Lucio Fulci faria hoje 85 anos: Neste mundo, fora do tempo

lucio fulci (10)Outrora era menosprezado, agora é alvo de tributos. Lucio Fulci começa finalmente a ser visto como mais do que um realizador de filmes gore e merecendo uma reavaliação. Génio ou fraude? Oportunista ou cineasta? Muitos adoram-no, muitos odeiam-no. Fulci foi, sobretudo, um realizador com ideias originais, um profissional restringido por orçamentos, marcado por uma relação antagónica com produtores e por uma vida privada trágica.

A ressurreição de Fulci deveu-se, em parte, a Quentin Tarantino, que, em 1998, foi o impulsionador do relançamento de The Beyond nos cinemas. O realizador citou muitas vezes este filme e Fulci como uma das suas maiores inspirações. A obra do cineasta italiano começou progressivamente a surgir em DVD e Blu-ray, em edições especiais, e alguns títulos contam já com três versões diferentes.

Tarantino já tentara relançar The Psychic (1977) na década de 90 através da Miramax e, embora não tenha conseguido, incluiu partes da banda sonora em Kill Bill: Vol. 1 e exibiu-o no Quentin Tarantino Film Festival, revelando o seu interesse em filmar um remake com Bridget Fonda. Kill Bill: Vol. 2 inclui a música de The Beyond e cenas moldadas ao estilo de Fulci. Robert Rodriguez também o cita como influência, o que é notório em Planeta Terror.

Olga Karlatos na cena infame de Zombie 2 (1979).
Olga Karlatos na cena infame de Zombie 2 (1979).

Nos primórdios do Fantasporto, Lucio Fulci teve um filme a concurso (The House by the Cemetery), as suas obras foram presença habitual no certame e alvo de uma retrospetiva em 2004. Na primeira edição do 8 ½ – Festa do Cinema Italiano, dois filmes seus foram exibidos, Don’t Torture a Duckling e A Lizard in a Woman’s Skin. No entanto, para muitos desconhecedores do seu passado, é um realizador medíocre, focado no sucesso fácil. Os apreciadores das emoções fortes chamam-lhe o “padrinho do gore” e, para tal, contribuiu o facto de ter sido estudante de medicina, o que lhe permitiu abordar a violência de modo literalmente visceral. Fulci não teve uma vida fácil; a primeira mulher suicidou-se, uma das filhas faleceu num acidente de automóvel, e as suas obras foram desprezadas durante demasiado tempo.

O feitio complexo do realizador nunca se enquadrou bem no feroz meio cinematográfico italiano. Em meados dos anos 80, começou a sofrer de problemas de saúde, falecendo em Roma, a 13 de março de 1996. Ter-se-á “esquecido” de tomar a injeção diária de insulina para tratar o seu grave problema de diabetes. Fulci estava sozinho em sua casa quando morreu, pelo que não se sabe se foi suicídio ou negligência dele próprio.

Um fim inglório para um homem que dedicou a vida ao cinema, tendo realizado comédias, westerns, musicais, filmes eróticos, thrillers e dramas históricos. Numa entrevista à L’Écran Fantastique, afirmou:

“Arruinei a minha vida pelo cinema. Não tenho família nem esposa, apenas as minhas filhas. Todas as mulheres me abandonaram porque nunca conseguia deixar de pensar no trabalho. Os meus dois únicos hobbies são os meus cães e o meu barco. O trabalho é muito importante para mim. John Ford disse uma vez, ‘sei que, nos bares, dizem mal de mim. Mas estou a filmar nas montanhas, com índios, enquanto eles falam…’”

TERRORISTA DE GÉNEROS

lucio fulci (2)Odiado pela crítica enquanto vivo, e amado pelo público, Fulci só foi reconhecido poucos anos após a sua morte. Estudou no prestigiado Centro Experimental de Cinema, em Roma, onde teve como professores Antonioni e Visconti. 

“No exame de admissão, Visconti perguntou-me o que eu achava do seu filme Ossessione [1943], que era então considerado uma obra-prima. E eu, com a minha inconsciência juvenil, disse-lhe que ele imitara bastante as obras de Renoir! O restante júri olhou-me como se eu fosse um monstro, mas Visconti retorquiu: ‘És a primeira pessoa que me diz a verdade; sabes de cinema e tens muita coragem – qualidade imprescindível num realizador!’ E fui aceite.”[1] 

O primeiro filme realizado por Fulci foi I Ladri, em 1959. Mas só obteve sucesso internacional quando enveredou pelo terror, em Zombie, de 1979. Concebeu então uma série de películas descritas como as mais violentas alguma vez realizadas: City of the Living Dead (1980), The Beyond (1981) e The House by the Cemetery (1981), sucessos que se tornaram numa referência incontornável, apesar dos problemas com a censura. Os distribuidores cortavam as cenas mais extremas e, só com o advento do DVD, as visões apocalípticas de Fulci foram restauradas. Mas um especialista na sua obra, Paolo Albiero, sentencia que “o terror arrumou-o”.

Começando como argumentista, Lucio Fulci era um intelectual, mas queria fazer filmes comerciais. Culto e inteligente, adquiriu um conhecimento vasto de todas as áreas técnicas do cinema, era capaz de narrar qualquer tipo de história e começou a expandir as fronteiras, fazendo filmes de autor. “Sou um terrorista de géneros porque ao descobrir os cânones de um, ponho lá uma bomba.” Se um western tinha 20 mortes, um de Fulci tinha 40.

“É MAIS DIFÍCIL FAZER AS PESSOAS RIR”

Fulci é acusado de misoginia, de ter um humor negro e uma imaginação perturbada. Não o podemos negar. A sua cena mais emblemática talvez seja aquela em que Olga Karlatos defronta criaturas pouco amistosas em Zombie. Uma delas força-lhe um olho contra uma farpa de madeira. Em City of the Living Dead, a cabeça de um homem é trespassada por uma broca numa oficina. Ainda neste filme, Daniela Doria vomita as entranhas. (Foi obrigada a engolir tripas de carneiro.) Em The House by the Cemetery, a mesma atriz é esfaqueada no topo da cabeça, saindo a lâmina pela boca.

Daniela Doria em City of the Living Dead.
Daniela Doria em City of the Living Dead.

Em The Beyond, a cabeça de uma personagem é espetada num prego, que sai pela cavidade ocular com o olho preso na ponta. O rosto de um homem é comido vivo por tarântulas e a cabeça de uma adolescente é despedaçada com um tiro. Em The New York Ripper, o globo ocular e o mamilo de Daniela Doria são cortados ao meio por uma lâmina de barbear, e é preferível não descrever o destino dado a uma garrafa partida. (Fulci admitiu que gostava de ‘matar’ a atriz.) Apesar deste catálogo de horrores, o cineasta comentou, com seriedade, que “é mais difícil fazer as pessoas rir do que assustá-las”.

Fulci e Mario Bava.
Fulci e Mario Bava.

O estilo de Fulci é marcado pelo uso e abuso do zoom, especialmente focando os olhos. O realizador explora também todo o campo do formato 2.35:1, pelo que, ao cortar os cantos da imagem se perde muita informação. Aproveitou excecionalmente as colaborações com Ennio Morricone e Fabio Frizzi. Opta por uma montagem ríspida, adaptando as técnicas ao estado de espírito da personagem que pretende fazer sobressair. Filma a violência com calculismo: Em Don’t Torture a Duckling, Florinda Bolkan é espancada com uma corrente ao som de uma música xaroposa. Das feridas, jorram sangue e pus. Fulci não é um cineasta fácil e o seu humor negro não é para todos.

Em The House by the Cemetery, Fulci inspirou-se nas obras de Henry James e não em The Shining, onde “havia a cumplicidade entre uma criança e um adulto”.

“Em The House by the Cemetery, os adultos não importam. Pouco me interessa se o tipo enlouquece em The Shining. Detesto o filme, de qualquer forma. A frieza de Kubrick funciona bem em Laranja Mecânica ou Horizontes de Glória, já que se adequa à história. Mas o génio de Kubrick não se adequa a filmes de terror. The Shining não tem sentimento.”

Dario Argento também foi alvo das suas críticas. Embora Carlo Rambaldi o recorde como “um homem divertido, sempre pronto a contar uma anedota”, Lucio debatia-se com orçamentos baixos, sem conseguir expressar a sua visão. A amargura foi-se acumulando ao longo dos anos. Argento era, para ele, um realizador que nasceu no meio e teve a vida facilitada, ao passo que ele, Fulci, começou do zero, o que não deixa de ser verdade. Ironicamente, o último projeto de Fulci foi The Wax Mask (1997), uma colaboração com Argento. Devido à sua morte, Sergio Stivaletti assumiu a realização.

“O cinema de terror é um género menor”: Questão antiga com argumentos reciclados. “Falta de lógica narrativa”, “pseudo-lirismo visual”, ou “entediante”, são alguns dos clichés normalmente aplicados a obras desta índole. Psycho, de Hitchcock, é um dos melhores filmes de sempre e só por acaso é de terror.

Foquemo-nos agora na personalidade do realizador, na opinião de quem trabalhou com ele.

“MISTERO BUFFO”[2]

Daniela Doria em City of the Living Dead.
Daniela Doria em City of the Living Dead.

Muitos colaboradores de Fulci partilharam memórias sobre ele, depois da sua morte, algumas divertidas, outras nem tanto. Beatrice Ring (atriz snobe e de terceira categoria, que protagonizou o execrável Zombi 3) recorda-o assim: “Ele estava doente, com um problema de fígado, mas isso não é desculpa para a crueldade com que tratava as pessoas. Numa cena, a câmara devia passar de um ator para mim, e ele diria os nossos nomes, só que, no meu caso, em vez de dizer ‘passem para a Beatrice’, disse ‘passem para o restaurante chinês’. A câmara estava então focada em mim, com a equipa a rir-se e a troçar. Ele tinha o hábito de escolher o bombo da festa do dia e, nesse, fui eu.”

Noutra cena, Fulci foi mais longe, segundo Ring: “Havia um zombie, um figurante filipino, que tinha de me apertar o pescoço com uma corrente por detrás. Depois do quarto take, Lucio não estava satisfeito com a minha reação. Quando nos preparávamos para o quinto take, vi-o a falar com o figurante. Quando a filmagem começou, ele apertou-me com tanta força a corrente que quase me estrangulou. Provavelmente, foi essa a cena que ficou no filme, pois o que veem é real; eu a lutar com uma corrente de ferro, a sufocar e quase a desmaiar. Fiquei com as marcas no pescoço e dores horríveis na nuca. Sentei-me a chorar e ninguém me ligou nenhuma, a não ser os figurantes filipinos, que me trouxeram gelo e me confortaram. Fulci era desumano. Costumo perdoar às pessoas, mas custa-me perdoar-lhe essa crueldade, embora ele já não esteja vivo. Esteja onde estiver, espero que tenha tido tempo para refletir sobre o que fez aos outros.”

Ao ouvir esta atriz a comentar tais profundidades metafísicas, a referir que o cinema italiano, por essa altura, “já estava nas últimas” e que “era lixo série B” e que já entrou em muitos projetos inteligentes e sérios desde então, (quais?!) enquanto faz festas ao seu cão e se ri… não duvido do depoimento, mas é um facto que atingiu o seu “apogeu” ao ter participado em Zombi 3, obra deserdada por Fulci e completada por Bruno Mattei.

Venantino Venantini e o filho, Luca, noutra cena famosa, a da broca na cabeça em City of the Living Dead.
Outra cena famosa, a da broca na cabeça em City of the Living Dead.

Venantino Venantini, que participou em City of the Living Dead, juntamente com o filho, Luca, assistiu à fase da maquilhagem em que punham vermes verdadeiros no rosto de Luca. Este começou a queixar-se, quase a choramingar: “E Lucio disse, ‘vai-te f…., está calado’, etc.”, recorda Venantini, rindo-se: “Isto é só para dar uma ideia da diplomacia dele. Mas ele era honesto… numa profissão onde são quase todos desonestos… vivia intensamente o que fazia. E, por vezes, era brusco e rude. Mas um homem muito inteligente. Ele era mesmo complicado. Não era como estes realizadores que se fazem de atormentados, essas fitas. E deixou uma obra extraordinária, ao contrário de muitos de nós, que, no fim da vida, olham para trás e só deixaram um monte de m…”

Uma presença constante nos anos dourados do cinema italiano foi Ray Lovelock, que trabalhou com Fulci em Murder-Rock: Dancing Death (1984).

“Conhecemo-nos previamente, mas, quando cheguei ao set e o ouvi aos berros… não gritava, melhor dizendo, era o tom de voz forte e hostil. Fiquei algo intimidado, pois não gosto desse tipo de realizadores. Mas apercebi-me que o que lhe saía pela boca fora não era o que partia daqui [aponta para o peito].”

“Ele filmava rápido, porque tinha o filme dentro da cabeça. Encontrámo-nos, anos depois e até fomos beber um copo, recordando essa rodagem. Era um homem afável.”

Brett Halsey concorda que “Fulci era… digamos que não tinha paciência para incompetentes. Chegávamos todos ao set às 7:00, e ele chamava nomes, gritava… mas passava por mim e dizia, ‘olá, Brett, tudo bem?’ e depois prosseguia a sua arenga. Sempre tive uma relação cordial com ele, mas não era um homem fácil. Certa vez, fui convidado pelo meu amigo Clint Eastwood para uma projeção privada de um dos seus filmes, convidei Lucio, e Clint concordou. E ele apareceu, bem vestido, penteado, educado. Fiquei feliz ao ver esse lado dele.”

Florinda Bolkan, uma das musas de Fulci.
Florinda Bolkan, uma das musas de Fulci.

“A pior coisa que há é um ator impaciente”, graceja Florinda Bolkan. “Porque esperamos entre takes, passamos muito tempo a aguardar, e há que ter muita paciência, coisa que eu não tinha quando filmámos Don’t Torture a Duckling. Durante aquele longo e brutal espancamento de que sou vítima, tinha de ficar no chão, aguardando que a equipa filmasse doutro ângulo, etc. Durou uns cinco dias. E Lucio abaixava-se e dizia, ‘Florinda, está quase, é só um filme, é só uma cena’, foi realmente carinhoso comigo ao pressentir a minha impaciência.”

Fulci não se deu bem com a protagonista de um dos seus melhores filmes, o drama histórico Beatrice Cenci (1969). Adrienne Larussa admite: “Não andávamos aos gritos, mas havia uma hostilidade silenciosa entre nós. No meu contrato, estava explícito que eu não fazia cenas de nudez. Quando isso foi filmado, eu fui ao set, ver como era a minha dupla. Era… um bocado gorda! [Risos.] Fiquei pasmada e olhei para Lucio. Ele fumava o seu cachimbo e olhava para mim. Deitou-me um sorriso sarcástico e afastou-se… mas não recordo isso de modo negativo.”

Tomas Milian, que também participou neste filme e trabalharia com Fulci mais duas vezes, nos anos 70, é menos compreensivo: “Pobre Lucio… era um homem atormentado, era doente.” Milian parece esquecer-se que as atitudes mais sádicas do seu personagem em Four of the Apocalypse (1975) foram ideia sua, além de que se baseou em Charles Manson, sugestões que Fulci aceitou! Tendo em conta o comportamento do (genial) ator no set de vários filmes, entre bebedeiras, pedradas e acessos de megalomania, não sabemos qual dos dois era mais ‘doente’…

Al Cliver trabalhou com Fulci várias vezes e relembra uma situação em Zombie: “Íamos filmar uma cena com uma tempestade, então puseram uma grande ventoinha a agitar tudo e lançaram diante dela areia e terra. Ora, Fulci estava sentado perto dela e, passadas umas horas… [risos] Metade dele estava cheia de areia e não sei que mais, a outra metade do perfil estava intacta. E ele continuava ali sentado a dirigir as operações, gritando e fumando o seu cachimbo como se nada fosse! A sua figura era hilariante, e ele sabia-o, mas não ligou.”

Catriona MacColl protagonizou vários filmes de Fulci, no período do terror. “Tenho memórias boas e más dele, mas falemos das boas. Ele tinha um modo peculiar de dizer se o nosso trabalho era bom. Não o verbalizava. Ficava muito sério, com o seu cachimbo e acenava com a cabeça, com ar compenetrado. Isso significava que eu me tinha saído bastante bem na cena. Ainda tenho uma foto dele, que muito prezo, em que ele está na ponte, sozinho numa cadeira. Para mim, simboliza Fulci: Isolado, sobre uma ligação entre o nosso mundo e o outro, ou trilhando o seu caminho próprio.”

Uma atriz que analisa com inteligência a complexidade do realizador é Cinzia Monreale. Fala com sinceridade, ri-se, sorri e expressa-se espontânea e seriamente. “Fulci era um amigo. Fizemos juntos vários filmes, começando com um dos últimos western spaghetti, Sella d’argento, com o mítico Giuliano Gemma, e outros de terror. Ele achava que eu tinha rosto para isso. Já devem ter ouvido histórias… não é? Dependia das pessoas.”

Cinzia Monreale, a
Cinzia Monreale, a “Loba da Pomerânia”.

“Dava alcunhas aos atores, para encurtar caminho nalgumas cenas, explicando como queria que alguém fosse filmado. A mim, deu-me a alcunha de ‘Loba da Pomerânia’, talvez devido ao meu rosto afilado e magro. A Pomerânia fica na Alemanha, Polónia, por aí… não sei donde veio essa parte [risos].”

“Com outros, não era assim. Os atores eram… ‘cães’. As atrizes eram… ‘cadelas’. Até a mim me chamou isso: ‘Monreale, és uma cadela, mas és fantástica, bom trabalho.’ Muitos não gostavam, mas eu percebi que era o modo de ser dele e divertia-me imenso com Lucio. Alguns atores precisam de mais mediação, e, como ele era rápido a tirar a pinta às pessoas, podia passar por malcriado e brusco.”

“Era um homem com uma vida intelectual intensa. Era atormentado. Sim, era infeliz. Era curiosíssima, a figura dele. A maneira de andar, de se mover… vestia umas calças todas descaídas, até se ver o início do traseiro… cuspia tabaco… e, à mesa… [risos] às vezes, babava-se, enfim… fazia aquilo para chocar, acho eu. Gostava de chocar as pessoas. Teve uma vida muito complicada, como sabem, e gostava… não diria ‘gostava’, tinha necessidade de falar sobre a sua vida privada. Até a nível profissional… não foi reconhecido em Itália, apesar de ter feito tanta coisa e bem. Era aquilo a que Dario Fo chamaria ‘Mistero buffo’… Como disse, era um amigo. Merecia mais sorte. Mas a sorte não se merece, não é? Ou se tem ou não”, sorri Monreale.

O ESTRIPADOR AINDA HOJE BANIDO

Lucio Fulci tinha o hábito de surgir nos seus filmes, geralmente desempenhando papéis com que se identificava, um pouco como os cameos de Hitchcock. É o editor de um jornal em Zombie, um médico-legista em City of the Living Dead; bibliotecário em The Beyond e chefe da polícia em The New York Ripper. Em Contraband (1980), surge de metralhadora em punho, integrando um grupo de assassinos mafiosos, numa cena de tiroteio, fulminando os opositores.

Fulci nas filmagens de The New York Ripper (1982).
Fulci nas filmagens de The New York Ripper (1982).

Em 1981, Fulci realizou The Black Cat, inspirado no conto de Edgar Allan Poe, mas com algumas nuances no argumento. Protagonizado por Patrick Magee e Mimsy Farmer, trata-se da história de um homem que controla a mente do seu gato. Fulci filma sob o ponto de vista do animal:

“O que me interessou na história foi a oportunidade de comentar a relação entre um homem e um gato. As duas personagens são idênticas, embora o gato vença: O animal pode ser cruel, mas é apenas o juiz, a consciência deste homem. O homem detesta o gato, mas, tal como na história, não o consegue matar, já que ninguém consegue matar a sua própria alma doente. Muitas vezes, tentamos suprimir o nosso subconsciente sem o conseguirmos.”[3]

Lucio Fulci teve (e tem) vários filmes na lista da censura inglesa. Depois de assistir a The New York Ripper, de 1982, a British Board of Film Classification recusou-se a dar-lhe qualquer avaliação. O censor James Ferman certificou-se de que todas as cópias eram acompanhadas pelas autoridades até à fronteira. Incrivelmente, o filme ainda hoje se encontra cortado em Inglaterra: “This work was cut. The cut(s) were Compulsory. To obtain this category, cuts of 0m 34s were required.” Nalguns países, ainda está banido, tendo sido lançado na versão integral, nos EUA, em 1999.

Pelos padrões de hoje, o “Estripador” de Fulci continua explícito e misógino, mostrando-nos uma cidade hostil, repleta de personagens antipáticas contracenando num ambiente sufocante, em que, estranhamente, a única figura capaz de inspirar alguma empatia é a do próprio assassino, uma vez desvendadas as origens da sua psicose. A fotografia excelente é do prestigiado Luigi Kuveiller, os enquadramentos são cuidados, alguns efeitos especiais são arrepiantes, ainda hoje, e o mistério é denso. A reputação infame da película não trouxe boa publicidade ao realizador. Cada vez mais desanimado, Fulci começou a dar armas aos críticos, trabalhando por dinheiro e desleixando-se totalmente. As suas últimas obras são medíocres. Mas diga-se que, a partir deste filme, os seus problemas de saúde se agravaram.

“INVEJO OS ATEUS”

Don’t Torture a Duckling já tinha sido proibido pela Igreja Católica de ser exibido em Itália, e Fulci considerado anticristão. Poderoso ataque aos preconceitos, a obra (traduzida à letra, “Não se tortura o Pato Donald”) utiliza esta figura infantil como símbolo da inocência perdida, o que também aconteceria em The New York Ripper. Ao abordar um tema delicado como o assassínio de crianças, Fulci esteve à altura do comentário profético de Visconti. Em 1972, este ato politicamente incorreto valeu-lhe a recompensa de ser quase proscrito do meio cinematográfico, tendo passado dois anos a realizar telefilmes para sobreviver.

Quando lhe perguntaram se acreditava no bem e no mal, respondeu desta maneira à L’Écran Fantastique, em agosto de 1982: “Pode parecer estranho, mas sou mais feliz do que alguém como Buñuel, que diz que procura Deus. Eu encontrei-o na miséria alheia, e o meu tormento é maior que o de Buñuel. Percebi que Deus é um deus do sofrimento. Invejo os ateus; eles não têm estas dificuldades. Mas é verdade que os meus filmes são terrivelmente pessimistas.”

Fulci achava que “o público está contra o mal, basicamente” e considerava os filmes de Clint Eastwood “muito mais nefastos para os jovens”. “Os meus são apenas pesadelos, após os quais as pessoas acordam mais descontraídas. Os filmes fantásticos são libertadores. Em The Beyond, prestei muito mais atenção à história do que aos zombies, que são apenas acessórios.” Argumentava que “longe de participar nesta violência, o espectador, pelo contrário, liberta-se dela e dos horrores que guarda em si”.

Devido às restrições de tempo e orçamento, e à circunstância de nem sempre ter uma equipa à altura, os filmes de Fulci contêm, por vezes, algumas falhas. Em The Beyond, David Warbeck carrega um revólver pelo cano, perante o olhar incrédulo da coprotagonista Catriona MacColl. Em Zombie, assistimos à luta entre um tubarão e um zombie. Apesar da premissa ser quase absurda, a cena é filmada com realismo. Infelizmente, o tubarão devora um dos braços ao zombie, que, na cena seguinte, reaparece com ambos… Em Conquest, os protagonistas esquivam-se a uma chuva de setas “pintadas” no ecrã.

O INFERNO DENTRO DE NÓS

lucio fulci (11)The Beyond é considerado a obra-prima de Fulci. Lançado na Europa, em 1981, só dois anos depois surgiu nos EUA, com vários cortes e uma banda sonora diferente. Circulou no mercado vídeo nos anos 80, conquistando estatuto de culto através de cópias piratas. “A única solução é vivermos neste mundo, mas fora do tempo”, terá dito Fulci, comentando o filme.

Em 1927, no Seven Doors Hotel, no Louisiana, um pintor, ‘Schweick’, é chacinado por se acreditar que é um bruxo. O assassínio abre um dos sete portões do Inferno, que servem de comunicação com o Além. Décadas mais tarde, uma jovem nova-iorquina herda o hotel e reabre-o, reativando o portão e ressuscitando um exército de mortos-vivos sob o comando do pintor assassinado. Os heróis terminam literalmente dentro de um limbo, o Mar de Trevas que ‘Schweick’ pintava no início do filme, cegos e perdidos.

Em 1998, entra em cena a Rolling Thunder Pictures, companhia de Quentin Tarantino, que lhe permite lançar os filmes que mais lhe agradam. O realizador americano adquire os direitos de distribuição de The Beyond, determinado em conseguir uma audiência mais vasta para a película, lançando-a através da sua companhia. A obra reaparece então nos ecrãs americanos, com a Miramax a obter um milhão de dólares de lucros.

Os críticos alegavam que a obra não tinha coerência. De acordo com Fulci, “as pessoas que culpam The Beyond por não ter uma história, não compreendem que é um filme baseado em imagens e que deve ser apreendido sem reflexões. Dizem que é difícil interpretar um filme destes, mas é muito fácil interpretar um filme com enredos: Qualquer idiota compreende A Gaiola das Malucas de Molinaro, ou até Nova Iorque 1997, de Carpenter, ao passo que The Beyond, ou Inferno, de Argento, são filmes completos.”

Tarantino acabou por despoletar uma edição especial em DVD da Anchor Bay, remasterizada digitalmente e sem cortes, acompanhada por uma grande quantidade de material bónus, que esgotou rapidamente, tornando-se num artigo de coleção. Mas Fulci já não era vivo para assistir a esta prova de apreço.

É assim que Fulci comenta aqueles que muitos consideram a sua obra-prima, The Beyond: “Não tem lógica, é uma sucessão de imagens. O ‘Mar de Trevas’, por exemplo, é um mundo absoluto e imóvel onde todos os horizontes são similares. Penso que cada homem escolhe o seu inferno íntimo, que corresponde aos seus vícios ocultos. Por isso, não temo o Inferno, já que ele já está dentro de nós. Curiosamente, não imagino que exista um Paraíso, embora seja católico. Talvez Deus me tenha abandonado? Mas muitas vezes vislumbrei o Inferno, já que vivemos numa sociedade onde apenas o Inferno é tangível. Por fim, compreendi que o Paraíso é indescritível. A imaginação é muito mais poderosa quando atiçada pelos terrores do Inferno.”

“E não há maneira de exorcizar o seu inferno pessoal?”

“Nem pensar! Tentei fazê-lo muitas vezes, sem resultados, pelo que o mostro nos meus filmes.”

David Furtado

[1] L’Écran Fantastique, agosto de 1982.
[2] Traduzido à letra, “mistério cómico”, alusão à ópera satírica de Dario Fo.
[3] L’Écran Fantastique, agosto de 1982.

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