Mel Gibson: “Mad Mel” e o Apocalipse

mel gibson (7)Vulnerável mas heróico, inquieto mas ambicioso, Mel Gibson nunca foi o protótipo do galã ou da estrela de cinema. O físico ajudou a sua carreira, mas, desde jovem, a sua vida interior fervilhava. Gibson, hoje em dia, é mais famoso por ser notícia em tabloides, mas a sinceridade foi algo que nunca negociou.

Financiado pelo próprio ator, Get the Gringo, de Adrian Grunberg, narra a história de um criminoso que é detido e aprende a sobreviver numa prisão mexicana, “El Pueblito”, com a ajuda de uma criança. Também denominado How I Spent My Summer Vacation, o filme surgirá nos ecrãs da maioria dos países em maio. O argumento é de Gibson e Grunberg, e o ator encarna de novo um anti-herói. É um thriller violento a fazer lembrar Payback (1999).

Surgiram mais declarações polémicas de Gibson na imprensa, afirmações sobre John Lennon que nem transcrevo. O ator já as desmentiu. Os conhecidos problemas de Gibson com o álcool estarão na origem de muitas declarações insensatas que lhe são atribuídas. Mudando de assunto, está previsto o quarto filme da série que o celebrizou: Mad Max: Fury Road, com Tom Hardy e Charlize Theron nos principais papéis, e novamente realizado por George Miller.

ATOR POR ACASO

A família de Gibson emigrou para a terra natal da avó em 1968, a Austrália. Foi o ano em que Gibson se matriculou numa escola nos subúrbios de Sidney e recebeu a alcunha de “Mad Mel” pelos colegas, devido à personagem de um popular programa de rádio. Atraído pelo teatro, Mel interpretou alguns papéis enquanto trabalhava no Kentucky Fried Chicken. Descobriu um novo passatempo: Engatava todas as mulheres que conseguia. Chegou a imitar um mineiro escocês recém-imigrado para atingir os seus objetivos. Admitiu que sempre representou um papel com as raparigas. “Quando me mostrava mais humilde, elas sentiam-se melhor. Resultou num excelente estudo do comportamento humano e, por outro lado, engatava umas miúdas muito giras.”

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Em 1974, acompanhou uma das suas irmãs ao Instituto de Arte Dramática de Sidney, onde esta ia inscrever-se. A irmã, com igual desfaçatez, inscreveu Mel no mesmo curso e não lhe disse nada. Sem grande interesse, Mel passou nas provas.

Dias depois, é atropelado por um carro, consegue amortizar o impacto com a sua pasta, é projetado mas aterra de pé, perante os aplausos dos transeuntes. “Algo me disse que não me podia ver na indigna posição de cair de rabo no chão.” Em 1977, obtém a formação e é-lhe dado um papel no filme Summer City, que o próprio Gibson descreveu como “horrendo e abominável”.

REALLY MAD

Um jovem realizador, George Miller, proveniente do cinema alternativo, vê-o em Summer City e idealiza-o como protagonista da sua primeira longa-metragem. ‘Max Rockatansky’ é um “intercetor”, um homem que tenta sobreviver como polícia num futuro pós-apocalíptico, combatendo os selvagens do asfalto. Quase todos os participantes são inexperientes. “A rodagem de Mad Max foi uma tortura, um pesadelo”, recorda George Miller. Seis dias depois de começarem as filmagens, a atriz principal, que tinha de viajar de carro da outra ponta do país, sofreu um terrível acidente de automóvel, tendo de ser substituída.

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Para Gibson “foi um desafio dar corpo a esta personagem apenas com o olhar e a expressão corporal. Uma boa escola de interpretação, depois dos meus contactos com Shakespeare. Quando se está nesta profissão, não é fácil pararmos e é até desaconselhável”.

Este filme de terror gótico, com uma aura brutal, estranha e quase aterradora, vence o Prémio Especial do Júri do Festival de Avoriaz. Um êxito sem precedentes para um filme australiano. George Miller não gostou do resultado, mas Mad Max pôs Mel Gibson no mapa, tendo o ator sido convidado para outros projetos.

Gallipoli de Peter Weir.
Gallipoli de Peter Weir.

Um deles viria a ser Gallipoli (1981), com o realizador Peter Weir, por quem Mel Gibson nutria especial admiração. No mesmo ano, casa com Robyn, uma relação duradoura que resistiu a imensos golpes da fama, com a qual Mel Gibson nem sempre lidou bem.

O ator ponderou quando George Miller o convidou para Mad Max 2: The Road Warrior, em 1981. “Resisti, mas por pouco tempo, e isso deveu-se a George Miller, que apostou em mim sem sequer me conhecer. Além disso, o personagem evoluíra e amadurecera.” Desapareceu o clima de terror do original, aqui ‘Max’ surge acompanhado por um simpático e fiel Dingo [cão australiano] que parece querer roubar o protagonismo.

O realizador afirma que a equipa tentou conceber “um filme mais metódico e próximo de um arquétipo. A Wasteland, por onde ‘Max’ vagueia, é agora uma civilização fantástica, mas também evoca o western e os filmes de samurais”. A Nova Gales do Sul foi, para Mad Max, o que Almeria foi para os western spaghetti, trazendo uma estética nova que deslumbrou o júri do Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, do qual fazia parte Brian De Palma. “É o meu filme favorito”, declarou.

The Year of Living Dangerously, no ano seguinte, foi o reencontro com Peter Weir em mais um excelente filme sobre o conflito na Indonésia. Seguiu-se um remake de Mutiny on the Bounty, que, apesar do protagonismo de Gibson, Anthony Hopkins e Laurence Olivier, resultou num fracasso total. Em 1984, no Festival de Cannes, Mel é acossado pelas fãs, tendo comentado: “Sinto-me um hambúrguer pronto para consumo.”

George Miller e Byron Kennedy pediram-lhe que voltasse a interpretar ‘Max’ no filme de 1985, Mad Max Beyond Thunderdome. O ator acedeu mas comentou: “Sem sombra de dúvida, é a terceira e última parte das aventuras do polícia a que devo toda a minha fama. Fizemo-la também a pensar no público infantil e juvenil, já que os dois primeiros continham muita violência. Recordar-me-ei para sempre de Tina Turner, que demonstrou ser uma magnífica atriz e companheira, além de uma cantora estupenda.”

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Miller e Kennedy acharam que o sucesso de ‘Mad Max’ se devia ao “mito heroico” e seguiram essa via na conceção do filme que desiludiu os fãs dos dois primeiros capítulos, conquistando audiências mais “Spielbergianas”.

Pouco antes de começarem as filmagens, Byron Kennedy, amigo do realizador, morre num aparatoso desastre de motorizada. O que se supunha ser a reunião de velhos amigos australianos começou com um mau augúrio. George Oglivie e Miller trabalham num storyboard envolvendo várias localizações no sul da Austrália. Mas as filmagens tornam-se num suplício insuportável.

Mel Gibson atravessava uma má fase, querendo recuperar o seu estatuto em Hollywood e achando que este era o melhor veículo. Porém, com os nervos destroçados perante uma rodagem longa, difícil e esgotante, cai numa profunda depressão e consome enormes quantidades de álcool.

Decaíra física e psicologicamente. Farto de Hollywood, refugia-se com a mulher e os filhos no seu rancho, na Austrália. “Foi muito difícil. Tive de espairecer e pôr a cabeça em ordem. Foram quatro filmes consecutivos. Nestas ocasiões, o melhor é desaparecer. Fiz um balanço profissional e pessoal.” Só regressaria com Lethal Weapon, em 1987. Seguir-se-iam filmes de ação, uns melhores do que outros.

HAMLET IRRITA A DUQUESA

mel gibson (9)Em 1990, Mel Gibson transforma-se em ‘Hamlet’, de Franco Zeffirelli, num filme que, apesar de fiel ao texto original, mostra os aspetos mais sinistros e negros da obra. O ator conquistou a crítica e o público com este retrato de “ser ou não ser”, questão que parecia debater-se no seu íntimo e pressagiar voos mais altos. Neste enorme desafio, Mel Gibson não se saiu nada mal. Pareceu dizer que os antípodas são a Austrália e o filme que o celebrizou. (Sem qualquer desprimor. É excelente como ‘Mad Max’.) 

Hamlet estreia a 18 de abril de 1991 num cinema central de Londres. Estão presentes Zeffirelli, Alan Bates, Helena Bonham Carter e… também se prevê a comparência de Sarah Ferguson, Duquesa de York. Mas o atraso do carro de Mel Gibson provoca um engarrafamento na capital britânica e, consequentemente, retarda a saída da Duquesa do Palácio de Buckingham. Quando ‘Hamlet’ finalmente chega, Ferguson olha-o e exclama com frieza: “Ainda bem que apareceu.”

Nesta época, Mel Gibson vê-se envolvido numa terrível polémica. O seu pai preparava um caso contra a Santa Sé e dedicava-se à leitura eclesiástica. O ator, talvez por influência paternal, declarou publicamente a sua oposição a qualquer método contracetivo e revelou uma hostilidade aberta perante os homossexuais. Em Los Angeles, os videoclubes de clientela maioritariamente homossexual baniram os seus filmes.

Estamos a falar da pré-história de The Passion of the Christ, da visita de Gibson à Irmã Lúcia em Portugal. Falamos de todo um percurso incomum. Falamos do período pré-Braveheart, The Man Without a Face, ou de Apocalypto. Hoje, os media tratam Mel Gibson como uma celebridade apanhada a conduzir embriagada. Alguém que profere comentários anti-semitas. Um homem divorciado. Alguém que foi puxado literalmente de orgias pela mulher que o amava.

No meio destes rasgos de talento, da fúria de realizar, do desagrado por Hollywood, Mel Gibson é a imagem de um homem que conseguiu ser uma estrela de cinema, um ator respeitado, um realizador reconhecido e, embora possamos discordar das suas opiniões, ainda tem a faceta de “Mad Mel”.

Como disse Lou Reed, “quando caímos na sarjeta e estamos em baixo, escrevem sobre isso. Porque somos conhecidos. Mas quem escreveu, já lá esteve, fizeram exatamente o mesmo. Quem engana quem?”

Talvez a sinceridade tenha sido algo que Mel Gibson nunca conseguiu negociar convenientemente. Regressa com Get the Gringo, mas será que conseguiremos catalogar e apanhar este “gringo”, de uma vez por todas?

David Furtado

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