“White Dog” de Samuel Fuller: A obra-prima proibida pela Paramount

Há 30 anos, um grande estúdio impediu que um filme fosse lançado nos cinemas americanos. Tratou-se da poderosa obra anti-racista White Dog (O Cão Branco) do lendário Samuel Fuller. A acusação? O filme era… “racista”. Três décadas depois, White Dog não perdeu nenhuma qualidade. Permanece um clássico, embora este triste episódio de censura o tenha impedido de ser exposto a um público mais vasto, tal como deveria.

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Eu adorava Sam Fuller como cineasta. E seria para mim muito difícil imaginar o meu trabalho sem a sua influência e exemplo. E também aprendi a adorá-lo enquanto meu amigo. Os seus filmes desenrolam-se convulsiva e violentamente, tal como a vida, quando é vivida com paixão genuína.

Martin Scorsese

Uma jovem atriz, ‘Julie’, atropela acidentalmente um pastor alemão branco. Depois de o levar ao veterinário, tenta encontrar o dono, mas, afeiçoando-se ao animal, fica com ele. Contudo, repara que se trata de um cão de ataque. ‘Julie’ pede auxílio a ‘Carruthers’ e ‘Keys’, este último, um antropólogo e treinador de animais negro, percebe imediatamente que o animal é um “cão branco”. ‘Julie’ não compreende como um cão pode ser racista, mas ‘Keys’ explica-lhe que ele foi criado por um homem branco, “um racista de duas patas”, recebendo intencionais e constantes maus-tratos de negros. ‘Keys’ encara o problema como um desafio científico e propõe-se a recondicionar o cão, tornando-o um animal normal. Já o tentara sem sucesso, várias vezes, mas acredita que é possível entrar no cérebro de um cão racista sem usar uma faca.

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Tudo começou com um telefonema que o produtor Jon Davison fez à esposa de Fuller, Christa, afirmando-se grande admirador do cineasta. Contudo, Samuel Fuller já se comprometera a realizar Let’s Get Harry no Japão. Davison não aceitava a recusa e insistiu que ambos se reunissem. Mal o produtor mencionou White Dog, os olhos de Fuller brilharam. “Eu conhecia o romance de Romain Gray sobre aqueles malditos cães treinados para atacarem negros. A revista Life publicara uma famosa capa com um cão branco a rosnar, na altura em que o livro foi editado.”

samuel fuller white dogAo realizador, habituado a temas controversos, a ideia pareceu excelente. A Paramount comprara os direitos e já investira um milhão de dólares no filme, tentando que Roman Polanski e Arthur Penn o realizassem. Fuller agarrou a oportunidade, abandonando o filme em que ia trabalhar, dedicando-se de corpo e alma, como sempre fazia, a White Dog.

Jon Davison apoiou o realizador e o projeto: “Era um tipo que adorava sinceramente o cinema e me respeitava, dando-me os recursos suficientes para que o filme saísse bem”, recorda Fuller. O processo teve de ser apressado, devido a uma greve de argumentistas iminente, o que limitou a produção a apenas seis semanas. A primeira decisão de Fuller foi contratar, como coargumentista, o seu jovem amigo Curtis Hanson (que mais tarde se celebrizaria como realizador). Trabalhando freneticamente durante 10 dias – o prazo para a entrega do script –, Fuller e Hanson conseguiram terminá-lo a tempo.

Numa das cenas mais perturbadoras, o cão foge e persegue um negro até uma igreja onde este se refugia, acabando por matá-lo. Então, a câmara sobe lentamente, focando-se num vitral de São Francisco de Assis, a única testemunha do selvático assassínio. Hanson achou que era um cliché, mas Fuller disse-lhe que, fosse ou não fosse, “queria sublinhar a violação física, mas também espiritual, dessa cena. O ataque ocorre num local sagrado, um lugar de paz e regeneração. Ao termos São Francisco por detrás, recordamos os dois temas entrelaçados, a tolerância e o tormento”.

“Ganhei a batalha, mas Curtis só ficou convencido ao assistir à sequência, concordando que resultava muito bem.”

Burl Ives e Paul Winfield.
Burl Ives e Paul Winfield.

Sucede-se o confronto entre ‘Keys’ e ‘Julie’, onde, como é habitual, se nota o talento que Samuel Fuller tinha para diálogos fluidos, diretos, sem qualquer timbre de falsidade:

Keys: Ainda há hipótese de o curar!
Julie: Curá-lo? Acabou de matar um homem! Não há maneira de curar aquele cão! Quero que o abata já, antes que mate mais negros!
Keys: Então, finalmente, juntou-se ao clube! Um clube de pessoas horrorizadas que criam um pé-de-vento sagrado sobre essa doença, esse ódio racial! Mas que não fazem absolutamente nada para o combater! Aquele cão é a única arma que temos para podermos remover parte dele, pelo menos! Se eu o curar!
Julie: Se? “Se” não o vai impedir de matar pessoas!
Keys: Sim, Julie, não posso garantir resultados. Mas, se falhar, arranjo outro cão branco. E outro! E outro! E outro! E outro! E continuo a trabalhar até conseguir. Porque é a única maneira de impedir que pessoas doentes criem cães doentes! E, raios me partam, não posso fazer isso com um cão morto!

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O guião com cerca de 100 páginas foi entregue à Paramount. Don Simpson e Jon Davison adoraram o material e deram luz verde para que a produção arrancasse de imediato. Fuller começou a selecionar atores, e a preferência de todos ia para Jodie Foster, no papel de ‘Julie’. A atriz queria realmente participar, mas não estaria disponível a tempo. Depois de tentar outras atrizes, o realizador gostou de Kristy McNichol, de 19 anos, que trabalhava na TV desde os 12. “Ela era despretensiosa e tinha muito charme. O seu entusiasmo, autenticidade e sorriso espontâneo conquistaram-me”, declara Fuller.

Kristy McNichol e Samuel Fuller.
Kristy McNichol e Samuel Fuller.

Para o papel de ‘Keys’, a escolha recaiu em Paul Winfield (um grande desempenho). Fuller afirma que o único problema que surgiu foi o facto de o ator o estar sempre a incomodar para que lhe desse um dos seus charutos. “Eu nunca oferecia nenhum a ninguém, já que, depois disso, todos, na equipa, queriam um. Mas, no caso dele, cedi, já que ele era tão simpático.” No papel de ‘Carruthers’, o dono do centro de treino de animais para o cinema, intitulado “Arca de Noé”, o veterano Burl Ives não causou tais problemas, já que trazia os seus próprios charutos.

Foi contratado um cameraman experiente, Bruce Surtees, que trabalhara várias vezes com Clint Eastwood e fora nomeado para um Óscar. (Faleceu em fevereiro passado.) Surtees trabalhou com a, então nova, Steadicam. A rodagem, nos arredores de Los Angeles, correu bem, apesar de terem de utilizar cinco cães diferentes, treinados por Karl Miller.

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A certa altura do filme (sem revelar demasiado), surge o verdadeiro dono do cão, acompanhado pela filha (na realidade, é Samantha, filha de Fuller), que diz apenas, “onde está o meu cão?” Também a esposa do cineasta desempenha um pequeno papel, o de enfermeira. “Com as minhas duas mulheres favoritas no set, oito milhões de orçamento e um elenco e uma equipa sólidas, tudo parecia correr bem”, recapitula Samuel Fuller. Mas foi então que as coisas deram para o torto.

O MISTERIOSO VISITANTE

Certo dia, apareceu nas filmagens um porta-voz da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), organização que defende os direitos dos negros. O objetivo de Willis Edwards era ver se os negros eram denegridos, e obtivera a autorização da Paramount. Samuel Fuller, com toda a razão, ficou irritadíssimo:

“Por que não fizeram o trabalho de casa sobre mim antes de mandarem um espião? Fui um dos primeiros realizadores em Hollywood a empregar homens de cor em papéis inteligentes e complexos. O médico negro em The Steel Helmet, o soldado sensível, Nat King Cole, em China Gate; Harry Rhodes em Shock Corridor, o detetive que conquista a rapariga em The Crimson Kimono. O nosso mundo era multirracial e eu mostrava-o assim desde o meu primeiro filme. E o meu registo militar? Arrisquei a vida a lutar contra o fascismo, por ser antagónico aos princípios de Jefferson, de que todos os homens são criados iguais, dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a maldita busca da felicidade!”

Fuller, um veterano da guerra e do cinema, sentiu-se desrespeitado e achou que a NAACP devia ter tido a decência de aguardar pelo produto final. Por isso, disse ao produtor que não queria aquele intrometido ali, e Edwards foi gentilmente convidado a sair.

A rodagem terminou, a película foi editada por outro veterano, Bernie Gibble, e Christa sugeriu ao marido que convidasse Ennio Morricone para compor a banda sonora. A Paramount resistiu, mas acedeu. “A sua música visceral e perturbadora adicionou o toque certo ao filme”, disse um satisfeito Fuller.

ESTRANHOS RUMORES

samuel fuller white dog (5)Para consternação do realizador, começaram a circular boatos de que o filme era “racista”, mesmo antes de um pré-visionamento público. A Paramount ainda não decidira a data de lançamento. Samuel Fuller explica que “a origem dos rumores era vaga”. “Mas não era insensato suspeitar que Mr. Edwards da NAACP, que nem vira um fotograma do meu filme, tinha algo a ver com isso.”

Foi agendada uma reunião com os chefes da Paramount, Michael Eisner e Jeffrey Katzenberg. “Mal me sentei na sala de conferências, eles atiraram a bomba”, declara Fuller. “Iam pôr o meu filme na prateleira. Se lançassem White Dog, arriscavam-se a uma controvérsia desagradável que não se justificava perante o potencial comercial do filme. Na reviravolta de acontecimentos mais absurda que alguma vez vi, os estúdios recuavam devido a rumores provenientes de pessoas que nunca o tinham visto. Ainda por cima, eram ridículos, autêntica horseshit. Um deles dizia que White Dog incitaria a violência racial, inspirando loucos a treinarem cães brancos para atacarem pessoas negras.”

Fuller, amargurado e indo direto ao assunto, achou que o problema teve uma raiz política.

“Estávamos em 1982, Reagan era presidente, e os Republicanos tinham agarrado a moralidade do país pelos tomates. Descartar o filme sem que ninguém o visse? Fiquei estupefacto. É difícil expressar a mágoa de ter um filme terminado e fechado num cofre, sem ser visto por um público. É como porem o nosso bebé recém-nascido numa maldita prisão de segurança máxima para sempre.”

O VEREDITO

O cineasta confessa que não se sentiu muito consolado por o filme ter, mais tarde, sido lançado na Europa, obtendo críticas excelentes. Um crítico sueco afirmou: “Ninguém usou a cor branca de um modo tão dramaticamente simbólico desde que Herman Melville escreveu Moby Dick.” Só 10 anos depois, White Dog estreou nos EUA, apenas em art-houses.

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O realizador já experimentara desilusões com os cortes aplicados ao seu anterior filme, The Big Red One (O Sargento da Força Um), “a” obra-prima que só seria lançada na versão integral depois da sua morte. “Fiquei muito magoado. O estúdio usara-me como bode-expiatório para a sua falta de coragem e determinação. White Dog era um filme provocador, expondo a estupidez e irracionalidade do racismo na nossa sociedade. Nada mais, nada menos.”

Nesta altura, propuseram a Samuel Fuller que realizasse um filme em França, o que o realizador aceitou, para mitigar a rudeza de tal golpe. “Achei que seria um alívio sair do mundo perverso e traidor de Hollywood. Os europeus pareciam respeitar os cineastas enquanto artistas. Nunca tínhamos de lutar pela versão final. Era connosco.”

Samuel Fuller e a família fizeram as malas e embarcaram num voo para Paris. “Quando o fizemos, nunca sonhei que fosse o começo de um exílio autoimposto que durou 13 anos.” O cineasta nunca mais realizaria uma obra financiada por americanos.

SEGUNDO VEREDITO

Vi o filme três vezes e não posso deixar de estar totalmente de acordo com Samuel Fuller, sobre quem Martin Scorsese disse:

“Quem não gosta de Sam Fuller, não gosta de cinema ou, quanto mais não seja, não o compreende.”

samuel fuller white dog (9)Enérgico e vital, com um uso genial das cores, das sombras, da câmara lenta e da banda sonora fantástica de Ennio Morricone, a história de White Dog é um exemplo da maquinaria hipócrita de Hollywood em ação. Já muito se escreveu sobre o facto de grande parte do capital americano estar nas mãos de judeus, bem como o poder da indústria cinematográfica, o que não deixa de ser verdade.

Mas Fuller, além de ter defendido o país e de ser condecorado, era judeu, não beneficiando com isso. Lutou durante toda a carreira com orçamentos exíguos, produziu inúmeros filmes de génio e, sob a alçada de Reagan (um ex-ator fracassado, que, como pessoa e político era um miserável, refira-se), vê-se quase obrigado a sair dos EUA.

Editado em DVD pela Criterion, em 2008, White Dog é, hoje em dia, valorizado e estudado. Fuller, o ex-jornalista, conta-nos a história visualmente, utilizando diversas metáforas, umas óbvias, outras, nem tanto. Não é um filme confortável; faz-nos sentir passivos perante o ódio racial. Não o acho explicitamente violento, funciona mais a nível psicológico, assentando no talento inconfundível com que Sam Fuller transformava ideias em imagens. Não dá sermões, (a arte não o deve fazer) mas também não é nada indiferente. O desfecho inesperado provoca diversas interpretações e, em minha opinião, todas são válidas. E o filme fica connosco muito depois de vermos a ficha técnica passar sobre a imagem final que se torna, astuciosamente, a pouco e pouco… num negativo.

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. Pode-se pedir mais? Por exemplo, que O Cão Branco, que tenho em vídeo e é completo, foi baseado em história que Jean Seberg viveu ?! ( será Sebberg- fico tão entristecida/arrasada com isso que me perco!!). Existem informações que de imediato nos remetem a um conhecimento maravilhoso! é como o seu, David! Obrigada!

    1. Obrigado, Maria Luiza. Pode-se pedir mais, sim, como o seu comentário: Eu não me lembrava ou não sabia que isto foi realmente baseado num caso verídico que aconteceu a Jean Seberg. Foi escrito um artigo adaptado para livro e finalmente ao cinema em White Dog. Bom apontamento que lhe agradeço!

  2. Ainda assim – e peço perdões e desculpas pois que sou ou tento ser pessoa….. lhana – queria mais, David. E grata pela pronta resposta. Naqueles idos a gente mal ficava sabendo das tragédias ocorridas. Bom, como não sei o que te pedir, vou parar. Acrescento que a maior delas ( tragédias) é o desconhecimento de Samuel Fuller e sua matéria está maravilhosa! Um abraço, de Sampa.

  3. Abraço de Portugal para Sampa. A obra de Samuel Fuller merece ser mais conhecida. Ele tinha pelo Brasil um afeto especial. Obrigado, Maria Luiza.

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