Indiana Jones e o Templo Perdido: A saga continua

A pergunta da imprensa, após o sucesso de Os Salteadores da Arca Perdida, em 1982, era sempre a mesma. “Quando é que ‘Indiana Jones’ regressa?”

indiana jones temple of doom

A resposta surgiu em 1983, quando se anunciou a rodagem do segundo capítulo da série, intitulado Indiana Jones and the Temple of Death. O título viria a ser alterado, já que parte do público-alvo era composto por crianças e adolescentes. Assim, George Lucas optou pela expressão “Temple of Doom”. Lawrence Kasdan estava ocupado a realizar os seus próprios projetos, pelo que Lucas pediu o guião aos argumentistas de Nova Geração (American Graffiti), Gloria Katz e Williard Huyck, conhecendo o interesse de ambos pela cultura indiana.

Quando terminaram as filmagens de Indiana Jones e o Templo Perdido, e perguntaram a Harrison Ford qual o balanço, este respondeu: “Esmagamento de um disco da coluna vertebral, infeções virais, disenterias, sem esquecer as várias picadas de insetos e toda uma série de coisas que não declarei ao IRS.”[1]

No final dos anos 70, Spielberg já estava preparado para a epopeia. Quando discutiu o projeto Indiana Jones com George Lucas, no Havai, este disse-lhe que tinha três histórias em mente. “Na verdade, não tinha nada”, afirma Spielberg, “tivemos de as inventar todas… Duas semanas depois da estreia do primeiro filme, começámos a pensar no segundo”.

Ford e Ke Huy Quan, o 'Short Round'.
Ford e Ke Huy Quan, o ‘Short Round’.

A equipa técnica de 1983 era essencialmente a mesma, integrando o editor Michael Kahn e o compositor John Williams, mas os responsáveis pelo sucesso fizeram questão de não repetir os ingredientes, a começar pelo elenco: Harrison Ford e o duplo e ator Pat Roach foram os únicos a regressar. Kate Capshaw e Ke Huy Quan, de 11 anos, juntaram-se a Ford, numa aventura muito diferente. A rodagem particularmente árdua começou no Sri Lanka, em abril de 1983, onde se filmou a maioria dos exteriores.

Ford acabara de casar com Melissa Mathison (a argumentista de E.T: O Extraterrestre) e reencontrava uma equipa e um papel que lhe agradavam imenso, mas a superprodução implicou um empenho inédito de Ford, que desabafou:

“Pergunto a mim mesmo quanto tempo me poderei manter neste género de papéis. Este tipo de vida ameaça tornar-se desgastante. Espero, quase com impaciência, poder interpretar papéis de pessoas idosas, o que me evitará ser projetado contra uma parede de 10 em 10 minutos.”[2]

Harrison Ford terminou as filmagens, em setembro de 1983, feito num oito e jurando que nunca mais se meteria em algo parecido. “Tinha dito para comigo que, se era capaz de cair, tendo a certeza de me conseguir levantar a seguir, poderia continuar a aceitar este tipo de trabalhos. Mas, tendo de montar no dorso de elefantes, semanas a fio, e considerando ainda o desgaste físico, qualquer dia acabaria numa cama de hospital.” Foi o que aconteceu.

indiana jones temple of doom (12)

Em diversas cenas, Ford teve de ser substituído pelo duplo Vic Armstrong, ficando afastado cinco semanas. Mais tarde, quando a produção se mudou para os Estúdios de Elstree, o ator voltou a queixar-se de dores nas costas, sendo internado num hospital de Los Angeles. Apesar destes contratempos, Spielberg terminou o filme cinco dias antes do previsto (85), respeitando o orçamento de 28 milhões de dólares.

Uma foto/recordação do duplo Vic Armstrong.
Uma foto/recordação do duplo Vic Armstrong.

NÃO SÃO FILMES PARA CRIANÇAS

Neste segundo episódio, foi dada uma atenção particular aos efeitos especiais, o que resultou na espetacular sequência das vagonetas dentro da mina, cena que tinha sido originalmente escrita para o primeiro filme. George Gibbs e Eugene Scott construíram uma verdadeira linha de caminho-de-ferro em tamanho natural. Depois de filmados os grandes planos dos atores, recorreu-se a maquetas e miniaturas para, imagem a imagem, elaborar toda a sequência. A ponte suspensa foi também construída, e Spielberg hesitava em caminhar sobre ela, já que sentia vertigens. O segundo capítulo da epopeia viria a ser premiado com o Óscar de Melhores Efeitos Visuais.

O realizador criou também uma cena de abertura memorável, com Kate Capshaw a cantar «Anything Goes», num clube nocturno de Xangai. Mas o teor era bastante negro. A ação decorre em 1935, um ano antes do filme anterior, explorando a história de uma seita que obriga crianças a trabalharem numa mina. Há ainda um feiticeiro capaz de lhes arrancar o coração com as mãos. Aliás, a cena do sacrifício humano adicionou um clima de terror à película, que foi muito criticado na época.

indiana jones temple of doom (7)

O modo como o povo indiano é retratado valeu ao filme uma censura temporária na Índia. Os censores americanos deram-lhe a classificação P.G. (Parental Guidance), impondo o acompanhamento de adultos nos cinemas. Mas os problemas não ficaram por aqui. Quando foi lançado em DVD, em 2003, a versão de Região 2 surgiu com diversas cenas cortadas.

As críticas não foram consensuais, e Steven Spielberg reagiu mal quando o acusaram de ter realizado um filme para crianças com um teor quase cruel.

“É falso! Os meus filmes agradam às crianças, mas não lhes são especialmente dedicados. E estão a confundir medo com violência. Este filme é mais assustador do que Os Salteadores da Arca Perdida, mas não é mais cruel. Só obteve a classificação de P.G. devido à sua intensidade dramática.”[3]

"Não são filmes para crianças", argumentou Spielberg.
“Não são filmes para crianças”, argumentou Spielberg.

Os Salteadores continua a ser o filme que Spielberg consegue ver com os filhos e realmente apreciar, do ponto de vista do público. Esta primeira sequela não é uma das suas obras favoritas. Harrison Ford, por seu lado, revela que ficou muito satisfeito com o resultado “apesar de ser um filme mais negro do que o anterior. Acho que ultrapassou as expectativas do público com a sua originalidade”.

indiana jones temple of doom (1)

Apesar das polémicas, o segundo capítulo obteve um êxito enorme junto do público. Estreou em 1678 salas americanas, a 23 de maio de 1984, e, quatro dias depois, bateu o recorde das receitas mais elevadas num só dia, rendendo 9.324.760 dólares. Bateu ainda o recorde das receitas semanais, totalizando 45.709.328 dólares durante a primeira semana de exibição. Apesar de ter rendido menos 30 milhões do que o primeiro filme, Indiana Jones e o Templo Perdido mostrou que o herói tinha vindo para ficar.

As perguntas repetiram-se. “A série vai ter uma continuação?” “Com certeza, mas não antes de três anos”, garantiu Harrison Ford, na época.

FORD FOGE AOS ESTEREÓTIPOS

indiana jones temple of doom (5)O ator, depois do desgaste das filmagens, queria papéis mais calmos, mas as propostas que lhe faziam eram cópias descaradas de Indiana Jones. Ford recusou-as todas, aceitando fazer um papel de polícia em A Testemunha, realizado por Peter Weir. Harrison começou então uma nova fase da sua carreira, sendo reconhecido tanto pelos realizadores como pela crítica e o público, um raro caso de consenso. Ford conviveu com polícias e aplicou-se de tal forma que foi nomeado para um Óscar. “Passei 15 dias com uma equipa de polícias”, relembra, “porque deles só conhecia o que as séries de TV nos mostram. E descobri que são, acima de tudo, muito bons comediantes. Com efeito, são pessoas muito emocionais que passam o tempo a mascarar as suas emoções e que, por isso, têm de se controlar constantemente. Aprendi a conhecer o ritmo da vida deles e a verdadeira natureza dos seus atos”.[4]

Demonstrando uma sensibilidade que se lhe desconhecia, Ford deu uma reviravolta à sua carreira, como notou o crítico Michèle Halberstadt na Première: “Harrison Ford desempenha um belíssimo papel. Mostra-nos que, mesmo sem as roupas dos heróis que o tornaram mundialmente famoso, possui o seu próprio carisma.” O ator refletiu, após o sucesso do filme:

“Aprendi a estar preparado para tudo, no mundo da sétima arte. O grau de sucesso que obtiveram os meus filmes precedentes protege-me do desejo obsessivo de querer alcançar sempre esse êxito. Não é por ter provado o sabor da glória que esta passou a ser a minha droga como ator! Não sou um fanático do sucesso…”[5]

O profissionalismo de Harrison Ford é apontado pelos realizadores com quem trabalhou e adivinha-se nas declarações do ator. Embora todos o identifiquem com ‘Indiana Jones’ ou ‘Han Solo’, Ford fugiu aos rótulos, conquistando a sua independência de papéis tão marcantes. Em 1983, interpretou ‘Rick Deckard’ em Blade Runner – Perigo Iminente, um polícia que vive num estado de incerteza, indiferente ao que o rodeia, até que se apaixona por uma androide. Ford explica que quis “escapar à deprimente situação de ator catalogado e também oferecer uma outra coisa ao público”.

Kate Capshaw, Steven Spielberg, George Lucas e Harrison.
Kate Capshaw, Steven Spielberg, George Lucas e Harrison.

Durante a década de 80, Harrison Ford adquire um lugar decisivo no cinema americano. E muito se deveu a esta dedicação.

Spielberg graceja que “Harrison é como um gato. Cenas com água não são as suas favoritas”. Roman Polanski constatou isso mesmo durante a rodagem de Frenético. Numa cena de chuveiro, Ford pareceu-lhe um pouco retraído. Até que Polanski estranhou e meteu a mão debaixo da água: Estava gelada, mas Ford nada dissera.

Ford é conhecido pelo seu feitio reservado. Nas entrevistas que deu, é sempre tímido e parece deslocado – por vezes, autenticamente aborrecido –, com ar de quem se sente mais à-vontade na oficina de carpintaria do que propriamente num estúdio de televisão. O ator sempre fugiu a sete pés dos tabloides e da imprensa cor-de-rosa. Com os fãs, a história já é diferente.

“Abordam-me, sim, e pedem-me autógrafos. Assino-os com satisfação. Nunca tive problemas. As pessoas, de um modo geral, são muito simpáticas comigo.”

KAREN ALLEN CALÇA AS BOTAS

Karen Allen só surgiria em novamente em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008).
Karen Allen só surgiria em novamente em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008).

Os fãs de Indiana Jones ficaram um pouco surpreendidos quando viram Kate Capshaw enquanto coprotagonista de Indiana Jones e o Tempo Perdido. De facto, Karen Allen deixou uma marca insubstituível no universo de ‘Indiana Jones’, com o seu sorriso cativante e olhar expressivo. A química com Harrison Ford resultou na perfeição, e Allen protagoniza algumas das cenas mais divertidas do primeiro filme. É escusado dizer que a sua falta foi notada e que o regresso no quarto capítulo foi bem-vindo.

Allen nasceu em 1951, no Illinois, e estudou Design no New York’s Fashion Institute of Technology. Inicialmente queria ser escritora, até que ficou fascinada pela arte dramática. Estreou-se no teatro em 1973 e, em 1977, mudou-se para Nova Iorque, trabalhando como empregada de mesa e também numa livraria. Estudou com Stella Adler e com Lee Strasberg no Theatre Institute.

John Landis escolheu-a para protagonizar A República dos Cucos, em 1978, resgatando-a da pobreza. Aos 28 anos, quando o filme estava quase terminado, Allen sofreu uma grave infeção ocular que lhe deixou a visão afetada. Em 1980, contracena com Al Pacino em A Caça e, no ano seguinte, Spielberg deu-lhe o papel de ‘Marion Ravenwood’ em Os Salteadores da Arca Perdida. A atriz recorda:

“É interessante rever esse filme, enquanto participante, já que contém realidades múltiplas. A um nível, estamos a assistir a uma cena; por outro lado, relembramos as semanas em que todos estavam terrivelmente doentes na Tunísia. Adoro o filme e o facto de ser redescoberto.”

O talento de Karen Allen pode também ser apreciado em O Homem das Estrelas de John Carpenter, em 1985, ao lado de Jeff Bridges, um dos 35 filmes em que participou. Nos anos 90, inaugurou o seu próprio centro de yoga e dedicou-se à indústria têxtil, criando uma linha de camisolas, cachecóis e xailes. Fundou a sua própria empresa, que pode ser visitada em www.karenallen-fiberarts.com.

Allen ficou radiante ao ser convidada para integrar o elenco do quarto Indiana Jones. “É ótimo voltar a calçar as botas de Marion Ravenwood!”

David Furtado

[1] Telegraph Sunday Magazine.
[2] Starfix, maio de 1984.
[3] Première, setembro de 1984.
[4] Première, maio de 1985.
[5] Première, fevereiro de 1987.

Advertisements

4 Comments Add yours

  1. Belén diz:

    Me gusta muchísimo este artículo. Hay muchas cosas que no sabía. “Indiana Jones y el Templo maldito” es mi favorita de la saga. La chica, Kate Capshaw, está estupenda, y el niño también. Muy entretenida. En la última película, Indy escoge a Karen Allen, que era la que merecía estar con él. Gran elección. Era la mejor. Fue una alegría, además, volverla a ver.

    Las fotos son fantásticas también. Me las he guardado todas. Parabéns!

    1. Muchas gracias por tus palabras, Belén. 🙂 Yo siempre tento encontrar fotos inéditas o raras para los artículos y curiosidades poco conocidas. Confieso que mi favorita entre las heroínas de Indiana Jones es Karen Allen. Pero Kate Capshaw tiene un desempeño muy bueno en esta película.

  2. Belén diz:

    También Karen Allen es mi favorita. La más intrépida, valiente y simpática. Es difícil encontrar personajes femeninos con esa personalidad. Normalmente el cine, en ese aspecto, es un poco machista. Los personajes masculinos siempre están mejor dibujados.

    De todas formas, como dices, Kate Capshaw también estuvo muy bien. Y el filme para mí es el mejor de la saga. Lo he visto millones de veces. “El arca perdida” también.

    1. Estoy de acuerdo. Pero no creo que el cine es tan sexista, tal vez en las películas de acción, western… Hay excelentes actrices e personajes femeninos notables.

      Los filmes de Indiana Jones son fáciles de ver numerosas veces, que es lo mismo conmigo. Pero sólo los tres primeros. No me gusta el 4…

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s