Jack Nicholson: Nos bastidores de Voando Sobre Um Ninho de Cucos

Jack é um dos maiores atores de que há memória, e abordarei, no futuro, a sua extraordinária carreira. Por enquanto, sugiro uma viagem pelos bastidores de Voando Sobre Um Ninho de Cucos (One Flew Over the Cuckoo’s Nest). Recordo-me que o vi em 2001 e me causou uma forte impressão. A linha ténue que separa a sanidade da loucura, quem são realmente os loucos neste mundo… talvez seja por isso que o filme é um clássico e tocou tantas pessoas.

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Bom, acho que isto prova que há tantos doidos na Academia como noutro lado qualquer. (Jack Nicholson ao aceitar o Óscar de Melhor Ator.)

Na cerimónia de atribuição dos Óscares, em 1976, a obra fez história. Nicholson competia com Walter Matthau, Al Pacino, Maximilian Schell e James Whitmore. Quando o seu nome foi anunciado, ouviu-se claramente Matthau sussurrar à esposa: “Já não era sem tempo.” Ouviram-se gritos entre o público.

O livro em que o filme se baseia foi publicado em 1962, e Nicholson foi um dos milhares que leu este best-seller de Ken Kesey sobre um violador condenado que se faz passar por louco para evitar trabalhos forçados numa prisão estadual. ‘McMurphy’ é assim enviado para uma instituição para doentes mentais, torna-se no líder dos outros pacientes e revolta-se contra a tenebrosa ‘Enfermeira Ratched’, acabando por ser lobotomizado.

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O filme parece não acabar da melhor maneira, mas é, apesar disso, um grito de libertação. O espectador atento percebe que os temas aqui abordados são dificílimos: Será que um louco pode aparentar sanidade? Um homem pode fingir ser louco e convencer? Voando Sobre Um Ninho de Cucos é também uma parábola sobre o modo como os Estados Unidos lidam com os seus inadaptados.

Ao longo dos anos, foram várias as tentativas de transformar o livro em filme. Kirk Douglas desempenhou ‘McMurphy’ na peça da Broadway, e pretendia fazer o mesmo na adaptação cinematográfica, assegurando tais direitos. Foi Douglas que tentou recrutar para realizador Milos Forman, uma das figuras proeminentes da new wave checoslovaca.

Contudo, em 1973, Douglas já não tinha a idade certa para o papel e entregou os direitos de adaptação ao seu filho, Michael Douglas, que não se sentiu à altura de desempenhar ‘McMurphy’. Decidiu então produzir o filme em parceria com Saul Zaentz. Os dois novatos na qualidade de produtores, angariaram 4 milhões de dólares, o suficiente para corresponder às exigências salariais de Jack Nicholson. Mas só quando Milos Forman aceitou realizar, Nicholson concordou, já que o conhecia pessoalmente e o admirava.

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Por esta altura, Forman não era um realizador “comercial”. Adepto da improvisação e de misturar profissionais com amadores, estimulando os atores a que se baseassem no guião para tirar de dentro deles as personagens, o realizador checo permitiu uma abordagem incomum na época. O argumento de Lawrence Hauber e Bo Goldman mudou substancialmente o enredo do livro. A ‘Enfermeira Ratched’ torna-se mais humana (se é que tal é possível) e o foco é dirigido para o papel de Nicholson.

A obra permitia (e até exigia) um trabalho em conjunto, pelo que Forman reuniu um elenco de atores secundários excelente, composto por conhecidos e desconhecidos. Como era seu hábito, Jack recomendou colegas que conhecia de workshops, de aulas de representação e dos velhos tempos. O elenco integrava Danny DeVito, Christopher Lloyd, William Redfield, Sydney Lasnick e Brad Dourif, que seria nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário. Scatman Crothers e Ken Kenney, um amigo de Jack dos tempos do liceu, também participaram. Will Sampson, o índio, que desempenha um papel fulcral, era amador, trabalhava como assistente no Mount Rainier National Park.

Jack relata: “O Michael [Douglas] disse-me que nunca se esqueceu da minha cara quando vi o elenco sair do avião pela primeira vez. Alguns eu conhecia, mas muitos deles ainda hoje não os compreendo!… Pensei, ‘céus, o Milos optou por um elenco da Europa de Leste, encontrou algum asilo e contratou um bando de doidos! [Risos.] Então quando vi o ‘índio’… Will Sampson era enorme, usava um chapéu de cowboy gigantesco, tranças, calças aos quadrados, e trazia um portfolio com os seus desenhos, e eram bem bons. E eu pensei, ‘realmente é o maior índio que alguma vez vi!’”

Durante as filmagens.
Durante as filmagens.

O ator diz também que, nesses tempos, improvisava bastante, e, na cena em que é admitido no hospital, a sua filha estava presente, o que o fez “exibir-se” um pouco. “Mas acho que a presença de Jennifer deu origem ao meu melhor momento de improvisação.” O produtor Michael Douglas contrapõe:

“Aprendi imenso ao observar Jack nesse filme, pois ele é a única pessoa que conheço que, provavelmente, está mais à-vontade à frente da câmara do que na vida real. Mas também sei das horas de ‘trabalho de casa’ que nunca ninguém vê, dos takes diferentes que ele filma, que não são piores nem melhores, apenas opções para o realizador. Sei também do tempo que ele dedica aos atores mais novos e o apoio que lhes dá, tem tempo para os eletricistas, para a equipa.”    

‘RATCHED’ SOA A ‘WRETCHED’

Para o papel da ‘Enfermeira Ratched’ exigia-se alguém que conseguisse enfrentar a gabarolice de ‘McMurphy’/o génio de Nicholson. Muitas atrizes foram consideradas, algumas rejeitaram, argumentando que o filme era misógino. Uma delas foi Jane Fonda. Fred Roos, que, na altura, produzia O Padrinho II com Coppola, sugeriu Louise Fletcher. Milos Forman assistiu a Thieves Like Us de Robert Altman e pensava em contratar Shelley Duvall para o papel de uma enfermeira, quando Louise Fletcher, num papel secundário, lhe chamou a atenção. Fletcher não era conhecida, não era uma estrela e simbolizava um risco: Lidar com ‘McMurphy’ não era tarefa fácil; confrontar Nicholson no ecrã também não… Forman ponderou até à exaustão e só decidiu contratá-la uma semana antes de começarem as filmagens.

A equipa instalou-se em Salem, no Oregon, obtendo permissão para filmar numa verdadeira instituição para doentes mentais. Jack Nicholson foi o primeiro a chegar ao local, familiarizando-se com o ambiente, falando com o pessoal, travando conhecimento com os internados e conversando com eles. Observou pacientes a quem eram administrados eletrochoques. Era uma espécie de “aquecimento” que o ator fazia sempre, embora a sua performance tenha muito de improviso.

Jack Nicholson estava em topo de forma; acabara de participar em The Last Detail e Chinatown, dois fenomenais papéis. Quem o conhecia bem, dizia que tinha uma personalidade “armada”. Traçava a linha nítida entre a noite e o dia, o privado e a publicidade, brincadeira e trabalho.

Apesar disso, a personalidade de ‘McMurphy’ pareceu fundir-se com a de Nicholson e vice-versa. O personagem era complexo, e Jack também. Um professor de Nicholson no liceu, recordá-lo-ia como “uma espécie de diabo de certa maneira, sem ser malicioso, mas um pouco como o seu personagem em Voando Sobre Um Ninho de Cucos”.

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Milos Forman liderou todo o filme, permitindo improvisos, filmando quantas vezes fossem precisas. Todos improvisavam, adicionando pequenos mas importantes detalhes. E a sua escolha de Louise Fletcher provou ser crucial. Foi uma autêntica “dama de ferro” perante o protagonismo de Jack.

O monólogo de ‘Randall McMurphy’, em que este relata um jogo de basebol, foi trabalhado por Jack no dia anterior à filmagem. Na juventude, o ator idolatrava Bill Stern, comentador desportivo da NBC, que relatava os jogos dos Yankees ao pormenor. Jack ambicionava fazer o mesmo, pelo que o monólogo já fora ensaiado anos antes. Os antigos colegas do liceu comentam a semelhança entre o papel em Voando Sobre Um Ninho de Cucos e a intervenção de Jack numa peça teatral, 20 anos antes, também passada num hospício.

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O ator revelou, numa entrevista: “O grande segredo por detrás de Um Ninho de Cucos não está no livro. Desenhei tudo, encarando este tipo como alguém que sabe que é irresistível perante as mulheres, e espera que a ‘Enfermeira Ratched’ seja seduzida por ele. É essa a sua trágica falha. É por isso que ele fracassa. Discuti isto com Louise, só com ela. Era o que eu sentia que se passava com ‘McMurphy’, aquela longa e fracassada sedução de que o tipo estava tão patologicamente certo.”

Na verdade, estes traços, além de constarem no livro, integravam a personalidade de Jack Nicholson, pelo que este fazia uma espécie de ligação direta entre a sua própria psicologia e a do personagem, não só aqui como noutros papéis. Na fase publicitária do filme, a opinião geral era a de que Jack se tornara indivisível dos seus personagens.

ESTAMOS OU NÃO NUM HOSPÍCIO?

Voando Sobre Um Ninho de Cucos, comtoda a sua complexidade, tornou-se num êxito de bilheteira inesperado. Pela quinta vez, Nicholson foi nomeado pela Academia. O ator encolhia os ombros e lidava bem com estas “perdas”. Para ele, os Óscares eram “um dispositivo promocional” que cumpria muito bem a sua função. Ao agradecer o Óscar, Jack recordou Mary Pickford, “a rainha do cinema mudo”, que recebera uma estatueta durante a cerimónia. “E last but not least, agradeço ao meu agente, que, há uns 10 anos, me aconselhou a enveredar por outra profissão.”

Os vencedores passam então para a sala de imprensa e Jack exclama, “meu Deus, isto é fantástico”. Seguiram-se algumas perguntas viperinas dos jornalistas: “Quando fez Little Shop of Horrors, achou que podia chegar a este ponto?” “Sim”, respondeu, sucintamente.

Nomeado para nove galardões, o filme arrecadou cinco Óscares. Melhor Ator, Melhor Realizador, Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado, E, last but not least… (parafraseando Nicholson) Melhor Atriz: Louise Fletcher: A terrível ‘Enfermeira Ratched’. A psicótica sob a capa da sanidade. E venceu com todo o mérito – Fletcher é fabulosa. A atriz reagiu emocionada, ao receber a estatueta de Charles Bronson:

“Parece que todos vocês me odiaram tanto… que me deram este prémio por isso. E estou a adorar cada minuto. Adorei ser odiada por vocês. Agradeço a Jack Nicholson e a um elenco de atores cujo profissionalismo, humor e capacidade de interiorizar os seus papéis, tornaram o facto de estarmos num hospício parecer que estávamos num hospício.”

Podemos fazer muitos elogios (merecidos) a Jack, mas o seu desempenho foi alicerçado por um elenco fantástico, pelo realizador certo, e por um feliz conjunto de circunstâncias. Todos sabiam o que estavam a fazer; ‘McMurphy’ é realista, a ‘Enfermeira Ratched’ também. Estes temas serão sempre atuais, mas raramente foram abordados com tanta inteligência e genialidade. Sempre que se falar de grande cinema, do cinema enquanto arte e dos atores enquanto artistas, Voando Sobre Um Ninho de Cucos será mencionado, vezes sem conta, inevitavelmente.

David Furtado

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