Harvey Keitel faz 73 anos: O seu livro de segredos

É um dos “atores secundários” mais importantes da Sétima Arte. Durante os anos 70, o seu nome ficou associado ao de Martin Scorsese, em desempenhos extraordinários. Nos anos 80, foi esquecido, mas reapareceu, mais popular do que nunca, a partir do momento em que apoiou Cães Danados de Quentin Tarantino (1992). Desde então, os seus antigos desempenhos foram reavaliados e filmou obras memoráveis. Investiguemos algumas páginas esquecidas do seu livro de segredos.

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O Tesouro: Livro dos Segredos, de 2007, não foi um dos papéis mais exigentes para Harvey Keitel. Ator de grande talento, possui uma das carreiras mais irregulares no mundo do cinema. A passagem pelos Marines criou no jovem Harvey uma grande disciplina e também o gosto pela leitura. Foi quando se interessou pela mitologia grega e por Dostoiévski, tentando decifrar os seus próprios segredos interiores:

“Não me ocorre tarefa mais importante do que ler. Salvou a minha vida, de muitas formas.” “Em grande parte, acho que perdemos a arte de contar histórias”, considera. “Perdemos a arte de nos sentarmos a uma mesa e partilharmos histórias sobre a vida. Perdemos a arte do homem das cavernas, que pintava nas paredes para expressar os seus temores e anseios.”

FASCÍNIO PELAS TREVAS

harvey keitelOs pais de Keitel – um polaco e uma romena – eram judeus ortodoxos que fugiram ao anti-semitismo na Europa, emigrando para os EUA e estabelecendo-se em Brooklyn, Nova Iorque, onde Harvey nasceu, a 13 de maio de 1939. Era um jovem introspetivo mas rebelde, que desistiu do liceu e passava o tempo a jogar bilhar, sem ter grandes perspetivas, até que decide alistar-se nos Marines; uma forma de combater as inseguranças:

“Aprendi lá coisas que marcaram o início de uma jornada espiritual. Os tipos que eram mesmo duros não eram necessariamente os melhores lutadores ou os maiores fanfarrões. Eram os que resistiam, os que estavam lá quando precisávamos deles e que não receavam admitir que tinham medo.”

(Cena improvisada de Mean Streets. Repare-se na interação entre De Niro e Keitel, com este último a dar o protagonismo ao colega:)

Um dos momentos que marcou a sua vida foi um exercício de combate, em que o assustado Harvey, de 17 anos, estava na escuridão com os colegas quando o instrutor lhes disse: “Vocês têm medo do escuro porque receiam o desconhecido. Vou ensinar-vos a conhecer as trevas, para que não as receiem e aprendam a viver com elas.” Keitel encontrou então uma filosofia baseada na autodescoberta. Permaneceu nos Marines três anos, foi destacado para o Líbano durante uma intervenção americana e patrulhou as ruas de Beirute. Aprendeu bastante.

“Agora sei que é mais fácil ir para a guerra do que enfrentar a nossa própria violência interior. Senti que pertencia a um grupo especial. Até hoje, orgulho-me de ser um Marine.”

A arte da representação foi também uma fuga à vida maçadora de estenógrafo num tribunal, onde testemunhava dramas diários. Vivia num apartamento minúsculo em Hell’s Kitchen, Nova Iorque, e, por sugestão de um amigo, começou a frequentar aulas de arte dramática.

“Tornei-me ator para conseguir aproximar-me do mistério de me compreender a mim mesmo. Foi uma necessidade. Tinha muitas dúvidas se o conseguiria fazer, mas sentia o desejo irreprimível de me expressar.”

Começou a obter pequenos papéis em peças, não era pago e atuava em locais “que não tinham nome. Alguns nem sequer tinham teto…”, segundo descreve.

Estreou-se na televisão, com a série Dark Shadows, em 1966. No ano seguinte, obteve um pequeno papel em Reflections in a Golden Eye (Reflexos num Olho Dourado), a adaptação do romance de Carson McCullers, ao lado do seu ídolo, Marlon Brando, e de Elizabeth Taylor. No mesmo ano, protagoniza o primeiro filme de Martin Scorsese, Who’s That Knocking at My Door (Quem Bate à Minha Porta?)

Who's That Knocking at My Door (1967).
Who’s That Knocking at My Door (1967).

“Quando conheci o Marty”, explica Keitel, “foi como se encontrasse um verdadeiro camarada. Acho que não é diferente quando um homem conhece uma mulher e, de repente, fica absorvido por aquela pessoa. Pressentimos alguma coisa. E não importa o que sucede nos anos seguintes, mantemo-nos unidos por fatores inexplicáveis que nenhum ato pode destruir.”

Um dos diretores teatrais com quem trabalhou, Arvin Brown, examina as qualidades inatas de Keitel:

“Ele tinha muita daquela esperteza das ruas que Al [Pacino] também possuía, mas era mais ingénuo. Havia nele uma violência reprimida e uma inocência. E isso manteve-se uma constante no seu trabalho, apesar de se movimentar em mundos decadentes, violentos ou perturbadores.”

Mean Streets (1973).
Mean Streets (1973).

Keitel ingressa no Actors Studio e estuda com Lee Strasberg, Stella Adler e Ernie Martin. Este último caracteriza o antigo aluno: “Nele, sempre houve paixão pelo trabalho. Não permite que outros fatores interfiram no processo criativo. Nos últimos 25 anos, vi muita gente focalizada nos resultados, mas há poucas pessoas com verdadeira paixão e amor pelo processo, pelo trabalho, pelos ensaios. E Harvey é uma delas.”

Mas só em 1974, após oito anos de audições, seria aceite como membro do Actors Studio, um gesto simbólico, que o ator, perseverante e humilde, considerava uma honra, sujeitando-se a audições todos os anos. Uma produtora disse-lhe mais tarde que teve quase de ameaçar o comité que selecionava os membros: “Não o façam passar novamente por isto.” “Foi um grande dia para mim”, comentou Keitel, feliz. “Realizei um sonho.”

CARREIRA ESTAGNADA

No papel de ‘Charlie Cappa’, Keitel é brilhante em Mean Streets (Os Cavaleiros do Asfalto) de 1973, retratando um homem dividido entre o código ético e a religião, num desempenho que Scorsese enalteceu. Harvey contracenou com Robert De Niro, que dominou o filme com um papel secundário, o de ‘Johnny Boy’. Os dois atores eram amigos e Harvey encorajava De Niro, improvisando com ele diversas cenas.

Os críticos realçaram a química entre ambos, reconhecendo a “eletricidade” do ator, em que todo o filme se alicerça. Pauline Kael escreveu na New Yorker: “É Keitel quem torna possível o triunfo de De Niro.” E Roger Ebert assinalou: “A sua personagem introduz um tema que seria central no trabalho de Scorsese, a culpa e a redenção.” Mas o azar do ator instalara-se e originaria inúmeros percalços.

O ator Allen Garfield conheceu ambos e comenta:

“Acho que o mais frustrante foi o facto de, durante anos depois de Mean Streets, Harvey ter ficado à sombra de Bob [De Niro].”

Durante as décadas seguintes, Scorsese continuou a recorrer a Harvey para personagens peculiares, geralmente homens no limite. Em 1974, interpretou ‘Ben’, um indivíduo tresloucado, personagem secundária em Alice Doesn’t Live Here Anymore (Alice Já Não Mora Aqui). O seu trabalho valeu-lhe a admiração de Ellen Burstyn, que venceria o Óscar por este filme: “Numa das cenas, assustei-me tanto que fiquei a chorar duas horas. Não por causa do Harvey, mas devido à personagem que ele criou.” O filme deu também notoriedade a Jodie Foster. Em suma, todas as estrelas estavam em ascensão, menos a sua.

harvey keitel (15)Dois anos depois, reencontra Scorsese, Foster e De Niro em Taxi Driver, e o realizador pede-lhe que interprete um papel principal. Keitel opta por um mais pequeno e desenvolve-o à sua maneira.

“Ele apareceu, entusiasmado, dizendo que era fã de Barry White e que queria filmar uma cena como se fosse uma das suas canções, com frases do género, ‘I love you, baby’, ‘you’re my only one’…”, recapitula Jodie Foster, divertida.

Mais uma vez, os elogios da crítica e dos colegas de pouco lhe serviram. Já era conhecido por ser perfeccionista e injustamente relegado para segundo plano, e começa então a demonstrar um espírito de aventura que tem marcado toda a sua carreira.

Um realizador com quem Keitel não se deu bem foi Francis Ford Coppola, que o despediu pura e simplesmente de Apocalypse Now. “Entrámos em choque”, admite o ator, que, no meio da desorganização das filmagens, foi esquecido, com parte da equipa, num barco no meio de um rio. Pegou num walkie-talkie e disse, “olá, olá, fala Harvey Keitel…” Fez uma pausa e acrescentou: “Vocês não fariam isto a Marlon Brando…”

Os problemas contratuais ajudaram ao despedimento. A visibilidade de Coppola e o sucedido trouxeram péssima publicidade ao ator; ninguém o contratava, diziam que tinha um feitio difícil, fobia a insetos e cobras e que não se deu bem na selva. “Que disparate!” responde Keitel. “Eu era a única pessoa ali que sabia lidar com a selva. Era o único que passara pelos Marines.” Curiosamente, Martin Sheen, a quem o papel de ‘Willard’ foi atribuído, simpatizava com Keitel: “Tem um grande sentido de humor. Gostamos dele instantaneamente.”

The Duellists (1977).
The Duellists (1977).

Participa no filme de estreia de Ridley Scott, The Duellists (O Duelo), em 1977, mais um nome a ser consagrado, e Keitel novamente sem sair da cepa torta. Só um espírito de ex-Marine garantiria a persistência do ator, que, no ano seguinte, protagonizou o filme de estreia do talentoso argumentista Paul Schrader. Blue Collar foi um flop, mas Schrader recuperou. Já era autor dos argumentos de Yakuza, Taxi Driver; realizaria A Felina, trabalharia com Scorsese em O Touro Enraivecido e A Última Tentação de Cristo. Keitel… prosseguia o seu caminho.

MAU TIMING

Harvey Keitel protagoniza então Fingers (Melodia para Um Assassino), a obra de estreia de James Toback, um dos seus melhores papéis, mas o filme também não é um sucesso.

Keitel e Mia Farrow em Fingers.
Keitel e Mia Farrow em Fingers.

Segue-se La Morte en Direct (A Morte em Directo), de Bertrand Tavernier, e Harvey começa a dedicar-se ao cinema europeu.

Em 1980, encarnou, como pôde ou o deixaram, a sinistra personagem de ‘Benson’, no filme de ficção científica Saturn 3 (Saturno 3, o Robot Assassino), ao lado da estrela do momento, Farrah Fawcett, e de Kirk Douglas.

Harvey Keitel deu-se pessimamente com o realizador Stanley Donen, que cometeu uma das maiores faltas de respeito para com um ator: Como não gostou da sua voz, dobrou-a! A rodagem foi um pesadelo, com Keitel a aturar humilhações de Donen, que o obrigava a repetir takes desnecessariamente.

Saturno 3: Dobraram-lhe a voz mas não há razão para lamentos. Pagou a renda.
Saturno 3: Dobraram-lhe a voz mas não há razão para lamentos. Pagou a renda.

“Não vou lamentar-me por causa de um filme que não queria fazer”, observou Keitel. “Ganhei 90 mil dólares. Não me envergonho disso.” Artisticamente, o resultado foi uma atrocidade.

Em 1980, continua o percurso fascinante do desiludido Harvey Keitel, à sombra de De Niro, que o grande público idolatrava. Interpreta um inspetor num dos primeiros filmes de Nicolas Roeg, Bad Timing(Fora de Tempo)ao lado de Theresa Russell e Art Garfunkel, numa película estranha: “Se ele tivesse feito o papel [principal] de Garfunkel, seria um grande filme”, considerou o realizador Joel Schumacher.

Keitel acabou no desemprego. Os anos 80 foram um inferno, marcado pela participação em diversos filmes obscuros, como Copkiller (1983) de Roberto Faenza, ao lado de John Lydon, dos Sex Pistols. Em 1986, tenta o regresso a Hollywood, ao protagonizar Wise Guys (Os Espertalhões), um dos piores filmes de Brian De Palma. O azar não tinha fim.

Keitel e Jack Nicholson em O Caso da Mulher Infiel (1990), a sequela de Chinatown.
Keitel e Jack Nicholson em O Caso da Mulher Infiel (1990), a sequela de Chinatown.

TRAIÇÕES E REDENÇÕES

Em 1988, só poderíamos antever Keitel no papel de Judas, no polémico A Última Tentação de Cristo. O ator pediu a Martin Scorsese que com ele “contracenasse” (fora do alcance das câmaras) interpretando Cristo, para lhe dirigir um monólogo em que se sentia traído. E era assim que Harvey se sentia em relação a Scorsese, achando que o realizador não fizera muito por ajudar a sua carreira. Apesar de um começo promissor, não lhe dava um papel há mais de 10 anos.

Outro dos problemas de Keitel foi a sua esposa, a atriz Lorraine Bracco, que terá utilizado os conhecimentos do marido para lançar a sua própria carreira. Tornar-se-ia conhecida com Tudo Bons Rapazes e como a psiquiatra de Os Sopranos. Entretanto, Keitel continuava a fazer cinema para pagar a renda.

Colabora com Dario Argento em 1990, em Due Occhi Diabolici e, por esta altura, era já um ator venerado entre a equipa técnica. Começa então uma boa fase. Participa em O Caso da Mulher Infiel, de Jack Nicholson, Pensamentos Mortais, com Demi Moore e Bruce Willis, e Thelma & Louise, onde volta a trabalhar com Ridley Scott. Em Bugsy, é nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário, o que despoletou uma reavaliação do seu trabalho. Segue-se Reservoir Dogs (Cães Danados), que deu a conhecer o nome de Quentin Tarantino, num filme que não teria sido realizado sem o apoio de Keitel. O guião só foi lido pelos produtores depois destes saberem que o nome de Harvey integrava o projeto.

Tarantino relembra: “Foi de doidos, já que Harvey é o meu ator favorito desde que tenho 16 anos!” E o ator retribui: “O tipo [Tarantino] era meio maluco, mas acho que tinha grande fé em mim. O argumento era extraordinário. No início, tive vontade de representar todos os papéis do filme.”

A nível pessoal, foram tempos difíceis, com a infidelidade de Lorraine Bracco a precipitar um divórcio litigioso. Contudo, no papel de ‘Mr. White’, o ator conquistava uma nova geração de admiradores. “Geralmente, interesso-me por papéis que espelhem algo que se passa na minha vida. Impressionei-me com Cães Danados pelo modo original como aborda o tema da traição e a necessidade de termos um amigo.”

O PRINCIPAL ATOR SECUNDÁRIO

Cães Danados foi criticado pela violência, e Keitel ripostou:

“Os Tarantinos e Scorseses deste mundo tentam retratar a experiência humana honestamente. Que diabo… toda esta violência que nos rodeia, donde vem ela? Da abertura do espírito? Não! Vem de espíritos fechados; anda à solta cá dentro até que finalmente pegamos numa cadeira e rachamos a cabeça a alguém ou lançamos a bomba atómica.”

Samuel L. Jackson, John Travolta e Harvey Keitel... o "homem que resolve problemas" em Pulp Fiction (1994).
Samuel L. Jackson, John Travolta e Harvey Keitel… o “homem que resolve problemas” em Pulp Fiction (1994).

Harvey dedica-se a mais uma obra brutal, Bad Lieutenant (Polícia Sem Lei) de Abel Ferrara, em 1992, uma corajosa interpretação. No ano seguinte, oferece-nos um dos seus melhores desempenhos, mais uma vez, encorajando um realizador emergente – neste caso, uma realizadora, Jane Campion – numa obra-prima: O Piano.

A coprotagonista Holly Hunter relembra: “O Harvey é bastante vulnerável e confere essa vulnerabilidade a muitas das suas personagens. Há tanto por dizer nas cenas em que contracenámos. Procurávamos o mistério silencioso de cada cena. E não penso que ele tenha de se esforçar muito para evocar isso. Acho-o um tipo muito terno.”

O Piano (1993).
O Piano (1993).

Contrastando com as palavras de Hunter, o papel seguinte foi o do “homem que resolve problemas”, ‘Winston “The Wolf” Wolfe’ em Pulp Fiction: “Vejamos, têm um cadáver num carro, sem cabeça, numa garagem. Levem-me até ele…”

OLHOS DE LOBO

harvey keitel (6)Depois de tantos altos e baixos, quem seria mais indicado para interpretar ‘Auggie’, o simpático e vivido dono da loja de tabaco em Manhattan, no filosófico Fumo de Wayne Wang, com argumento de Paul Auster? Harvey Keitel era já um ícone, com os seus olhos de lobo e sotaque de Brooklyn, continuando a apoiar projetos e realizadores em que acreditava. Trabalhou com Spike Lee em Passadores (1995) e com Robert Rodriguez em Aberto Até de Madrugada.

Em 1998, colabora novamente com Paul Auster em Lulu on the Bridge, demonstrando a sua atração por papéis incómodos, mas que oferecem algo de novo. Era um currículo extraordinário, feito de muitas derrotas, vitórias, mas sobretudo de apostas.

Já no novo milénio, Keitel foi intercalando obras dirigidas ao grande público, como Dragão Vermelho (2002), com projetos alternativos. Em 2004, participou em três filmes, A Fuga de Puerto Vallarta, A Ponte de São Luís Rei e O Tesouro. Tem mantido um ritmo de trabalho extraordinário. Só em 2006, participou em cinco filmes.

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O incomparável Keitel tem-se especializado na arte do “ator secundário”, mas há já muito tempo que estamos perante um caso sério de candidato ao Óscar de Melhor Ator. E, se tal suceder, far-se-á justiça a um ator que deu mais do que recebeu ao longo de décadas de cinema.

David Furtado

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