Patti Smith: De Rebelde a Comendadora

O novo álbum da cantora e poetisa norte-americana será editado a 5 de junho, mas já foi avançada a lista de temas e revelado o primeiro single, «April Fool». Banga é o primeiro álbum de originais desde Trampin’, editado há oito anos. Entretanto, saiu um disco de versões, Twelve (2007) um livro de memórias, Just Kids (2010), que venceu o National Book Award, e a antologia Outside Society (2011). Sabe-se que «This Girl», por exemplo, é dedicada a Amy Winehouse. Recordo um pouco do percurso de Patricia Lee Smith, a rebelde tornada Comendadora das Artes e das Letras pelo governo francês.

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O álbum foi gravado nos Electric Lady Studios, em Nova Iorque (idealizados por Jimi Hendrix), e tem como primeiro single «April Fool», no qual participa o seu amigo Tom Verlaine, dos Television. Há uma balada em memória de Amy Winehouse («This Is The Girl») e um tema de aniversário para o amigo Johnny Depp («Nine»); uma canção dedicada às vítimas dos sismos no Japão («Fuji-san») e uma improvisação meditativa sobre a arte e a natureza («Constantine´s Dream»). Smith dedica também um tema ao cineasta russo Andrei Tarkovsky. Além de Verlaine, surgem como convidados Jack Petruzzelli e os filhos de Patti Smith, Jackson e Jesse Paris.

Patti Smith aos 11 anos.
Patti Smith aos 11 anos.

Smith é exímia em apropriar-se de temas alheios, como é o caso de «Gloria», do álbum Horses, um dos discos de estreia mais importantes da história do rock. Influenciada por poetas como Rimbaud e Baudelaire e pelas atrizes francesas Anna Karina e Jeanne Moreau, tornou-se numa femme fatale disfarçada de roqueira decadente ou poetisa romântica. Juntando a Beat Generation, os Doors, Janis Joplin, Billie Holiday e Nina Simone, Smith integrou a leitura de poemas no contexto punk e new wave, criando um estilo enérgico, sedutor e agressivo, que lhe valeu o epíteto de “mãe da música alternativa”.

Numa época em que a disco tomara conta do mercado, a figura magra, sexy, de cabelos compridos e negros, mostrava que, acima de tudo, era alguém com algo a dizer. Com o seu provocante estilo vocal – fusão de agudos inesperados e uma bizarra sensualidade, Horses deixou bem claro que não estávamos perante um êxito momentâneo. Ao começar o álbum com as palavras, “Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus”, a cantora pôs as cartas na mesa.

No entanto, numa entrevista dada a Jessica Robertson, da Spinner, Patti Smith explicou: “Quando escrevi o poema de «Gloria»… não pretendi atacar Cristo – que admiro –, foi, isso sim, uma oposição à ideia de que tudo está planeado para nós e que temos de nos encaixar num certo comportamento, baseado no modo como as coisas estão organizadas. Se eu errasse, não queria que ninguém tivesse de morrer pelos meus pecados… assumia a responsabilidade. O tema era sobre uma libertação pessoal e mental. Alguém lhe chamou uma ‘declaração existencial’. Acho que é a melhor descrição, embora hoje provavelmente não escrevesse a mesma letra, já que passei por um longo processo evolutivo.”

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REBELDIA DISTINGUIDA

Foi a primeira mulher a desafiar uma grande editora, exigindo total controlo criativo num álbum de estreia. Vinha do underground nova-iorquino, e a foto que escolheu para o disco troçava deliberadamente das capas da altura. Com gravata fina e ar andrógino e rebelde, contrastou com as imagens explicitamente sensuais das cantoras da época.

Em 2005, aos 58 anos, foi agraciada com a honra “Comendadora das Artes e das Letras” pelo Governo francês. O ministro da cultura, Renaud Donnedieu de Vabres, chamou-lhe “uma das artistas mais influentes do rock ‘n’ roll feminino”. Patti foi finalmente incluída no Rock and Roll Hall of Fame em 2007.

Costuma dizer-se que os Velvet Undeground não venderam muitos discos, mas cada pessoa que comprou um, formou uma banda. Smith encontrou o produtor de Horses em John Cale. Em 1996, Os Velvet Underground foram incluídos no Rock and Roll Hall of Fame, e foi justamente uma emocionada Patti Smith que os apresentou. Lou Reed entrou depois em palco, seguido por Cale e Moe Tucker. O abraço de Reed e Smith foi sentido. Ficaram ambos de lágrimas nos olhos. Os rebeldes tinham percorrido um longo caminho.

Patti Smith entre John Cale e Lou Reed.
Patti Smith entre John Cale e Lou Reed.

Patti recebeu a mesma honra e reagiu desta forma, quando lhe perguntaram o que fazia quando soube da notícia: “Estava em casa, a trabalhar num poema ou a dar de comer aos gatos. O que normalmente faço em casa. Fui nomeada muitas vezes, pelo que fiquei mesmo feliz. A minha única tristeza é o facto de os meus pais terem falecido e não poderem estar comigo. Eles queriam muito isto. Nunca fui pró-institucional em termos de rock ‘n’ roll, mas sinto-me muito honrada.”

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RIMBAUD NO FEMININO

patti smith (25)Quando Nick Johnstone começou a escrever a biografia de Patti Smith, em finais de 1990, enviou-lhe um fax pedindo-lhe a colaboração. Algumas semanas depois, uma das representantes de Smith informou-o de que a cantora andava a pensar no assunto. Johnstone relata a resposta que lhe deram: “‘A Patti acha que é muito cedo para escreverem um livro sobre a obra dela. Tem muitos planos e está convicta de que ainda não realizou o seu melhor trabalho.’ A princípio, pensei que isto era um caso de modéstia exacerbada, mas depois percebi que Patti Smith continuará inevitavelmente a dar-nos novas criações, que exigirão uma sequela deste livro daqui a uma ou duas décadas.”

UM MAR DE POSSIBILIDADES

Enquanto autora, Patti não se sente lesada pelos downloads ilegais, por exemplo. Acha que é uma forma de as pessoas que gostam de música não precisarem das grandes editoras para nada. «People Have the Power», realmente.

A força visceral de «Gloria» tornou o tema tão importante como o original, popularizado pela voz de Van Morrisson. Smith abriu muitas portas, e PJ Harvey entrou por uma delas. No tema «Land», grita “go Rimbaud, go Johnnie go”, abrindo um “mar de possibilidades” a uma figura poética no contexto do rock and roll. Abria também pontes para o futuro, recriando temas de outros artistas, em jeito de homenagem, mas reinventando a arte da versão. É também autora de uma ótima interpretação de «When Doves Cry» de Prince e, por todos estes motivos, o álbum de versões desiludiu, até por ter surgido depois do excelente Trampin’, que fazia prever uma sequência diferente. Horses foi reeditado em 2005, numa versão remasterizada, acompanhada por um CD com a totalidade dos temas ao vivo. Nesta gravação mais recente, a voz de Smith continua em forma e constatamos que as canções não perderam o vigor.

A PRIMEIRA POETISA PUNK

patti smith (2)A transformação de Patti Smith num ícone do rock divide-se em várias fases. A primeira aconteceu a 10 de fevereiro de 1971, na igreja de St. Marks no Lower East Side nova-iorquino, em que a jovem de 25 anos subiu ao palco para uma leitura de poesia no prestigiado St. Marks Poetry Project. Embora só quatro anos depois lançasse o primeiro álbum, a sua atuação dessa noite foi especial. Perante uma assistência composta, entre outros, pelo poeta Allen Ginsberg e o fotógrafo Robert Mapplethorpe, Smith foi apresentada como uma “poetisa fantástica e uma excelente compositora de canções”.

Acompanhada por Lenny Kaye, “a sua atuação não foi como uma leitura de poesia. Tinha uma cadência diferente. Ela repetia frases e palavras sem parar, e o ritmo cativava o público, algo que muitas leituras deste género não conseguem. A maioria dos poetas limitava-se a ler e tínhamos de tentar desesperadamente decifrar o conteúdo, e, quando dávamos conta, já acabara. Patti não fazia isto, ‘acertava-nos’ em cheio.”

“Uma vez e mais outra, imparável”, comentou o fotógrafo Leee Black Childers. Chamando a Rimbaud o “primeiro poeta punk”, a jovem deixou uma forte impressão na audiência.

DISSECAR PATTI SMITH

O estilo característico de Patti Smith pode ser observado na sequência «Babelogue/Rock and Roll Nigger», do álbum Easter, tema onde se nota a produção cuidada de Jimmy Iovine. Empregando o termo depreciativo “nigger”, a autora considera-se uma renegada dentro do – já de si rebelde – rock and roll. Começa com um poema meio escrito, meio improvisado, sobreposto a aplausos gravados: “Não f… muito com o passado, mas f… muito com o futuro…” Algumas linhas depois, “no íntimo, sou uma muçul… sou uma artista americana. E não sinto culpa!” Iovine sobe o volume, e Patti começa a conjugar as palavras ditas à linguagem musical, enquanto as guitarras aumentam: “Ela era uma ovelha negra. Ela era uma p…/Tornou-se cada vez maior. Conseguiu uma coisa e quis mais. Era uma ‘rock and roll nigger’”. A mensagem culmina com “fora da sociedade é onde quero estar”. Depois grita, “Lenny!” e o guitarrista canta um verso semelhante. Patti repete o refrão e segue-se um breve poema, cadenciado pela bateria e baixo: “Os que sofreram, compreendem o sofrimento, pelo que estendem a sua mão…/a tempestade que traz o mal também traz fertilidade…” A canção toma então novo rumo. Smith canta que Jimi Hendrix era assim, tal como Jesus Cristo e Jackson Pollock. E insiste na palavra “nigger”. Em pouco mais de três minutos, reinventa o punk e encarna o espírito do rock and roll.

A LUA DE SAM SHEPARD

Nascida a 30 de dezembro de 1946, Patricia Lee Smith cresceu em New Jersey. Em 1967, mudou-se para Nova Iorque onde conheceu Robert Mapplethorpe, enquanto trabalhava numa livraria. As fotos de Mapplethorpe viriam a adornar as capas dos álbuns do Patti Smith Group, e os dois sempre foram grandes amigos até à morte do fotógrafo, em 1989.

Jimmy Iovine, Patti e Springsteen.
Jimmy Iovine, Patti e Springsteen.

Smith compôs «Because the Night» com Bruce Springsteen. Gravavam no mesmo estúdio, tinham o mesmo produtor, Jimmy Iovine, admiravam-se, e a empatia deu origem à canção. Patti também foi jornalista da revista Creem, escrevendo sobre rock, e companheira do dramaturgo, ator e músico Sam Shepard. Com ele, concebeu a peça Cowboy Mouth, literalmente a meias; sentavam-se a uma mesa e um deles escrevia uma passagem, empurrando depois a máquina de escrever para o outro.

A relação foi tão intensa que ambos tatuaram símbolos nos corpos. O de Shepard foi uma Lua Falcão (“Hawk Moon”) nome que daria a uma antologia dos seus textos, anos mais tarde. O de Smith foi um relâmpago.

ENTRE O GÉNIO E A EXCENTRICIDADE

Em 1976, Patti Smith era idolatrada por ter aberto as portas às mulheres no rock, área, até então, restrita a homens. A sua influência foi tal que uma outra cantora chamada Deborah Harry, dos Blondie, não a podia ver à frente. O sentimento era mútuo. Mas a rainha do rock tinha os seus momentos infelizes. Numa conferência de imprensa, em Londres, a jornalista Julie Burchill, grande admiradora de Smith, assistiu a um curioso espetáculo. Quando perguntaram à cantora por que motivo os bilhetes dos seus concertos não estavam a vender, esta perdeu as estribeiras e gritou aos jornalistas, “fuck you! Vocês não prestam! Ponham-se daqui para fora!”, antes de atirar um prato de comida contra a parede.

Patti Smith e Robert Mapplethorpe em 1969.
Patti Smith e Robert Mapplethorpe em 1969.

Um repórter aproveitou então para lhe perguntar qual o Beatle que estava a imitar, o que enfureceu ainda mais Smith. Subiu para a mesa e começou aos pontapés a tudo, antes de declarar guerra à imprensa: “A minha guitarra é a minha metralhadora!”

A relação difícil com a imprensa motivou, contudo, concertos excelentes, que não passaram despercebidos a John Rockwell, do New York Times: “As atuações de Patti Smith são uma espécie de luta cósmica e moral entre anjos e demónios. Sempre caminhou na linha entre o génio e a excentricidade, entre o entusiasmante e o meramente bizarro, entre a arte e a loucura.”

Em anos mais recentes, Smith tem tido uma relação mais cordial com os jornalistas e dá entrevistas interessantes. Em 1995, explicou a Thurston Moore: “Não acredito nos dogmas de nenhuma igreja. São apenas coisas feitas pelo homem, leis que podemos decidir seguir ou não. Em parte, penso que o Budismo incorpora os aspetos mais autênticos do Cristianismo. Baseia-se em preocuparmo-nos uns com os outros. Na verdade, é muito simples. Penso que o mandamento que mais importava, para Jesus Cristo, era ‘amai-vos uns aos outros’. Não temos de fazer nada de especial.”

Esta visão humanista está patente nas posições altamente críticas que Smith assumiu relativamente à invasão do Iraque, por exemplo. Aquando da edição de Trampin’, em 2004, a autora comentou à Uncut: Não limito a minha autoimagem ao facto de ser americana. Sou americana, claro, mas, enquanto ser humano, observando a nossa situação global, sinto uma grande angústia face ao que se passa. E uma grande raiva, também. Oponho-me totalmente à Administração Bush e todas as suas políticas.” E acrescenta:

“Tenho grande fé no rock e continuo a trabalhar nesse contexto, mas gostava que as pessoas pensassem na grande qualidade do rock and roll, que, para mim, é aquela voz crua que pode englobar poesia, revolução, política ou o amor. Acho realmente que a História do rock nos deu muitas coisas de que nos podemos orgulhar, e tanto onde nos inspirarmos e tanto a que podemos aspirar… gostava que isso fosse mais considerado, em vez dos ganhos materialistas – a fama, a fortuna e os aspetos comerciais.”

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ADEUS EM FLORENÇA

Easter, em 1978, foi o seu álbum comercialmente mais bem-sucedido, e para tal contribuiu o êxito de «Because the Night», que alcançou o número 13 no top da Billboard. Quando Wave foi lançado, em 1979, o crítico Robert Christgau foi dos poucos a defendê-lo. Em maio de 1979, as pressões da fama já se tinham tornado insuportáveis. Em Florença, a última paragem da digressão, Patti não conseguia sair do hotel. Ao passar pelos quiosques, via a sua cara em todas as revistas e, num episódio rocambolesco, foi perseguida por um bando de adolescentes vestidas com camisas brancas e gravatas pretas (imitando a capa de Horses). Constantemente assediada pela imprensa, seguida por equipas da televisão e importunada por elementos de fações políticas que pediam o seu apoio para diferentes causas, Smith começava a ter dificuldades em concentrar-se. Estes fatores, adicionados ao cansaço das digressões, provocaram um desabafo em palco: “Se não vos agrada o espetáculo, vão buscar o dinheiro do bilhete e deixem-me em paz. Estou exausta.”

O Patti Smith Group.
O Patti Smith Group.

O guitarrista Lenny Kaye comentou, anos mais tarde, “começámos a tocar diante de 250 pessoas na Igreja St. Marks e acabámos diante de 70 mil num estádio de futebol de Florença”.

Nesta última atuação, Patti não conseguiu domar o público como habitualmente. Os fãs em desvario deitaram abaixo as barreiras e invadiram o palco, num momento assustador. No entanto, os fervorosos admiradores italianos queriam apenas estar mais perto da sua musa, tendo-se sentado no chão. Depois do concerto, no hotel, Smith disse aos companheiros que estava farta e, durante os 16 anos seguintes, não pisou um palco. Embora tenha editado uma sequência posterior de álbuns e livros de poemas, já deixara uma marca duradoura.

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Depois de saber que ia finalmente entrar para o Rock and Roll Hall of Fame, Smith fez uma autoavaliação: “Nunca quis uma carreira e julgo que não a tenho. Acho que sou uma pessoa que trabalha e que sempre fez o seu melhor. Em toda a minha vida, fui inspirada pelo trabalho dos outros, fosse a ler Peter Pan, ou a ouvir Jimi Hendrix, John Coltrane ou Beethoven. Uma das coisas que nos dá alegria na vida é o facto de sermos inspirados por outras pessoas. Por isso, espero que, ao darem-me esta honra, queiram dizer que fiz um bom trabalho e têm fé que o continue. E é isso que farei.”

David Furtado

Este texto foi parcialmente plagiado no jornal Público num artigo assinado por Kathleen Gomes. O provedor do referido jornal, na altura da publicação, encontrou motivos para contactar a jornalista, que o negou de modo agressivo.

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