Steve McQueen: “Há polícias maus e polícias bons. E também há Bullitt.”

Bullitt foi o filme que tornou Steve McQueen numa superestrela. Inclui a melhor perseguição de automóveis da História do cinema. É sobretudo um policial que procura retratar a atividade dos polícias como se não houvesse uma câmara. O argumento é, por vezes, confuso, mas incide sobre um tema a condizer: Os caminhos sinuosos da Justiça.

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Peter Yates mal sabia com o que teria de lidar, quando Steve McQueen o escolheu para dirigir o seu segundo filme. Encontrava-se em Inglaterra quando lhe enviaram o script, através de uma hospedeira da Pan Am. Leu-o e achou-o “horrível”. Steve McQueen e o produtor Robert Relyea assistiram ao primeiro filme de Yates, Robbery (O Maior Roubo de Sempre), e repararam em pormenores que lhes agradaram, especialmente numa cena de perseguição que deixou Steve estupefacto. Relyea comenta que “Yates tinha uma cena que envolvia carros a movimentarem-se muito rapidamente. Enervava tanto que até nos trocava as voltas”. Foi a partir desse momento que Steve quis que Peter Yates realizasse Bullitt.

McQueen e Peter Yates.
McQueen e Peter Yates.

Mas o realizador insistia que não queria ir para a América realizar aquele tipo de filme. Um agente da William Morris Agency convenceu-o, tendo-lhe pago o voo até Los Angeles para dar uma opinião sobre o script. Poucas horas depois, Yates assinava o contrato. “Fiquei feliz por ser um realizador em Hollywood, quem era eu para recusar?”, gracejou.

steve mcqueen (11)Peter Yates não sabia que Steve McQueen tinha a reputação de ser duro com os realizadores, tendo-o achado “encantador”. “Eu tinha uma grande vantagem, o meu sotaque britânico, e Steve achou que isso indicava que eu era muito mais esperto do que na realidade era. Tenho de dizer que achei Steve encorajador em todas as fases da filmagem.” Mas, com os executivos da Warner Brothers, McQueen era mais rude. Yates comenta:

“Eu não conhecia a reputação de Steve, tendo vindo de Inglaterra. Achei-o extraordinário. Mais tarde, soube que ele gostava de lutar contra o establishment e, para nossa sorte, tinha o estúdio para enfrentar. Protegeu-nos como um louco [das interferências] do estúdio.”

Segundo Yates, quem realmente apostou na famosa cena da perseguição foi o produtor Phil D’Antoni. “Eu tinha feito uma cena de perseguição em O Maior Roubo de Sempre e não estava com paciência para outra. McQueen preparava-se para fazer Le Mans e também não queria. Na verdade, já a rodagem ia a meio quando a incluímos no script. E a Warner Brothers acenou a cena como uma cenoura sobre as nossas cabeças, dizendo, ‘se ultrapassarem outra vez o orçamento, não poderão fazer a cena da perseguição’. Estrategicamente, planeou-se filmá-la nas duas últimas semanas de trabalho.”

Quando as filmagens terminaram, em maio de 1968, Yates mostrou o filme ao seu agente, Marty Baum, que lhe disse: “Acho que não sabes o que tens aqui. Este filme vai-te garantir mais nove anos a realizar.” 

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SEM FILME NEM TRAVÕES

Uma das lendas em redor da desvairada perseguição de Bullitt pelas ruas de São Francisco, reside no facto de se pensar que Steve McQueen protagonizou todas as cenas, o que não é verdade, embora o tenha tentado. A sequência exigia velocidades, por vezes, superiores a 160 quilómetros/hora e, numa curva, McQueen capotou três vezes, até que Carrie Lofton, que coordenava a sequência, se insurgiu: “Tirem o homem do carro antes que mate alguém!”

Foi, portanto, Bud Ekins que conduziu o Ford Mustang 390 GT Fastback em várias cenas, já que há uma diferença entre um bom condutor – Steve era-o, sem dúvida – e um condutor especializado em cenas de duplos. Por este motivo, o retrovisor do automóvel nem sempre mostra quem conduz. Mas o indomável McQueen insistiu em guiar e até pôs a cabeça fora do carro, para que o público soubesse que era ele ao volante.

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Peter Yates viajou com ele no Ford, filmando determinada sequência em alta velocidade. Até que disse: “Podes abrandar, Steve, não temos filme.” Ao que o ator respondeu: “Isso não é nada. Não temos travões.” McQueen travou com a caixa de velocidades e conseguiu parar o Mustang numa rua íngreme. Riu-se com Yates, terminada a peripécia, mas com nervosismo. Numa outra cena, incluída no filme, por pouco não deceparam um operador de câmara.

steve mcqueen (7)O outro automóvel, um Dodge Charger R/T 440, foi conduzido pelo duplo Bill Hickman, que testou o carro com McQueen numa pista de corridas em Santa Rosa. Dois automóveis de cada modelo (ambos de 1968) foram utilizados na cena e bastante martirizados, com McQueen a revelar à Motor Trend que “os amortecedores da dianteira e a correia da ventoinha deram o berro, o veio de transmissão partiu e os manípulos das portas soltaram-se”. A sequência foi tão bem idealizada que até o facto de os tampões saltarem se encontrava descrito no argumento.

As condições duras da filmagem proporcionaram também a Steve a oportunidade de dizer à esposa, Neile, “é muito difícil, é melhor não vires até cá”. O que pretendia era liberdade para ter um caso com a estreante Jacqueline Bisset, que durou durante toda a rodagem. Foi o primeiro filme a ser produzido pela Solar, a companhia de produção que McQueen fundara. Tratou-se, portanto, de um grande risco e o ator estava nervoso, assegurando-se de que toda a equipa dava o seu melhor.

“Hei, estamos a dar o nosso máximo, não estamos?”, desabafava, por vezes. As pessoas que com ele trabalharam, afirmam que, apesar do clima tenso, o ator nunca abria a boca antes de pensar e tinha a noção de que podia ferir alguém.

Steve McQueen considerava Bullitt um trabalho de equipa e atribuiu um dos papéis principais a um velho amigo, Don Gordon, mas, quando este lhe agradeceu, McQueen ripostou, indignado: “Não tive nada a ver com isso!” Gordon relembra: “Ele era assim. Não queria que sentisse qualquer obrigação para com ele e que achasse que ganhara o papel e me aplicasse.”

“GUIA COM CALMA”

Os dois atores prepararam-se para o papel de polícias, acompanhando agentes em missões diárias. Quando estes viram McQueen na esquadra, disseram logo, “mais um que quer brincar aos polícias e ladrões”. Por isso, o primeiro lugar para onde o mandaram foi para a morgue. No entanto, Steve apreciava estes “testes”, pelo que apareceu a mordiscar uma maçã enquanto lhe mostravam cadáveres. Don Gordon recebeu um crachá e uma pistola de imitação e envolveu-se numa detenção real. A detida, uma traficante de droga, reconheceu o ator e disse-lhe: “Conheço-te de algum lado…” Ao que este respondeu, desenvolto: “Pois conheces. Já te prendi uma vez.”

steve mcqueen (48)Filme com grande estilo, Bullitt conta ainda com a emblemática banda sonora de Lalo Schifrin, autor do tema de Missão: Impossível, entre muitos outros. Outro atrativo é o carismático genérico de abertura. E não podia faltar um odioso vilão, ‘Chalmers’, interpretado por Robert Vaughan, o papel preferido do ator. Este gélido promotor público tenta imiscuir-se na atividade policial de ‘Frank Bullitt’, até que este responde:

“Você trabalha do seu lado e eu trabalho do meu.”

“Tenente, encarregar-me-ei pessoalmente da sua crucificação pública”, diz ‘Chalmers’.

Mais tarde, confrontam-se de novo, com ‘Bullitt’ a exprimir:

“Olhe, Chalmers, vamos ver se nos entendemos. Não gosto de si.”

Ao que ‘Chalmers’ retorque:

“Vamos, tenente, não seja ingénuo. Ambos sabemos como se constroem carreiras. A integridade é algo que se vende ao público.”

E ‘Bullitt’ riposta:

“Venda o que quiser, mas não o faça aqui, esta noite.”

“Frank, todos temos de ceder.”

A réplica é “bullshit!”, a primeira vez que a palavra foi ouvida num filme mainstream.

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McQueen não queria participar em Bullitt, visto que os polícias, na época, eram muito mal vistos. Quando seguia em excesso de velocidade, foi mandado parar por um polícia de trânsito. Este aproximou-se, de multa na mão, e reconheceu o ator.

“Mr. McQueen, desculpe. Se soubesse que era o senhor, não lhe passava uma multa.” E Steve retorquiu: “Nada disso. Se brincamos, pagamos.” Gerou-se um diálogo simpático entre ambos. “Sabes”, disse Steve ao amigo que o acompanhava, “muitos destes tipos nem são assim tão maus”. Empenhou-se então em tentar transmitir uma imagem mais realista dos agentes da autoridade.

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O ator visitou também vítimas de crimes num hospital. Conheceu um indivíduo, nos cuidados intensivos, que sofrera um acidente de motorizada. Quando ia embora, este aconselhou-lhe, conhecendo a paixão de McQueen pelos desportos de duas rodas: “Hei, guia com calma, hã…”. A frase foi usada em Bullitt.

MUSTANG NO CELEIRO

A frase que publicitou o filme foi: “Há polícias maus e polícias bons. E também há Bullitt.” Quando estreou, em 1968, havia alguma apreensão quanto ao seu eventual resultado nas bilheteiras. Em breve, as dúvidas dissiparam-se, com a película a arrecadar 80 milhões de dólares só nesse ano. A crítica do New York Post realçou que “McQueen é um sucessor de Bogart” e a Variety elogiou este “excelente melodrama policial, com uma das mais empolgantes perseguições alguma vez filmadas”. Venceu o Óscar de Melhor Edição de Som. Quando Ronin estreou, em 1998, circulou o rumor de que a perseguição superara a de Bullitt. Ficou-se pela intenção. A cena de nove minutos e 42 segundos continua insuperável, e muitos fãs lamentam não a terem visto num grande ecrã.

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A Ford aproveitou vários planos para filmes publicitários, um dos quais lançado em 2007. Há nove anos, já lançara o modelo 2001 Mustang Bullitt GT. McQueen tentou comprar o Mustang de 1968, que foi entretanto vendido a um privado. Pelo que se sabe, o famoso carro repousa num celeiro, algures nos EUA. O automóvel ainda hoje é um dos modelos desportivos mais amados e a cena foi dissecada em vários artigos de revistas de automobilismo.

Para além de Bullitt, Peter Yates realizou obras como O Ano do Cometa, Krull – Além da Imaginação, The Friends of Eddie Coyle (Selva Humana), John and Mary, com Dustin Hoffman e Mia Farrow, ou O Abismo, com Nick Nolte e Jacqueline Bisset. Contudo, o filme da sua autoria escolhido para ser preservado na Biblioteca do Congresso, em dezembro de 2007, foi justamente Bullitt, que se juntou aos 475 filmes considerados uma herança cultural para os americanos. Nas notícias da época, a obra de Yates foi realçada entre os 25 escolhidos nesse ano.

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Embora Peter Yates tivesse realizado inúmeros filmes desde então, há um que se destaca: “Às vezes, é irritante, porque as pessoas falam-me mais de Bullitt do que doutro filme que eu tenha realizado. Tive dois nomeados para o Óscar [Os Quatro da Vida Airada e O Companheiro], mas só me falam daquela maldita perseguição dos carros. Enfim… Hollywood.”

David Furtado

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5 Comments Add yours

  1. Belén diz:

    Excelente película, “Bullit”. ¿Quién no recuerda las carreras de coche de Steve McQueen? Mítico. Estos artículos, además, están muy documentados. Enhorabuena. Parabéns.

    1. Muchas gracias, Belén! 🙂 También me gusta tu sitio, especialmente la parte dedicada a Christopher Reeve, héroe de las películas, pero sobre todo en la vida real.

  2. Belén diz:

    Gracias, David. Los post dedicados a Christopher Reeve son los más sensibles, los hago con mucho cariño, aunque son los menos vistos o comentados (no sé por qué). Así que te agradezco mucho tus palabras.

    1. De nada, Belén. Me di cuenta de eso. Christopher Reeve es un excelente actor. Lo vi como Superman en el cine, quando era niño. También me gustó mucho verlo en “El Reportero de la Calle 42” y “El Pueblo de los malditos”, entre otros. Que yo sepa, era amable y buen compañero en la vida real. Y, después del accidente, mostró una fuerza interior admirable y ejemplar. También me gusta Margot Kidder, que lamentablemente sufrió algunos problemas personales que interferían con su carrera.

      A veces, tampoco entiendo que algunos artículos sobre ciertos actores o actrices son más populares que otros, pero sigue escribiendo sobre Reeve sin perder el entusiasmo!

  3. Belén diz:

    Muchas gracias. Se intentará.

Comentários:

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