Era uma Vez em Cannes: Scorsese apoia e a obra-prima renasce

Na 65ª edição do Festival de Cannes, serão exibidos filmes lendários e outros restaurados, com a presença de vários nomes conhecidos. Parte do elenco de Era uma Vez na América não faltará: Robert De Niro, Jennifer Connelly e Elizabeth McGovern. A família de Sergio Leone também assistirá finalmente à visão original, fiel, tanto quanto possível, à do realizador.

Jennifer Connelly.
Jennifer Connelly.

O programa inclui 13 filmes, duas curtas-metragens, um mini-concerto e quatro documentários, todos em estreia mundial. Esta seleção, Cannes Classics, começou em 2004, com o objetivo de redescobrir certas obras, restaurar negativos e grandes trabalhos de outras épocas. Entre estes filmes, contam-se Once Upon a Time In America, Jaws e The Ring

O meu destaque, por razões de gosto pessoal e também de importância, a nível da História do cinema, vai para Era uma Vez na América (1984). A Film Foundation de Martin Scorsese apresentará uma versão restaurada da obra de Sergio Leone. 

Este restauro inclui 25 minutos adicionados à primeira versão de Leone, algo inédito. “O restauro foi requisitado por Martin Scorsese”, explicita um comunicado do Festival de Cannes. 

O realizador, conhecido por exibir o trabalho de Visconti e Samuel Fuller, entre muitos outros, em visionamentos privados, merece um aplauso. Quando exibiu O Leopardo, aos atores de A Idade da Inocência (1993), fê-lo para que percebessem o nível que queria atingir. No início dos anos 70, organizou um visionamento de Forty Guns (1957) de Samuel Fuller, conquistando o respeito e a amizade do realizador que tanto admira.

Ennio Morricone, o autor da banda sonora, aplaudido em Cannes durante a exibição.
Ennio Morricone, o autor da banda sonora, aplaudido em Cannes durante a exibição.

Já para não falarmos no apreço pelos blues, numa série em que assumiu o papel de mentor, da realização de The Last Waltz (1978), ou do documentário sobre Bob Dylan: No Direction Home (2005). Foi a primeira vez que o público teve acesso a um rosto mais “humano” do enigmático Dylan. Ou do concerto extraordinário de Clapton que filmou. Ou da montagem de Woodstock (1970). Onde há bom cinema e boa música, Martin Scorsese é um dinamizador e permanece um fã hiperativo.

Nesta estreia da nova versão de Era uma Vez na América, estão confirmadas as presenças de Robert De Niro, Elizabeth McGovern, Jennifer Connelly, do produtor Arnon Milchan, bem como da família de Leone, no que foi uma colaboração entre a Andrea Leone Films, The Film Foundation (de Scorsese) e a Regency Enterprises, financiada pela The Film Foundation e a Gucci.

POLANSKI E KINSKI NOVAMENTE JUNTOS

Roman Polanski vai marcar presença, juntamente com Nastassja Kinski, para apresentar o seu filme de 1979, Tess, cujo restauro foi supervisionado por ele próprio. Haverá ainda lugar para Jaws de Steven Spielberg, e The Ring de Alfred Hitchcock, um filme mudo. Esta celebração do Festival de Cannes é partilhada com o 50º aniversário de Lawrence of Arabia, outro trabalho de restauro. Surgirão também no ecrã The Ballad of Narayama (1958), de Keisuke Kinoshita, e Viaggio in Italia (1954) de Roberto Rossellini.

O programa incluirá ainda documentários sobre realizadores, como Woody Allen: A Documentary, de Robert Weide, Method to the Madness of Jerry Lewis, de Gregg Barson, e John Boorman: Me and Me Dad de Katrine Boorman.

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. Esta pág. está magnífica! Era uma vez na America é uma paixão que ninguém entende por ser considerada, eu, intelectualizada demais – e a morte de Sergio Leone, que se preparava para filmar Stalingrado, é algo que dói demais! Às vezes enlouqueço só de pensar o que ele faria….. e morreu com 51 anos, uma criança! Se estiver tudo errado, David, corrija. Fico apaixonadamente com saudades de maravilhosos filmes, tipo assim Ragtime que passou batido, não foi? imaginar um filme com um Prêmio Nobel, oh!!!!! Norman Mailer, que maravilha! O Oscar ao filme sobre o papel da negritude me fez lembrar dele e de Milos Forman dizendo que foi só naquela época, não poderia mais, o filme custou uma grana……..Adoro a MacGovern, agora em Dowton A. – e me desculpe a intensidade………. mas te ler trouxe de volta emoções que, acho, não sentirei novamente. Abraços gratos procê, em Portugal, nossa fonte…..

    1. Obrigado, Maria Luiza. O Era uma Vez na América é um filme que funciona a vários níveis, intelectual e emotivo. Lembra-me mais uma pintura por qualquer razão. Leone tinha essa “obsessão” de filmar o Stalingrado, segundo creio, há muitos anos. Dinheiro e problemas de saúde impediram-no. Julgo que faleceu com 61. Qualquer admirador dele dirá que fez poucos filmes. E é uma pena. Mas são todos muito bons, felizmente.

      Esteja à vontade com a “intensidade”; são para isso os comentários. Portugal é fonte? Como gosto de Tom Jobim e Elis Regina (e muitos como eu), será mais um intercâmbio… Abraço!

  2. …” é um filme que funciona a vários nív………” essa frase está linda, correta, expressiva e definitiva – obrigada, David. Também adorei Você ter contado que ele viveu uma década a mais do que eu achava. Mas estou escrevendo porque não me fiz entender- Portugal é fonte no sentido de que meu bisavô saiu dele e para cá veio no séc. 19, e está para sair um livro sobre a família. …”lembra-me uma pintura…..” também está avassalador, grata! Só hoje vi minha foto, também tem décadas, a técnica que colocou (?) – meus amigos portugueses, acrescento, foram embora, chocados, Portugal está muito mais avançado que nós, que vamos nos tornando caretas, que horror! Ah, esqueci de dizer: este filme foi o primeiro a sair em DVD aqui, V. sabia? meu filho trouxe e agora em blu-ray. Devo estar desconexa, a sexta foi um dia difícil para se andar por Sampa. Te agradeço demais, te descobri, ah, que bão!
    Abraços!

    1. OK, Maria Luiza, não percebi essa parte. É bom saber que há raízes portuguesas no Brasil, mas não sei se Portugal está mais avançado que o Brasil… Não sabia isso sobre o Era Uma Vez na América. Talvez me lembre uma pintura porque Sergio Leone era muito influenciado pela pintura, como aqui disse noutro artigo sobre o filme. Descobriu? Ótimo. Estamos quites, pois descobrimos nós o Brasil e deu este belo resultado… mas adiante. Um abraço e obrigado!

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