Bob Dylan faz 75 anos: Novas Faces de um Enigma

É uma das figuras mais influentes do século XX e uma das mais enigmáticas. Mudou a música, tornou-se numa personalidade histórica, quase numa instituição, foi nomeado para o Nobel da Literatura (finalmente venceu-o) e alvo de inúmeras biografias, mas permanece um enigma. “Eu não criei Bob Dylan, ele sempre esteve aqui. Quando eu era criança, já cá estava o Bob Dylan… às vezes, nem os nossos pais sabem quem somos.

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Sou um mistério apenas para aqueles que não sentiram as mesmas coisas que eu.

Bob Dylan recebeu inúmeras distinções – o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes, vários Grammies, e foi, no mês passado, distinguido com a Presidential Medal of Freedom, a maior honra que pode ser atribuída a um civil norte-americano, num anúncio feito por Barack Obama. Dylan é um dos 13 honrados com a condecoração, destinada a indivíduos que contribuíram com mérito para a paz mundial ou a cultura, entre outras causas. A cerimónia terá lugar no fim da primavera.

bob dylan (18)E foi também na primavera que nasceu Robert Allen, em Duluth, no Minnesotta, a 24 de maio de 1941, às 9:05, filho de Beatty e Abraham Zimmerman. Aos cinco anos, dá o seu primeiro “espetáculo”, cantando «Some Sunday Morning» e «Accentuate the Positive», no Dia da Mãe, e repete a performance no casamento de uma tia, duas semanas depois. A família muda-se para Hibbing e, aos 10 anos, Robert escreve um poema para a mãe no Dia da Mãe, e dá o mesmo presente a Abraham, no Dia do Pai. Começa a aprender a tocar piano sozinho aos 12 anos.

Em 1954, descobre a música de Hank Williams, o seu primeiro ídolo. Era um fanático pelo rock and roll. Em 1959, Buddy Holly toca em Duluth, apenas três dias antes da sua morte, e Bob assiste. Forma diversas bandas e começa a adotar pseudónimos, um dos quais foi “Elston Gunn”. Descobriu as gravações de Odetta e trocou a guitarra elétrica e o amplificador por uma guitarra acústica. No mesmo ano, este rapaz desgrenhado, autodidata na guitarra e no piano, entra para a faculdade em Minneapolis.

É então que ocorre a primeira mudança, num longínquo dia de outubro. Robert Zimmerman entra num café, o Ten O’Clock Scholar e pergunta ao dono se pode tocar lá, anunciando o seu desejo de ser cantor folk. Quando lhe perguntam o nome, responde: Bob Dylan.

“Precisava de um nome à pressa, e escolhi esse. Ocorreu-me, apenas… não tinha nada a ver com Dylan Thomas, de todo, embora eu soubesse quem ele era, claro. Mas não peguei deliberadamente no nome dele”, diria Bob em 1968. “Fiz mais por Dylan Thomas do que ele fez por mim.” Começava a metamorfose.

Sessão fotográfica para o primeiro álbum.
Sessão fotográfica para o primeiro álbum.

A sua primeira namorada, Echo Helstrom, afirma que a ideia de mudar de nome já vinha de Hibbing. Dylan continua a tocar neste café até cometer o erro de pedir um aumento de salário. Especulou-se sobre a mudança de apelido: Seria uma forma de rejeitar a sua identidade religiosa (judaica)? Echo defende que o facto de Bob não se dar bem com o pai será a explicação mais credível, já que Robert nunca foi grande respeitador dos valores de classe média de Abraham, nem de figuras de autoridade.

Durante o pouco tempo que passou na faculdade, Dylan fez alguns amigos como Ellen Baker: “Ele era engraçado com as mulheres. De início, parecia tímido, quase assustado… mas percebíamos rapidamente que era uma farsa. Ele era surpreendentemente amoroso e nada discriminativo! Se via uma rapariga na rua ou numa festa, não queria saber do aspeto dela ou de quem a acompanhava, se estivesse para aí virado…”

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Um amigo, Harvey Abrams, refere que também se tornou colecionador de discos: “Era o mais puro dos puros. Tinha de arranjar o disco mais antigo, nem que tivesse de ir à Biblioteca do Congresso.” Por esta altura, a sua voz era “bonita”, segundo descrevem os colegas, espantados com o tom rouco e nasalado que surgiria no primeiro álbum.

DISCÍPULO

Quando começou a ouvir Woody Guthrie, Zimmerman mudou. Bob conseguia decorar baladas como «Tom Joad» (com 20 minutos) depois de as ouvir uma única vez. Leu a autobiografia do autor, Bound for Glory, e tornou-se seu discípulo. bob dylanSendo já uma figura conhecida no meio musical de Minneapolis, decidiu partir. “Aprendi lá tudo o que pude. Quando cheguei, parecia uma grande cidade; quando a abandonei, parecia uma povoação rural.” O destino agora era Nova Iorque, onde chegou a 24 de janeiro de 1961, durante o inverno mais frio em 28 anos.

Alojado em casa de amigos, começa a fazer peregrinações a New Jersey, onde estava internado o seu herói, Guthrie, personalidade incontornável da folk – tinha até escrito na sua guitarra: “Esta máquina mata fascistas.” Mas os primeiros tempos em Nova Iorque foram difíceis, com o jovem a tocar em Greenwich Village e a evoluir a um ritmo impressionante. Dylan contacta Robert Shelton, o crítico de folk do New York Times, para que venha assistir a um espetáculo seu. Shelton escreve uma pequena mas favorável crítica.

Por esta altura, Dylan tentava ser Dylan, e não um imitador, começando a escrever os seus próprios temas, entre os quais, «Song to Woody», que seria editado no primeiro álbum. Conhece então Suze Rotolo, que pôs fim aos seus “instintos polígamos” e lhe deu a estabilidade emocional necessária para se concentrar na sua carreira.

Aqui, as versões divergem: A crítica de Shelton fez com que o lendário John Hammond, produtor e caça-talentos da Columbia, que também descobriu Bruce Springsteen e Bessie Smith, o contratasse. Outra versão: Dylan é convidado para tocar harmónica num disco de Carolyn Hester, e Hammond contrata-o sem o ouvir cantar sequer, já que a crítica só saiu um dia depois. Carolyn Hester concorda que “John viu alguma coisa em Dylan. O carisma, talvez.” Hammond recorda: “Eu sabia que ele compunha, por isso, disse-lhe para vir até aos estúdios, mostrar algum do seu material. Contratei-o logo.”

“EU SÓ QUERIA UMA CANÇÃO”

Dylan só tinha três canções originais, às quais juntou as suas versões de clássicos folk, no álbum de estreia homónimo, de 1962. Gravou 20 temas em apenas dois dias. Bob Dylan não deixou o cantor nem o produtor satisfeitos e não foi um sucesso.

“Eu só queria uma canção para cantar, e cheguei a um ponto em que não conseguia cantar nada. Por isso, tinha de escrever o que queria cantar. Não o encontrava em lado nenhum. Caso contrário, nunca teria começado a compor.”

Dylan com a namorada Suze Rotolo, a sua inspiração para várias canções da primeira fase da carreira.
Dylan com a namorada Suze Rotolo, a sua inspiração para várias canções da primeira fase da carreira.

No início de 1962, Dylan começa a escrever canções a um ritmo frenético, compondo a sua primeira canção de protesto, «The Death of Emmett Till», acerca de um negro assassinado por assobiar a uma branca. Satiriza a sociedade anticomunista John Birch Society, e o melhor tema deste período só seria editado décadas depois: «Let Me Die in My Footsteps»: “Eu passava por uma cidade… e faziam um abrigo para bombas à saída dela. Parecia uma espécie de coliseu, com operários e tudo isso. Fiquei uma hora a vê-los construir. Enquanto olhava, achei engraçado que se concentrassem tanto em construir um buraco no chão, quando havia tanto a fazer na vida. Pelo menos, podiam olhar para o céu, andar por aí, viver um pouco, em vez de fazerem esta coisa imoral.”

Numa entrevista à Sing Out, Dylan admitiu: “Há outras coisas no mundo, além do amor e do sexo, que também são importantes. As pessoas não lhes devem virar as costas só porque não são bonitas de ver. Como é que o mundo há de melhorar se temos medo de as encarar?”

bob dylan (1)Quando entrou no estúdio para gravar o segundo disco, Bob estava nervoso (já que Suze partira para Itália), mas determinado em demonstrar como evoluíra. O primeiro disco vendera apenas cinco mil cópias, e Hammond sabia que dar-lhe uma terceira oportunidade seria de mais. Abril, julho, outubro, novembro, dezembro, sempre a trabalhar em estúdio… mais do que dedicaria a um álbum durante os 20 anos seguintes. Uma última sessão, em abril de 1963, completou The Freewheelin’ Bob Dylan.

Quase totalmente composto por Bob, continha hinos como «Blowin’ in the Wind», «A Hard Rain’s a-Gonna Fall» ou «Masters of War», e canções de amor profundas: «Don’t Think Twice, It’s Alright». Dylan aborda temas como a segregação racial, as amizades perdidas ou a hipocrisia da sociedade americana. O tom cáustico não agradou a alguns executivos da CBS, e quatro temas foram censurados. Na capa, uma foto de Bob e Suze.

Dylan contrata então o implacável manager Albert Grossman, homem preocupado com a autenticidade da música, mas também com o seu impacto. Foi Grossman a impedir que Bob fosse usado pela CBS ou que participasse em shows de TV duvidosos, além de adensar o manto enigmático que já envolvia o cantor. Uma visita a Inglaterra expande-lhe os horizontes, e The Times They Are A-Changin’ fecha o ciclo das canções de protesto. Nesta época, Dylan já era um símbolo. Porém, como havia de suceder várias vezes, já partira para uma nova fase, sem que a maioria das pessoas se apercebesse. Talvez ele próprio se tenha apercebido de que o álbum ficaria um pouco datado.

“ELES NÃO ME DIZEM O QUE CANTAR”

«The Times They Are a-Changin’» é adotada como hino de diversas causas, para além dos direitos civis. Mas Dylan explica que é apenas “um sentimento”. Uma aparição no programa mais visto dos EUA, o Ed Sullivan Show, em maio, é cancelada à última hora, já que o responsável pela programação o impediu de tocar a canção sobre a John Birch Society. “Depois de mo dizerem, saí dali. Podia ter cantado outra, mas não fui capaz.” O episódio foi divulgado, e Dylan considerado um rebelde, um herói da contracultura. Atua no prestigiado Carnegie Hall e entra para o top da Billboard.

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O assassínio de Kennedy atormentou Bob e afetou a sua escrita: “The colors of Friday were dull/as cathedral bells were gently burning/strikin for the gentle/strikin for the kind/strikin for the crippled ones/an striking for the blind.”

Eram as sementes do seu novo rumo; influenciado pela relação fracassada com Suze Rotolo e Joan Baez, atormentado e assustado pela rapidez com que se tornava famoso. É-lhe atribuído o prémio Tom Paine pelo Emergency Civil Liberties Committee (ECLC), mas o seu discurso embriagado e confuso torna-se ainda mais devastador quando diz que sente em si um pouco de Lee Harvey Oswald, o que chocou a plateia e a imprensa. Talvez quisesse dizer que era explorado por forças superiores que não controlava e, mais tarde, desculpou-se ao ECLC:

“Sou escritor e cantor das palavras que escrevo. E as canções falam por mim, pois sou eu que as escrevo na solidão da minha mente, e não tenho de responder perante ninguém a não ser perante mim.” Dylan não tinha jeito para porta-voz.

Editado no mesmo ano, Another Side of Bob Dylan revelava a sua faceta romântica, demonstrando as influências de Rimbaud e Verlaine. Gravado numa única sessão, foi uma quebra com o passado e também com Suze. Alguns temas demonstravam a “baioneta de Dylan”, expressão de Carla, a irmã de Suze. Esta última comentou:

“«Ballad in Plain  D» e outras canções eram amargas, mas não me magoaram. Eu compreendia o que ele estava a fazer. Era o fim de algo, e ambos estávamos zangados. A sua arte era o seu exorcismo. Era saudável. Era assim que ele escrevia a sua vida… as canções de amor, as canções cínicas, as canções políticas…”

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As composições do músico já não encaixavam nos padrões da folk, desagradando aos puristas. “Já não quero escrever para as pessoas”, disse Dylan. “Não quero ser o porta-voz de nada. Só quero escrever de dentro de mim. Quero escrever da maneira que ando e falo.” Perdeu parte do seu público, mas ganhou outro.

Saturado das críticas dos puristas da folk, da imprensa e do público, que pedia “o Dylan de sempre”, o músico sentia-se impedido de evoluir, o que, novamente, não o deteve. Quebrara barreiras, inovara, e as pessoas apontavam-lhe o dedo. Cometeu um “sacrilégio”. Ninguém previa o álbum seguinte, Bringing It All Back Home, em que Dylan pega na guitarra elétrica e cria o folk-rock.

ESCURIDÃO AO MEIO-DIA

Este álbum traz à superfície o talento de alguém que evoluía mais depressa do que o público. Trabalhava durante o dia e pela noite dentro. Completou o disco em três sessões, durante dois dias… adotou uma abordagem instintiva do processo de gravação, mudando de arranjos, tempos, letras, improvisando-as no momento em que as gravava.

bob dylan (6)A beleza de «Love Minus Zero/No Limit» coexistia com o comentário social de «Subterranean Homesick Blues». «Mr. Tambourine Man» ou «It’s Alright Ma» tornaram-se hinos. Quando perguntaram a Suzanne Vega, recentemente, que música gostaria de ter escrito, esta respondeu, «It’s Alright Ma». “Até sei o início de cor, só um segundo… Darkness at the break of noon/Shadows even the silver spoon/The handmade blade, the child’s balloon/Eclipses both the sun and moon/To understand you know too soon/There is no sense in trying… que início fantástico… agarra-nos logo.”

Durante 1964, Bob Dylan faz grandes digressões pelos EUA, parecendo maçado com os antigos temas, cantando-os sempre de maneira diferente. Tornou-se mais reservado, a apoiar-se nos jogos de palavras e a restringir o contacto com um pequeno círculo de pessoas que o entendia. Começou a distanciar-se de Joan Baez e a passar cada vez mais tempo com Sara Lowndes.

A breve tournée em Inglaterra, em 1965, é filmada, originando o documentário Don’t Look Back, de Don Pennebaker. É um olhar, por vezes, desagradável sobre as pressões da fama. Mostra um Dylan a desprezar Baez, a cantar perante plateias e a começar a refugiar-se atrás de óculos escuros. (Era míope, não há nenhum misticismo nisto.) Vê-se um Dylan irritado, descontraído, tenso, cansado, sempre achei este documentário o retrato de um homem que não sabe lidar com a idolatria e se assemelha a um animal engaiolado. Mal aterrou no aeroporto de Londres, foi cercado por uma multidão em fúria. Era bombardeado com perguntas de jornalistas que não percebiam o seu trabalho e reagia com cinismo ou humor, consoante o estado de espírito.

“Os jornalistas são uma cambada de escritores com problemas, romancistas frustrados, não me ferem ao porem-me rótulos. Têm ideias pré-concebidas sobre mim, por isso, eu jogo com elas.” Um jornalista da Time foi cilindrado por Bob. Os amigos diziam que ele conseguia tirar camadas de pele aos jornalistas, especialmente quando o tratavam como uma curiosidade e não como um artista sério.

Dylan conseguia descontrair-se quando estava sozinho ou na companhia de amigos de confiança. O que se tornava cada vez mais raro. Sob a influência do haxixe ou do que lhe viesse à mão, era cáustico com amigos e desconhecidos, e começava a tornar-se paranoico. As suas forças esgotavam-se, dava entrevistas antes e depois dos concertos, fugia de carro; mudava de figura pública para Robert Zimmerman com tanta rapidez que os nervos quase não aguentavam.

Apesar de tudo, havia quem gostasse genuinamente de Bob Dylan – Eric Clapton, por exemplo. Era o músico favorito de David Gilmour e Jimi Hendrix. John Lennon confessou-se “ansioso como a merda” quando o conheceu. A escrita dos Beatles seria bastante influenciada por Dylan. O músico, exausto, ficou acamado uma semana. O que lhe deu tempo para pensar em várias coisas, entre as quais, Highway 61 Revisited, o seu álbum seguinte.

“JUDAS!”

bob dylan (5)O Festival de Newport foi um escândalo – Bob surge com uma banda de rock, mas o som estava tão distorcido que ninguém ouviu nada. Daí os apupos, embora o purista Pete Seeger se tivesse antagonizado com ele; chamou-lhe herege, queria cortar o cabo do microfone. Além disso, Dylan só tocou três temas, o que desgostou a multidão. Muitas destas circunstâncias foram mistificadas ao longo do tempo, sobretudo pela imprensa. E houve, neste período, muita coragem artística, pois Dylan não dava ao público o que ele queria. Bob comentaria: “Fiquei sentido, já que, no fim, eles disseram que me apuparam porque eram os meus velhos fãs.”

Nas gravações de Highway 61 Revisited, os músicos não sabiam a que soaria nenhuma canção, olhando para um simples diagrama de acordes que lhes punham à frente. Durante uma semana, gravaram este álbum, que reinventou o rock and roll.

Um tema sobressaiu: «Like a Rolling Stone». Hoje é um clássico, na altura, foi atacado e Dylan ripostou: “Aquele Dylan… só sabe rebaixar as pessoas. Nunca rebaixei ninguém numa canção, são as ideias deles. Na sua estrutura, esta canção é um vómito. Tinha umas 20 páginas. Chamei as pessoas e disse-lhes como tocar e, se não quisessem, tudo bem…”

O biógrafo Robert Shelton considera que a canção é sobre pessoas que, de repente, fazem uma quebra, depois de se terem envolvido em qualquer modo de vida. Para alguns, é libertador, para outros, significa pânico e desamparo: “É sobre a perda da inocência e a crueza da vida. Mitos, adereços, velhas crenças, tudo se dissolve perante a realidade.”

O timing do seu casamento com Sara Lowndes, a 22 de novembro de 1965, foi estranho, uma vez que Dylan ia passar os seis meses seguintes na estrada. No começo de 1966, nasce o seu primeiro filho. Sara estava obviamente grávida na altura da cerimónia. Especula-se que queria pôr a sua vida em ordem. As pressões eram tantas que começou a usar cada vez mais estimulantes para conseguir atuar.

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A sua posição “oficial” sobre a droga ficou escrita na Playboy, numa entrevista de 1966: “Não aconselharia ninguém a consumir drogas, as duras nem pensar; elas são um medicamento. Mas o ópio, o haxixe e a erva não são drogas, apenas dobram um pouco a mente.” Mais tarde, Dylan negaria a influência das drogas na sua escrita, admitindo apenas que elas o ajudaram a compor com mais rapidez. Na realidade, Bob consumia anfetaminas, LSD e cocaína, além das já mencionadas.

Blonde on Blonde, de 1966, foi a rutura definitiva. Com letras surrealistas, melodias que fugiam aos estereótipos e a voz nasalada cada vez mais expressiva, Dylan criou uma obra-prima. Foi gravado em Nashville, capital da country. Os músicos jogavam às cartas, enquanto Dylan compunha. «Sad Eyed Lady of the Lowlands» era uma óbvia carta de amor para Sara Lowndes. (Repare-se no jogo de palavras.) «Visions of Johanna», «Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again», «I Want You», «Rainy Day Women», «Just Like a Woman»… clássico após clássico.

Seguiu-se uma digressão mundial. Um observador comentou que, nesta altura, “Bob parecia um homem com os terminais nervosos expostos”. Noite após noite a tocar com os Hawks (mais tarde mudariam o nome para The Band), Dylan ouvia apupos, aplausos… as suas atuações eram um drama diário. Mas não lhe perdoaram. “Judas!” foi o grito que se ouviu num concerto. Ao que Dylan respondeu: “Não acredito em ti, és um mentiroso”, antes de se virar para a banda e gritar “play fucking loud!”.

Aos 25 anos, era demasiado para ele. Bob não conseguia esconder a tensão. Tentou fugir aos holofotes e passar mais tempo com a família, na sua casa de Woodstock. Foi aí que sofreu o acidente de motorizada em que partiu várias vértebras do pescoço, a 29 de julho de 1966, quando a roda traseira bloqueou subitamente.

O acidente ocorreu numa altura em que Dylan não dormia há três dias. Ao ser ofuscado pelo sol, travou de repente e foi projetado. Sara seguia-o de automóvel e levou-o ao hospital, onde Bob ficou uma semana. Especulou-se se teria morrido, se estaria desfigurado… pura e simplesmente desapareceu do mundo da música e da vida pública. Queria ser um pai de família, ver os filhos crescer. Mas, ainda hoje, “o acidente de moto” é considerado o eixo da carreira de Bob Dylan. Nada seria igual.

ZIGUEZAGUES

“Não compreendi a importância do acidente até um ano depois. Pensei que ia recuperar e voltar a fazer o que fazia… mas isso já não era possível.” (1969)

Com Sara, "radiant jewel, mystical wife".
Com Sara, “radiant jewel, mystical wife”.

Na primavera de 1967, Bob Dylan grava com os Hawks na cave da casa que estes tinham alugado em Woodstock, originando um álbum duplo, o primeiro disco pirata da História: The Basement Tapes. Oficialmente, só regressaria com John Wesley Harding, em que o imaginário bíblico e os tons folk se fundem numa voz diferente.

Dylan edita Nashville Skyline, com sonoridade country e letras mais lineares, incluindo um dueto com Johnny Cash, «Girl From The North Country». O álbum torna-se, ironicamente, um dos seus discos mais vendidos de sempre. Depois de um autorretrato pouco inspirado (Self-Portrait, 1970), surge New Morning, com um Bob totalmente diferente do passado. A qualidade decai ainda mais em Dylan (1973).

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Em 1973, Dylan muda de editora, da CBS para a Asylum. “Fiquei com a impressão que tanto lhes fazia se eu ficava ou não.” Reúne os The Band e 80 canções e grava  Planet Waves em 1974, a luz ao fundo do túnel. Artisticamente, algo espicaçara o compositor: Problemas conjugais. Bob evoca também Echo em «Hazel». «Wedding Song» e «Dirge» eram composições mais sombrias.

O álbum foi apenas o prenúncio de uma das suas obras-primas: Blood on the Tracks, em 1975. Esta catarse foi inspirada pelo divórcio de Sara Lowndes. Era um Dylan diferente dos triunfos do passado, mas igualmente genial.

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“Nesse álbum”, revela Dylan, “aprendi a fazer conscientemente o que outrora fazia inconscientemente. Tentei fazer um quadro em que se veem as diferentes partes, mas também o todo. Muitas pessoas dizem-me que gostam desse álbum. É difícil compreender. Quero dizer, as pessoas gostarem desse tipo de dor, sabem?”

Segue-se outro disco em que explora novas sonoridades, Desire (1976) e Hard Rain, retratando a digressão. Temas antigos e recentes são reinventados, Bob Dylan estava de regresso, inspirado. No final dos anos 70, converte-se ao cristianismo. Recruta Mark Knopfler e Pick Withers dos Dire Straits e grava Slow Train Coming, originando novas críticas, mas um Grammy pelo tema «Gotta Serve Somebody», na categoria de Melhor Vocalização Rock. Saved possui um teor quase bíblico e Shot of Love não é bem recebido. Em palco, Dylan pregava sobre Cristo, mas a crítica esqueceu-se de que o músico explorava uma sonoridade gospel de forma bastante interessante.

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Em Infidels, de 1983, os temas da salvação e da ruína espiritual da humanidade marcaram um regresso à forma. O produtor Mark Knopfler desentende-se com ele numa sessão, abandonando o estúdio, desgostado. Além do brilhante «Jokerman» ou do terno «Sweetheart Like You», fica de fora uma canção genial, que só viria a ser editada em The Bootleg Series, Vol 1-3 (1991). Um dueto com Dylan ao piano e Knopfler na guitarra: «Blind Willie McTell». O compositor reflete sobre os tempos árduos que vivemos, em que “já ninguém consegue cantar os blues como Blind Willie McTell”.

O resto do anos 80, excetuando alguns temas de Empire Burlesque (1985) seria uma desilusão. Lançou flops inaudíveis seguidos de trabalhos medianos. De modo geral, editou boa música, mas nunca atingiu o poder revolucionário e poético de outros tempos. Uma compilação excelente, reunindo clássicos a par de inéditos e gravações ao vivo, Biograph (1985) mostrou a influência de Dylan ao longo das décadas. Oh Mercy (1989), produzido por Daniel Lanois, reavivou a chama doutras épocas.

NUM PALCO, ALGURES

Depois de um concerto de homenagem no Madison Square Garden, ao qual o homenageado não assistiu, preferindo passar o tempo na camioneta da digressão até o chamarem para tocar, no final, Dylan edita um inspirado Unplugged, com o excelente «Dignity», um tema excluído de Oh Mercy.

Em anos mais recentes, surgiram várias edições da aclamada Bootleg Series, com concertos, demos, temas inéditos, mostrando o quanto Dylan era prolífico. O tema de Wonder Boys, «Things Have Changed», em 2000, ganha o Óscar, se bem que a canção pareça mais baseada no próprio Dylan do que na personagem a que se destinava. O seu álbum de originais Love and Theft é editado a 11 de setembro de 2001, coincidindo com uma tragédia.

bob dylan (15)O episódio da série American Masters, No Direction Home (2005), realizado por Martin Scorsese, mostrou-nos um Dylan mais humano, recetivo e sereno, a par de imagens raras de arquivo. Por seu turno, I’m Not There, de Todd Haynes (2007), foi uma tentativa semifracassada de filmar a sua biografia.

Nos últimos anos, Dylan, cuja voz já demonstra o cansaço da idade, regressou ao seu primeiro amor, a country/western. Chegou mesmo a editar um álbum de canções de Natal. É uma fase que a mim, pessoalmente, não me agrada. Mas isso não interessa. Já alguém comparou a sua obra e influência à de Picasso, o que subscrevo.

Citando Bruce Springsteen: “Sem Bob Dylan, os Beatles não teriam feito Sergeant Pepper, os Beach Boys não teriam feito Pet Sounds, os Sex Pistols não teriam feito God Save the Queen.”

Interessa é a forma como Bob Dylan nos marcou. A mim, diz-me muito. Custa-me ouvir algumas canções dele, porque me lembram tempos menos bons. Outras alegram-me, porque me recordam tempos de descoberta e criação. E Dylan é isso. As suas canções produzem um efeito quase subconsciente que permanece, ainda que não entendamos as palavras, por muito que as traduzam. Dylan é mais do que isso. E, quando digo “eu”, refiro-me a milhões de pessoas de várias gerações, no mundo inteiro. Mas, quando toca a Bob Dylan, só podemos falar por nós.

O futuro de Dylan? Termino com as palavras dele quando o questionaram sobre a sua longevidade: “Se me vierem visitar aos 90 anos, vão-me encontrar num palco, algures. Os dias com que tens de te preocupar são o de hoje e o de amanhã.”

David Furtado

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