Indiana Jones: Os Salteadores da Arca Perdida estreou há 31 anos

harrison ford raidersA 12 de junho de 1981, o logotipo da Paramount transformava-se numa montanha verdadeira, no início de Raiders of the Lost Ark. Pouco depois, Harrison Ford entrava num misterioso templo. Não conseguiu obter o ídolo lá guardado, mas o sucesso mundial foi o que todos sabemos. Depois de uma sequela que desiludiu muitos fãs, em 2008, fala-se de um quinto filme. Para assinalar a data, proponho uma visita aos bastidores das primeiras três obras, dedicando um texto a cada uma delas. E tudo começou com… o cão de George Lucas.

Harrison Ford declarou, quanto à ideia de uma nova sequela: “Talvez, mas não quero ir para Marte”, uma referência ao quarto filme da saga. “É ótimo revisitar esse personagem e seria mais uma hipótese de trabalhar com Steven outra vez, já que ele só me contrata para o papel de ‘Indiana Jones’.”

A ideia de ‘Indiana Jones’ remonta a maio de 1977, quando George Lucas e Steven Spielberg passavam férias no Havai, após terem trabalhado durante muito tempo, cada um no seu projeto. Spielberg confessou a Lucas que gostaria de realizar um filme de James Bond. No entanto, a sugestão foi-lhe recusada, já que o produtor de 007, Albert Broccoli, preferia realizadores britânicos. Mas Lucas disse ao amigo: “Tenho algo melhor do que James Bond…” Falou-lhe então sobre um professor universitário, aventureiro nas horas vagas, duro e um pouco cínico.

Spielberg revela:

“Indiana Jones é o nome do cão de George Lucas. É um ‘monstro’ cinzento e branco ao qual também chamamos Indy. Aliás, George deu a todos os personagens principais os nomes de cães e gatos dos seus melhores amigos. Talvez seja o começo de uma moda!”[1]

O realizador confirma que queria realizar um “Bond”. “Mas foi então que George me disse que tinha algo em mente, ou melhor, numa gaveta.” Os dois amigos começaram a imaginar várias histórias em redor da personagem, divertindo-se imenso, e até pensaram em realizar o filme juntos. Mas, uma vez que Lucas tivera um sucesso estrondoso com A Guerra das Estrelas, preferiu dedicar-se à sequela, O Império Contra-Ataca.

raiders of the lost ark indiana jones (2)

Lucas também já falara da ideia a Philip Kaufman, que elaborara um esboço do argumento. Kaufman estava ocupado a realizar Os Vagabundos de Nova Iorque (The Wanderers), pelo que Spielberg e Lucas recorreram a Lawrence Kasdan para que escrevesse o guião. Lucas e Kaufman tinham já decidido que a ação decorreria em 1936, sabendo que Hitler mandara procurar objetos escondidos com a fama de possuírem poderes mágicos. A Arca da Aliança – que supostamente conteria os Sete Mandamentos – era o maior tesouro arqueológico imaginável, a par da Atlântida ou da Arca de Noé. Lawrence Kasdan começou a escrever a partir deste pressuposto: Os nazis procuravam a Arca, missão que partilhavam com um arqueólogo.

Kasdan, Spielberg e Lucas não conseguiam chegar a consenso relativamente ao aspeto físico do herói. Spielberg preferia-o com ar de Humphrey Bogart em O Tesouro da Serra Madre, sujo, mal barbeado e com um chapéu velho. Lucas imaginava-o como um aventureiro ao estilo de Cary Grant. O resultado final viria a ser uma mistura, para a qual Harrison Ford contribuiu de forma decisiva. Mas havia outras preocupações.

raiders of the lost ark indiana jones (12)

A Paramount não queria correr o risco de financiar o projeto, devido ao fracasso de Spielberg em 1941: Ano Louco em Hollywood, que valeu ao realizador a fama de não respeitar orçamentos. Em dezembro de 1979, Os Salteadores da Arca Perdida começou finalmente a ganhar forma e era preciso encontrar um ator. Spielberg e o produtor Frank Marshall pensaram em Tom Selleck, que aceitou a proposta. No entanto, um atraso na rodagem da série televisiva Magnum P.I., provocado por uma greve de atores, interferiu na sua disponibilidade. O resto é História.

raiders of the lost ark indiana jones (11)

“NÃO SEI O QUE É UM HERÓI”

“George e Steven queriam Tom Selleck”, confirma Harrison Ford. “Hesitavam em dar-me o papel, pois receavam que eu estivesse muito marcado pelo ‘Han Solo’ de A Guerra das Estrelas. Como o argumento dos dois filmes era realmente o mesmo, eu próprio hesitei.”[2] Mas Ford leu o guião e começou a interessar-se pela personagem.

“Não sei o que é um herói e tenho a certeza de que os heróis também não o sabem! ‘Han Solo’ é menos complicado e menos sofisticado. ‘Indiana Jones’ tem uma dimensão suplementar. É um protagonista que luta com a ajuda de todos os meios à sua disposição, mas revela fragilidade humana, porque conhece o medo e tem problemas de dinheiro. É um professor, embora não seja um intelectual, na minha opinião. Protagoniza vários atos corajosos, mas não lhe chamaria um herói. Consegue, muito simplesmente, obter e manter o respeito de todos com um chicote na mão.”[3]

Spielberg explica que “‘Indiana Jones’ é um aventureiro interesseiro. Nalguns casos, pode mesmo tornar-se um ladrão de túmulos, se as circunstâncias o exigirem. Não recua perante nada para atingir os seus fins. Acho que é isto que faz o charme do personagem”. O realizador e o ator discutiram bastante o carácter de ‘Indiana Jones’, e Harrison Ford adicionou-lhe uma outra característica, a simpatia.

raiders of the lost ark indiana jones (3)

PERIPÉCIAS DA RODAGEM

Spielberg contratou Karen Allen, Paul Freeman, Denholm Elliot, John Rhys-Davies, e as filmagens começaram em junho de 1980, na cidade francesa de La Rochelle, num cais de submarinos construído pelos alemães durante a II Guerra Mundial. Os Salteadores da Arca Perdida foi também filmado no Havai (sequência do pré-genérico), na Tunísia (exteriores) e nos estúdios londrinos de Elstree (interiores). A rodagem foi curta, demorando apenas 77 dias, já que Spielberg estava determinado em não repisar os erros do passado.

Mas as condições foram difíceis. Segundo o realizador, “a temperatura média do Saara, à sombra de um guarda-sol, era cerca de 60º C. Ficávamos um pouco mais aliviados quando, por volta das quatro da tarde, se levantava o vento e o ar refrescava. Nessa altura, não estariam mais do que uns 50º C”.[4]

Spielberg queria respeitar o contrato, pelo que recorreu à imaginação. Para uma cena, dispunha de 600 figurantes, em vez dos dois mil previstos, utilizando uma maqueta com soldados alemães do tamanho de soldadinhos de chumbo. Deveria ter filmado as cenas das escavações numa área de100 hectares, mas utilizou apenas 35.

raiders of the lost ark indiana jones (8)
Karen Allen e Spielberg na Tunísia.

Os desafios foram uma constante, não só para Spielberg. Na sequência inicial, ‘Indiana Jones’ tem de correr diante de um enorme rochedo. Embora o adereço fosse construído em fibra de vidro, pesava 150 quilos. O realizador optou por filmar a cena de cinco ângulos diferentes, com dois takes para cada um. Assim, Harrison Ford teve de correr 10 vezes diante do rochedo, escapando à justa em todas elas.

A aventura de ‘Indy’ passou para o plano da realidade, com Ford a arriscar-se quase tanto como a personagem que interpretava. Uma outra cena envolveu um avião Flying Wing, aparelho extremamente raro, construído nos anos 40. O cuidado com autenticidade obrigou a que a produção pedisse a Ron Cobb para conceber uma réplica, a qual foi construída em Inglaterra, tendo o avião sido enviado peça a peça para a Tunísia, onde foi montado. Indiana Jones viaja para o Nepal num Pan Am China Clipper. A produção teve igualmente de reconstruir um avião idêntico, visto que todos se despenharam.

raiders of the lost ark indiana jones (6)
Ford e Spielberg.

Harrison relata a experiência com o Flying Wing: “Estava previsto que eu caísse diante da roda do avião, enquanto este dava uma volta sobre si mesmo. Deveria dar um passo atrás, evitando assim ficar esmagado. Ensaiei esta cena quatro ou cinco vezes e tudo correu normalmente. Quando começámos a filmar, o meu pé escorregou na areia e a perna ficou presa sob a roda. Mas, felizmente, tive sorte e não fiquei ferido”.[5]

raiders of the lost ark indiana jones (5)SEQUÊNCIAS MEMORÁVEIS

As filmagens do primeiro Indiana Jones foram recordadas por Ford e Spielberg em várias entrevistas. Embora o filme tenha um ritmo imparável e seja um dos expoentes máximos do cinema de aventura, muitas coisas não correram como o planeado e outras foram improvisadas. A cena das serpentes, por exemplo. Ford recorda: “A ideia, no guião, era de que o fogo amedrontaria as serpentes e que os personagens tivessem o caminho livre, graças a isso. Mas essas serpentes idiotas, longe de sentirem medo, atiravam-se na direção das tochas, pois estas eram para elas uma fonte de calor… Foi preciso arranjar um artifício para que o fogo parecesse ‘assustador’ e não uma ‘segurança’”. O ator refere que a única serpente perigosa foi a jiboia, que teve de ser filmada através de um vidro.

As tarântulas da sequência inicial eram também verdadeiras, o que assustou Alfred Molina, que desempenha o papel do guia de ‘Indy’. Frank Marshall recorda que o ator “devia ter umas 25 tarântulas nas costas. Coitado… como era o seu primeiro dia de filmagens, não ousava falar e aceitou fazer a cena. Estava presente um tratador de tarântulas que o aconselhou: ‘Se não as chateares, elas também não te chateiam’. E o Alfred disse-nos que não se mexeria”. Spielberg sossegou-o: “Se houver algum problema, ou tiveres medo, diz, que paramos de imediato.” Molina estava aterrorizado e ainda mais ficou quando, mal o realizador gritou “ação”, uma tarântula lhe saltou para o rosto. O ator não conseguiu falar, e a cena foi filmada, sendo mais tarde cortada na montagem.

Harrison Ford idealizou a cena em que ‘Indiana Jones’, depois de pôr KO um soldado nazi, lhe veste o uniforme, só que este é demasiado curto. “Eu já tinha trabalhado em vários filmes”, comenta Ford, “e aposto que vocês também repararam nisso… cada vez que um ator veste um fato ou um uniforme que apanha de qualquer maneira inexplicável, este assenta-lhe como uma luva. Isto é completamente idiota! Pensei que daria azo a uma brincadeira, e o Steven concordou”.

Ford foi também o autor de uma das cenas mais hilariantes do filme. Um árabe de tamanho colossal aproxima-se de ‘Indiana Jones’ e faz alguns malabarismos com uma cimitarra. Mas ‘Indy’, em vez de o enfrentar – como seria previsível –, limita-se a matá-lo com um tiro de pistola. Ford revela: “Esta cena deveria ser um grande confronto entre chicote e espada. O guião estava completamente delineado, com rodagens previstas para quatro dias. Mas sugeri a Spielberg que seria muito mais divertido e inesperado abrir fogo sobre o árabe. Ele concordou, e adiantámo-nos três dias nas filmagens.”[6] Spielberg contrapõe: “Harrison estava em muito mau estado, devido a um ataque de disenteria. Sabia que não poderia levar a cabo o combate inicialmente previsto. Optou-se pelo ‘bang!’”[7] A equipa riu às gargalhadas e a cena foi integrada no filme.

FENÓMENO

Um ano depois das primeiras filmagens, Os Salteadores da Arca Perdida foi lançado nos cinemas americanos. Após seis meses, rendera 90,434,000 dólares apenas na América. Acabou por arrecadar 116 milhões de dólares, batendo Super-Homem e, ironicamente, o filme de James Bond lançado nesse ano, 007 – Missão Ultra-Secreta.

raiders of the lost ark indiana jones (4)
“Indiana Jones…”

Steven Spielberg justificou o sucesso, dizendo que Os Salteadores é movimentado e divertido, sem qualquer mensagem escondida: “É preciso não esquecer uma coisa, trata-se apenas de um filme e não de uma descrição daquela época, ou seja, da situação geral em 1936. Contém tudo o que é permitido a um divertimento exótico, com o propósito de fazer estremecer, assustar ou encher de encantamento o espectador, face ao engenho do herói. Na realidade, este enfrenta o inimigo com um espírito e um modo muito despreocupados.”[8] Spielberg refutou também o rótulo de intelectual.

“Não faço filmes intelectuais. O George [Lucas], pelo contrário, é um intelectual. A única coisa que temos em comum é o facto de, muito simplesmente, adorarmos filmes para o grande público, ligeiramente maiores do que a vida… e vistos através dos olhos dos jovens”.

A ideia de dar continuidade às aventuras de ‘Indy’ surgiu logo no início, com Spielberg a assegurar que estava pronto para a tarefa. E cumpriu-a, realizando Indiana Jones e o Templo Perdido (1984) e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989). Harrison Ford mostrou-se mais cauteloso, declarando que concordaria em entrar num segundo e talvez num terceiro capítulo. “Dei o melhor de mim a este papel”, diz o ator. “É evidente que alguns traços da minha personalidade têm algo em comum com a personagem. Não quero ser muito repetitivo, mas diverti-me de tal forma com George e Steven que decidimos rodar a continuação da história nos próximos anos, embora não de imediato, pois é necessário algum tempo para refletir.”

raiders of the lost ark indiana jones (7)
Ford ouve as instruções de Steven Spielberg. (Embora nem sempre as tenha seguido.)

O divertimento de Ford, Spielberg e Lucas era evidente. As sequelas de Indiana Jones tornaram a personagem num fenómeno. 14 nomeações e sete Óscares depois, a crítica e público concordam num aspeto: Não se consegue imaginar outro ator naquele papel. Na época, o crítico francês Phillipe Ross comentou: “O personagem ‘Indiana Jones’ é interpretado, de um modo mais do que convincente, por Harrison Ford, que consegue dar ao seu papel uma certa dimensão psicológica, que, por vezes, muita falta faz aos heróis deste género de trabalhos.”[9]

David Furtado

[1] Première, setembro de 1981.
[2] Première, setembro de 1982.
[3] Harrison Ford citado por Tony Crawley em L’Aventure Spielberg, Gérard Watelet, Pygmalion, 1983.
[4] Steven Spielberg citado por Tony Crawley em L’Aventure Spielberg, Gérard Watelet, Pygmalion, 1983.
[5] L’Écran Fantastique, janeiro de 1982.
[6] L’Écran Fantastique, janeiro de 1982.
[7] Première, setembro de 1981.
[8] Steven Spielberg citado por Tony Crawley em L’Aventure Spielberg, Gérard Watelet, Pygmalion, 1983.
[9] La Saison Cinématographique, 1982.

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s