Michelle Pfeiffer: A Mulher Falcão

À semelhança de ‘Isabeau’, personagem que interpretou em Ladyhawke, Michelle Pfeiffer chegou a sentir-se amaldiçoada pela beleza. Em tempos considerada a mulher mais bonita do mundo, é das poucas atrizes com talento a condizer. É impressionante a quantidade de filmes emblemáticos que protagonizou e o talento que provou ao longo de mais de 30 anos de carreira.

Michelle Pfeiffer

Dark Shadows marcou o reencontro entre Pfeiffer e Tim Burton desde Batman Returns, há 20 anos. A beleza quase animal de Michelle foi bem aproveitada em Batman Regressa ou Lobo, de Mike Nichols. Para ela, o papel de ‘Catwoman’ foi mais do que um trabalho: “Foi uma das minhas heroínas de infância. Ela é boa, má, perigosa, vulnerável e sexual. Pode ser todas estas coisas e, mesmo assim, gostamos dela. Quebrou todos os estereótipos do que significa ser-se mulher.”

O mesmo se pode dizer de Michelle Marie Pfeiffer, nascida a 29 de abril de 1958, em Santa Ana, na Califórnia. Entrou para o cinema graças à sua beleza, mas afirmou-se pelo talento. A crítica e o público já há muito se renderam, mas a ave rara Pfeiffer nunca conquistou nenhum Óscar, apesar de três nomeações.

michelle pfeiffer (19)Quando era jovem, a falta de autoconfiança era uma das suas características, apesar de ser uma aluna brilhante. Mas o pai gaba-se da feroz independência de Michelle, o que a atriz viria a provar mais tarde. A irmã, Dee Dee, revela: “Ascendemos de agricultores do Dakota. Ambos os lados da minha família são trabalhadores árduos. Nós, as irmãs, Michelle, Lori e eu, sempre fizemos as nossas roupas. Michelle até fazia as suas jeans.”

Michelle começou a trabalhar em part-time, já que a escola lhe desagradava. Aos 14 anos, mentiu acerca da idade para arranjar emprego numa loja de pronto-a-vestir. Dedicava-se à pintura, foi ajudante num jardim infantil, num optometrista, numa gráfica, empregada em joalharias, mas o seu emprego mais duradouro foi o de caixa de supermercado na Vons.

Mais tarde, depois de terminar o liceu e inspirada pela série Perry Mason, tornou-se estenógrafa num tribunal. Enquanto criança, era uma maria-rapaz, a fanfarrona da escola, e os outros miúdos vinham chamá-la quando queriam dar uma tareia em alguém. “Era uma espécie de ‘Don’ da Máfia.” Nunca se considerou atraente e sempre foi a rapariga mais alta da turma.

“Não era muito feminina. Achava que parecia um pato. Nunca achei que os rapazes se sentissem atraídos por mim”, relata. Na altura, faziam troça dos seus lábios carnudos e do seu andar desajeitado.

Michelle respondia à mãe com altivez, mas sempre longe do pai. A mãe desculpava-lhe com um profético, “a minha pequena atriz…” Durante o emprego na Vons, questionou o seu futuro: “Acho que perguntei a mim mesma: ‘Se pudesses ter qualquer coisa, se alguém ta desse, o que querias fazer?’ E a resposta foi ‘representar’.”

UMA CINDERELA CUIDADOSA

michelle pfeiffer (9)Michelle abandonou a Vons, onde hoje ainda se lembram dela e equiparam a sua história à de Cinderela. Mas Michelle era cuidadosa na maioria das opções que fazia. Ouviu dizer que os caça-talentos eram muitas vezes juízes em concursos de beleza, por isso, concorreu, em 1978, e tornou-se a “Miss Orange County”. Participou depois na competição “Miss Los Angeles” e perdeu, mas conheceu um agente que lhe assegurou papéis em filmes publicitários e pequenas participações em séries de TV.

Os primeiros trabalhos foram em anúncios televisivos. “Não tinha piada”, comenta Pfeiffer. “Para sermos um bom ator em publicidade, temos de aprender um certo tipo de má representação. Se saímos de um casting a pensar que fizemos figura de parvos, isso significa que conseguimos o trabalho.”

Pfeiffer começou a frequentar aulas de arte dramática, durante as quais conheceu o ator e realizador Peter Horton, com quem casaria. Em 1992, Horton descreveu-a assim:

“A fama nunca inspirou grande curiosidade em Michelle. Conheço atores mais fascinados com a ideia de serem atores do que com o trabalho em si. Michelle era o oposto.” Uma colega, Lois Chiles, achou que “ela queria crescer, observando os outros. Apesar da sua incrível beleza, era muito pouco vaidosa”.

Nesta época, Pfeiffer tornou-se amiga de outra aspirante a atriz, Ellen Barkin. (Curiosamente, ambas contracenariam no futuro com Al Pacino.) Passavam horas ao telefone, queixando-se de não arranjarem trabalho. “A Debra Winger roubava-nos sempre os papéis”, recorda Michelle.

Pfeiffer acredita que há alguma loucura na vida de todas as atrizes:

“Tenho uma espécie de terrível impulso sadomasoquista. É comum a todas nós. Precisamos de uma grande aprovação que não tivemos ao crescer. Não só escolhemos uma carreira que nos pode dar aprovação mundial, como também nos expomos à rejeição mundial. Mas não pensámos nisso quando optámos, não é?”

PFEIFFER INIBE PACINO

Este começo difícil causou alguma frustração, pelo que a atriz começou a beber, a fumar e a drogar-se. Ultrapassada esta fase, foi recrutada para uma seita que se baseava no vegetarianismo e na metafísica. O casamento com Horton ajudou-a a reencontrar o rumo. Mudou de agente, passando para Agência William Morris e, em 1982, obteve o seu primeiro papel principal em Grease 2, um flop de bilheteira, que a deixou desempregada durante um ano.

A entrada de Pfeiffer em Scarface:

Foi então escolhida para uma autêntica prova de fogo, ao contracenar com Al Pacino em Scarface, de Brian De Palma. Os produtores procuravam uma cara nova, e Pfeiffer impressionou pela sua humildade ao sujeitar-se a uma longa viagem de avião para comparecer ao casting, apesar de não ter, à partida, grandes hipóteses.

Foto promocional de Scarface.
Foto promocional de Scarface.

Foi o diretor de casting que convenceu De Palma a deixá-la ler para o papel. O produtor, Martin Bergman, disse-lhe que seria ela, mas, como havia nomes importantes envolvidos, era necessária alguma discrição. Cinco semanas depois, foi chamada. Sublinhe-se que aceitou fazer Scarface, cuja violência achou justificável, recusando-se, anos mais tarde, a protagonizar The Silence of the Lambs, por achar que o psicopata triunfa.

Na época, provocou alguma inibição em Al Pacino, e o sentimento foi mútuo. “Eu estava aterrada durante toda a rodagem. Tinha 24 anos na altura. Lembro-me que, uma noite, eu e Al fomos jantar. Foi terrível. Estávamos ambos envergonhados. Não falámos durante todo o jantar.” O ator recorda: “Talvez não tivéssemos nada a dizer um ao outro! Ela era fantástica. Era jovem e doce, gostei muito dela. Nunca quis interferir no seu papel. Não comentei sequer as nossas personagens.”

Em 1992, acrescentaria, “ela é uma atriz ‘séria’, basicamente. É esse o forte dela. E também é uma protagonista, o que lhe dá glamour. Possui os dois aspetos. E julgo que irá perdurar”.

Nos anos 80, assistimos à ascensão de Pfeiffer, que soube escolher os papéis. A Mulher Falcão, (Ladyhawke) fantasia medieval filmada em Itália, deu-a a conhecer a uma geração. “Foi divertido, pois tinha de cair de torres e lutar contra lobos. Mas quando eles já nos conhecem, é perigoso, pois ficam contentes ao ver-nos e podem-se atirar a nós e ferir-nos.”

REGRESSO AOS ESTUDOS

A obra seguinte foi Into the Night de John Landis, realizador que lhe disse: “Sinto-me tão sortudo por te ter no meu filme…” “Quando ouvi aquilo, senti-me ótima”, confessa a atriz. Seguiram-se vários filmes em que contracenou com alguns dos maiores atores de sempre, como Jack Nicholson, em As Bruxas de Eastwick, ao lado de Susan Sarandon e Cher, de quem ficou amiga. Esta última diria, em 1993, “a única amiga em quem confio, alguém que não distorce ou usa o que lhe conto, é Michelle”.

Nicholson, Pfeiffer, Susan Sarandon e Cher.
Nicholson, Pfeiffer, Susan Sarandon e Cher.

A rodagem foi difícil e, segundo Cher, Nicholson salvou o filme: “Chamávamos-lhe Little Johnny, porque ele parece um miúdo, embora seja adulto e muito inteligente. Dizíamos: ‘Johnny, ajuda-nos.’ Eu via que ele não estava satisfeito com o que se passava, mas, sem berros, serenamente, ia até lá e dizia: ‘Estas mulheres são estrelas, se continuam a tratá-las como lixo, vão ter atuações de quem não é estrela.’”

michelle pfeiffer (17)Em 1988, quando a sua carreira ia de vento-em-popa, Michelle apareceu no seu antigo liceu, de calções e óculos escuros. Ia buscar cópias das suas notas para se inscrever na UCLA (Universidade de Califórnia, em Los Angeles) num curso de filosofia medieval. Lá se ia o estereótipo da loura bonita.

Ainda nesse ano, participa em Married to the Mob, de Jonathan Demme. O realizador levou-a a um concerto de Suzanne Vega, e depois discutiram o papel. Pfeiffer adorou a personagem e elogiou Demme por tratar todos da mesma forma. “Trabalhei com alguns que lidavam com certas pessoas como se fossem realeza, e outras, como camponeses.” Nesta fase, Pfeiffer comentaria também: “Acho que há uma faceta de luz e trevas em tudo. Ao sermos atrizes, a luz é o facto de termos grandes benefícios. Mas os pontos baixos – as rejeições – podem ser extremos. Julgo que é uma questão de equilíbrio. É assim que encaro a vida, um equilíbrio constante. É como estar num mau relacionamento, quando perguntamos, ‘será que o bom é mais do que o mau?’ Se é, ficamos, se não, partimos.”

RELAÇÕES PERIGOSAS

Em 1988, contracena com Mel Gibson e Kurt Russell em Tequila Sunrise. Nos intervalos da filmagem, Gibson jogava Scrabble com Pfeiffer e discutia com ela as dificuldades de ser uma celebridade.

Agora divorciada, Michelle Pfeiffer não era nenhuma sedutora em Hollywood. “Sou um desastre em encontros. Não sei como fazê-lo e não vejo o interesse. Não somos realmente amigos, mas também não somos realmente amantes. Além disso, nunca saio.” Por isso, conheceu Michael Keaton na mercearia onde costumava ir. “É essa a minha vida amorosa – tenho de ir à mercearia ou ao supermercado para conhecer pessoas. Não tenho muitos amigos. Tenho tendência para eremita.”

Ligações (literalmente) Perigosas. Com John Malkovich.
Ligações (literalmente) Perigosas. Com John Malkovich.

A relação com Michael Keaton terminou quando Pfeiffer partiu para Paris, para protagonizar Ligações Perigosas, com Glenn Close e John Malkovich, ator com quem se envolveu, embora ele fosse casado com a atriz Glenne Headly. Passado algum tempo, o ator pôs fim ao relacionamento e regressou até junto da esposa que lhe perdoara.

Embora não tenha ficado claro, supõe-se que esta relação tenha deixado Michelle destroçada, levando-a a tentar, várias vezes, reatar com Malkovich. Pelo menos, ganhou uma amiga, Glenn Close. No final, Pfeiffer não promoveu o filme em conjunto com os outros participantes, evitando o contacto com Malkovich, presume-se. Fê-lo sozinha.

O papel de ‘Madame De Tourvel’, em Ligações Perigosas, valeu-lhe o prémio da Academia Britânica e uma nomeação para o Óscar de Melhor Atriz Secundária. A atenção dos tabloides, bem como a sua fama, fizeram-na lamentar a perda da privacidade. “Até em L.A., que é uma cidade de negócios, onde quer que eu vá, olham-me fixamente.”

DOTES OCULTOS

A carreira meteórica da atriz ficou marcada pelo papel da cantora ‘Susie Diamond’, em Os Fabulosos Irmãos Baker, que muitos consideram o ponto mais alto da sua carreira, e pelo qual conquistou mais uma nomeação para o Óscar. Não venceu, mas foi distinguida pela Hollywood Foreign Press, pela New York Film Critics, a Los Angeles Film Critics e a National Society of Film Critics and Board of Review.

Pfeiffer revelou também dotes vocais e a sua interpretação do clássico «Makin’ Whoopee», em cima do piano, fica na História, rivalizando com «Put the Blame on Mame», de Rita Hayworth. Comentário de Jeff Bridges, sorridente:

“Claro que adorei filmar essa cena…. Vocês não gostariam? Foi divertida.” Por seu lado, Pfeiffer afirmou: “O Jeff não é daqueles atores atormentados que criam mau ambiente no set. Quando filmamos cenas amorosas, é importante a confiança, e nós tínhamos isso.”

“Venho de uma família sem grande talento para o canto, mas lá herdei qualquer coisa, e não sou assim tão má. Não faria disso carreira, mas é um talento oculto, digamos.” A verdade é que trabalhou 10 horas por dia no estúdio, gravando os temas, e levava as fitas para casa, estudando-as.

A atriz lera o guião 12 anos antes e sabia que o papel era apropriado para si. “Sempre fui bastante corajosa na minha carreira”, admite, “mas não na minha vida pessoal. ‘Susie’ é a mulher mais notável que interpretei; é brutalmente honesta e não se desculpa pelo que é. Gostava de ser mais como ela”.

PERSONALIDADE VINCADA

Trabalhou com Sean Connery, em 1990, (A Casa da Rússia): “Só lá estive seis semanas, mas ir do ponto A ao ponto B era complicadíssimo. Tínhamos de regatear com o taxista. A sensação de não ter controlo. O mercado negro. A burocracia.” Descobriu que as companhias cinematográficas do oeste estavam proibidas de alimentar os técnicos e figurantes russos. “Num país onde não se arranjava comida nem sabão, eles viam-nos a comer garfadas de esparguete.” Por isso, fez greve. Mas regras eram regras, pelo que teve de regressar.

Em Moscovo, filmando A Casa da Rússia.
Em Moscovo, filmando A Casa da Rússia.

Além de aprender a falar inglês com sotaque russo, impressionando o treinador de voz, enfrentou um frio glacial. Certo dia, tirou o casaco para agasalhar uma rapariga que fazia de sua filha, gesto aclamado pelos seus colegas russos. Durante uma longa cena de exteriores, dialogava com Connery, até que parou… “Não conseguia falar. E Sean olhou para mim e disse: ‘Tens a cara azul!’ Fiquei com a cara gelada, não a conseguia mexer.” Connery acrescenta: “Felizmente, estava a sorrir, na altura.”

michelle pfeiffer (2)Falaram-lhe de uma mulher que fez uma operação plástica para ficar com “os lábios de Michelle Pfeiffer”, conceito que a assustou: “Não entendo. Tenho a cara torta. As pessoas dizem que fiz uma plástica ao nariz e injetei os lábios. Primeiro, gostaria de um nariz direito, em vez desta coisa. Os meus lábios são assimétricos. Em criança, eu dizia que tinham ficado assim num acidente de bicicleta, quando faziam troça, e chegava a casa a chorar.”

Mantendo um estilo de vida simples e afastando-se dos locais frequentados por celebridades, fundou uma produtora com a amiga Kate Guinzburg, dedicando-se ao projeto polémico Love FieldPor conter um relacionamento inter-racial e, em pano de fundo, o assassínio de Kennedy, a produção do filme foi adiada, deixando Pfeiffer furiosa:

“Que século é este? Jesus Cristo! As pessoas praticamente fodem no ecrã, há sexo oral em cada esquina. E está aqui um filme doce, que, só porque ele é negro e ela é branca, todos têm medo de fazer.”

A sua teimosia deu frutos. Acabou por “produzir” o filme. “Às vezes, havia problemas, eu pegava no telefone e gritava a alguém. Isso é produzir, não é?” Foi nomeada novamente para Melhor Atriz pela Academia, em 1993, e premiada no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Recusou papéis em Proposta Indecente e Thelma e Louise, além de O Silêncio dos Inocentes, embora mais tarde se arrependesse, quando conheceu Anthony Hopkins. Recusou também Instinto Fatal e Evita.

Sem optar pelo obviamente comercial, preferiu contracenar com Al Pacino de novo, em Frankie e Johnny. Agora estavam ambos mais descontraídos, embora houvesse uma cena em que Pfeiffer tem de mostrar os seios ao colega. “Mas que aborrecimento. Demorámos três dias a filmá-la. Mais de 100 takes. Odiei aquilo.” Pacino já estava tão cansado que a cabeça lhe tombava para a frente, entrando no foco da câmara, onde não devia estar. O realizador Garry Marshall mandou fazer t-shirts para o elenco e a equipa, dizendo: “Sobrevivi à cena 105”.

Frankie e Johnny (1991).
Frankie e Johnny (1991).

O que a atraiu nesta obra foi o facto de “interpretar uma pessoa normal, com medos normais, mágoas diárias. Existe a fantasia de que as pessoas bonitas são sempre atraentes, nunca estão sós e não se magoam. É uma fantasia. Toda a gente sofre. Toda.”

Quanto a vedetismos, o realizador descreveu: “As coisas de estrela de cinema nada lhe dizem. Quer lá saber se tem um tapete no trailer. Disse-me que achava o pescoço a sua parte mais bonita, mas que as mãos a embaraçavam por serem muito grandes…”

NA PELE DE CATWOMAN

Ao contrário de Meryl Streep (cuja beleza e talento admira), Michelle não protesta quanto à discrepância entre os salários de atores e atrizes. “Que idade tem Al Pacino? E eu? O Al merece ganhar mais. Jack Nicholson merece tudo o que ganhar. Pagaram as suas dívidas. Mas, quando eu tiver a idade deles, seria simpático ganhar tanto como eles.”

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Em Batman Regressa, contracenou com o ex-namorado Michael Keaton. Foi uma escolha de casting perfeita, embora Michelle admita que não é o seu trabalho mais subtil. “Foi divertido, mas muito árduo.” A sua treinadora e dupla, a campeã mundial de kickboxing Kathy Long, achou-a reservada, mas nada snobe. “Uma vez, atrasei-me, por isso, fui-lhe buscar um café numa chávena que dizia, ‘chateias-me e sofres as consequências’. Ou ficávamos amigas ou ela me iria odiar. Ela adorou. Não largou a chávena durante as filmagens e bebia café por ela.”

Durante cinco meses, desde o início da manhã até às 22h00, Long não a poupou. “Ela é perfecionista e ficava frustrada se não conseguia aperfeiçoar um movimento. Fazia-o 50 vezes. É mais dura do que aquele ar delicado aparenta.”

Ainda por cima, teve de dominar o manejo de um chicote com três metros e meio, de andar quase sufocada num fato de borracha, no qual demorava meia hora a enfiar-se, e de dar pontapés rotativos e combater em saltos altos. Embora tivesse quatro duplas, em grande parte dos combates e em todas as cenas em que manuseia o chicote, é Pfeiffer que vemos. Mas não a vimos a sacudir continuamente o suor do rosto.

A NATUREZA DA BESTA

michelle pfeiffer (6)Provavelmente é verdade que o meu aspeto me abriu portas no início da carreira. Aprendi a representar em cinema. Obtive papéis pelo meu físico. Às vezes, isso ajuda-nos, outras, é um empecilho. Mas é essa a ‘natureza da besta’.

Na carreira de Michelle Pfeiffer não faltam papéis de prestígio e provas contínuas de versatilidade, como A Idade da Inocência, de Martin Scorsese. “Tudo o que importava era trabalhar com o Marty. Foi como um sonho que se realizou. E também é raro trabalharmos com alguém que admiramos e não ficarmos desapontados.” Em Mentes Perigosas, interpreta uma professora ex-Marine, de blusão de cabedal e calças de ganga, que ensina poemas de Bob Dylan a uma turma de alunos difíceis.

Ao encarnar todas estas personagens, Pfeiffer consegue ser divertida, comovente, sexy e misteriosa. Está tão à vontade ao desempenhar o papel de uma empregada de mesa como o de uma “vamp”. Tão depressa seduz como revela a fragilidade por detrás da fachada, em desempenhos em que a beleza ofusca o talento e vice-versa.

A nível privado, começou uma relação duradoura com Fisher Stevens. O pai não entendeu, já que tinham feitios opostos, e Michelle confessou-lhe: “Ele faz-me rir. Os outros faziam-me chorar.” Terminada a relação com Stevens, saiu com Eric Clapton, mas considerou-o um amigo, nada mais. Em 1993, adotou uma criança e, no mesmo ano, casou com o produtor e argumentista David Kelley, responsável pelo sucesso de Ally McBeal. Em 1994, teve o seu primeiro filho, John Henry. Em 1995, recebeu o “Hasty Pudding Woman of the Year” da Universidade de Harvard, galardão anteriormente atribuído a Katharine Hepburn, Elizabeth Taylor ou Meryl Streep.

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Em 2000, contracenou com Harrison Ford em A Verdade Escondida, de Robert Zemeckis, um dos filmes favoritos da atriz: “Foi o meu primeiro thriller e adorei trabalhar com Harrison. Um dia, estávamos a conversar e apercebemo-nos de que era o primeiro filme em que ele fazia de vilão. Mas também gostei de Mentes Perigosas.” Pfeiffer ambiciona fazer uma sequela de Vida a Dois, em que despoletou uma vertente mais introspetiva em Bruce Willis.

Pfeiffer soma e segue. Em 2001, trabalha com Sean Penn em I Am Sam e, com a A Flor do Mal, em 2002, é nomeada para o Screen Actors Guild Award, como Melhor Atriz Secundária.

IMPARÁVEL

Após uma pausa de vários anos, durante a qual se dedicou à família, regressou com vários projetos. Nem Contigo… Nem Sem Ti!, de Amy Heckerling, não foi a sua primeira comédia romântica, mas seguramente um passo em frente por parte de uma atriz que sabe conviver com a idade.

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Contracenou com Robert De Niro, Claire Danes e Sienna Miller no semifracassado Stardust, em 2007. Relativamente ao seu papel de bruxa, Michelle Pfeiffer afirmou: “Acho divertido interpretar estas personagens, mas não queremos cair na ratoeira de simplesmente sermos ‘maus’, já que as pessoas ‘más’ não acham que o estão a ser. Esse tipo de indivíduos acha que a sua conduta é totalmente justificada, tanto nos seus ataques de fúria como nos seus comentários. São conflituosas e irritadas. Sentem-se vítimas, por retorcidas que possam ser, e é por isso que é tão interessante interpretar estas figuras, porque, de certa forma, passamos a entender tudo isso. Embora a minha personagem seja considerada a vilã do filme, todos são vilões em Stardust. Provavelmente sou a vilã mais feia e mais velha, já que envelheço ao longo da história e acabo por chegar aos cinco mil anos ou qualquer coisa ridícula do género…”

michelle pfeiffer (8)2007 foi também o ano em que o Hollywood Walk of Fame teve uma estrela com o seu nome. Na época, Pfeiffer comentou, “agora que estou novamente a trabalhar, percebo que gosto mesmo disto”. É das poucas personalidades do cinema que não precisa de um Óscar que a consagre. Outras atrizes, com um curriculum menos impressionante, são reincidentes no ambicionado galardão. Pfeiffer, na consciência dos cinéfilos, já ganhou o Óscar. Ou então não precisa dele.

Michelle foi também uma grande fumadora. “Costumava fumar dois maços por dia e detesto ser uma não fumadora… mas nunca me considerarei uma ‘não fumadora’, já que acho os fumadores as pessoas mais interessantes à mesa.”

Em agosto de 2006, falou à InStyle sobre a cirurgia plástica, dizendo que esperava ser “suficientemente corajosa para envelhecer com graciosidade”. Nesta entrevista, depois de muitos anos de silêncio, a atriz também descreveu a sua beleza como “uma maldição”, comentando que o seu aspeto muitas vezes a impediu de obter papéis “sérios” e eclipsou o seu talento dramático.

Compreende-se o desabafo, mas Michelle pode-se gabar de ser reconhecida pelo talento e beleza, à semelhança de outras lendas do grande ecrã. Em outubro de 1997, surgiu em número 39 na Empire, na lista das 100 maiores estrelas de cinema de todos os tempos. No mesmo ano, foi considerada a atriz de cinema mais bem vestida. Em 1999, foi escolhida pela People como uma das 50 pessoas mais bonitas do mundo.

ICE QUEEN/DRAGON LADY/FEMME FATALE

Hairspray (2007) foi o musical com a estreia mais rentável da História do cinema. Conquistou a crítica novamente: “Pfeiffer é a mais sublime ice queen/dragon lady/femme fatale a agraciar os ecrãs desde ‘Jessica Rabbit’, talvez. (L.A. Times.) “Pfeiffer cantou em Os Fabulosos Irmãos Baker, mas nunca mais apareceu num musical desde Grease 2, no início da sua carreira. É a maior surpresa aqui. Não só é muito engraçada, como também canta alguns números de doo-wop/r&b com autoridade. (New York Post.)

Johnny Depp e Michelle Pfeiffer em Dark Shadows (2012).
Johnny Depp e Michelle Pfeiffer em Dark Shadows (2012).

Foi galardoada com o Crystal Award, numa cerimónia dedicada às mulheres no cinema, mas o seu discurso foi provocador: “Então, este é o ano da mulher… sim, realmente foi bom para as mulheres. Demi Moore foi vendida a Robert Redford por um milhão. Uma Thurman foi vendida a De Niro por 40 mil dólares, e, há três anos, Richard Gere comprou Julia Roberts por… quanto? Três mil? Eu chamaria a isto um verdadeiro progresso.” Pfeiffer referia-se aos recentes êxitos, Proposta Indecente, Mad Dog and Glory e Pretty Woman, e Demi Moore ouvia, a escassos metros.

“Felizmente”, prosseguiu Pfeiffer, “os nossos valores, enquanto pessoas e mulheres, não são determinados pelas nossas culturas, mas por nós mesmos. Mas sei que estou aqui hoje porque muitas de vós já cá estiveram antes, criando assim a minha oportunidade”.

David Furtado

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5 Comments Add yours

  1. Wendell Stewart diz:

    Outro bom artigo,mas,você esqueçeu ou fui eu que não vi alguma citação sobre O Feitiço de Áquila?

    1. Ladyhawke é conhecido como O Feitiço de Áquila no Brasil e A Mulher Falcão em Portugal. Cito o filme, sim. Obrigado pelo comentário.

  2. Wendell Stewart diz:

    Desculpe-me,você citou Ladyhawke,foi falta de atenção minha.

  3. Amanda Pereira diz:

    Parabéns pelo artigo, muito interessante. Michelle é a atriz que mais amo, já assisti quase todos os seus filmes .. que já me ensinaram tanto. É uma das poucas estrelas que se comporta de forma humilde e condizente com seu glamour.
    Adorei mesmo o artigo, parabéns David!

    1. Obrigado, Amanda! Também acho Michelle Pfeiffer uma atriz com classe. Tem alguns filmes menos bons no curriculum, tal como qualquer atriz com uma carreira extensa como a dela. Ainda bem que gostou do artigo.

Comentários:

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