Retrospetiva John Carpenter, parte 1: Ele Vive

Depois de uma pausa de 10 anos, John Carpenter regressou com o dececionante The Ward. Planeia agora “um western gótico”. Recapitulo, em duas partes, a carreira de Carpenter, desde Dark Star (1974) até à sua penúltima longa-metragem, Ghosts of Mars (2001). Lamento concluir que se tornou num cínico. Tendo em conta o seu percurso, como veremos, não admira. Confesso que tenho saudades do que foi, e ainda poderia continuar a ser, um grande realizador. No mundo corporativo do cinema de hoje, Carpenter dificilmente se enquadra.

carpenter retrospetiva 2

– Qual é o seu objetivo como realizador?
– Tento ser invisível.

John Howard Carpenter pode gabar-se de um passado cinematográfico com altos e baixos, repleto de lutas contra o sistema, onde o seu génio nem sempre esteve presente. Deixou obras que marcaram o cinema de terror e decidiu fazer um interregno de 10 anos, explicando que já não estava apaixonado pela sua arte. As expectativas em relação a The Ward eram, por isso, elevadas. Entretanto, o remake de Escape from New York foi cancelado.

young carpenterNascido a 16 de janeiro de 1948, Carpenter cedo começou a mostrar a sua paixão pela sétima arte. Pouco depois de a família se mudar de Carthage, Nova Iorque, para o Kentucky, John começou a realizar filmes de ficção científica com a câmara de 8mm do pai. Ainda adolescente, fundou a sua própria companhia de produção, a Emerald Productions. Revenge of the Colossal Beasts foi o seu primeiro trabalho amador.

Em 1965, muda-se para Los Angeles e ingressa na University of South California, onde conhece Dan O’Bannon e Nick Castle, com quem viria a colaborar futuramente. No ano seguinte, é já o coargumentista, corealizador (não creditado) e editor de The Ressurection of Broncho Billy, que conquista um Óscar pela Melhor Curta-Metragem em 1970. No mesmo ano, começa a trabalhar no seu primeiro projeto realmente ambicioso, Dark Star, com Dan O’Bannon.

Em 1972, o ano em que se formou, leva a versão de 45 minutos a um produtor canadiano, no sentido de expandir o filme para 90 minutos.

NASCE UMA ESTRELA… NEGRA

Carpenter e O’Bannon demoraram dois anos a completar esta sátira à ficção científica, lançada quando Carpenter tinha apenas 27 anos, em 1974. Realizado com equipamento emprestado e trabalhado durante os fins-de-semana, o filme passou despercebido nas salas, mas adquiriu estatuto de culto no final da década de 70.

Nenhum dos dois mentores do projeto recuperou os 60 mil dólares investidos. Carpenter, confessando-se grande admirador do humor absurdo de Luis Buñuel, cria um filme em que um grupo maçado de astronautas tem por missão fazer explodir planetas e criar supernovas.

“Quando somos jovens estudantes de cinema, pensamos que cada imagem que captamos é uma obra-prima, por isso, não queremos cortar nada. Julgo que, se fizesse Dark Star, nos dias de hoje, aceleraria o ritmo, mas era o estilo daqueles tempos.”

carpenter retrospetiva

Depois da estreia, O’Bannon autointitulou-se o realizador, o que deu origem a um desentendimento com Carpenter. Hoje em dia, Dark Star não difere muito daquilo que já se disse ao longo dos anos – trata-se de uma obra de estudantes de cinema, parecendo por vezes, uma sátira de Mel Brooks sem orçamento a condizer. Os traços típicos que Carpenter viria a demonstrar não são discerníveis. Refira-se que, alguns anos depois, O’Bannon viria a ser um dos coargumentistas de Alien.

Tentando entrar no meio cinematográfico, John Carpenter opta pela faceta de argumentista, escrevendo Eyes of Laura Mars. Embora só tenha sido lançado em 1978, este thriller foi o trabalho que encontrou depois de Dark Star, numa fase em que, sustentado pelo pai, não conseguia atingir as suas ambições.

Carpenter recebe 20 mil dólares e é o autor da história, embora o script tenha sido reescrito por David Zelag Goodman que “deu aos executivos o que eles queriam”, critica Carpenter. “Eu desejava fazer um thriller, sem entrar no campo do melodrama romântico.”

Faye Dunaway em The Eyes of Laura Mars.
Faye Dunaway em The Eyes of Laura Mars.

A produtora ainda sugeriu que Carpenter poderia realizar o filme, mas este não confiou na promessa e desligou-se do projeto, satisfeito por lhe terem pago uma quantia tão elevada. Originalmente concebido como um veículo para Barbra Streisand, foi Faye Dunaway que protagonizou a fotógrafa que consegue “ver” através dos olhos de um serial killer enquanto este comete os crimes. A obra – um thriller acima da média – seria realizada pelo competente Irvin Kershner.

ASSALTO A CUSTO ZERO

O primeiro filme em que Carpenter nos mostra o seu estilo inconfundível começou por ser um projeto de orçamento ultra reduzido que englobava dois filmes financiados por J. Stein Kaplan e Joseph Kaufman. Lido o argumento de Carpenter, os financiadores decidiram concentrar esforços num único filme. Elaborado com a ajuda de amigos e de antigos colegas, Assault on Precinct 13  (Assalto à 13ª Esquadra) foi adquirido por Irwin Yablans, tornando-se na sensação do Festival de Cinema de Londres em 1977.

Carpenter queria realizar um western, mas, tendo em conta as restrições orçamentais, (150 mil dólares) decidiu fazê-lo ao estilo urbano, pelo que o filme inclui diversas “citações visuais” de Howard Hawks, uma das principais influências de Carpenter: “Há uma diferença entre fazer uma homenagem e uma fotocópia. Este último é um mau caminho, a não ser que queiramos criar um verdadeiro remake. Se eu quisesse fazer um remake de Rio Bravo, concebê-lo-ia plano a plano.” Carpenter, que também editou o filme, fê-lo sob o pseudónimo “John T. Chance”, o nome da personagem de John Wayne em Rio Bravo.

Na rodagem, que durou 20 dias (!), o realizador obteve total liberdade criativa. O elenco foi escolhido de modo sui generis: “Darwin Joston era um vizinho meu. Vi Austin Stoker em Abby e Sheba Baby, dois filmes de blaxploitation. Nancy Loomis era namorada de Tommy Lee Wallace, o meu designer de produção.” Carpenter adianta que quis “mostrar a inevitabilidade de acontecimentos aleatórios que, conjugando-se, provocam uma situação concreta”.

Foi durante as filmagens que Carpenter experimentou o seu primeiro esticão de 24 horas a realizar. O comentário do DVD é bastante divertido, já que recorda vários episódios rocambolescos. Por exemplo, quando o gang ataca a esquadra em força, trata-se de um grupo de antigos colegas da faculdade, devido à falta de verbas para contratar figurantes ou atores. Surge aqui, pela primeira vez, a banda sonora ao estilo de Carpenter, pulsante e minimalista, criando um ambiente de suspense muito próprio, de claustrofobia e perigo.

Entre 1976 e 1978, John continua a trabalhar como argumentista, escrevendo o filme romântico Zuma Beach, o thriller Prey e até um western, Blood River, este último selecionado pela companhia de John Wayne, a Batjac, o que deu ao jovem cineasta a oportunidade de conviver com o “Duke” e com a família Wayne. “Foi ótimo porque fiquei a saber como era trabalhar com Hawks e [John] Ford.” Mas a longa-metragem não avançou e Carpenter é convidado para realizar um telefilme.

ALTOS VOOS COM BAIXOS ORÇAMENTOS

Com os "cúmplices" Debra Hill e Larry Franco.
Com os “cúmplices” Debra Hill e Larry Franco.

Someone’s Watching Me! (1978), com Lauren Hutton, foi a primeira oportunidade de se enquadrar no modus operandi de um grande estúdio. “Trabalhei com atores de outro calibre. Foi um passo em frente para mim e senti-me à altura do exigido”, sustenta Carpenter. No entanto, ao ter de filmar no formato 1.37:1 (formato semelhante ao do ecrã de TV), o realizador abdicou do seu sentido visual, obedecendo a fórmulas e abordando o material de modo totalmente diferente. Refira-se que, à exceção de Dark Star, Carpenter nunca filmou noutro formato que não fosse o widescreen, 2.35:1. Ainda assim, o realizador e argumentista consegue construir o suspense sem ter de recorrer a demasiados clichés. Carpenter conheceu também a atriz que viria a ser sua mulher durante alguns anos, protagonizando obras emblemáticas como The Fog e Escape from New York: Adrienne Barbeau.

Apesar da receção pouco entusiástica a Assault on Precinct 13, Irwin Yablans, que fundara a produtora Compass International, ofereceu a Carpenter a hipótese de realizar um filme de suspense sobre babysitters assassinadas por um psicopata durante a noite. Originalmente intitulado The Babysitter Murders, Halloween viria a tornar-se o filme independente mais rentável da história. Com apenas 320 mil dólares de orçamento, rendeu 60 milhões em todo o mundo. Só The Blair Witch Project, em 1999, bateria o recorde.

O PSICOPATA MÍTICO

“Não conseguia acreditar que mais ninguém se tivesse lembrado de filmar algo com o título «Halloween». Não só era uma ideia genial, como também me permitiu elevar o psicopata a outro nível. (…) Pude torná-lo uma força da natureza e dar um sentido mítico a uma história pouco imaginativa. Também o pude conceber como imortal, o que torna os sustos mais divertidos.”

John Carpenter começava assim a moldar o seu psicopata – Michael Myers. Quando Nick Castle, que o interpreta, perguntou ao realizador, “queres que eu atue como uma pessoa mentalmente perturbada, que incline a cabeça para trás e olhe de maneira estranha para as pessoas?”, Carpenter respondeu: “Nem por isso! Mas, quando matares alguém, observa o cadáver como se estivesses a apreciar a tua perfeição em trabalhos manuais.”

halloween

Desta vez, constava do elenco o prestigiado Donald Pleasence. No primeiro encontro com o realizador, o ator veterano disse-lhe que a sua filha vira Assault on Precinct 13, em Londres, e achava que deviam trabalhar juntos. “Só entrou no filme porque a filha lho disse”, explica Carpenter, que admirava Pleasence.

Quanto ao célebre início de Halloween, John afirma: “Nesse momento, não sabemos se é o ponto de vista do assassino. Só quando a mão apanha uma faca é que começamos a pensar, ‘oh! Eu sou alguém neste filme’. E a mais-valia é o plano inverso, quando se retira a máscara ao miúdo e nos afastamos da cena.”

Conscientes de que a máscara de Michael Myers era um aspeto crucial, Carpenter e a equipa recorreram à imaginação, já que o script apenas explicava tratar-se de uma máscara semelhante a umas pálidas feições humanas, “seja lá o que isso quer dizer”, ri-se o cineasta. Tommy Lee Wallace, responsável pela direção artística, arranjou duas – uma era de palhaço, outra era a do Capitão Kirk da série Star Trek, mas não se parecia nada com William Shatner. Foi pintada com spray azul claro “e ficou arrepiante. Quase parecia que Myers vestia pele humana”, comenta o realizador.

John Carpenter teve apenas três dias para compor aquela que é hoje uma das bandas sonoras de terror mais identificáveis de todos os tempos. “Ocorreu-me aquele trecho, que funciona basicamente em oitavas e depois desce meio-tom, e podia tocá-lo para sempre, devido à sua qualidade repetitiva. A maior parte da música popular ou clássica não é escrita nesse tempo bizarro, por isso, põe-nos alerta. Tornou-se num personagem de mérito próprio, pois não tínhamos outra música para utilizar!”

Completado o filme, Carpenter assina um contrato para realizar o telefilme Elvis, e é quando conhece Kurt Russell, com quem partilharia vários momentos cinematográficos memoráveis.

“Foi divertido, sempre quis fazer algo assim, pois era grande fã de Elvis. Era um filme de época com três horas, 88 locais de filmagem e 150 papéis, e tínhamos de fazer tudo em 30 dias. Foi quase impossível. Nunca me cansei tanto. Adormecia a assistir às filmagens do dia. Acho que nunca trabalhei tão arduamente, pelo que foi um ótimo treino. No cinema, não temos de rodar tantas páginas por dia.”

Carpenter gostou de trabalhar com Kurt Russel. “Ele era assustadoramente parecido com Elvis. Captou-lhe a essência.”

PERDIDO NO NEVOEIRO

Filmado com um orçamento de um milhão de dólares, The Fog (O Nevoeiro) foi o primeiro de dois filmes financiados por uma recém-formada produtora, a AVCO Embassy. Escrito em parceria com Debra Hill, o filme reuniu Jamie Lee Curtis, que já entrara em Halloween, à sua mãe, Janet Leigh, que filmara Psycho com Hitchcock. Segundo o realizador, “toda a história se baseia num incidente verídico ocorrido em Santa Barbara, na Califórnia, nos velhos tempos do oeste selvagem”.

the fog
“There’s something in the fog…”

Mas as coisas não correram bem à primeira, como em Halloween. Dir-se-ia que o filme se dissipava no meio do nevoeiro artificial que envolvia as cenas. “Quando acabámos o trabalho, vi-o e percebi que não resultava.” Carpenter voltou a filmar certas sequências, modificou os efeitos sonoros e a música. “A essência do filme era o nevoeiro e, já que não há nada de assustador, mítico ou ilusório sobre tal fenómeno, tive de elaborar cenas que não estavam no guião original para tornar o filme mais assustador.” Em The Fog, Carpenter trabalhou pela primeira vez com Rob Bottin, que, além de ter criado a máscara do ‘Capitão Blake’, também o interpretou. Viria a ser responsável pelas transformações da criatura de The Thing, pelas cabeças múltiplas de Arnold Schwarzenegger em Total Recall e pela armadura de Robocop.

“CALL ME SNAKE…”

Depois da maestria revelada em Halloween e The Fog, Nick Castle e John Carpenter decidem rever um argumento que tinham escrito em 1974, para cumprirem a obrigação contratual com a AVCO Embassy.

"Call me Snake."
“Call me Snake.”

O filme, idealizado nos moldes de um western urbano, foi a estreia de Kurt Russell como herói de ação. Na pele de ‘Snake Plissken’, Russell interpreta um ex-combatente condecorado, agora um fora da lei, que tem de salvar o presidente dos EUA da prisão em que se tornou Manhattan. Para que cumpra a missão e não deserte, inserem-lhe duas cápsulas nas artérias do pescoço, que rebentarão passadas 24 horas – o tempo que tem para resgatar o presidente. Só regressando com a missão cumprida, as cápsulas serão obliteradas.

“Mais uma vez, fui influenciado por Howard Hawks”, relata Carpenter, “ele fazia filmes com tempos e espaços demarcados, obras que sempre me impressionaram, além de que o countdown é uma grande ferramenta de suspense”.

A escolha de Russell não foi pacífica:

“Na primeira reunião da produção, falei em Kurt e gerou-se uma grande incredulidade. Charles Bronson mostrara interesse em interpretar ‘Snake’, mas eu tinha medo de trabalhar com ele. Ele era uma grande estrela e eu era um zé-ninguém. Além disso, achei que o papel servia melhor a Kurt.”

O realizador não poupa elogios a Russell: “Ele foi treinado no studio system dos velhos tempos. Em criança, era ator das produções da Disney e tem a ética do trabalho. Quando vem trabalhar, ultrapassa qualquer um. O meu tipo de ator é alguém que vem para o set sem pretensões e que aceitou o papel porque gosta do personagem, porque é parte dele. Sam Neill e James Woods também são assim.” O realizador aponta ainda a admiração por Lee Van Cleef, ator que trabalhou na trilogia dos dólares com Sergio Leone, outro dos seus realizadores de eleição.

Carpenter e Lee Van Cleef.
Carpenter e Lee Van Cleef.

Escape from New York (Nova Iorque 1997) começa com a narração de Jamie Lee Curtis, descrevendo a Prisão de Manhattan e as regras dos prisioneiros. Segue-se uma mistura de film noir, fantasia, ação, ficção científica, crime, aventura, enfim, uma fusão de géneros difícil de catalogar, envolvida pela banda sonora inconfundível de Carpenter. Até visualmente, o filme se impõe: “Usámos umas novas lentes que conseguiam abrir até uma ‘f-stop’ de 1.8, o que deu um ar granulado, sujo, uma luz azulada e uma dimensão enorme às cenas. Esse aspeto visual deve-se totalmente a Dean Cundey [diretor de fotografia].”

Adrienne Barbeau e o companheiro em Escape from New York.
Adrienne Barbeau e o companheiro em Escape from New York.

O guarda-roupa foi desenhado por Steven Loomis, a partir de pesquisas em fotos e livros de culturas ancestrais, “misturando diversos géneros até obter algo que se enquadrasse neste futuro negríssimo que retratávamos”, esclarece John Carpenter. Contrariamente ao que se possa pensar, Escape from New York não foi filmado na Big Apple, mas sim, em St. Louis, onde deflagrara recentemente um grande incêndio. As ruas devastadas servem assim de cenário ao filme.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s