Jeff Bridges: “The Dude”

Uma das coisas mais difíceis sobre ser ator é conseguir a primeira oportunidade. Sou um produto do nepotismo. As portas estavam abertas para mim. Fiz diversos filmes antes de decidir se queria fazer vida disto. Sentia alguma culpa e preocupação, não sabia se realmente tinha o que é necessário.

jeff bridges the dude

Nascido a 4 de dezembro de 1949, filho de Lloyd Bridges, reverenciado ator de cinema e televisão, Jeffrey Leon Bridges suplantou a fama do pai. Nasceu literalmente no meio cinematográfico, viajando com os progenitores para vários locais de filmagens. Chegado à idade adulta, depressa viu o seu talento reconhecido pela Academia. Depois de alguns trabalhos em televisão, em 1971, protagonizou o filme que deu realmente início à sua carreira, The Last Picture Show (A Última Sessão) de Peter Bogdanovich, pelo qual é nomeado para a estatueta de Melhor Ator Secundário. Segue-se Fat City (Cidade Viscosa) de John Huston, onde interpreta um jovem pugilista em ascensão, em contraponto a outro que termina a carreira, Stacy Keach. Em Bad Company, um western de Robert Benton, passado nos tempos da Guerra Civil, Bridges encarna um jovem desordeiro.

Em A Última Sessão (1971) com Cybill Shepherd.
Em A Última Sessão (1971) com Cybill Shepherd.

Apesar deste início auspicioso, Jeff Bridges não levava demasiado a sério a profissão de ator, indeciso se havia de continuar ou não. É então que contracena com Lee Marvin em O Homem de Gelo (The Iceman Cometh), em 1973. O filme, baseado na peça de Eugene O’Neill e realizado por John Frankenheimer, dura quatro horas e é terreno propício para um ator se espalhar ao comprido.

Esta obra de teatro filmado marcou o ponto em que Jeff Bridges decidiu dedicar a vida à representação, o que se deveu, segundo diz, ao observar o profissionalismo de Lee Marvin. O ator veterano era conhecido pela sua generosidade com os colegas. Um membro da equipa de The Professionals disse que Marvin “era totalmente anti-vedeta, de abordagem fácil”.

A Última Golpada (1974). Clint Eastwood ficou roído de inveja perante o desempenho do jovem Bridges, reconhecido pela Academia.
A Última Golpada (1974). Clint Eastwood ficou roído de inveja perante o desempenho do jovem Bridges, reconhecido pela Academia.

Jeff Bridges relembra: “Eu entrei num filme, The Last American Hero (O Último Herói Americano) e diverti-me imenso. Mas, no fim, e ainda sinto isto, há uma espécie de exaustão de um certo músculo, o músculo que usamos ao representar. É tipo, ‘meu Deus, nunca mais quero fingir ser outra pessoa’. Acabado o trabalho, o meu agente liga-me e diz, ‘John Frankenheimer, o famoso realizador, quer que entres em The Iceman Cometh, com Robert Ryan, Frederick Marks e Lee Marvin’. E eu respondi, ‘diz-lhe muito obrigado, mas estou de rastos’.”

“Cinco minutos depois, o realizador de The Last American Hero, Lamont Johnson, telefona-me e encosta-me à parede: ‘Como te atreves a recusar esta grande oportunidade’, e por aí fora. ‘E dizes que és ator?’ E desliga-me o telefone!”

“E eu pensei, ‘isto é interessante: Digo que sou ator? Serei um ator?’ E sempre tinha questionado isso, pelo que decidi experimentar e participar nesse filme, já que, quando somos profissionais, temos de fazer as coisas, mesmo quando não nos apetece. Foi o que fiz e revelou-se uma experiência formidável. Depois, pensei…‘acho que conseguia fazer isto’.”

Em 1974, Clint Eastwood convida-o para com ele contracenar em Thunderbolt and Lightfoot (A Última Golpada) de Michael Cimino. Sendo já uma das personalidades mais promissoras de Hollywood, Bridges rouba praticamente o filme a Eastwood, no seu papel de ‘Lightfooot’, um jovem vadio. Quando Bridges foi nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário, Clint ficou a fumegar por ter sido ignorado.

Em King Kong (1976) com Jessica Lange.
Em King Kong (1976) com Jessica Lange.

Durante os anos 70, Jeff nunca teve falta de trabalho e recusou-se a ser estereotipado, o que talvez explique papéis tão díspares em obras que nem sempre foram um sucesso. Protagonizou o remake de King Kong, em 1976, onde contracenou com a estreante Jessica Lange. Liderou o elenco de Winter Kills (Pela Mira da Espingarda), um bizarro filme de 1979, que mistura comédia, drama e thriller, incluindo atores como Anthony Perkins, o realizador John Huston e Eli Wallach. Volta a ser dirigido por Michael Cimino em Heaven’s Gate (As Portas do Céu), um desastre que quase levou à falência a United Artists.

Não deixa de ser estranho que Bridges nunca tenha alcançado o estrelato merecido durante esta década, situação que se deve, talvez, ao domínio que De Niro, Pacino, Hoffman e Jack Nicholson exerceram durante os anos 70. Manteve, contudo, um nível de popularidade e aceitação crítica de que poucos atores se podem gabar.

PAPÉIS DIVERSIFICADOS

jeff bridges the dude (12)De personalidade despretensiosa e pacata, o ator começou a década de 80 com Cutter’s Way, um thriller interessante, mas que não trouxe nada de novo à sua carreira. Foi um dos protagonistas de Tron, em 1982, película que, embora se tenha tornado num clássico, obteve maus resultados de bilheteira, obrigando a Disney Studios a não produzir mais nenhuma obra com personagens humanas durante 10 anos. Em 1984, no neo film-noir Against All Odds (Vidas em Jogo), de Taylor Hackford, Bridges interpreta um jogador de futebol americano com a carreira em risco, numa obra em que contracena com James Woods e com o veterano Richard Widmark. E alguns poderiam supor que o percurso do ator começava a estagnar tal como o da personagem que interpretou.

No entanto, com o filme seguinte, Starman (O Homem das Estrelas), de John Carpenter, Jeff é nomeado para o Óscar de Melhor Ator, num papel inicialmente destinado a Tom Cruise. O desempenho de Bridges foi fulcral para o sucesso do filme, em que interpretou magistralmente um alienígena, contracenando com Karen Allen, a ‘Marion’ de Os Salteadores da Arca Perdida. O realizador Carpenter já sabia de antemão que o papel de Jeff decidiria o sucesso ou o fracasso da obra:

“Eu confiava em Jeff, e Jeff em mim. Fartámo-nos de ensaiar. Ele sabia o que queria fazer com o personagem, e eu concordei com ele. Já que não filmámos em sequência, ele tinha de fazer coisas diferentes, e a equipa técnica não tinha muitas certezas sobre o seu desempenho. Era do género, ‘o que é isto? Que está ele a fazer?’ Mas ele sabia precisamente o que estava a fazer, e eu sabia muito bem por que o fazia daquele modo. Por isso, a minha tarefa consistiu em apoiá-lo.”

Tornou-se, até hoje, no único filme de John Carpenter a receber uma nomeação para os Óscares.

Tron (1982) .
Tron (1982) .

Recebeu os elogios da crítica pelo filme de mistério, O Fio do Suspeito, com Glenn Close, e 8 Milhões de Maneiras para Morrer (1986), um policial com argumento de Oliver Stone que se tornaria num dos grandes filmes subestimados dos anos 80. Depois do fracassado A Manhã Seguinte, em que contracena com Jane Fonda sob a direção de Sidney Lumet, dir-se-ia que Bridges se fazia acompanhar por outros grandes talentos, embora os resultados ficassem aquém do esperado. Foi o que aconteceu na comédia inconsequente Nadine, Um Amor à Prova de Bala, com Kim Basinger e novamente sob a direção de Robert Benton.

jeff bridges the dude (6)Mas o estatuto de Bridges já estava consolidado e os seus desempenhos mantinham um nível de qualidade notável, como veio a comprovar Tucker – O Homem e o seu Sonho de Francis Ford Coppola. Outros atores, como Martin Landau, foram distinguidos com vários prémios, mas, desta vez, Bridges foi injustamente menosprezado.

Trabalha com o aclamado Alan J. Pakula em Encruzilhada de Ilusões, em 1989 e, no mesmo ano, contracena com o irmão Beau Bridges e com Michelle Pfeiffer, em Os Fabulosos Irmãos Baker, num papel que, para muitos, lhe poderia dar mais uma distinção da Academia. Mas a nomeada, desta vez, foi Pfeiffer, que comentou o perfil terra-a-terra de Jeff, revelando:

“Estávamos na maquilhagem, e ele dizia, apontando para mim: ‘Não quero nada daquilo que lhe estão a pôr a ela’.” Em 2003, Jeff viria a dizer que gostaria de filmar uma sequela desta obra, “para saber o que aconteceu aos dois irmãos”.

A sequela de A Última Sessão, Texasville, de 1990, reuniu-o mais uma vez a Cybill Shepherd e a Peter Bogdanovich, embora os resultados não tenham sido os melhores. Mas Jeff segue em frente, interpretando, no ano seguinte, uma estrela de rádio que se transforma num sem-abrigo, em O Rei Pescador, filme do ex-Monty Python Terry Gilliam, que conta também com um Robin Williams em excelente forma e merecidamente nomeado para Melhor Ator.

Against All Odds (1984), com Rachel Ward.
Against All Odds (1984), com Rachel Ward.

Coração Americano conta a história de um ex-presidiário que tenta reaproximar-se do filho, interpretado por Edward Furlong. Esta pequena produção é o filme favorito de Bridges, entre todos em que participou. Depois de interpretar um arrepiante psicopata em A Desaparecida, de 1993, Jeff encarna um homem que, sobrevivendo a um desastre de avião, começa a encarar a vida de outra forma, em Sem Medo de Viver. Foi outro grande desempenho e a oportunidade de trabalhar com mais um talentoso realizador, Peter Weir.

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Acerca desta interpretação, a crítica Pauline Kael escreveu: “Ele deve ser o ator mais natural e desinibido de todos os tempos.”

Nos anos 90, a carreira de Jeff Bridges não quebrava o ritmo. Contracena com o pai em Chuva de Fogo, filme de ação em que o seu inimigo é Tommy Lee Jones. Em 1995, encarna a lenda do Oeste ‘Wild Bill Hickock’, numa obra de Walter Hill. Depois de trabalhar com Ridley Scott em Escola de Homens, contracena com Barbra Streisand e Lauren Bacall na comédia romântica As Duas Faces do Espelho.

“I’M THE DUDE, MAN!”

É então que o ator veterano conquista uma nova legião de fãs ao encarnar ‘Jeffrey Lebowski’, “The Dude”, papel escrito com o ator em mente, na comédia negra dos irmãos Coen, O Grande Lebowski. Ironicamente, foi durante esta rodagem que deixou de fumar marijuana, o que é curioso, visto que “The Dude” é apreciador da droga.

Em Chuva de Fogo (1994)  com o pai, Lloyd Bridges.
Em Chuva de Fogo (1994) com o pai, Lloyd Bridges.

Jeff Bridges demonstra mais uma vez a sua versatilidade no ano seguinte ao contracenar com Tim Robbins em O Suspeito da Rua Arlington. Em 2001, é nomeado pela quarta vez para o Óscar, desta vez na categoria de Ator Secundário por O Jogo do Poder, um filme menor, com Bridges a desempenhar o papel de presidente dos EUA. Para quem conheça a sua carreira, não é decididamente um dos seus melhores trabalhos. Seguem-se alguns filmes de qualidade mediana como Masked and Anonymous, com Bob Dylan, A Porta no Chão ou Os Amadores.

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Em 2008, regressa com o blockbuster Homem de Ferro, surgindo de cabeça rapada (algo que sempre quisera fazer, segundo afirma) e interpretando o vilão. Trabalhando incansavelmente, em 2009, participou em quatro filmes, o último dos quais, Crazy Heart, dá-lhe finalmente o Óscar, o Globo de Ouro e diversos outros prémios para os quais fora nomeado no passado, como o Screen Actors Guild Award ou o Independent Spirit Award.

Tornou-se assim num dos atores mais velhos a ter recebido o galardão (com 60 anos) e um dos mais novos a ter sido nomeado (aos 22). No papel de ‘Bad Blake’, estrela do country em curva descendente, Bridges canta ele próprio os temas da banda sonora, o que não é de espantar já que é um guitarrista experiente, tendo lançado um álbum de originais em 2000, intitulado Be Here Soon e outro, homónimo, em 2011.

O seu filme seguinte é TRON: O Legado, onde volta a reencarnar ‘Flynn’. Curiosamente, embora o primeiro título não tenha sido um sucesso de bilheteira, tornou-se, ao longo dos anos, num filme de culto, permitindo a realização desta sequela.

“THE LITTLE GOLDEN GUY”

jeff bridges the dude (2)Casado com Susan Geston desde 1977, Bridges tem três filhas e dedica-se a outras artes quando não está no set de um filme e mesmo quando está. Desde os anos 80, um dos seus hobbies é tirar fotografias quando se encontra em filmagens, utilizando uma câmara Widelux, prática a que deu início durante Starman, por sugestão de Karen Allen. Foi assim que captou os seus colegas atores prestes a serem filmados e fez um pequeno historial das filmagens de O Grande Lebowski num livro publicado em 2003, contendo 119 fotos e intitulado simplesmente Pictures.

Outra curiosidade acerca do ator é o site www.jeffbridges.com, mantido pelo próprio, e onde se pode apreciar o seu grafismo e os seus cartoons, bem como a divulgação da End Hunger Network, associação de combate à fome entre as crianças, que ajudou a fundar em 1984. Também dá algumas notícias personalizadas aos fãs. Por exemplo, podemos ler, “passou muito tempo… I’ve been gone, man… estive com os irmãos a fazer o True Grit. Os irmãos Coen, quero dizer. Foi ótimo trabalhar com eles de novo, e também com o excelente elenco e equipa que reuniram. Filmámos em Santa Fe e Austin. Duas cidades fixes com música muito boa”.

E relembra: “Mal voltei, tive de partir outra vez, para prosseguir o trabalho em TRON: O Legado. Passaram 27 anos desde o original. Na altura, não havia Internet nem PC’s e trazíamos os nossos telemóveis em malas.” O ator confessou que, desde Crazy Heart, ficou novamente submerso em ideias musicais”, e fez alguns espetáculos com o seu amigo T. Bone Burnett, além de gravar um álbum. Num website que merece uma visita, pela sua originalidade e conteúdos (chega a ter o link para as obras completas de Shakespeare), Bridges agradece ainda a todos por ter ganho o Óscar, “the little golden guy” como lhe chama. Afinal, apesar de ter entrado com facilidade para o mundo do cinema, parece que Bridges sempre tinha “true grit”.

Com Maggie Gyllenhaal em Crazy Heart.
Com Maggie Gyllenhaal em Crazy Heart.

TRUE JEFF

Com argumento de Joel e Ethan Coen, mais uma vez baseado no romance de Charles Portis, True Grit (Indomável) foi um projeto arrojado, tendo em conta que Hollywood nos tem oferecido remakes incontáveis de qualidade duvidosa. Além de Bridges, no papel do grande bebedor e irascível “Marshall ‘Rooster’ Cogburn”, surgem também Hailee Steinfeld, como Mattie Ross e Matt Damon como LaBoeuf, além de Josh Brolin.

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O filme original, de Henry Hathaway, valeu o Óscar de Melhor Ator e o Globo de Ouro ao veterano John Wayne, sendo uma das obras mais amadas do “The Duke”. Neste primeiro filme, Mattie e LaBoeuf eram interpretados por Kim Darby e Glen Campbell, surgindo também no elenco dois maus da fita: Robert Duvall, (ainda na fase anterior a O Padrinho, que o celebrizou) e Dennis Hopper, numa pequena participação.

Indomável tornou-se, apesar de tudo no filme dos irmãos Coen mais rentável até hoje, uma vez que só foram gastos 38 milhões na produção. Com 110,4 milhões de lucro em 19 dias de exibição, ultrapassou as receitas totais de westerns modernos como Imperdoável ou Maverick. Ironicamente, TRON: O Legado, outro filme em que Jeff Bridges participou, não satisfez as aspirações da produtora Disney, com resultados algo estagnados na bilheteira.

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Indomável obteve excelentes críticas na imprensa americana. Mary Pols, da Time, afirmou que “é uma versão mais verdadeira e com mais classe da história. Bridges é sublime”. Peter Travers da Rolling Stone, salientou: “Grande realização, grandes representações, grande filme.” O crítico Roger Ebert realçou, no Chicago Sun-Times, que se tratou do “primeiro filme de género dos Coen. A sua arte é maravilhosa. A escolha do elenco é sempre inspirada e exata. A fotografia de Roger Deakins evoca-nos a glória que o western foi e que ainda pode ser”. No New York Times, Manohla Dargis comentou que “aquela velha religião americana de vingança flui como um rio em Indomável, uma história meio cómica, meio séria, sobre tempos rudes e cruéis”. Para Peter Debruge, da Variety, “Jeff Bridges reinventa com habilidade o icónico papel de ‘Rooster’ Cogburn”.

A sua interpretação de ‘Rooster’ foi nomeada para diversos prémios, tanto nos EUA como em Inglaterra. Depois de um Óscar que soube mais a prémio de carreira, Jeff Bridges surgiu novamente num grande papel. E a sua carreira está recheada deles. “The Dude abides”…

David Furtado

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