A Lizard in a Woman’s Skin: Lucio Fulci e os cães da polémica

Há 40 anos, pela primeira vez na História do cinema, um artista de efeitos especiais teve de comparecer em tribunal para provar que as ilusões no grande ecrã não passavam disso mesmo. Carlo Rambaldi (que se celebrizaria como o criador de E.T.) defendia o realizador, acusado de crueldade para com animais, demonstrando que quatro cães vítimas de vivissecção não eram verdadeiros. O filme chamava-se Una lucertola con la pelle di donna (A Lizard in a Woman’s Skin) e o realizador era Lucio Fulci.

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As ideias de Fulci eram extremas, originais, mas nem sempre foram bem recebidas. No alucinante Una lucertola con la pelle di donna, misturou princípios de psicanálise freudiana com visões oníricas de quadros de Francis Bacon, homossexualidade feminina, uma sedutora hippie lançadora de facas, viagens de LSD e uma perseguição no Alexandra Palace londrino. O filme foi produzido quando o giallo se tornou num filão, após o sucesso internacional de L’uccello dalle piume di cristallo, de Dario Argento. Ao contrário de outros gialli, o filme circulou em cópias pirata e foi um dos lançamentos em DVD mais aguardados de 2005, numa edição controversa da Shriek Show.

A certa altura, ‘Carol’ (Florinda Bolkan) tenta fugir de uma clínica psiquiátrica, percorrendo diversos corredores e escadas, até que abre uma porta e se depara com uma insólita experiência científica: Cães com o ventre aberto, de coração a bater e vísceras a pulsar. A cena causou um tumulto em várias cidades italianas. Fulci e o produtor foram denunciados por agências protetoras de animais. Carlo Rambaldi levou os “cães” a tribunal. (Um juiz achou que foram concebidos posteriormente, para livrar os réus.)

Carlo Rambaldi viria a tornar-se numa lenda dos efeitos especiais, tendo criado os movimentos da cabeça de Alien (1979) o que lhe valeu um Óscar; o alienígena de Close Encounters of the Third Kind (Encontros Imediatos do 3º Grau) em 1977; elaborou as criaturas de Dune (1984) e idealizou E.T. (1982), pelo qual recebeu o segundo Óscar. Foi ainda premiado por King Kong (1976). Trabalhou com personalidades tão díspares como Dario Argento, Spielberg, Ridley Scott, Andy Warhol ou David Lynch.

Florinda Bolkan ('Carol Hammond').
Florinda Bolkan (‘Carol Hammond’).

De acordo com Rambaldi, “a cena estava no guião. Eram quatro cães sujeitos a vivissecção [dissecar um animal vivo com o propósito de realizar estudos de natureza anátomo-fisiológica]. Procurei pele verdadeira de cão, o que não havia. Apenas tinham de coiote. Houve problemas em Milão, Génova, Turim… e cada causa tinha um juiz diferente, pelo que fui a quatro tribunais. Nem foi um efeito difícil de conceber. Importa é que o realizador saiba o que quer. Com E.T. foi muito mais complexo”. Para Lizard, Rambaldi simulou também o ataque de 35 morcegos movidos a pilhas…

Quanto a Lucio Fulci, recapitularia à L’Écran Fantastique: “Algumas pessoas acreditaram que eram verdadeiros, o que me repugna, já que adoro cães. Felizmente, Rambaldi salvou-me de uma pena de dois anos, ao trazer um dos seus cães mecânicos!”

“LOURAS, HÁ MUITAS!”

A breve cena, ainda chocante passadas quatro décadas, originou este episódio inédito, mas Fulci já seguia um caminho enviesado. De acordo com Paolo Albieri, professor universitário e estudioso da sua obra, “foi um mau período para ele. Teve problemas em Beatrice Cenci e Una sull’altra(One on Top of the Other) de 1969, sendo este último retirado das salas; em Lizard, de 1971, e também com All’onorevole piacciono le donne (The Senator Likes Women) de 1972.”

Penny Brown ('Jenny', a hippie lançadora de facas).
Penny Brown (‘Jenny’, a hippie lançadora de facas).

Mas o filme em questão, A Lizard in a Woman’s Skin, não foi censurado, embora fosse brutal para a época. As cenas de lesbianismo valeram-lhe a classificação de “maiores de 17” e seis metros de película foram cortados. Em 1995, foi reavaliado, sendo-lhe atribuída a classificação “maiores de 14”. Desta vez, foram removidos 80 metros de fita e executados mais de 10 cortes. Este filme “maldito” tem assim versões de TV, VHS, e DVD muito diferentes, o que o tornou num clássico da pirataria durante décadas. Foi lançado em vários países, mas é curioso que, em Itália, os atos violentos tenham sido cortados, ao passo que, nos EUA, foram as cenas de sexo a ofender a censura.

A faca quase acerta em  Ely Galleani.
A faca quase acerta em Ely Galleani.

As filmagens de Lizard in a Woman’s Skin, inicialmente intitulado The Cage, começaram a 14 de setembro de 1970. Trata-se da viagem ao interior de uma pessoa. É um mistério com toques de terror e suspense, filmado em Londres, ao longo de 48 dias. Foi um sucesso, o que se deve, como refere Florinda Bolkan, “a um grande encontro”. De facto, o elenco é invulgar, e nele encontramos o lendário ator galês Stanley Baker, (Zulu, The Guns of Navarone), Leo Genn, nomeado para um Óscar por Quo Vadis; além de Anita Strindberg e Ely Galleani, duas beldades do cinema italiano dos anos 70. (Ornella Muti por pouco não participou.) Mike Kennedy, vocalista dos Los Bravos, célebres pelo tema «Black is Black», interpreta o hippie. A banda sonora é um dos trabalhos mais experimentais de Ennio Morricone.

lizard lucio fulci (14)Outro ponto forte é o argumento de Fulci, em colaboração (especialmente) com Roberto Gianviti. ‘Carol’, filha de um proeminente político inglês, sofre de sonhos recorrentes durante os quais faz amor com uma ninfa bissexual que vive na casa ao lado e organiza orgias com LSD à mistura. Quando sonha que assassina a vizinha, e esta aparece morta, torna-se na principal suspeita. Será que cometeu o crime com que sonhou? Uma premissa tão simples quanto genial, despoleta um enigma psicadélico, só esclarecido nos últimos minutos.

Florinda Bolkan protagonizara Investigation of a Citizen Above Suspicion, vencedor italiano do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1971, pelo que Fulci a queria para o seu Lizard. A atriz morena informou-se sobre o realizador e concordou, mas, ao primeiro encontro, mal a viu entrar, Fulci disse à equipa de maquilhagem, “preferia que fosse loura”. Resposta de Bolkan: “Não vou pintar o cabelo. Se quiser uma loura, há muitas, arranje uma!”

“CHAMEM OS FANTOCHES, VAMOS FILMAR!”

O diferendo resolveu-se, mas, no primeiro dia de filmagens, Bolkan estava assustada. Ouviu-se a voz de Fulci por um megafone: “Chamem ao set a atriz de Black Lemons.” Era o pior filme em que Bolkan entrara até então. Esta obedeceu e ripostou: “Pareceu-me ouvir a voz do realizador de Franco e Ciccio!” Uma referência aos trabalhos mais modestos de Fulci. A partir de então, deram-se muito bem.

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“Ele tinha este método”, relembra Bolkan, “era agressivo. Quando lhe fazíamos frente, aí sim, respeitava-nos, entrávamos na ‘liga’ dele. Se fossemos subservientes, não tínhamos hipótese. Era um amor de pessoa”.

Voltariam a colaborar no ano seguinte em Non si sevizia un paperino (Don’t Torture a Duckling).

O realizador nunca teve boa relação com os atores, excetuando casos como o de Bolkan. Dizia, “chamem os fantoches, vamos filmar!” Para ele, havia duas categorias, os atores sérios e profissionais, e as estrelas ou divas, que detestava.

Stanley Baker ('Inspector Corvin') começa a resolver o caso...
Stanley Baker (‘Inspector Corvin’) começa a resolver o caso…

As filmagens começavam às cinco da manhã e decorreram em muitos locais emblemáticos de Londres, como o Royal Albert Hall, o Alexandra Palace ou o Old Bailey. Na sequência onírica do início, Florinda Bolkan caminha pelo corredor de um comboio, pelo meio de 30 figurantes nus, o que foi filmado numa estação londrina. Os passageiros que se dirigiam a outros comboios paravam, olhavam e seguiam caminho com a fleuma britânica. Obviamente que, em Itália, seria impossível…

Além das reviravoltas do argumento, do uso (raro, na altura) de lentes divididas ao meio, permitindo a focagem de dois planos em simultâneo, do uso e abuso do zoom e da “câmara à mão”, Fulci ainda teve outra ideia.

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Noutra sequência de um sonho, idealizou um cisne gigante que persegue a protagonista, e os rostos dos suspeitos caracterizados como as pinturas de Francis Bacon. Aliás, distribuiu reproduções dos quadros de Bacon pelos “set designers”.

QUATRO EDIÇÕES EM DVD E RAMBALDI DESEMPREGADO

A obra acabou por obter um sucesso razoável, internacionalmente, apesar de, nos EUA, lhe terem chamado Schizoid e cortado várias cenas. Tornou-se num filme de culto e, em Portugal, viria a “estrear” em …  junho de 2008 na 1ª edição do 8 ½  Festa do Cinema Italiano, num ciclo dedicado ao giallo.

A aguardada versão da Shriek Show.
A malfadada versão da Shriek Show.

Em 2005, a Shriek Show lançou um edição especial de dois DVD: Um com a versão cortada de Schizoid, contendo uma imagem razoável. O segundo disco mostrava a versão supostamente integral, proveniente de uma master de VHS, em formato 4:3, com os cantos cortados e descolorada. É certo que incluía um documentário inédito de 34 minutos, Shedding the Skin, além de uma capa original de cartão com um lagarto cobrindo parcialmente a caixa. Esta edição foi violentamente atacada pelos fãs e crítica, com um responsável da Shriek Show a defender que era o melhor que podiam fazer, face à pouca cooperação que tiveram dos detentores dos direitos. Os fãs alegavam que versões mais completas circulavam pela Internet. Os fóruns andavam em polvorosa.

Seguiu-se a edição italiana da Federal Video, em 2006, com a entrevista a Paolo Albieri, falando sobre a carreira de Fulci e o filme, e cenas cortadas. Golpe publicitário ou não, a Shriek Show contra-atacou, em 2007, com a versão “remastered”, com capa diferente e o filme na versão supostamente integral em widescreen, mas sem o documentário, incluindo, desta vez, a entrevista a Albieri. Os fãs pensavam que tudo ficaria por aqui, mas não… Em 2010, a britânica Optimum editou a versão baseada no negativo original, integral, mas sem extras. Crê-se que é esta a versão definitiva, devido à qualidade e porque expande os cantos da imagem. Contudo, ainda há quem alegue que faltam cenas…

Para muitos, a melhor edição em DVD, mas sem extras.
Para muitos, a melhor edição em DVD, mas sem extras.

A Lizard in a Woman’s Skin é um dos grandes filmes de Lucio Fulci e um dos melhores gialli produzidos na época dourada deste género. Quatro edições em DVD quase não bastaram para fazer justiça a uma obra menosprezada mas nunca esquecida. É raro chegarmos ao ponto de dizer que um fã de um filme tem de adquirir quatro edições em DVD para completar este puzzle. A visão original de Fulci era demasiado forte e, 40 anos depois… será que vem aí a 5ª edição DVD?

Infelizmente, o grande Carlo Rambaldi ficaria sem emprego com a evolução dos efeitos especiais. Os que elaborava eram brilhantes, esculpia, criava máscaras, crocodilos, tudo o que lhe pediam. Até os movimentos aterrorizantes de Alien vieram da sua imaginação, bem como a criatura icónica de E.T. Eram efeitos caros, demoravam muito tempo a concretizar. Hoje, com a CGI (Computer-generated imagery), é barato, rápido, mas… não é a mesma coisa.

Há quem goste de ver o jogo de computador que é The Avengers (Os Vingadores), onde o contributo humano é reduzido ao ponto do constrangimento. Não digo que seja mau, mas este é um cinema desumanizado, se é que lhe podemos chamar “cinema”, de todo. Nos tempos áureos do cinema italiano, os efeitos especiais eram quase todos criados diante da câmara. Foi um desafio que passou de moda. Isso não causa nostalgia, mas sim, uma certa tristeza, porque o cinema pressupõe humanidade e arte.

Mas não esqueçamos o puzzle que é A Lizard in a Woman’s Skin. Com cães ou sem eles, nudez ou sem ela, é uma obra distinta no cinema italiano dos anos 70, que sobreviveu ao teste mais importante de todos: O do tempo. Os Vingadores não vingarão nada, daqui a 40 anos. Lizard? Sim.

David Furtado

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