The Thing estreou há 30 anos: O mal esconde-se à luz do dia

A 25 de junho de 1982, surgia nos ecrãs um filme que, apesar de genial, foi rejeitado, e o seu realizador, despedido. Ao longo das décadas, The Thing foi redescoberto em VHS, na TV, em DVD, conquistando uma legião de fãs em todo o mundo. A carreira de John Carpenter ficou marcada por The Thing, hoje considerado um filme de culto e, talvez, a sua obra-prima.

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Passou mais de um ano, desde que Carpenter foi chamado para a primeira reunião e o lançamento do filme: “A mais longa preparação que alguma vez fiz. Agora, o negócio mudou, tentam-nos cortar o tempo. Mas esse foi um dos luxos que obtive.”

O realizador ficou entusiasmado com a perspetiva de recriar The Thing From Another World de Howard Hawks, uma das suas grandes influências. “Quando o vi, na adolescência, assustei-me, as pipocas até me saltaram das mãos!” Carpenter era também admirador do conto «Who Goes There?», de John W. Campbell (1938), ressalvando que o texto é diferente do filme, já que “a criatura original consegue imitar e assimilar qualquer forma de vida. No filme, é um monstro de Frankenstein, ao passo que, no conto, é algo no estilo de Agatha Christie, uma criatura entre nós, quem é humano e quem não é?”.

Já abordei a influência duradoura deste episódio no percurso do cineasta, no início deste texto: «O Vírus da Criatividade». É um filme aterrorizador, sim, e violento, mas também um estudo das relações humanas, concebido de um modo totalmente original.

O argumentista Bill Lancaster não gostou especialmente da história, mas confessou-se “atraído pela atmosfera, o ambiente fechado, os elementos da paranoia. Adorei a ideia destas personagens aprisionadas na Antártica, a trabalharem lá durante um inverno terrível… e há um monstro à espreita…”

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John Carpenter vinha do cinema de baixos orçamentos e era a primeira vez que trabalhava para um grande estúdio. “Para mim, foi crucial ter encontrado o designer de produção John Lloyd, quando começámos a preparar The Thing. Possuía grandes conhecimentos e era muito entusiasta.” Lloyd comenta que o guião lhe foi parar à secretária: “Achei-o, provavelmente, um dos melhores scripts de ficção científica que alguma vez lera. Soube que Carpenter estava envolvido e arranjei forma de falar com ele. Levei os meus desenhos e acabei por conseguir o trabalho.”

Outro aspeto fulcral foi selecionar quem se encarregaria dos efeitos especiais. A escolha recaiu em Rob Bottin. “Desde que vi Halloween, tornei-me fã de John Carpenter”, afirma Bottin. “Tive a sorte de trabalhar com o diretor de fotografia de John, Dean Cundey, num filme de Roger Corman, e supliquei a Dean que me apresentasse a John. Disse, ‘tenho de trabalhar com este tipo!’”

O primeiro encontro entre ambos, deu-se quando Bottin interrompeu uma reunião. “John disse, ‘quem é este tipo?’, e eu, ‘sou um grande fã seu!’” Depois de trabalharem juntos em The Fog, e de descobrirem interesses similares, Carpenter disse a Rob, “‘adivinha… vou fazer The Thing’. Eu respondi, ‘estás a brincar? Vais fazer um remake?’. E ele respondeu, ‘sim, e sabes que mais, quero que sejas tu a criá-la’. Eu pensei, ‘meu Deus, isto é fantástico!’”

Com apenas 22 anos, Bottin teve a ideia estrondosa de que ‘a coisa’ podia ser basicamente qualquer coisa. “Tenho de admitir que, embora os conceitos deles fossem brilhantes”, diz Carpenter, “tive sérias dúvidas se os conseguiria concretizar”.

“John disse-me para ir falar com um artista de storyboards da Universal, chamado Mike Floog”, recorda Bottin, “para lhe contar o que lhe contara a ele. Eu disse ‘Mike Ploog?’ e John, ‘Floog, Ploog… seja lá o que for’. O John é um tipo engraçado! Eu conhecia Ploog, já que ele fizera uns livros de banda desenhada extraordinários. Em suma, John disse-me, ‘miúdo, passa-te! Usa a imaginação.’”

Storyboard de Mike Ploog.
Storyboard de Mike Ploog.

Algumas situações revelaram-se cómicas, como aquela em que o peito de Norris se abre. O que se pretendia assustador, tornou-se “uma espécie de fonte em Las Vegas, só faltava aparecerem showgirls”, ri-se Rob. “E John disse, ‘corta! Muito obrigado, Sr. Bottin…!’”

O ator Charles Hallahan ficou o dia todo estendido numa posição desconfortável, pois tiveram de reconstruir o peito falso e montar novamente tudo. “De dois em dois minutos, vinha alguém perguntar-me, ‘está tudo bem, Charlie?’, e eu só dizia, ‘não falem comigo!’. Demorei duas semanas a recuperar das costas”, graceja Hallahan.

Russell e Hallahan.
Russell e Hallahan.

OS DOIS NÍVEIS

Kurt Russell aceitou desempenhar o papel principal. Os restantes atores não eram tão conhecidos. “John deparou-se com algumas dificuldades em escolher o protagonista. Como somos amigos, estávamos a conversar, dei-lhe sugestões. A cerca de três semanas do início, ele convidou-me.”

Carpenter admirava Albert Whitlock, o famoso artista de matte (cenários pintados à mão e incorporados no plano) que trabalhara com Hitchcock em Os Pássaros. Whitlock pintou a nave espacial no meio da neve, a uma escala impossível de concretizar doutra forma, além de resolver problemas de iluminação, visto que “filmar na neve não é tão fácil quanto parece”, sublinha Carpenter.

Carpenter disse que as pessoas consideram The Thing um pouco acima de pornografia. Anos mais tarde, o cineasta explicitou: “Certas pessoas encaram The Thing de um modo diferente, mas o mainstream americano vê-o assim. Nesta estrada tortuosa do que é aceitável e não é, no ecrã, temos de ter em mente o que as pessoas acharam, nesse tempo. Todos os filmes que eram proibidos quando eu era jovem, podem hoje ser vistos na TV, e não são ‘horríveis’ de todo.”

Com esta película, John não quis aludir a qualquer tipo de epidemia. “Embora haja uma espécie de vírus extraterrestre, The Thing tem essencialmente a ver com o facto de perdermos a nossa humanidade. A ‘coisa’ pode representar tudo: Ganância, inveja, todos os males corriqueiros a que os seres humanos estão sujeitos… Há sempre alguma coisa nas nossas vidas que pode surgir e infetar-nos. Às vezes, escolhemo-la para nosso benefício e perdemos parte da nossa humanidade.”

“A um nível, The Thing é pura ficção científica, um filme de monstros, mas, noutro plano, é sobre o medo de estarmos a interagir com pessoas que não são humanas. E acho que isso se constata em todas as relações interpessoais. Em todos os relacionamentos, há um ponto em que temos de usar a confiança e a fé. É como dizer, ‘preocupas-te realmente comigo e com o meu bem-estar, ou só me estás a usar para algum propósito?’ Todos temos de desbravar isso.”

“Tive graves problemas na minha juventude por causa disto, e é bem real. Um familiar meu sofreu de esquizofrenia. É uma doença devastadora para alguém que a tem, mas é igualmente devastadora para quem vive com o doente, pois as fronteiras das trevas e as fronteiras da insanidade deixam de ser claras. E já não sabemos onde estamos.”

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“TIVEMOS DE SER BRUTAIS”

John Carpenter tinha consciência de que mostrar um cão malévolo perturbaria o público, mas supunha que a audiência o aceitaria: “Pensei que, logo que vissem a cena do canil, e o que estava realmente dentro do cão, o compreendessem. Tivemos de ser brutais. É uma história brutal. O mal esconde-se à luz do dia, neste filme.”

“‘Jed’, o cão, era um ator incrível. Há uma cena em que ele avança por um corredor, passa pela lente e observa uma sala, e ele é inacreditável. O treinador trouxe-o – estávamos todos muito calados – e ele sentou-se connosco, para nos conhecer, para que não o incomodássemos. Havia apenas três ou quatro pessoas em redor da câmara para que não o distraíssemos. Este cão podia literalmente aparentar que pensava. Era espantoso observá-lo, mas tínhamos de ter cuidado, já que a parte de lobo que ele possuía, era capaz de nos atacar. Um fabuloso ator animal.”

Jed, o grande ator animal de The Thing.
Jed, o grande ator animal de The Thing.

Richard Masur foi contratado para outro papel, mas preferiu o do tratador de cães, pois “era um personagem mais ligado aos animais do que aos homens, um solitário, e também aquele que todos pensam ser o portador do vírus”. Desde modo, Masur foi o que mais trabalhou com o cão/lobo “Jed”. “A parte de lobo que ele tinha era muito forte. Era um cão estranho; nunca ladrava nem rosnava, mas quando se sentia desconfortável, deitava-nos um olhar… fez-me isso algumas vezes. Mas demo-nos bem.”

‘MacReady’ (Kurt Russell) confunde sempre noruegueses com suecos, e Carpenter assente que tal estava previsto no guião de Bill Lancaster. “‘MacReady’ só quer pilotar o seu helicóptero, não lhe importa a nacionalidade deles. É o típico ponto de vista arrogante e americano.”

O filme concentra-se num trabalho de grupo de vários atores e na sua interação. Para Carpenter, foi uma experiência fascinante, já que nunca dirigira um elenco tão numeroso. Os ensaios demoraram duas semanas. “Fiquei chocado quando vi 11 pessoas numa sala. Como conseguiria filmar aquilo? Todos tinham uma frase para dizer.” O elenco ficou surpreendido ao ver o produto final – nenhum deles imaginava que a criatura fosse tão feroz. “Também foi um desafio para mim”, revela Carpenter, “já que lidei com muitas personalidades diferentes. É bom para nós, enquanto realizadores, torna-nos mais fortes”.

O TESTE DE SANGUE

A cena tensa em que ‘MacReady’ faz um teste de sangue aos colegas sobreviventes foi essencial para Carpenter. “Consta do texto original e tinha de a filmar, já que é a de maior suspense e a que mais clarifica o que é a criatura. Gosto especialmente do arame quente, do sangue, daquela ânsia de que ‘a coisa’ poderá saltar do sangue. Também gosto da cena da aranha, nunca vira tal situação num filme. [Carpenter refere-se à sequência em que uma cabeça se solta do corpo e adquire tentáculos.]”

Para o realizador, “o mais fácil para os atores foi expressarem medo, já que nunca viram a criatura. Nessa altura da rodagem, tínhamos pequenos pedaços, pelo que não reagiam a nada em concreto. Em certas alturas, olhavam para uma parede. Acho que isso traz ao de cima o melhor nos atores, já que não há truques”.

Carpenter não queria que a criatura fosse uma coisa escura e sombria, vista de relance, como nos clichés de Hollywood; queria expô-la, “trazer o monstro até à luz”. Isto causou grandes discussões entre Rob Bottin e Dean Cundey [diretor de fotografia]. Não se decidiam quanto à luz que deveria incidir na ‘coisa’. “Eu estava entre ambos, indeciso”, confessa Carpenter. “Dean Cundey dizia que devia estar às claras e Rob reclamava sempre que a iluminação tinha de ser por detrás. Essa tensão originou uns efeitos fantásticos. Já não trabalho assim, planeio de antemão, uma vez que é complexo.”

UMA MARCHA ÁRDUA

the thing posterA pós-produção de The Thing foi, deste modo, dificultada. Carpenter achava Rob um artista extraordinário, só que este trabalhava ao seu próprio ritmo. “O seu conceito era de que ‘a coisa’ podia assumir qualquer forma de vida que imitara no Universo. Foi isto que fez funcionar o filme, só que Rob ainda não sabia o que fazer. Desenhavam-se storyboards um mês antes da estreia. Todos davam opiniões. Mas tive fé em Rob, achando que ele encontraria algo de espetacular no último minuto. E assim foi.” Diga-se que as instruções de Carpenter a Rob Bottin não passaram de “faz com que seja assustador”.

A rodagem de The Thing foi um pesadelo devido às condições atmosféricas, na fronteira entre a Colúmbia Britânica e o Alasca, especialmente na localidade de Stewart. “Os sábados à noite eram especialmente complicados, já que andava por lá um bando de tipos de Hollywood, atores, técnicos, a lutarem uns contra os outros, bêbedos, pelas poucas mulheres disponíveis. Os residentes não gostaram disto. Alguns deles nunca tinham sequer visto um negro, e um apontou uma arma a T.K. Carter.” O produtor David Foster (cuja primeira escolha para a realização foi Carpenter) acrescenta que houve “grande camaradagem entre os atores”, apesar das dificuldades.

A BANDA SONORA

O isolamento é outro dos temas da obra, algo que Carpenter e Dean Cundey procuraram enfatizar através da iluminação, usando os sinalizadores de sódio como fonte primária para algumas cenas, “o que lhes conferiu um aspeto fora deste mundo, colorido, cheio de mau agoiro”, desvenda John. Enquanto realizador, Carpenter procurou “colocar todos na mesma direção, em termos do efeito emocional que uma cena deve provocar no ecrã”.

A banda sonora é mais um dos pontos fortes de The Thing. Ennio Morricone aceitou compô-la, mas, mais tarde, diria que “Carpenter só usou as partes que soavam à música dele”. Não há modo de o rebater, se ouvirmos o CD da banda sonora original. Cerca de 60 por cento não se encontra no filme.

Carpenter responde a esta crítica: “Encontrei-me com Ennio Morricone em Roma. É um dos meus compositores favoritos. Um herói para mim. Ele compusera diversas peças para The Thing, e eu disse-lhe que estava a empregar demasiadas notas no tema-título, e que o devia simplificar. Foi o que fez, e o que ouvimos é dele. Deu-me 10 minutos de música, sem ver qualquer excerto de película.”

“Percebi que havia cenas em que a sua música não resultaria. As minhas composições eram peças eletrónicas e simples. Utilizei peças minhas para unificar o filme, já que, a certo ponto, tivemos de reestruturar The Thing, a meio da duração. Fiz isto para colar o filme, mas não competia, de modo algum, com o trabalho de Ennio. O segundo ato tinha mais diálogos, mas acabei por modificá-lo, cortando as falas para adicionar mais suspense.”

“O PÚBLICO DETESTA INCERTEZAS”

Um exemplo dos efeitos especiais. Antes e depois.
Um exemplo dos efeitos especiais. Antes e depois.

“Não consigo imaginar um modo em que o fracasso de The Thing não tenha mudado a minha carreira. Bem sei que os filmes têm vida própria, na TV, em DVD, mas o que contou, na época, foram as críticas, o que influenciou o modo como as pessoas o entenderam. E.T. era uma obra em redor da qual Steven [Spielberg] queria fazer grande alarido, pelo que os estúdios a lançaram primeiro, embora achassem que não seria o grande sucesso que foi. O nosso filme veio depois. O dele é um apelo a emoções positivas, ele sabia aquilo de que o público necessitava na época. Por isso é que é um homem de negócios tão astuto. E estava certo. O nosso é o fim do mundo, centrado na perda da humanidade.”

The Thing não foi um fiasco total na bilheteira. “Os resultados foram assim, assim”, explica o realizador.

“Apercebi-me, antes do lançamento, de que o público não estava interessado. Li um estudo que descrevia o modo como os filmes de terror tinham decaído em popularidade, 70% num período de seis meses.” Carpenter abordou então um dos executivos da Universal e propôs que o filme fosse lançado na altura do Halloween, com o título Who Goes There? “Por favor, não lhe chamem The Thing!” Mas o executivo reafirmou que o lançariam no verão, sem mudar o título. Os publicitários tentaram promovê-lo como algo que superava Alien.

As antevisões para o público também não correram nada bem – as pessoas não entendiam o final. “O público detesta incertezas”, confirma Carpenter. “E o final é incerto.” (Refira-se que foi Kurt Russell quem inventou o último diálogo.) As críticas massacraram a obra, e John sentiu-se “num ringue de boxe a levar socos sem poder ripostar, uma vez que não tinha argumentos.” O realizador foi despedido e ninguém o queria contratar, mas nunca deixou de adorar o seu trabalho, ao longo dos anos, apesar da dolorosa experiência. “Entre os meus filmes, é o meu favorito. Depois disso, tive de me adaptar. Nunca fiz um filme tão selvático e soturno como The Thing. Queria ser bem-sucedido neste negócio. Outros trabalhos meus não tiveram sucesso, mas este bateu no fundo.”

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Kurt Russell concordava que algumas cenas seriam difíceis de aceitar por grandes audiências, mas elogia Carpenter: “Ele não deixou que isso o impedisse de realizar o filme tal como queria. Fico muito satisfeito por The Thing ter acabado por encontrar o seu público, 15 ou 20 anos depois.” Os outros atores e equipa técnica partilham a opinião de Russell. Algumas obras obtêm um êxito instantâneo e desaparecem. Não foi o caso de The Thing. Daqui a muitos anos, é provável que continue a suscitar o interesse e a admiração das pessoas, devido à sua originalidade. Em Portugal, deram-lhe o título Veio do Outro Mundo, e é exatamente isso que parece.

David Furtado

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