Burchill do Sunday Times escreveu: “O ecrã parece mais vivo quando Ford o preenche, fazendo coisas monótonas como comprar um bilhete de avião ou falar ao telefone, do que quando vemos explosões e perseguições. Ele é a ação.” Anthony Hopkins descreveu-o como “o maior ator de cinema americano”.

Teimoso e enervado, Harrison respondeu da seguinte forma a todos os elogios, encolhendo os ombros: “Dizem que a prática leva à perfeição. Mas não estou certo quanto à perfeição.”

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. Al Reiffer diz:

    Caro, David: Realmente, deveria ter lhe citado, no caso, seu nome. O blog considero citado no momento que coloquei o link. Faço sempre assim quando cito blogs. Mas tem razão, deveria ter citado também o seu nome. Não, não foi por falta de humildade que não citei, foi um erro simplesmente, um lapso, que irei corrigir. Quando disse “outros que não eu”, queria me referir a opiniões de outras pessoas que coloquei ali, no caso, o próprio Larry Grobel, que claro, retirei do seu blog. Peço desculpas por meu erro e parabenizo seu site pelo excelente trabalho. Quando quiser conferir, seu nome estará mencionado lá. Obrigado.

    1. Ok, Al. Tudo bem. Pode citar sempre que quiser, o que quiser. Garanto-lhe que, se eu fizer o mesmo, pode ficar descansado que lhe dou o crédito. Tratou-se, pelo que vejo, de um mal-entendido de parte a parte. Aliás, como lhe disse, pôs o link e agradeço-lhe a divulgação. Parabéns também pelo seu site, que terei de ver com mais cuidado, apesar de tudo. Temos algo em comum: Já vimos os filmes de Pacino várias vezes. Obrigado pelo seu comentário e apareça sempre, que é bem-vindo. Abraço.

  2. Al Reiffer diz:

    Grato, David. Seja sempre bem-vindo lá. Deixei seu site entre os favoritos. Um abraço.

    1. De nada, Al. Obrigado eu. Vi que se dedica bastante à literatura. Vou ver melhor o seu site (que já tem uns anos de atividade…). Abraço.

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