Harrison Ford faz 70 anos: Igual a si próprio

harrison fordDesde o início, Harrison estava determinado em ser bem-sucedido de acordo com os seus termos. Durante 15 anos, sofreu rejeições amargas. Introvertido e inteligente, por vezes, frustrado, dotado de um humor sarcástico, o ator desistiu, mas voltou sempre à carga. A carpintaria devolveu-lhe a autoestima, a sua noção dos princípios e da ética do trabalho raramente lhe falhou. Recordo a carreira extraordinária do homem que disse, “eu nunca quis ser uma estrela. Queria entrar em filmes que fossem estrelas”. É um dos maiores casos de sucesso do cinema, mas nunca perdoou certas coisas ao sucesso.

Acho que ser ator foi algo que se desenvolveu em mim, por não me sentir integrado na sociedade.

1955. Quando entrou para o liceu de Meltzer, aos 12 anos, o aluno era um outsider. O pai era irlandês e a mãe, judia, usava o cabelo muito curto e vestia-se de modo tradicional. Era algo solitário, de sorriso ligeiramente sarcástico, e as raparigas riam-se dele. Este ar de arrogância serena despoletou a ira dos bullies de Des Plaines, no Illinois. Durante os intervalos, o bando de rufias agredia-o, antes de o atirar sobre uma vedação, pelo que o jovem caia por uma ribanceira íngreme. De início, a multidão assistia, mas, quando a cena se tornou rotineira, poucos apareciam. De cada vez que a atiravam sobre a vedação, a vítima erguia-se e trepava, incitando, com o seu sorriso sarcástico, os atacantes para que tentassem fazê-lo novamente. A princípio, estes obedeciam, mas a atitude do rapaz depressa os desencorajou.

harrison ford youngEstavam já enraizados em Harry Ford, a perseverança e o espírito combativo que herdara dos seus antepassados. A avó, Anna Lifshutz, fugira da Rússia aos 19 anos, uma entre a multidão de dois milhões de judeus em êxodo, perseguida pelo czar. Foi uma das imigrantes a ver a Estátua da Liberdade, a passar por Ellis Island e a assentar em Brooklyn. A sua filha, Dora, conheceria Christopher Ford, um irlandês em Chicago. Às 11:00 de uma quarta-feira, Dora Ford dava à luz um rapaz que, dias depois, foi registado com o nome do seu avô materno: Harrison Ford.

O ator brincaria, muitos anos depois: “Julgo que é Yiddish e significa ‘filho de Harry’, embora eu não fosse filho de Harry.” Christopher, que trabalhou em rádio e, mais tarde, em publicidade, bem como a mãe, atriz em part-time, educaram Harry (era assim que o tratavam) para que fosse trabalhador. Na escola, o rapaz era cáustico. Uma colega, Marilyn Fox, recorda que, quando o viu no papel de ‘Han Solo’, achou que ele não estava a representar.

“Era um rapaz alto e magro, que parecia ter resposta para tudo. Harry não era gabarola, mas também não se acanhava ou receava ser quem era. Ele sempre foi ele próprio. Muitos miúdos não são assim.”

Sem sentir qualquer interesse por desportos, também não era bom aluno nas restantes disciplinas. Era, contudo, polido, inteligente e começou a trabalhar em diversos empregos quando ainda estudava. “Os meus pais sobreviveram à Grande Depressão. Foi-me ensinada a ética do trabalho. Admiro pessoas que trabalham no duro”, viria a dizer. Era um jovem calado e, na companhia de pessoas que não conhecia, fechava-se completamente.

Na faculdade, estes traços mantiveram-se, mas a popularidade entre as colegas modificou-se. Herdara a sonora voz de baixo do seu pai e usava o cabelo comprido. Foi então que começou a entrar em peças de teatro, o que lhe despertou o interesse. Mais tarde, comentaria:

“Eu nunca pensara no que queria ser quando crescesse. Não percebia que não havia a opção de ‘não crescer’. E, quando entendi isso, percebi que havia uma profissão para mim.”

harrison ford 3EM ROTA DE COLISÃO

O seu fracasso académico continuou na faculdade, em Ripon, o que provocou uma depressão em Harrison, apesar da sua popularidade entre o sexo feminino. Foi quando conheceu Mary Louise Marquardt, uma rapariga introspetiva, inteligente e boa aluna, que já perdera ambos os pais. Apesar de serem diferentes, Mary e Harrison apaixonaram-se. O aspirante a ator abandonou a faculdade e chocou os pais com mais uma notícia: Ia casar com Mary.

Por sorte, através de uma amiga, Harrison entrou em contacto com William Fucik, um respeitado ensaiador teatral, que já ensinara muito a um certo Paul Newman. Harrison conseguira impressionar o suficiente nas suas interpretações para integrar a companhia The Belfry Players. Em 1964, casa com Mary, perante a desaprovação dos amigos, que o achavam o “rapaz com menos hipóteses de ser bem-sucedido”. Embora fosse dono de uma presença imponente, ninguém o achava grande ator.

Quando o diretor técnico da companhia a abandonou, Harry tomou a iniciativa de construir e erguer os cenários, descobrindo assim uma habilidade inata com pregos e martelos. “Foi a primeira vez que me senti à-vontade a colaborar com pessoas. Era uma oportunidade de viver outras vidas e de experimentar coisas que não podia experimentar na minha vida”, refletiu, anos depois.

Obtendo críticas cada vez mais positivas, e conquistando o apoio de Fucik, dos seus pais (agora, sim) e de Mary, Harrison seguiu o conselho do mentor e decidiu ir para Hollywood, já que era mais fácil ser-se pobre na Califórnia do que em Nova Iorque.

Foi nesta época que sofreu um acidente de automóvel. Depois de uma curva difícil, apercebeu-se que não tinha colocado o cinto e, quando se virou para o apertar, o carro despistou-se. Com sangue a escorrer-lhe pelo rosto, saiu e enfureceu-se, já que nenhum dos condutores lhe dava auxílio. “Finalmente, um parou e levou-me ao hospital.” O trabalho do médico foi amador, deixando-o com uma cicatriz bem visível no queixo.

harrison ford 2

Apenas com 22 anos, foi a uma entrevista e, após várias perguntas ríspidas, regressou ao átrio. Antes de descer no elevador, decidiu ir à casa de banho e, ao regressar, um assistente apareceu a correr: “Você não é do tipo que normalmente contratamos, mas gostava de assinar um contrato?” “Claro”, respondeu Harrison. Durante o tempo em que o ator foi aos lavabos, bastaram quatro telefonemas dentro do gabinete, para a decisão ser tomada. Harrison seria inscrito no programa para novos talentos da Columbia Pictures. Pouco depois, entraria em rota de colisão com os velhos valores do studio system de Hollywood.

A primeira aparição no grande ecrã:

“Quando era novo, achava-me um rebelde, mas quando cheguei aos 23, percebi que não passava de um filho da mãe teimoso que não queria fazer as coisas do modo que todos esperavam.”

UMA INDÚSTRIA F…

As indignidades que sofreu, transformaram o já sarcástico Ford num iconoclasta: “Não quero ser estrela de cinema, quero entrar em filmes que sejam estrelas”, insurgiu-se, certa vez.

Disseram-lhe que o nome Harrison era demasiado pretensioso e, quando lhe perguntaram se tinha uma sugestão, o ator respondeu com o nome mais ridículo que lhe ocorreu: “Que tal Kurt Affair?” Doutra vez, por não gostarem do seu penteado, cortaram-lhe o cabelo à Elvis, o que o deixou furibundo.

O problema de Harrison J. Ford (nome com que se registou na Screen Actor’s Guild, por já ter existido outro ator com um nome igual ao seu) foi o timing. O velho sistema de Hollywood começava a decair, mas havia quem quisesse manter tais valores vivos, desde o protótipo do galã, ao tipo de história. “Cheguei a uma indústria que estava completamente fodida”, disparou Ford, sem rodeios.

Já referi o começo pouco auspicioso de Harrison em Hollywood, no artigo «O meu nome é Ford… Harrison Ford», pelo que prossigo a história a partir daí.

No programa de novos talentos, Harrison conheceu o ator Paul Winfield. “Ele era o meu único amigo”, diz Winfield. “Era um sopro de ar fresco, não julgava as pessoas ao lidar com elas, e penso que não mudou muito nesse aspeto.” Na altura em foi rejeitado para o papel que transformou Dustin Hoffman numa estrela, The Graduate, Harrison já se estava borrifando. Usava o cabelo comprido, barba por fazer, jeans e uma camisola de trabalho. Foi com impassibilidade que recebeu a notícia, após mais uma recusa – o chefe do estúdio dizia a todos para o esquecerem, ele não tinha futuro no negócio.

Declarando-se objetor de consciência, não foi alistado para o Vietname, atitude arriscada naqueles tempos. “Embora não me importasse de desempenhar uma função alternativa no exército, não queria matar pessoas.” Passou alguns meses na expectativa, mas nunca recebeu uma resposta à sua declaração e não foi chamado.

Com o nascimento do seu primeiro filho, Harrison tinha de arranjar emprego e depressa. O seu agente, Walter Beakel, achava que o “miúdo” tinha talento. “Era óbvio o seu potencial, mas ainda não amadurecera.” Depois da traumatizante experiência na Columbia, Harry transita para a Universal, onde conheceu outro ator, Don Stroud. “Ele sempre foi um rebelde… calças de ganga, botas, era diferente.” Alguns achavam-no um “pain in the ass”. Foi novamente recusado para o papel de ‘Joe Buck’ em Midnight Cowboy, que lançou Jon Voight.

As rejeições eram duras e, em casa, Harrison nem sempre era uma pessoa fácil. A frustração tornou-se em raiva. Com o seu ar de hippy e barba à Jerry Garcia, aceitou integrar a equipa de filmagens de um concerto dos The Doors, como segundo cameraman. “Acho que nada do que filmei ficou focado…”

“No fim dos anos 60, todos os estúdios produziam os maiores filmes na Europa. Toda a gente em Hollywood tomava LSD e fumava droga e eu era um ator bebé que não ia a lado nenhum.”

UM CARPINTEIRO PERFECIONISTA

Harrison Ford oficina
Trabalhando na oficina.

A sorte de Harrison mudou um pouco quando o seu agente o apresentou a Fred Roos, um diretor de casting muito requisitado. “Quando os atores aparecem para nos falar, gostam de agradar para que lhes deem papéis. Mas ele não recuava um milímetro. Consegui pô-lo à-vontade, mas ele não fazia nada por se autopromover.” Intrigado, Roos passou uma hora à conversa com Harry. “Ele era sarcástico, suspeitava imenso da indústria e encarava-a com cinismo. Demo-nos bem”, afirma Fred Roos.

Mas as rejeições continuavam. Roos recomendou-o para protagonista de Zabriskie Point de Antonioni, mas Harrison não se deu bem o realizador, que o remeteu para um papel secundário que seria cortado na montagem. O diretor de casting comenta que “Harry não era um protagonista, de acordo com os estereótipos da época. A sua maior qualidade era a sua masculinidade, uma espécie de intensidade perigosa combinada com humor cáustico. E era muito confiante, sem cair na gabarolice. Mas não consegui convencer Michelangelo”.

Quanto a Ford, restava-lhe a ironia… “Se achamos que não estamos a ir a lado nenhum e paramos, então já não vamos a lado nenhum”.

Desempregado, Harrison comprou uma casa com Mary, planeando reconstruí-la por si mesmo. Armado de ferramentas, instalou uma oficina na garagem. Um amigo disse-lhe que faltavam bons artesãos em Hollywood e que o músico brasileiro Sérgio Mendes queria que lhe construíssem um estúdio. Harrison encontrou-se com Mendes, levando uma planta para o projeto. O músico ficou tão impressionado que lhe ofereceu um contrato de 100 mil dólares.

Enquanto estudava livros de carpintaria e arquitetura, o inexperiente Ford socorreu-se de ajudantes experimentados e construiu uma obra excelente. “Às vezes, estava no telhado de Mendes, de livro na mão”, relembraria. Pouco depois, já executava trabalhos para o realizador Richard Fleischer e a atriz Sally Kellerman. Até Fred Roos o contratou, apreciando o seu perfecionismo. De camas a secretárias e armários, fez um pouco de tudo, mas não levava barato: “Queres um pedaço de merda, ou uma obra de arte de que os teus netos se orgulhem? Anda lá, Fred, dólares, dólares…”

Um teste para um papel que não obteve:

Mais uma vez, Fred Roos apoiou-o, sugerindo-lhe um encontro com Patricia McQueeney, uma agente. “Quando o vi na sala de espera, de mãos entre os joelhos, olhando-me de baixo para cima, totalmente desconfortável, pensei, ‘que raio hei-de fazer com este?’” Contudo McQueeney aceitou agir em seu benefício, apesar de o achar “teimoso como uma mula. Mesmo quando não era conhecido, escolhia os papéis com cautela. Eu bem podia dar saltos e berrar que não o demovia”. Um dos papéis que recusou foi o de ‘Meathead’ no gigantesco sucesso televisivo Uma Família às Direitas (All in the Family), por não gostar da personagem de ‘Archie Bunker’ e dos seus discursos racistas e retrógrados.

Mesmo quando ia a castings, aparecia com a farda de trabalho, jeans e camisa de ganga. McQueeney recebia chamadas, “quem era este tipo hostil que me mandaste? Pensei que me ia dar um murro!”

A NOVA GERAÇÃO

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The Conversation (1974).

Felizmente, para Harrison, surgiu entretanto uma nova fornada de jovens realizadores que não partilhavam dos antigos valores dos estúdios, nomes como John Carpenter, Robert Zemeckis, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas. Fred Roos auxiliara Coppola em The Godfather, descobrindo talentos como Al Pacino e resgatando Diane Keaton e James Caan do esquecimento a que o trabalho televisivo os votara. Agora, George Lucas procurava atores para o seu projeto. Harrison fez um teste e, dias depois, foi contratado para American Graffiti (1973). George Lucas revela que “a rodagem foi aborrecida, já que decorria de noite. E, visto que Harrison entrava em todo o filme mas não trabalhava todos os dias, tinha tendência para beber muita cerveja”.

Harrison e Paul Le Mat compuseram uma dupla terrível. Faziam corridas de automóvel em redor do Holiday Inn onde a equipa se instalara, urinavam na máquina de bebidas do hotel e tentaram deitar fogo ao quarto de George Lucas! Isto culminou numa noite em que, maçados, “ambos atiravam garrafas vazias de cerveja da varanda para o parque de estacionamento”, refere a atriz Candy Clark. Depois de uma delas atingir o para-brisas de um Cadillac, gerou-se uma discussão com outro ator, Richard Dreyfuss, que tinha de filmar close-ups nessa noite. Harrison atirou-o de uma janela do segundo andar, e Richard aterrou de cabeça na zona menos profunda da piscina, sofrendo ferimentos no rosto. Harrison foi expulso do hotel.

O ator admite, que nesses tempos, era um bocado “espalha-brasas”, mas acrescenta: “Se estivesse na companhia de padres, talvez me comportasse doutro modo.” Porém, apesar da irresponsabilidade, Ford mostrou outra faceta. Havia um motorista que não gostava de conduzir os atores ao set e tratava-os com desrespeito. Depois de uma cena cansativa, Ford, Ron Howard, Cindy Williams e Charlie Martin-Smith, viram que o motorista estava a grande distância, esperando que eles caminhassem até ao carro.

Os atores, habituados, começaram a andar, mas “Harrison disse, com gentileza, detendo-nos: ‘Não. Ele vem até nós’”, recorda Cindy Williams. “Durante alguns minutos, ficou a olhar para o motorista, até que ele entendeu e veio.” Mas a lição não terminara. “Quando entrávamos no carro, Harrison voltou a afastar-nos. Desta vez, dirigiu-se ao motorista: ‘Sai do carro e abre as portas.’ O homem obedeceu.”

“Harrison é como um bom Rei Salomão. Aquilo significou muito para nós, visto que o tipo nos desmoralizava diariamente. A nível pessoal, Harrison é um defensor do cidadão anónimo, bate-se por ele, já que também o foi. Às vezes, abria a boca, não dizia o politicamente correto, adquirindo reputação de bad boy. É generoso e tem a noção da justiça”, conclui Williams, de quem ficaria amigo.

O ator prosseguiu a carreira com trabalhos na TV e, num deles, foi atirado de um cavalo, perdendo os dentes da frente. A frustração de Ford era notória, quando colegas sem talento o ultrapassavam, mas ninguém o via a dar murros às paredes. Não era do seu feitio enraivecer-se em público. “Quando choro, faço-o sozinho”, confessou. “É a minha natureza. Fecho-me, e nem a minha mulher consegue chegar até mim.”

UM VOO A SOLO

Fred Roos não desistira de convencer George Lucas a contratar Ford para o seu próximo projeto, uma fantasia espacial, mas este recusava, em parte, devido ao comportamento errático demonstrado em American Graffiti. De modo pouco convencional, Roos pediu a Ford para construir uma elaborada porta para os estúdios Zoetrope, a companhia que geria com Coppola.

Ora, George Lucas fazia o casting na porta ao lado e Harrison, enfurecido, martelava o mais ruidosamente possível. E disse a Fred Roos: “O Lucas anda por aqui, não quero que ele me veja a trabalhar numa merda de uma porta!”

A certa altura, quem havia de aparecer para uma audição senão Richard Dreyfuss, que aproveitou para se vingar da queda na piscina, imitando um ajudante de carpinteiro e humilhando Ford, que se sentiu “do tamanho de uma ervilha”.

Frustrado, George Lucas testou centenas de atores para o papel de ‘Han Solo’. E todos os dias passava por Harrison, que continuava, com um sorriso sarcástico, às marteladas na porta ao lado. Ficou intrigado e perguntou-lhe se queria ajudar, lendo as deixas aos candidatos. Ford concordou. Ao assistir aos testes de filmagem em que Harrison participava, Lucas compreendeu o que Roos já lhe dissera, vezes sem conta: ‘Han Solo’ estava debaixo do seu nariz. “Era ele, de longe”, comenta George Lucas. “Projetava aquela inteligência esquiva misturada com rudeza física.”

As ferramentas ficaram à porta do edifício da Zoetrope. O plano de Fred Roos resultara.

Contudo, Ford recebeu menos pelo papel de ‘Han Solo’ do que pelo seu trabalho de carpinteiro. A equipa partiu para os estúdios de Elstree, em Inglaterra, na primavera de 1976. Ninguém percebia nada do argumento. Peter Mayhew, que interpretou ‘Chewbacca’, o parceiro de ‘Han Solo’, graceja: “Diziam-nos que os efeitos especiais seriam adicionados depois, mas quando nos era dito que a nave espacial atravessava um campo de asteroides, sabíamos lá o que visualizar…”

Todos tinham problemas com os diálogos. Carrie Fisher detestava a frase: “Pensei reconhecer o seu fedor quando me trouxeram para bordo, Governador Tarkin.” Comentário de Harrison ao realizador: “Podes datilografar estas merdas, George, mas dizê-las, ninguém consegue…”

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Ford e Carrie Fisher.

Durante as filmagens de Star Wars, Harrison e Carrie Fisher tornaram-se grandes amigos. Suspeita-se que tenham sido mais do que isso. Fisher não esconde o que sentiu quando viu Ford, pela primeira vez: “Parecia que trazia uma arma, mesmo que não fosse o caso. É um animal másculo, incrivelmente atraente… um garanhão carpinteiro. Nunca senti nada assim por ninguém. Pressenti logo que se tornaria numa estrela, na linha de Tracy ou Bogart.”

Harrison e Fisher tornaram-se inseparáveis. A atriz de 19 anos, prestes a cair num problema com as drogas que quase a levaria à autodestruição, fumava marijuana abertamente. E Harrison juntava-se a ela. Quando ninguém encontrava Harrison, era comum alguém gritar, “já tentaste no camarim da Carrie Fisher?”, recorda David Prowse, que representava ‘Darth Vader’…

Uma presença no set, benéfica para todos, foi a de Alec Guinness, que, inclusivamente, ajudou Harrison a encontrar apartamento em Londres. “Eu já conhecia as rebeldias de Harrison, mas vi nele uma nova maturidade, devido à influência de Guinness, que ele muito respeitava”, disse George Lucas. Harrison Ford recusou-se a memorizar algumas deixas, pedindo a Lucas que o deixasse improvisar. Numa das melhores cenas de ‘Han Solo’, sem saber o que dizer, inventa desculpas (pois não sabia efetivamente as deixas) e rebenta com um intercomunicador. Lucas gostou e a cena ficou.

Quando regressou aos EUA e lhe perguntaram em que trabalhara, Harrison respondeu, “oh, num western espacial”. Pois sim, o sucesso estrondoso de Star Wars, fez com que Harrison deixasse a meio trabalhos de carpintaria. Sally Kellerman lamentou-se: “Sabia que ele teria a sua oportunidade, mas nunca pensei que fosse enquanto pintava a minha cozinha!” O agente, Walter Beakel, comentou: “O papel de ‘Han Solo’ foi como se ele entrasse numa loja de vestuário e tivessem um fato à medida. Aquele humor, a maneira como olhava de cima para baixo. Aquilo era o Harry. Foi perfeito.”

O OUTRO LADO DA MOEDA

Harrison Ford Hanover Street
Em Hanover Street, com Lesley-Anne Down.

Os jornalistas ficavam confundidos ao descobrirem o alter-ego de ‘Solo’, pensativo, de óculos. Até dera origem ao “Clube de fãs de Han Solo”. Mas veio o reverso da medalha: Quando Harrison foi para Londres filmar Hanover Street, com Christopher Plummer e Lesley-Anne Down, o seu casamento desagregava-se. E envolveu-se com a sedutora Lesley. A história rebentou nos tabloides, e um exasperado Ford não ajudou, ao responder ambiguamente à imprensa: “Querem que faça o quê? Que negue?”

Fred Roos, desconhecendo as dificuldades conjugais de Harrison, apresentou-o a Melissa Mathison, que se tornou sua amiga e, mais tarde, na sua segunda mulher. Entre colegas, dizia-se que Harrison procedera de modo desprezível, as más-línguas comentavam que “arranjara uma mulher mais a condizer”, ao passo que Mary o apoiara durante anos e anos de rejeições, tratando dos filhos, quando Harry se ausentava em trabalho. Todos gostavam dela. Mas Carrie Fisher teve uma opinião diferente. “Eram casados desde miúdos, há 15 anos. A culpa não foi do estrelato. Simplesmente, deu o que tinha a dar. Mary era fantástica, mas reparei que já não havia nada entre eles.”

Verdade seja dita, Ford sofreu bastante com o divórcio e tinha vários problemas de consciência, achando-se um mau pai e um marido negligente. Durante este período, a própria Mary telefonou aos amigos de Harrison, dizendo-lhes para o apoiarem e não lhe virarem as costas.

Anos depois, Harrison Ford comentou o fim do casamento: “O sucesso separou-nos cada vez mais. É algo que nunca lhe perdoarei.”

Continua no artigo seguinte.

David Furtado

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