Pacino versus De Niro: Os bons atores não se ordenam

Al Pacino faz hoje 72 anos, e qualquer amante de cinema lhe dará, certamente, os parabéns. Como um aniversariante não deve celebrar sozinho, e julgo que ambos ainda têm na manga bons papéis, junto à celebração Robert De Niro. O que têm em comum, o que os distingue? Como se conheceram? Dão-se bem? O que acham um do outro?

Righteous Kill

De Niro: Talvez devêssemos enveredar por outra profissão.
Pacino: Não sei fazer mais nada.
De Niro: Nem eu.
Pacino: E também não quero.
De Niro: Nem eu.

Heat – Cidade Sob Pressão (1995)

Aqui, Pacino e De Niro sorriem com cumplicidade, o que prenunciava o confronto inevitável dos dois atores, não apenas numa mesa de café, mas num filme inteiro. Já se tinham encontrado em cafés inúmeras vezes, enquanto amigos. Em Heat, foram polos opostos, o bom e o mau, e em Righteous Kill (2008) interpretaram dois polícias que perseguem um vilão.

Foi a última vez que se cruzaram no grande ecrã. Tinham anteriormente protagonizado duas breves cenas em Heat, mas, 12 anos depois, dois dos melhores atores de sempre finalmente contracenaram durante todo o filme, uma das estreias mais aguardadas de 2008, que dececionou a crítica e os fãs. Já ambos tinham passado o seu auge; parecem cansados, a química não funciona e a realização de Jon Avnet é mediana.

Righteous Kill (2008) com Carla Gugino
Com Carla Gugino em Righteous Kill (2008).

A dupla atraiu as atenções nos locais onde as filmagens decorreram. Tratou-se de um filme independente com um orçamento de (apenas) 60 milhões de dólares. Avi Lerner, da NuImage garantiu que veríamos “os dois ícones do cinema juntos praticamente o filme todo, algo inédito na História. Juntar estes dois atores obrigou a um dos contratos mais difíceis que fizemos”. Tanto De Niro como Pacino, procuravam há muito um projeto que lhes permitisse trabalharem juntos, mas o filme foi uma desilusão, face ao passado de ambos.

DESENCONTROS

De acordo com Hemingway, os bons escritores não se ordenam, e o mesmo se pode dizer dos bons atores. É inevitável juntar um terceiro nome ao triunvirato dos anos 70: Dustin Hoffman. Mas este tipo de reunião nem sempre resulta da melhor forma. De Niro contracenou com Hoffman num filme razoável: Sleepers – Sentimento de Revolta (1996). Seguiu-se Wag the Dog (Manobras na Casa Branca), em 1997, com a habitual direção pesada de Barry Levinson e, no inócuo Uns Compadres do Pior (2004), chega a parecer inacreditável estarmos a assistir aos mesmos atores de Straw Dogs ou The Deer Hunter.

Al Pacino, por seu turno, nunca participou num filme com Dustin Hoffman e existe alguma rivalidade silenciosa entre ambos. Mas De Niro e Pacino conhecem-se praticamente desde que começaram a trabalhar, numa época em que faziam audições para os mesmos papéis, embora Pacino fosse mais admirado pelos colegas. Até tiveram a mesma namorada, a atriz Susan Tyrrell.

Al relatou, em 1997: “Encontrámo-nos na 14th Street [em Nova Iorque], pela primeira vez, há mais de 20 anos. Eu tinha-o visto em The Wedding Party, do qual gostei. Ao longo dos anos, fomos considerados para entrar em The Gang That Couldn’t Shoot Straight; íamos fazer The Pope of Greenwich Village, com o Bobby a realizar. Lemos alguns argumentos juntos.”

al pacino robert de niro
A dupla nos anos 70.

De Niro não contracenou com o colega em The Godfather, embora tenha feito uma audição para o papel de ‘Sonny’. Abordou a personagem de uma forma que não convenceu e, desiludido, optou por participar na comédia The Gang That Couldn’t Shoot Straight, projeto que Pacino abandonara para entrar em The Godfather. Mas Coppola não esqueceu o teste e chamou Robert para The Godfather: Part II, o que valeu ao ator o primeiro Óscar da sua carreira.

Paradoxalmente, nesta época, Pacino era nomeado por cada filme que fazia, e, embora não ganhasse, era já considerado o maior ator da sua geração. De Niro, grande admirador de David Mamet, ponderou participar em Glengarry Glen Ross(1992), contracenando com Pacino, o que mais uma vez não se concretizou, tendo o papel sido atribuído a Jack Lemmon. Pacino foi nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário e para o Globo de Ouro.

pacino de niro godfather 2
A única vez juntos, nesta sobreposição de imagens em O Padrinho II (1974).

O filme favorito de Al Pacino é Toca o Tambor Devagar, um drama sobre o mundo do basebol, realizado em 1973, em que De Niro conquistou o prémio de melhor ator do New York Film Critics Circle. “É o meu filme favorito de todos os tempos”, diz Pacino. Os dois atores são velhos amigos. “Conheço o Bobby bastante bem”, afirma Al. “É meu amigo. Passámos por experiências semelhantes. Durante um determinado período da minha vida foi muito importante conviver com alguém com quem me pudesse identificar.”

DUELO DE BANJOS

Pacino comenta o feitio taciturno do colega: “Ele é sempre muito calado. E acho que a imprensa respeita isso. Não o forçam. Mas, comigo, ele fala.” Curiosamente, a nível profissional, Pacino não encontra semelhanças com De Niro:

“Julgando pelo que vejo nos filmes, não descubro afinidades entre mim e o Bobby. Acontece o mesmo com o Dustin; não as vejo, embora também o ache excecional.” Pacino aprecia a faceta de comediante de Robert: “As interpretações cómicas dele são puro génio.” E é também fã de De Niro enquanto realizador: “Ele esperou muito tempo para realizar e fez um filme maravilhoso, Um Bairro Em Nova Iorque. Na verdade, tem grandes capacidades para a realização.”

de niro raging bull
De Niro em Raging Bull. Foram várias vezes confundidos…

Apesar de Pacino não encontrar parecenças, os dois atores já foram confundidos. Certa vez, uma adolescente abordou Al timidamente e elogiou-lhe o trabalho em O Touro Enraivecido. Embora o papel em questão tivesse sido representado por De Niro, Pacino agradeceu com polidez.

Em 1995, Michael Mann teve a ideia de juntar os dois atores em Heat, gerando uma expectativa enorme e as precipitadas comparações sobre quem seria melhor ator, mas Al Pacino refuta tais argumentos: “Não estávamos ali para protagonizar propriamente um ‘duelo de banjos’. Estávamos juntos no projeto. É bom trabalhar com um ator como o Bobby, porque sabemos que ele está lá para nos apoiar. E a situação tornou-se mais fácil, já que o conheço há muito tempo.”

De Niro é um homem de poucas falas e desconfiado em relação aos media. Al recorda um episódio que viveu com ele.

“Uma vez, fomos a um evento qualquer e, quando vínhamos embora, ele pediu-me para sair pelas traseiras. Eu disse-lhe: ‘É melhor sairmos normalmente. Tiram-nos a fotografia, e depois, qual é o problema?’ Mas decidimos evitar isso. Ele disse, ‘não te preocupes, sei o que estou a fazer’. No que aquilo deu… seguimos um caminho errado e o Bobby acabou entalado numa porta giratória [Risos]. Ainda me lembro da cena. Fiquei ali especado e disse-lhe: ‘Acho que isto foi um erro.’ Mas ele agora já é mais descontraído acerca dessas coisas, já não se importa.”

BANANARAMA E RAPPERS

Os dois atores integram a cultura popular de modo por vezes insólito. Em 1984, o circunspecto De Niro foi a inspiração de uma curiosa homenagem: «Robert De Niro’s Waiting», uma canção das Bananarama, num estilo “anos 80”, que proclama: “Robert De Niro’s waiting, talking italian.” O ator autorizou que o seu nome fosse utilizado no tema e só poderia sentir-se orgulhoso… Nos anos 80 e 90, e mais recentemente, a personagem ‘Tony Montana’, criada genialmente por Pacino, tornou-se num ídolo para os rappers, que recriaram de diversas formas o tema de Scarface, utilizando frases de Pacino.

Circula o rumor de que De Niro não é tão bem pago como o colega, o que talvez explique o facto de Robert superiorizar Al num aspeto: Em Scarface, a palavra “fuck” surge 182 vezes, um recorde batido em Goodfellas, em que o termo é empregue 246 vezes.

DOIS ATORES, DUAS HISTÓRIAS

Numa entrevista conjunta, Pacino, o mais falador dos dois, disse: “Lembro-me de ver trabalhos do Bobby e gostei tanto que [voltando-se para De Niro] até te escrevi acerca disso. Os seus grandes trabalhos… lembro-me de O Touro Enraivecido pelo seu aspeto inovador. O Padrinho II e por aí fora… Tudo Bons Rapazes, Era Uma Vez na América, fiquei espantado com a subtileza do seu retrato e o calor humano, algo que referimos acerca de Bob, nós, os atores que tanto o admiramos; o modo como ele aborda as coisas.”

E acrescenta: “Sabemos como funciona a mente um do outro. Partilhámos algumas coisas pessoais, como os papéis que interpretámos. Conheço o Bobby através das suas personagens, mas acho que nunca discutimos o nosso trabalho de atores.” Com o seu estilo sucinto, De Niro caracteriza o trabalho dos dois em Heat – Cidade Sob Pressão: “O Al fez a história dele. Eu fiz a minha.” 

O NEGATIVO E A FOTO

Ao longo das décadas, cada um fez a sua história, de facto. Em O Padrinho II, De Niro interpreta ‘Vito Corleone’, pai de ‘Michael’, interpretado por Pacino. Surgem no mesmo plano uma única vez, em épocas diferentes. Em Heat, contracenam à mesa de um café, mas o realizador Michael Mann abordou a cena com estilo e contenção, sem abusar dos planos conjuntos. Apesar de ser um filme extraordinário, Heat não proporciona o duelo de gigantes que prometia.

Observando as duas carreiras em paralelo, notamos que De Niro obteve um reconhecimento quase imediato da Academia, ao passo que Pacino aguardou décadas até ver confirmado formalmente o talento. Quando conquistou o Óscar de Melhor Ator, quase 20 anos depois de De Niro, a plateia aplaudiu em pé e não era caso para menos.

John Baxter, um dos biógrafos de Robert de Niro, afirma que o ator tem a vantagem de ser “adorado pela câmara”; é um ator vocacionado para o cinema. Pacino, por seu lado, é um apaixonado pelo teatro, tendo-se adaptado ao meio cinematográfico. Este aspeto nota-se particularmente na expressividade do seu olhar.

Perito na ira contida e nas explosões de raiva – como demonstra em O Padrinho II, O Advogado do Diabo ou Scarface –, Pacino aborda os papéis de maneira diferente de De Niro. Robert trabalha metodicamente, acompanhando caçadores de prémios quando tem de interpretar esse papel, ou guiando táxis. As companheiras do ator ficavam saturadas com semelhante obsessão, já que De Niro levava o papel para casa e se tornava naquela pessoa, 24 horas por dia. Pacino adota uma abordagem mais interior e individualista, e a sua dedicação completa, além de ter dado origem a interpretações inacreditáveis, também lhe provocou sérios problemas pessoais.

Foi Pacino que pressionou De Niro a ingressar no Actors Studio de Lee Strasberg, famoso por ensinar “o Método”, que essencialmente incita os atores a inspirarem-se nas suas experiências íntimas para a criação das personagens. De Niro retirou muitos ensinamentos do “Método”, e Strasberg descreveu o ator como um produto do Actors Studio, mas De Niro sempre manteve algum distanciamento em relação às teorias e ideias da escola.

Em Heat,eram dois homens que se compreendiam instintivamente, embora estivessem em lados opostos da lei. O negativo e a foto. Não vale a pena, portanto, apurar qual o método de representação de ambos, já que a sua arte se confunde com a vida. Não lhes pedimos mais.

Robert De NiroPERFIS

Descendente em quarta geração de italianos, com ascendência irlandesa, alemã e holandesa, Robert Mario De Niro Jr. nasceu em Nova Iorque a 17 de agosto de 1943. Conhecido pelo seu perfeccionismo e dotes de observador, engordou 27 quilos e treinou boxe para encarnar Jake La Motta em O Touro Enraivecido e aprendeu a tocar saxofone para o seu papel em New York, New York. O seu primeiro filme foi Greetings, de Brian de Palma. Depois de alguns flops, destacou-se em Toca o Tambor Devagar. De Palma apresentou-o a Martin Scorsese, originando várias colaborações que marcaram a história do cinema: Mean Streets (1973), Taxi Driver, (1976), O Touro Enraivecido (1980), Tudo Bons Rapazes (1990) e Casino (1995). A especialidade de Robert De Niro são as personagens emocionalmente instáveis com tendências sociopatas. De Niro e Marlon Brando são os únicos atores que ganharam Óscares interpretando a mesma personagem, ‘Vito Corleone’. O ator é um apaixonado por Nova Iorque, algo que tem em comum com…

Al PacinoAlfredo James Pacino, nascido no East Harlem, Nova Iorque, a 25 de abril de 1940. Também possui ascendência italiana, sendo o pai originário de Corleone, na Sicília. Depois de uma juventude difícil, começou a destacar-se nos palcos. O seu primeiro trabalho no grande ecrã foi Me, Natalie (1969) e, dois anos depois, com um fantástico desempenho em Pânico em Needle Park, chamou a atenção de Francis Ford Coppola. Em 1993, é nomeado para dois Óscares em simultâneo, por Perfume de Mulher e Sucesso a Qualquer Preço, o que o equipara a Julianne Moore – a atriz repetiu a proeza, em 2003, mas não venceu nenhum. Al é amigo de Michelle Pfeiffer, com quem De Niro contracenou em Stardust – O Mistério da Estrela Cadente. Também já realizou The Local Stigmatic, À Procura de Ricardo III e Chinese Coffee, trabalhos aclamados mas mais introspetivos do que as realizações de De Niro. Pacino tem outro aspeto em comum com o amigo: São ambos discípulos, admiradores (e sucessores legítimos) de Marlon Brando.

David Furtado

(Nota: A montagem das duas faces é da minha autoria.)

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