John Cassavetes por Sam Fuller: “Filhos e filhos da mãe”

Um lendário cineasta foi, em tempos, vizinho de outro. Depois de se divorciar, no fim dos anos 60, Samuel Fuller comprou uma pequena casa em Hollywood Hills, na Woodrow Wilson Drive. Era uma época em que, quanto mais longe se vivesse de Beverly Hills, menor o status no mundo do cinema. Fuller estava-se marimbando para tais questões, pelo que chamou afetuosamente à sua casa, “the Shack”. Ali perto, na mesma rua, moravam John Cassavetes e Gena Rowlands.

cassavetes fuller rowlands
Cassavetes, Fuller e Gena Rowlands.

Numa altura em que Hollywood se transformou quase completamente numa fábrica de pipocas repugnante, li um tributo a John Cassavetes que me emocionou. De facto, estes dois nomes juntos, aliados ao termo “cinema independente”, assemelham-se a uma mensagem numa garrafa, perdida no oceano de mediocridade abjeta em que se tornou o cinema americano, expelindo vulgaridade e pseudo-estrelas suficientes para encher um planetário.

Quando Fuller escreveu o argumento de The Klansman, no início dos anos 70, já se tornara amigo de Cassavetes e, pretendendo que este desempenhasse um papel no filme, deu-lhe o guião para ler. John ficou impressionado, disse que era uma dos melhores scripts que lera e que adoraria participar. Lee Marvin também já integrava o elenco. Contudo, a Paramount livrou-se de Fuller, atribuiu a realização a Terence Young, deturpou o argumento e lançou um filme horrendo. Lee Marvin – tal como Fuller – ficou furioso, mas assinara o contrato e tinha de fazer o trabalho. Um exemplo de como os estúdios conseguem dar cabo de uma ideia brilhante, transformando-a em lixo. Ainda por cima, marcou a estreia de um mega ator: O.J. Simpson.

Em 1984, um filme de Fuller, Thieves After Dark, integrou a seleção oficial do Festival de Berlim. John Cassavetes e Gena Rowlands também marcaram presença para apresentar Love Streams. A obra de Cassavetes venceu o Urso de Ouro (o Goldener Bär), e, durante a projeção do filme de Fuller, John e Gena insistiram em sentar-se ao lado dele e da esposa, Christa. A meio da sessão, alguns espectadores começaram a assobiar. Sam não se importou, mas, “John, sensível perante aquela situação”, agarrou-lhe o braço, sussurrando que adorava o seu filme.

Os dois casais acabaram a noite num bar, num beco de Berlim. Enquanto bebiam cerveja, contavam “histórias anedóticas sobre o negócio humilhante e estimulante” em que viviam. “Gena, John, Christa e eu, rimos tanto que até nos doíam as costelas.” Sam Fuller tinha um projeto em mente, com Rowlands para protagonista, o que não se concretizaria.

AS “FÁBRICAS”

Quatro anos depois, em 1988, Samuel Fuller estava em Paris, onde vivia, quando soube das más notícias. Cassavetes estava muito doente. Alexandre Rockwell, um jovem cineasta apadrinhado por John, queria que Fuller desempenhasse um papel no seu filme independente, Sons. O papel fora escrito especificamente para John Cassavetes, que adoecera entretanto, com cirrose. “Foi ele que disse a Alex para vir ter comigo”, recorda Fuller. “Concordei e dedicámos todo o projeto a John.”

“John e eu cruzámo-nos pela primeira vez nos anos 50, quando eu trabalhava para a Fox. Para John, ser um ator fantástico e ganhar muito dinheiro não bastava. Estava determinado em tornar-se realizador também, embora ninguém quisesse apoiar o seu primeiro filme, Shadows.”

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“Em 1961, John financiou-o por si mesmo, fazendo um drama sobre um romance inter-racial com um elenco de desconhecidos, parcialmente improvisado, filmado com uma câmara de 16 mm, aos fins de semana, quando a sua equipa saía do emprego; foi montado por John, em sua casa, durante muitos meses de noites em claro. Que tomates! Depois de Park Row, eu sabia como era esgotante escrever, realizar e produzir um filme, e pagá-lo, ainda por cima. Cassavetes não tinha outro modo de contar a sua história. Eu adorava aquele tipo!”

A audácia de Cassavetes e “o seu desafio aos grandes estúdios trouxeram-lhe muita atenção dos críticos e… dos estúdios”, diz Fuller. “Pediram-lhe que realizasse dois filmes convencionais, Too Late Blues (1962) e A Child is Waiting (1963).” Mas Cassavetes não gostou da experiência.

“Como conseguias trabalhar nas fábricas, Sammy?”, perguntou John a Sam. “Zanuck!”, respondeu Fuller, referindo-se ao lendário produtor Darryl F. Zanuck.

“John compreendeu”, prossegue Fuller. “Tive a sorte de trabalhar com produtores que adoravam boas histórias, pessoas fiáveis, cuja palavra valia mais do que um contrato, homens que tomavam decisões e davam luz verde a um projeto com apenas um, ‘Okay, vamos a isso!’”

John Cassavetes continuaria a realizar os seus projetos com orçamentos ínfimos, conseguindo controlá-los. “Aprendera a primeira regra da independência”, comenta Fuller, “mantém o teu orçamento reduzido para que não precises dos malditos dólares graúdos dos grandes estúdios para fazeres o teu filme. Como um malabarista, ele jogava com tudo, argumentos, técnicos, atores, dinheiro, homens da massa, para conseguir concretizar aqueles filmes. E que filmes! Faces (1968), A Woman Under the Influence (1974), The Killing of a Chinese Bookie (1976), Opening Night (1977), Gloria (1980) e Love Streams (1984)”.

“Era magnífico o que John conseguira à força do seu trabalho ininterrupto, talento feroz e encanto rebelde.”

ALGO CRU E SOLENE

John e Gena foram vizinhos de Samuel Fuller e Christa durante muitos anos, em Laurel Canyon. Fuller diz que não passou muito tempo com Cassavetes, mas, quando tal acontecia, trocavam piadas. Sob esta boa disposição, estabeleceu-se uma cumplicidade: “Algo cru e solene que identificávamos um no outro. Acho que partilhávamos a mesma agonia com que muitos argumentistas/realizadores têm de viver, que é ter uma prateleira repleta de projetos, que, por uma razão ou outra, não foram produzidos.”

John Cassavetes morreu a 3 de fevereiro de 1989.

O comentário de Fuller, num capítulo da sua vida que intitulou de “filhos e filhos da mãe”:

“Todos os jovens cineastas de hoje que se autointitulam ‘independentes’ devem-lhe tremendamente. Espero que paguem essa dívida ao fazerem projetos vindos do coração, arriscando, concebendo os filmes pessoais que John teve a coragem e o talento para fazer.”

David Furtado

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