“Não há nada pior do que um palhaço triste.” – Mel Gibson e Get the Gringo

Um dos últimos filmes de Mel Gibson, Apanha-me Esse Gringo (Get the Gringo) é uma história interessante e repleta de ação que não desilude os fãs do ator na sua faceta de herói. Ou, neste caso, de anti-herói.

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Apanha-me Esse Gringo começa com uma perseguição junto à fronteira que separa os Estados Unidos e o México. ‘O Condutor’ (Gibson) e o seu comparsa, disfarçados de palhaços, tentam escapar às patrulhas fronteiriças de ambos os países. Ao volante, Gibson (de cuja personagem nunca sabemos o nome) consegue atirar o carro sobre a barreira, aterrando no lado mexicano. Os americanos pretendem fazer a detenção, cumprindo o “acordo” corrupto entre ambas as forças, mas os agentes mexicanos, vendo que há muito dinheiro dentro do automóvel, insistem em levar Gibson.

Depois de se apoderarem do saque, levam ‘O Condutor’ para uma prisão mexicana, “El Pueblito”, onde os prisioneiros ditam as regras, e o diretor não é perdido nem achado. Gibson é assim lançado para um mundo onde é o “Gringo”, já que é o único branco. O termo ajuda a explicar por que razão o filme foi lançado, nalguns países, com a denominação How I Spent My Summer Vacation, uma vez que o epíteto, em espanhol, não é ofensivo, mas, em inglês, pode ser.

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Em “El Pueblito”, Gibson trava conhecimento com um miúdo de 10 anos (Kevin Hernandez), que, além de lhe pedinchar cigarros, lhe explica a hierarquia da cadeia, dizendo-lhe que, por lá, tudo se compra mediante um preço, menos a fuga. O filme é pontuado pela voz off de Mel Gibson, que, num tom irónico, vai descrevendo as suas impressões. O Gringo terá de utilizar a astúcia para sobreviver na prisão, acabando por formar uma boa dupla com o rapaz. Tornam-se amigos, mas a história ainda vai no começo…

Gibson e Kevin Hernandez.
Gibson e Kevin Hernandez.

Adrian Grunberg (que fora 1º assistente de realização de Gibson em Apocalypto) realiza uma obra bastante original, tendo em conta que o género “filmes passados em prisões onde os presidiários fazem as regras” não é propriamente inédito. Com uma montagem rápida, sem cair nos excessos do estilo MTV, Grunberg evita momentos parados, e é difícil desviar o olhar do ecrã, pois algo está sempre a acontecer. Mel Gibson elogiou o trabalho de Grunberg: “Adrian é o melhor. Eu observava-o e pensava, ‘este é o homem mais trabalhador que já vi’.”

Outro mérito de Get the Gringo é o facto de este aspeto não evitar que simpatizemos com os personagens. No meio de tiroteios, pancadaria e explosões, há lugar para a empatia e para o humor.

Nas palavras de Mel Gibson, “é divertido. As pessoas vão-se divertir. É um filme ‘duro’, tem bons momentos de ação e penso que os personagens vão despertar empatia no público… no fim de contas, o filme não se leva muito a sério. É para ver a comer pipocas”.

O ator resume bem a obra, mas, ao invés de muitos filmes do género, em que o argumento é uma mera desculpa para a ação e os efeitos especiais, aqui há equilíbrio entre as duas vertentes. A maior parte da rodagem decorreu no México, com um elenco e uma equipa hispânica. Mel Gibson afirma que lhe tentaram ensinar, sem sucesso, a dançar Salsa.

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O MELHOR ENTRE OS MAUS

Apanha-me Esse Gringo estreou em Israel, a 15 de março, surgiu depois no ecrãs russos, na Ucrânia, no Líbano, na Grécia, entre outros países, e só foi lançado nos EUA em “video on demand”, a 1 de maio. Quando escrevi o artigo «Mad Mel e o Apocalipse», julgava-se que nem passaria pelas salas nacionais.

Acerca desta sequência de estreias pouco ortodoxa, Mel Gibson explica que “este é o tipo de filme que suscita um modo novo de distribuição. Existe um velho modelo, nas salas, que é comprovado, mas ao surgir na DIRECTV pela primeira vez, entra nos lares das pessoas, acho que o futuro nos levará por esse caminho. Julgo que é mais fresco, está mais na moda. Além disso, as pessoas não têm de encontrar uma babysitter, arranjar lugar para estacionar, essas coisas todas…”

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Além de protagonizar o filme, Mel Gibson envolveu-se em todo o processo; escreveu o argumento em parceria com Grunberg e Stacy Perskie; foi a Icon que o produziu – companhia que fundou com o sócio Bruce Davey, em 1989, responsável por sucessos como Braveheart –, não havendo lugar a interferências de estúdios. O ator afirma que poderia “tê-lo lançado nos cinemas, numa estreia simultânea”, mas rejeitou essa opção.

Quanto ao argumento, Gibson diz que nem foi difícil de conceber: “Inventámos esta história sobre um peixe fora de água. Investigámos o historial das prisões mexicanas e resultou num enredo divertido.”

O ator/produtor/argumentista confessa que encara pragmaticamente estas facetas: “A arte tem de se cruzar com o comércio. A arte é essa.” O orçamento, “apesar de elevado, não foi enorme” e, a seu ver, esta apresentação ao público vai mudar a face comercial do negócio do cinema. “Conseguimos sentir que as coisas estão a mudar, e gosto de testar novas abordagens, acho positivo.”

A prisão invulgar onde decorre grande parte de Get the Gringo baseia-se numa cadeia real com o mesmo nome, perto de Tijuana, junto à fronteira. “Fomos a uma prisão em Veracruz, operacional, cheia de detidos”, explica Gibson, “e o que o filme retrata é muito parecido com o que vi lá. As regras são diferentes. Se tentam fugir, capturam-nos, mas não adicionam tempo à pena, pois acham que é natural as pessoas quererem a liberdade; são permitidas visitas conjugais, quatro vezes por semana… podem-se criar negócios… havia restaurantes onde as pessoas do exterior iam comer… na verdade, ‘El Pueblito’ funcionava tão bem que tiveram de o encerrar”.

Uma das escolhas de casting que Mel Gibson elogia é a de Kevin Hernandez: “Se ele não fosse bom, nada disto iria funcionar. O Kevin é um miúdo esperto, cheio de atitude, mas parece mais novo, gostei imenso de trabalhar com ele.” No elenco, surge também o veterano em papéis secundários Bob Gunton, a quem Mel Gibson telefona, numa das cenas, fazendo-se passar por Clint Eastwood. A imitação não é propriamente brilhante, mas a conversa contém uma piada politicamente incorreta.

De bestial a besta...
De bestial a besta…

Neste campo, o ator tem sido tão “bem-sucedido” que a imprensa o tem citado mais pelas barbaridades que alegadamente profere do que pelos filmes, por ser apanhado a conduzir embriagado, além de outros sensacionalismos e boatos. Desde os tempos de Braveheart, o ator passou, aos poucos, de bestial a besta. Os jornalistas chegaram ao ponto de o achincalhar, fazendo perguntas rasteiras e de mau gosto.

Contudo, quando a imprensa aponta o dedo a Mel Gibson, esquece o velho provérbio oriental, “quando apontas um dedo a alguém, tens três a apontar para ti”. E, de resto, jornalistas que bebem em excesso e expelem barbaridades com regularidade são espécimes raros entre a classe.

Confessando que o seu personagem é um sociopata, um criminoso mais preocupado consigo do que com os outros, Gibson consegue que o público torça por ele, ao rodeá-lo de criminosos ainda piores: “É como votar num presidente… temos de escolher o melhor entre todos os maus…”

Como diz o Gringo no início do filme: “Olá, meninos e meninas. Não há nada pior do que um palhaço triste. A não ser um palhaço com uma hemorragia interna, a tossir sangue para cima do vosso dinheiro.” Politicamente incorreto, mas simultaneamente divertido, Apanha-me Esse Gringo não desapontará os fãs do ator nem os apreciadores de um bom filme de ação.

David Furtado

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