Indiana Jones e a Grande Cruzada: A maturidade de um herói

Antes do sucesso de Os Salteadores da Arca Perdida, Spielberg ambicionava realizar um filme de James Bond. Por isso, Sean Connery – o primeiro 007 – foi uma escolha simbólica para o papel de pai de ‘Indiana’ no terceiro capítulo. O realizador consolidou o mito, elevando-o a um nível surpreendente.

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Nos anos 50 e 60, o grande herói dos ecrãs era ‘James Bond’, mas ‘Indiana Jones’ suplantou o agente secreto em popularidade, na década de 80. Connery já se afastara da série ‘James Bond’ há muitos anos, mas vencera um Óscar recentemente por Os Intocáveis, pelo que se encontrava numa excelente fase. A participação do ator veterano surpreendeu, pela positiva, muitos fãs.

O terceiro filme, Indiana Jones e a Grande Cruzada, foi uma tentativa de regressar ao espírito do primeiro capítulo. Os argumentistas procuraram um tesouro arqueológico comparável à Arca da Aliança e encontraram-no no Santo Graal.

Spielberg confessa:

“O que mais me agradou foi colocar Harrison e Sean em frente às câmaras e gritar, ‘ação!’, tentando não estragar o take com as minhas gargalhadas!”[1]

O filme explicou várias questões deixadas em aberto nos episódios anteriores: O medo de serpentes de ‘Indy’, o porquê do chicote e do chapéu, e também como ficou com a cicatriz no queixo. Esta última característica é uma das que Harrison Ford partilha com o personagem.

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No argumento, foi também explorada a infância do jovem ‘Indiana’, interpretado por River Phoenix, que, curiosamente, desempenhara o papel de filho de Harrison Ford em A Costa do Mosquito, (um dos papéis favoritos de Harrison). Phoenix contou com o apoio de Ford durante a rodagem das suas cenas. Steven Spielberg revela:

“Pedi a Harrison para estar constantemente no local das filmagens, e foi ele quem deu as diretivas a River Phoenix; ajudando-o a encontrar os melhores gestos. Elaboraram a personagem em conjunto e diverti-me imenso a observá-los.”[2]

A principal figura feminina do filme foi Alison Doodey, que participara em 007 – Alvo em Movimento, o capítulo anterior de ‘James Bond’. Spielberg parecia realmente decidido a superar os filmes do agente secreto.

Indiana Jones e a Grande Cruzada foi lançado a 24 de maio de 1989. O orçamento foi de 37 milhões de dólares, e oito milhões couberam a Harrison Ford, que também exigiu uma percentagem das receitas. A Paramount obrigou Spielberg, Lucas e Ford a assinarem um contrato, estipulando que nenhum receberia qualquer lucro antes do filme alcançar uma receita de 75 milhões. Os três concordaram, confiantes, e a película arrecadou 494 milhões em todo o mundo. Foi galardoada com o Óscar de Melhor Som e Edição de Efeitos, além de vencer um Grammy pela banda sonora.

O GRAAL INTERIOR

indiana jones last crusade (14)A produção sofreu atrasos, já que Spielberg se encontrava ocupado com outros projetos, como A Cor Púrpura e O Império do Sol. Ainda tentou dedicar-se a Rain Man (Encontro de Irmãos) para a United Artists, que lhe recusara a realização de um filme Bond. Seguiu-se Quem Tramou Roger Rabbit?, em que Spielberg pediu a colaboração de Harrison Ford, mas este recusou, dizendo que não queria trabalhar com “pequenos Mickeys”. Circulou o rumor de que George Miller, realizador da trilogia Mad Max, iria ocupar o lugar de Spielberg. A produtora Kathleen Kennedy adiantou:

“Estamos todos persuadidos de que este terceiro capítulo será o último. Desde o começo, as aventuras de ‘Indiana Jones’ foram concebidas como uma trilogia e, naturalmente, será Spielberg a realizar este terceiro título. Ignoro donde partiram tais rumores sobre ‘Indy III.’”[3]

As filmagens começaram em maio de 1988, em Almeria, Espanha, onde parte da equipa já trabalhava desde o final do ano anterior, preparando um leito de um rio seco para a sequência do tanque. Spielberg esclarece: “Tínhamos, em termos gerais, apenas uma página de argumento, mas quis que a perseguição correspondesse a oito e fosse o ponto fulcral do filme. Mais do que escrever a sequência, preferi sentar-me ao lado dos meus desenhadores, Dave e Ed Vero, e praticamente imaginei esta perseguição no papel, do plano 1 ao plano 405! Diverti-me bastante durante esses 15 dias!”[4]

Depois de três semanas em Almeria, Maiorca e Granada, a produção mudou-se, uma vez mais, para os Estúdios de Elstree, em Londres, onde ficou 10. A equipa partiu depois para Veneza, Jordânia, Alemanha e Estados Unidos (Colorado, Novo México, Utah e Texas).

Nesta terceira aventura, os nazis regressam, competindo com o arqueólogo pelo Santo Graal, numa ação que se desenrola em comboios e zepelins. O produtor Robert Watts salienta que foram utilizados “praticamente todos os meios de transporte existentes em 1938; cavalos, camelos e até um tanque!” Sean Connery comentou, na época:

“Um dos aspetos interessantes do filme é o regresso ao passado, antes da era informática e das naves espaciais, ou seja, ao tempo dos carros, dos aviões, dos comboios e dos cavalos.”[5]

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O argumento de Jeffrey Boam afastou-se do rumo de Indiana Jones e o Templo Perdido. “Eu não estava muito satisfeito com o segundo filme”, confessa Spielberg. “Era demasiado sombrio, muito subterrâneo e um pouco aterrador. George Lucas pretendeu que eu realizasse ‘Indiana Jones’ ao estilo de O Exorcista…” O realizador achava que os fãs tinham ficado desiludidos com O Templo Perdido, por lhe faltar humor.

indiana jones last crusade (3)Acima de tudo, esta demanda pelo Santo Graal, unindo pai e filho, acabou por conferir uma nova dimensão à saga.

“O verdadeiro sentido desta busca”, comenta George Lucas, “é a descoberta da felicidade interior. O tema do filme é o encontro entre um pai e um filho, mais importante do que a descoberta de um mero objeto. Cada um acaba por encontrar o seu Graal dentro do outro”.

A ideia era ambiciosa, mas Spielberg, por ser judeu, não a apreciou, de início, já que o Santo Graal é um símbolo cristão. No entanto, mudou de ideias:

“Foi a taça pela qual Cristo bebeu durante a Última Ceia e na qual foi recolhido o seu sangue após a Crucificação. É um elemento duplo – um objeto concreto, histórico, e uma metáfora para o conhecimento de nós mesmos”, descreve o realizador. “E foi desta maneira que se impôs no meu espírito.”

Harrison Ford afirmou-se motivado pelo enredo, declarando: “Parecia que já não havia lugares para onde ir nem novos modos de representar o personagem, depois dos filmes precedentes. Contudo, George e Steven vieram ter comigo para me falarem desta história formidável.”[6]

George Lucas, por seu turno, acrescentou: “Ainda que admire o seu pai e tenha sido influenciado por ele, ‘Indy’ é um aventureiro, e, o seu pai, um universitário. ‘Henry Jones’ nunca apreciou os modos destruidores do seu filho.”[7]

A equipa reuniu-se novamente – era já uma família –, e o anúncio do filme provocou um entusiasmo mediático sem precedentes. A crítica compreendeu as intenções de Spielberg e elogiou a dupla Connery/Ford.

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Terminadas as filmagens, Harrison Ford doou o seu chapéu ao Smithsonian Institute, mas manteve um em casa, no Wyoming. Estava outra vez no centro do filme mais bem-sucedido de sempre, tendo ultrapassado Batman e o seu ‘Joker’, Jack Nicholson.

Ford explicou que não se revia a interpretar ‘Indiana Jones’ antes dos 50 e poucos anos, mas, quando lhe perguntaram o que mais aprendera ao trabalhar com o homem que dera vida a James Bond, o ator respondeu: “Nunca digas nunca…”

SPIELBERG MATA SAUDADES

Estreado no Memorial Day americano, em 2327 salas dos EUA, Indiana Jones e Grande Cruzada bateu os recordes de bilheteira que pertenciam ao filme precedente. A combinação do realizador certo, do ator certo e da originalidade dos argumentos, tornou a figura de ‘Indiana Jones’ num fenómeno social, que entrou no imaginário popular. Mais uma vez, falou-se no quarto capítulo. Spielberg e Lucas não puseram a hipótese de parte, mas Harrison assegurou que voltara as costas ao personagem, tal como fizera a ‘Han Solo’.

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Spielberg refletiu que ia ter muitas saudades de Harrison no papel de ‘Indiana’.

“É claro que espero trabalhar com ele noutros filmes e noutros papéis. Mas vou recordar todos aqueles momentos em que me podia sentar ao lado de Harrison, com o seu chapéu, o seu colete, o seu suor, a camisa caqui suja, as botas, o seu chicote, o seu saco e a sua barba de três dias. E, sobretudo, sentirei a falta daquele sentido de humor muito especial.”[8]

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INDY ATRAVÉS DAS GERAÇÕES

“18 anos depois, estamos a fazer este filme para vocês, os fãs”, anunciou Spielberg em julho de 2007, falando de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, após quase um mês de filmagens. “Nunca pensei que este dia chegasse.” A equipa assegurou que o filme seria produzido tal como os anteriores três, recorrendo a duplos em vez de efeitos gerados por computador, mas o resultado não correspondeu a tais expectativas.

Frank Darabont (autor de um argumento rejeitado por George Lucas) revelou que o regresso de ‘Marion Ravenwood’ foi ideia sua. “Vamos fazer regressar ‘Marion’, e o crédito é meu.” Darabont revela a sua paixoneta por Karen Allen; adorava a personagem e queria o seu regresso.

Previa-se que Sean Connery retomasse o papel de ‘Henry Jones, Sr.’, mas Connery preferiu continuar “reformado”: “Adoro trabalhar com Steven e George e, claro, é uma honra ter o Harrison como filho. Mas a reforma é ótima. O elenco é notável e vemo-nos no cinema!”

John Hurt confessou-se motivado. “Shia LaBeouf é um grande ator, e filmar com Steven é maravilhoso. Tenho a sensação de que já trabalhei com ele inúmeras vezes, mas a verdade é que nunca o fiz.”

Harrison Ford, que completou 65 anos no início das filmagens, vestiu novamente a pele do aventureiro. “Estou encantado por voltar a isto com os meus velhos amigos. Não sei se as calças ainda me servem. Mas o chapéu servirá de certeza.”

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19 anos depois de A Grande Cruzada, a campanha publicitária foi gigantesca, incluindo os bonecos da Hasbro Inc. Empresas como a Lego ou a Random House também obtiveram exclusivos. Apesar de tudo isto, o que fica são as declarações de Shia LaBeouf – o ator de 21 anos que interpretou o filho de ‘Indy’. Ficou assombrado quando viu Harrison Ford vestido como o intrépido arqueólogo pela primeira vez. “O melhor momento foi quando o vi sair do trailer de chapéu na cabeça. Foi espantoso!”

Na época do 4º filme, circularam rumores de que LaBeouf assinara um contrato para os três ‘Indiana Jones’ seguintes, onde desempenharia o mesmo personagem. Talvez Lucas planeie uma passagem de testemunho, como na saga Star Wars. Agora que há novos rumores de um 5º capítulo, com LaBeouf a adquirir mais protagonismo, fica a dúvida.

O CONTEÚDO DA ARCA

Há algum tempo, vi um filme chamado Hell and High Water (O Demónio dos Mares), de 1954, obra realizada por Samuel Fuller. O enredo não me suscitava tanto interesse como as sinopses das outras obras do cineasta. No entanto, foi uma surpresa. Cerca de metade do filme passa-se dentro de um submarino, o restante, entre tiroteios e explosões; temos um aventureiro cínico, mas humano, uma protagonista feminina cativante e a três dimensões, diálogos inteligentes e uma aventura realizada com brilhantismo, que nos prende do princípio ao fim. Várias vezes, achei que Spielberg devia ter visto Hell and High Water, já que a sua conceção é muito semelhante à de Os Salteadores da Arca Perdida. O mesmo ritmo imparável, humor, tensão, tudo no momento certo.

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Por mero acaso, e para minha surpresa, deparei-me ontem com as declarações de Fuller sobre esse filme. Era a obra de que menos gostava entre os seus trabalhos, já que o argumento não era seu e teve de o adaptar, filmando a história à sua maneira.

“Revi Hell and High Water, tornando-o um conto estilizado, género cartoon, como Spielberg faria mais tarde com Os Salteadores da Arca Perdida”, comenta Fuller.

O cineasta prossegue: “Avancemos 25 anos no tempo. Em 1979, num estúdio em Hollywood, eu desempenhava um pequeno papel no filme de aventuras de Steven Spielberg, 1941. Depois do almoço, Steven pediu-me que o acompanhasse ao parque de estacionamento para ver o seu carro. Disse-lhe que não queria ver o seu maldito carro, mas Spielberg insistiu. Saímos, e ele explicou-me que transportava sempre um dos seus filmes favoritos na mala, para onde quer que fosse. Abriu a mala. Acreditem ou não, tinha uma cópia de Hell and High Water lá dentro.”

David Furtado

[1] Première, edição americana, junho de 1989.
[2] Starfix, julho de 1989.
[3] Starfix, dezembro de 1985.
[4] Starfix, julho de 1989.
[5] Dossier de imprensa de Indiana Jones e a Grande Cruzada.
[6] Première, edição americana, junho de 1989.
[7] Dossier de imprensa de Indiana Jones e a Grande Cruzada.
[8] Starfix, julho de 1989.

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