Suzanne Vega aos 53 anos: Nova Iorque é uma mulher

A rapariga que escreveu «Luka» e se tornou um sucesso internacional, já não pertence a uma grande editora. Depois de vários álbuns editados pela A&M, o sétimo disco de Suzanne Nadine Vega, Beauty & Crime, (2007) foi o último com material original. No dia do seu aniversário, recordo Suzanne de quatro modos: Como manteve a carreira ativa, a sua relação com Portugal, o último álbum de originais e as impressões de um concerto memorável.

Desenho de David Furtado.
Desenho de David Furtado.

Beauty & Crime (2007) foi editado pela Blue Note, seis anos depois de Songs in Red and Gray (2001), um álbum excelente, ainda que possua um tom sombrio, já que várias canções são sobre o seu divórcio. Em 2008, o contrato de Suzanne Vega não foi renovado, pelo que ficou sem editora. Por isso, fundou a Amanuensis Productions. Como a própria explica:

“Um amanuense é um escriba, alguém que anota o que lhe é ditado. É uma forma antiga de ‘secretária’, além de que o termo ‘amanuensis’ me soou muito bonito. Às vezes, quando estou a compor uma canção, parece que outra fonte maior me está a ditar. Por isso, arranjei um logotipo, que sou eu com uma caneta e os meus óculos…”

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“Um escriba era geralmente um servo, antigamente. Ironicamente, ao fundar a Amanuensis Productions, consegui ser dona das masters do meu trabalho. Achei engraçado que o servo consiga dominar os mestres, as masters. São tudo inside jokes.”

Não tão engraçado é o facto de todos os CD de Suzanne Vega, excetuando Solitude Standing, terem sido descatalogados. Visto que o seu contrato com a A&M terminou, se Suzanne quisesse que os reeditassem, teria de combater a discográfica, contratando advogados e despendendo enormes quantias. A cantora encontrou outra solução: Regravou o seu material todo, em versões acústicas, separando-o por temas.

Em 2010, editou Close-Up Vol. 1, Love Songs e Close-Up Vol. 2, People & Places. Em 2011, foi a vez de Close-Up Vol. 3, States of Being e, no próximo mês, será lançado Close-Up Vol. 4, Songs of Family. O segundo volume desta série alcançou o 2º lugar do top de vendas da Amazon.com.

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“Deste modo, sou dona das masters”, explica Vega, “e posso vendê-las até ao fim da minha vida. Há 27 anos, quando assinei pela A&M, nunca teria pedido para ser dona delas. Obtive o normal, 12 a 15 por cento dos lucros”.

Suzanne Vega afirma que fez algum dinheiro com os seus primeiros discos, “o suficiente para comprar um apartamento e coisas assim. Mas as pessoas têm esta espécie de ideia de que, quando somos conhecidos, ultrapassámos o arco-íris e vamos andar de limousine o resto da vida, o que não é o caso… de todo”.

Se bem que seja compreensível a atitude de Vega, ouvi-la a interpretar «Gypsy», por exemplo, de forma idêntica a outras versões, deixa-nos a ansiar por um álbum de originais. Felizmente, a cantora revelou há dias, no Facebook, que está a compor temas novos.

Quanto à série Close-Up, afirma: “A maioria das vezes, sou eu e a guitarra, noutras, é a canção do modo que a compus originalmente, e outras, modifiquei-as, por tê-las tocado tantas vezes ao vivo. Nesta nova economia, tenho feito digressões de modo básico; geralmente sou só eu e a guitarra, ou com Mike Visceglia no baixo.” Apesar destes solavancos, Vega tem realizado extensas digressões pela Europa e Estados Unidos e mantém a sua base de fãs, incluindo em Portugal.

À semelhança de Mark Knopfler, Suzanne percebeu que as suas canções podem ser agrupadas por tema. “Não gostei da ideia, ‘vou regravar o meu primeiro álbum’. É interessante ordená-las assim, porque vemos os paralelos entre as antigas canções e as novas, e juntamo-las.”

TOM’S DINER

Recentemente, Suzanne regressou ao Tom’s Diner, em Nova Iorque, lugar que inspirou outro dos seus êxitos: “Estava sentada àquele balcão, certa manhã, e comecei a imaginar cenas sobre pessoas que se sentissem alienadas relativamente a todos os que as rodeavam. Na verdade, chama-se Tom’s Restaurant, o que não soa tão bem. Um ‘diner’ é uma espécie de ponto intermédio entre a rua e uma área privada. Podemos falar de coisas íntimas, de negócios, acabar com o namorado…”

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Ao vivo no Royal Albert Hall, a 18 de novembro de 1986:

“Penso que a canção foi um sucesso por causa da melodia e por toda a gente adorar um ‘diner’, e poder reinterpretar várias visões que dele tem. A grande ironia é que, sendo uma canção sobre estar aqui sentada, sobre a solidão, sobre sentirmo-nos desligados da humanidade… interpretei-a perante 10 mil pessoas, e todas cantavam o ta-ta-ta-ra, ta-ta-ra-ra, em uníssono, alegres e unidas.”

A RELAÇÃO COM PORTUGAL*

“Portugal?”, diz o meu irmão. “Não é um país inteiramente costeiro?” “Sim”, respondo-lhe eu, “é uma costa inteira com milhas de praia. É um país piscatório, onde os pescadores ainda partem todos os dias, e as pessoas cozinham sardinhas, assando-as na grelha, nas estreitas e tortuosas ruas das partes mais antigas de Lisboa. Lembro-me de ter visto o oceano pela primeira vez em Portugal. Era de noite, e o restaurante do hotel oferecia uma vista sobre as águas. Eu queria saber qual era a cor. Azul, turquesa ou verde?”

Suzanne Vega com a bandeira portuguesa.
Suzanne Vega com a bandeira portuguesa.

“‘Nunca viu o oceano?’, perguntaram-me os meus anfitriões. Certamente, já tinha visto o oceano, mas nunca este. Olhei para a vastidão do mar naquela noite, e depois, na manhã seguinte, observando a límpida e dourada luz do sol sobre tanta água, senti o peso da História.”

“Sente-se esta História no mar, o qual, evidentemente, é eterno; e nos edifícios. A luz e a arquitetura combinam-se para criarem paisagens belas e arrebatadoras, tal como num quadro antigo – as torres e os relógios estampados no jogo de nuvens e mar, possuem um colorido intenso e sedutor, tão diferente da luz pálida, ténue e singela da Alemanha ou do norte da Inglaterra. Estes edifícios respiravam vida durante os séculos que se seguiram à ocupação moura do século VIII, e continuam vivos ainda hoje, embora alguns tenham grafitis muito modernos.”

Canção sobre a foto de Marlene Dietrich, ao vivo em Montreux:

“Mas, para além de todos estes pesados sentimentos históricos, também senti que todas as possibilidades se abriam para o futuro, como se eu fosse uma espécie de Infante D. Henrique feminino, contemplando as avenidas de exploração sobre o horizonte. Tinha a impressão de que, se esforçasse a vista, talvez pudesse avistar o meu apartamento em Manhattan, donde se vê o Rio Hudson. Portugal não está mumificado, ou guardado atrás de um vidro, histórico e cerimonioso, é acessível, às vezes, sujo, outras vezes elegante, mas sempre vivo e amável.”

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Suzanne Vega escreveu diversas vezes para jornais americanos. Sim, de facto, se não fosse cantora/compositora, teria uma bela carreira na escrita. Quando por cá passou, em 1987, chamavam-lhe a “menina da rádio”, à custa de «Luka», e chegou a ser recebida pelo então Presidente da República, Mário Soares.

Com o presidente da república Mário Soares.
Com o presidente Mário Soares.

No seu livro, The Passionate Eye, descreve deste modo a primeira vez que ouviu cantar o fado:

“Acredito que a alma de Portugal, além de estar no mar, está nas canções. Uma noite, fui a um pequeno clube, onde uma mulher cantava sem amplificação sonora, no centro da sala, com a cabeça inclinada para trás, como se estivesse perdida em pranto ou gemendo. Todos se aproximavam para a ouvir. Este era o canto do fado, que começou no século XVI e continua hoje. As canções falam do destino, da sorte e das paixões humanas, e normalmente são muito tristes. Compreendo porquê.”

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“Um homem imponente seguiu-se a ela, e ouvi murmúrios de que este cantor era juiz na sua vida diária. Mais uma vez, fiquei impressionada, já que nos Estados Unidos nunca se veria um juiz a cantar num clube noturno. Aqui, parecia a coisa mais natural do mundo. Quem deveria cantar acerca da sorte e do destino humano, senão um juiz? Enquanto cantava, virava-se em redor, para que todos, na sala, o pudessem ver; pareceu olhar na minha direção e a sua boca abriu-se muito (por minha causa?); um tremendo som de canto e lamento jorrou de dentro dele. Senti-me espalmada contra a parede e, por um momento, fiquei tranquila por ele não ser meu pai e por não ter nenhum motivo para estar zangado comigo, já que eu não quereria provocar tamanha ira. Mais tarde, falámos amigavelmente e ele ofereceu-me uma das suas gravações.”

O ÚLTIMO ÁLBUM DE ORIGINAIS

suzanne vega (23)Nas 11 canções que compõem o disco, Vega exalta Nova Iorque como a cidade da beleza e do crime, com as suas frases curtas, a força musculada das palavras, métrica perfeita e inteligência. Nada de novo. “Sinto que realmente expandi os meus limites”, disse na altura. “Impus a mim mesma ultrapassar a zona em que me sinto confortável, cantando em tons em que não cantaria antes, trabalhei com diferentes texturas, não tive medo de fazer o que sempre me soou bem. Quis criar um clássico moderno.”

À semelhança de Lou Reed, Nova Iorque parece ser o seu ADN: «Zephyr & I» começa com os mesmos acordes de «Vicious», a ponto de parecer uma versão, mas Vega cria uma variação pessoal da melodia. O álbum lembra as narrativas urbanas de Reed. O primeiro concerto que Suzanne alguma vez viu foi justamente um de Lou Reed, nos anos 70. Vega afirma que andava a ouvir Berlin na época em que escreveu «Luka», a sua canção mais conhecida e que lhe deu o reconhecimento devido, em 1987. Mas a canção é muitas vezes incompreendida, já que fala de abuso infantil. O êxito inesperado surpreendeu a própria compositora.

Desde então, Vega fez inúmeras digressões, tendo passado por Portugal várias vezes. Tem uma relação especial com o nosso país. Publicou The Passionate Eye (1999), obra que reúne canções, ensaios, poemas e desenhos. Se não tivesse enveredado pela música, seria poetisa, escritora ou jornalista, “algo relacionado com a escrita definitivamente”, disse uma vez.

Suzanne explica por que fala tanto sobre Nova Iorque neste álbum: “O meu último disco [Songs in Red and Gray] foi editado duas semanas depois do 11 de setembro. Esse trabalho foi muito pessoal, e pareceu-me bizarro estar a falar de todas aquelas canções íntimas durante uma fase pela qual Nova Iorque nunca passara… pensei muito nos últimos seis anos, em Nova Iorque, com a minha filha, simplesmente a passear. Pareceu-me natural escrever um conjunto de canções sobre Nova Iorque, ou pequenas histórias em que a cidade fosse uma das personagens.”

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A lutadora Vega, que praticava Karaté em criança, lida com as perdas nas canções de Beauty & Crime. Em «Ludlow Street», reflete: “Só o amor importa. É a única coisa real. Sei que o ouvimos todos os dias. Mas é a coisa mais difícil de sentir.” Vega explora as camadas de tempo que podem ser pressentidas num único lugar. Ludlow Street, no Lower East Side, foi onde frequentou festas quando ia a caminho dos locais onde os músicos se reuniam, e onde regressaria mais tarde, em circunstâncias diferentes, para ir buscar o irmão, Tim, e levá-lo a um centro de reabilitação. E foi no serviço fúnebre de Tim Vega que Suzanne conheceu o amigo do irmão, o artista de grafitis, Zephyr. Tal como Vega, Zephyr frequentara o Upper West Side nos anos 70.

suzanne vega (7)Os primeiros tempos de cantora folk, em Nova Iorque, não foram simples. Suzanne começou a beber em excesso até que a família fez uma “intervenção”. Confrontaram-na com o que se poderia tornar num problema, e a jovem de 20 e poucos anos aquiesceu. Vega era também uma individualista, uma maria-rapaz, foi criada pela mãe e pelo padrasto. Já depois de ficar famosa, contrataria um detetive particular para conhecer o seu verdadeiro pai.

Os “towies” não são nenhuma sociedade secreta, são os fãs da cantora, algo que deriva da canção «Undertow», uma corrente subterrânea que esteve com ela durante bons e maus momentos, aguardando anos por um novo álbum de originais, já que Vega nunca foi prolífica. Mas também nunca editou material inferior.

«Anniversary», o tema que conclui o álbum, é uma evocação do outono de 2002, quando os nova-iorquinos assinalaram pela primeira vez a tragédia das torres gémeas e quando Vega recordou a morte recente do irmão: “Reserva tempo para todas as tuas possibilidades. Elas vivem em todas as ruas.”

Em «New York is a Woman», a compositora revê essas possibilidades através do olhar de um estrangeiro que lhe relatou a sua primeira visita a Nova Iorque: “Muitas pessoas sentem-se como ele, ficam espantadas perante a sordidez, a grandeza, a beleza e o glamour”, comenta Suzanne. “Olha e vê os seus sítios arruinados, fumo e cinza ainda ascendem até ao céu”, canta Vega, numa das suas melhores canções.

suzanne vega (6)Em «Edith Wharton’s Figurines», Suzanne Vega foca as heroínas urbanas da época de Wharton, a sua inteligência, artifícios, vaidades e temores, contrastando-os com a vida da romancista Olivia Goldsmith (The First Wives Club) que morreu subitamente depois de uma operação plástica de rotina. Segundo Vega, “Goldsmith escreveu um livro acerca de usarmos a nossa beleza natural, do qual gostei bastante. E a sua morte entristeceu-me. Fez-me pensar que o mundo não mudou muito desde o tempo de Wharton. Fazemos tanto por uma beleza que não conseguimos realmente atingir”.

A imaginação de Vega recorda também a relação impossível entre Frank Sinatra e Ava Gardner («Frank & Ava»): “A química não basta”, reflete Suzanne. «Bound» relata o encontro com o seu segundo marido, um poeta que se tornou advogado. Alguém que voltou a entrar na vida de Suzanne mais de 20 anos depois de a ter pedido em casamento:

“Marcou o fluxo da minha vida e muitas vezes pensava nele. Já escrevera sobre ele noutros álbuns. Veio para Nova Iorque quando soube que eu não tinha ninguém. Eu acabara recentemente uma relação. Perguntou-me se eu queria ir patinar no gelo e, duas semanas depois, perguntou-me de novo se queria casar com ele. Desta vez, aceitei. Demorei 23 anos a passar do ‘vou pensar’, até dizer ‘sim’. A canção é sobre esse momento.”

MÃE DO MP3

O programador alemão Karlheinz Brandenburg, que desenvolveu o formato MP3, achou que a voz de Vega, em «Tom’s Diner» era o instrumento perfeito quando começou a trabalhar na compressão de áudio que revolucionaria a distribuição de música, e que garantiu a Vega a alcunha de “Mãe do MP3”. Suzanne Vega aventurou-se também na Internet, tornando-se na primeira artista internacional de relevo a atuar, em forma de avatar, no mundo virtual Second Life.

PEDRA NO BOLSO: IMPRESSÕES DE UM CONCERTO**

O Porto estava enevoado nesse dia, 16 de junho de 1999. O nevoeiro dos começos da primavera. Os cartazes diziam “Cinema do Terço”. O Coliseu estava ocupado. Mas, no fim de contas, não podia haver melhor palco para ela, se o concerto tivesse sido bem promovido, o que não aconteceu. Até adoro o sítio; gosto do jardim à direita, o clima que a grande torre medieval da igreja, por detrás, lhe confere.

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Like a hunchback in heaven
He’s ringing the bells in the church
For the last half an hour

Pouco antes das nove, na pequena escadaria do cinema e diante dele, iam-se juntando os fãs; adolescentes, raparigas com o namorado a fazer o frete, o pai com a filha adolescente/precoce/entusiasmada. Duas raparigas sabiam a história toda de Suzanne Vega e comentavam o alinhamento do concerto: “Achas que ela vai tocar o «Undertow?»” Um ilusionista fazia truques com cartas e lenços de seda, diante de algumas pessoas e, no fim, dava-lhes um pequeno carro cinzento dentro de uma caixa de plástico (o concerto era patrocinado por uma marca de automóveis).

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Suzanne atravessava uma fase de “has been”, promovia a sua compilação Tried and True, e a imprensa musical portuguesa, excetuando um ou outro entusiasta, não lhe prestava atenção. Além disso, na mesma noite havia outro concerto com uma banda da moda, noutro local do Porto.

suzanne vega (1)Sentei-me na quinta fila. Já comprara o bilhete há um mês. Teria pago mais três contos para me sentar na primeira fila, mas tais lugares já estavam reservados. Quem se sentava na primeira e segunda filas, demostrava claramente a vontade de se encontrar noutro sítio. Muitas das cadeiras ficaram vazias, de resto, e, durante a primeira meia hora, foram ocupadas por alguns “towies”. Mais tarde, no meio da batalha por um lugar mais próximo do palco, (se bem que o meu não fosse mau) sentei-me na terceira fila.

A sala estava meia vazia, e o Cinema do Terço era pequeno. No palco já estava uma guitarra Taylor, um baixo Fender sunburst, os amplificadores e um banco alto, parecido com os de um bar. Faltavam 15 minutos e comecei a sentir aquele formigueiro, borboletas no estômago, a antecipação, a altura em que os verdadeiros fãs contorcem o bilhete nas mãos suadas e recordam como começaram a gostar do cantor, ou quando compraram o primeiro disco, e que memórias associam a esse dia.

Por fim, Suzanne entrou, sorridente, com um blazer cinzento-escuro sobre uma camisa azul e um chapéu de gangster de onde saíam os seus cabelos de cobre, sobressaindo à luz branca dos holofotes e no tom negro do palco. Sorriu-nos, no meio dos aplausos.

– Hello! How are you, tonight? Are you happy? We are. We drank white wine and had a nice dinner.

Começou a capella:

I am sitting in the morning
At the diner on the corner…

Pegou na guitarra Taylor e fez sinal a Mike Visceglia. Começaram «Marlene on the Wall» com um acorde enérgico.

Eu nem queria acreditar. Tanta energia com um baixo, uma guitarra acústica e uma voz. Um mundo de emoção enchera o cinema, como se ela valesse por todos os filmes lá projetados.

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– This song is called «Rock in this Pocket/ Song of David».

– Who is David? – perguntou alguém.

Ela pôs a mão em pala por cima dos olhos.

– Where are you?

Um braço ergueu-se.

– Oh, I see you now. Well, sometimes people ask me if it’s about a person. But it isn’t. It’s about David and Goliath.

Saiu melhor do que no disco, ela agredia as cordas de aço com a palheta. Eu já sabia a história da canção; era, em parte, dirigida a alguns críticos:

I’m really well acquainted
with the span of your brow
and if you didn’t know me then
you’ll know me now.

Quando as palmas sossegaram, confidenciou-nos:

– You are a very quiet audience.

Alguns risos.

– You know, in New York, audiences are very different. People speak and never quiet down. Sometimes, they speak too much, during the songs and all. And I have to stop right in the middle of a song to tell them: «Shh!»

Mais risos.

– I just meant to tell you that, if you want to speak, please do, okay? Say what’s on your mind… if you’d like to hear a song or whatever. Just… express yourselves.

suzanne vega (9)Ela era tão espontânea que aquilo nem parecia um concerto, era uma espécie de reunião. O público ficou retraído; ninguém estava à espera. Não sabiam o que dizer.

Alguém pediu «Knight Moves».

– We don’t know the chords, do we, Mike? We didn’t rehearse that one…

Mike confirmou com um aceno de cabeça.

– Well, meet Mike Visceglia, on bass guitar.

Recebeu, sorridente, uma salva de palmas respeitosa.

Tocaram «Stockings».

– You still don’t want to speak? Okay… – brincou Suzanne, antes de «Cracking».

Depois de uma versão fantástica de «Caramel», tirou o chapéu e penteou-se com os dedos. Mas não conseguia ficar satisfeita com o penteado. O público riu-se e alguém gritou:

– You are beautiful! I love you!

Ela olhou com ar desaprovador/brincalhão na direção do grito.

– Thanks.

E virou-se para o baixista.

– Mike, can you get my comb? It’s in the dressing room.

Mike olhou para nós e abanou a cabeça. Pousou o baixo e obedeceu.

Suzanne afinou a guitarra.

– He’s cool, but I bet he won’t find the comb. He’s very… kind of a daydreamer.

Nesta altura, o baixista entrava pelo lado direito. Cruzou os braços e abanou a cabeça.

– You’re talking about me?

– Mike! Did you get my comb?

Isto era irreal. Estava toda a gente pasmada e divertida.

– No.

– Told you so… – disse-nos Suzanne.

E… saiu do palco em busca do pente, enquanto Mike nos dizia, em tom de inconfidência:

– She’s so vain…

Suzanne regressou e ajeitou as madeixas.

– I hope you didn’t get your revenge… – disse ela, repreendendo o baixista que encolheu os ombros, e toda a gente se riu.

Tocaram «Blood Sings».

O público estava completamente rendido.

suzanne vega poster towies
Suzanne Vega autografando um poster para os “Towies”, os seus seguidores.

– I’m going to read you a bit from my book The Passionate Eye, there’s a piece about Portugal.

Leu-nos «Impressions of Portugal», as partes mais humorísticas provocaram risos na plateia.

Depois, tocaram «Luka». O concerto chegava ao fim.

– When are you going to give us a new album?

– We’re working on it.

– Are you coming back to Portugal?

– I love Portugal, as you know. We’ll be back, you can bet on it.

Saiu e voltou para o encore, «Marlene», novamente. Notou-se, por instantes, algum aborrecimento pelo facto de metade da sala estar vazia. Era compreensível. Mas Vega também sabia que a culpa não era nossa e não nos fez sentir culpados, nem durante um segundo.

David Furtado

*Excertos de «Impressions of Portugal», dezembro de 1993. Tradução de Fátima Castro Silva.
**Esta parte é o relato de um concerto de Suzanne Vega a que assisti. O Cinema do Terço foi posteriormente demolido.

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