Marlon Brando, 88 anos depois: O Maior Ator do Mundo (obviamente)

Quando me perguntam qual é o meu ator preferido, lembro-me de vários mas nunca dou uma resposta concreta, pois acho difícil ordenar atores e atrizes de talento. Mas há um, o aniversariante de hoje, que, a meu ver, está ligeiramente acima dos outros. Vi todos os filmes dele, exceto Bedtime Story (1964), Christopher Columbus: The Discovery (1992) e Free Money (1998). Concordo com Lee Marvin, quando afirma que nunca viu Brando mal, “apenas menos bom”. Já é a terceira vez que escrevo sobre ele, pois o ator é uma fonte inesgotável de sensatez, até quando assume a sua insensatez.

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Se há alguma coisa óbvia na vida, é isto: Os outros atores não se põem a discutir quem é o melhor do mundo. Isso é óbvio.

Jack Nicholson

Ao ler as declarações do ator, várias vezes discordo delas. Por exemplo, diz que fez algum do seu melhor trabalho em Queimada (1969), enquanto eu prefiro outros desempenhos. Existem várias biografias dele, algumas num estilo “vasculhar o caixote do lixo”, como Brando Unzipped, e outras mais equilibradas. Quando editou a sua autobiografia Songs My Mother Taught Me, em 1994, o ator falou abertamente sobre si e sobre a sua carreira, relatando inúmeros episódios pitorescos, com inteligência e humor. Brando descreve também, com autoridade e conhecimento, o que é para ele o mundo do cinema e o que significa ser ator.

Com a honestidade de quem não tem dinheiro a perder, reconhece: “Escrevo este livro por dinheiro, porque Harry Evans, da Random House, mo propôs. Ele disse-me que, se a sua empresa publicasse um livro sobre uma estrela de cinema, os lucros permitiriam a publicação de autores anónimos e talentosos, que poderiam não dar lucro. Pelo menos, foi honesto, embora eu achasse estranho que ele publicasse livros sem qualidade, para editar o que tinha realmente valor. Ao seu modo, Harry é uma prostituta, tal como eu, tentando fazer dinheiro como pode. Eu sou só uma prostituta que trabalha no passeio oposto da rua. Um pouco de ódio por mim mesmo? Acho que não, mas admito alguma vaidade por conseguir ver isto com clareza e confessá-lo.”

Quando começou a ter sucesso, na peça A Streetcar Named  Desire, em 1949, apercebeu-se de que ser uma celebridade não é bem o que se apregoa: “Aprendi que a fama tem duas vertentes, e possui o mesmo número de vantagens e desvantagens. Dá-nos um certo conforto e poder, e, se queremos fazer um favor a um amigo, atendem-nos o telefone. Se nos queremos focar num problema que nos incomoda, podemos ser ouvidos, algo que, já agora, acho um absurdo.”

“Por que motivo a opinião de uma estrela de cinema é mais valorizada do que a de um simples cidadão? Houve entrevistadores que me perguntaram sobre física quântica e a mosca-das-frutas, como se eu soubesse do assunto, e eu respondi!”

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“Não importa qual a pergunta, as pessoas ouvem-nos. Muitos jornalistas vieram ter comigo depois de já terem escrito o artigo nas suas cabeças; esperam que Marlon Brando seja excêntrico, e dizem a si mesmos, ‘vou-lhe fazer uma pergunta tola e ele responderá’.”

Numa Era em que vivemos cada vez mais a cultura da aparência, o que se reflete no cinema e noutras artes, Brando explora a natureza da fama, algo que muitos querem atingir a qualquer custo.

“O poder e a influência de uma estrela de cinema são curiosos: Não os pedi nem me apoderei deles; as pessoas deram-mos. Apenas por sermos uma estrela de cinema, as pessoas atribuem-nos certos direitos e privilégios.”

Homem das mil faces: Viva Zapata (1952).
Homem das mil faces: Viva Zapata (1952).

“A fama e os efeitos que produz numa pessoa são um fenómeno relativamente novo; até há cerca de dois séculos, a não ser que fossem realeza ou profetas religiosos, as pessoas raramente eram famosas além das suas aldeias. A maioria não sabia ler, e o conhecimento era passado de boca em boca. Depois, vieram melhores escolas, os jornais, as revistas, o romance barato, a rádio, os filmes e a TV, tendo-se a fama tornado numa comodidade global e instantânea. Foram necessários 1.500 anos para o Budismo viajar pela Rota da Seda e se estabelecer na China; e foram precisas apenas duas semanas para o Twist viajar do Peppermint Lounge ao Taiti. Agora, quando algo sucede em Bombaim, as pessoas de Green Bay à Gronelândia sabem-no de imediato; um rosto é reconhecido em todo o mundo, e pessoas que nunca realizaram nada tornam-se celebridades profissionais.”

Marilyn Monroe visita o amigo no set de Desirée (1954).
Marilyn Monroe visita o amigo no set de Desirée (1954).

“A FAMA FOI A CRUZ DA MINHA VIDA”

marlon brando (14)Marlon Brando, surpreendentemente, desdenhava este processo. “Muitas pessoas que não são famosas, ambicionam-no de maneira desmesurada, nem conseguem imaginar que outros não a queiram, incluindo o que ela traz. Mas a fama foi a cruz da minha vida, e prescindiria dela com satisfação. Quando fiquei famoso, deixei de ser o Bud Brando de Libertyville, Illinois. Uma das objecções constantes que coloco à minha profissão é o facto de ser obrigado a viver uma vida falsa, e a maioria das pessoas que conheço, terem sido afetadas pela minha fama. Consciente ou inconscientemente, todos o são. As pessoas não se relacionam connosco por quem somos, mas pelo mito que pensam que somos, e o mito está sempre errado. Somos alvo de troça ou amados por razões míticas.”

“Ainda hoje encontro pessoas que me julgam automaticamente como um tipo bruto, insensível e rude, o ‘Stanley Kowalsky’ [Personagem de Um Elétrico Chamado Desejo]. Não o conseguem evitar, mas é complicado. Com a fama, vem a imprensa predadora com um apetite insaciável pela devassidão, e que fica horrorizada quando lhe negam o acesso a alguém, de chulos a presidentes (caminho que cada vez mais se encurta) e, confundida por não obter o que quer, inventa histórias sobre nós, pois integra uma cultura em que o imperativo moral mais importante é o de que tudo é aceitável se gerar dinheiro.”

“NÃO SOU INOCENTE”

“Não sou inocente. Também faço coisas por dinheiro. Fiz filmes estúpidos por causa do dinheiro.” A sua secretária disse-lhe que ele tinha uma personalidade dividida: Uma apreciava os benefícios do estrelato, outra detestava a parte dele que gostava disso. Depois de The Wild One (1953) surgir nos cinemas, uma fã escreveu-lhe uma carta, idolatrando-o. Brando respondeu assim:

“Querida Cleola, obrigado pela sua simpática carta. É mesmo lisonjeadora. Mas não devia fazer tanto alvoroço à minha custa, pois eu sou apenas um ser humano tal como você. Fico triste, fico alegre, calado e eufórico – em suma, nada mais e nada menos do que um entre uns quatro biliões de animais na Terra. Não faça de mim algo que não sou.”

Mas Brando confessa que este tipo de atitude é inútil, não interessa o que diga ou faça, é sempre elevado a um nível mítico.

PAIXÃO PELOS ANIMAIS

Um dia, a mãe ofereceu-lhe um guaxinim, ao qual o ator chamou Russell. “A minha família sempre teve animais de estimação. Em fases diferentes, cheguei a ter cavalos, vacas, coelhos, incontáveis gatos, cães, e um ganso ao qual chamei Mr. Levy. Também tive macacos, pombas brancas, às quais dei a liberdade de voarem pela casa, cobras, ratazanas, gerbilos, um papa-formigas chamado Chuck, margais e até três enguias elétricas.” Segundo Brando, nós não somos muito diferentes dos animais. “Geneticamente, há menos de um por cento de diferença entre nós e os chimpanzés e apenas dois por cento de diferença entre nós e os ratos.”

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Mas foi ao seu guaxinim, Russell, que o ator se afeiçoou. “Ele adorava água e brincava durante horas na banheira. Apreciava sentar-se no parapeito da janela e olhar para a rua, cinco andares abaixo. Era um êxito em festas, onde gostava de andar aos meus ombros e observar os convidados.” Russell vivia na casa de banho, para que não destruísse o apartamento. Um dia, bateram à porta de Marlon. Era um polícia.

“Você tem um animal selvagem?”
“Tenho um animal, mas não é selvagem…”
“Sabe onde ele está?”
“Na casa de banho.”
“Não, está na casa de banho da sua vizinha.”
E eu respondi, “o que está ele a fazer lá?”
“Ele morde?”
“Não, nem sequer um biscoito”, respondi, “lembrando-me que Russell se atirava e mordia furiosamente a nuca de quem não sabia lidar com ele”.

Russell passara muito tempo a olhar pela janela da casa de banho do ator. Mais tarde, Brando teve de libertá-lo, já que se tornara incontrolável. “Soltei-o no celeiro da nossa família, no Illinois. Pouco depois, ele desapareceu. Julgo que encontrou alguma senhora guaxinim e começou a sua família. Tenho saudades dele.” 

O QUE DISSERAM ALGUNS COLEGAS, AMIGOS E CRÍTICOS SOBRE ELE:

Al Pacino: [Ao saber da sua morte] O maior génio da representação dos nossos tempos. O que faremos sem Marlon neste mundo?

Martin Scorsese: Há uma marca. E ele é o marco. Há o “antes de Brando” e o “depois de Brando”. Acho que é boa altura para as pessoas mais jovens verem os seus filmes pela ordem que foram feitos.

Sean Penn: Marlon tornou claro que não há limites na experiência humana acerca do que queremos partilhar com os outros através da representação. Deu-me coisas que um amigo nos dá, compreensão, divertimento, encorajamento. Ele era um ator… ele era um poema.

Francis Ford Coppola: Pensava que ele fosse um titã estranho e temperamental, mas revelou-se muito simples e franco. Ele gosta que lidem com ele honestamente e que digam ‘não’ se a ideia dele for estúpida, e ‘sim’, se for boa.

Paul Newman: Brando irrita-me. Ele faz, de olhos fechados, coisas que eu tenho de trabalhar arduamente por conseguir.

Jon Voight: [Sobre The Men] Um poder emocional em bruto. Percebeu o sofrimento daqueles homens. Logo no início da carreira, se pôde ver para onde ia. Está lá tudo.

Karl Malden: Fiz com ele a peça A Streetcar Named Desire, durante dois anos, e partilhávamos o camarim. O problema era que, quando ele entrava em palco, o público não olhava para mais ninguém. Cada vez que trabalhei com Marlon, só posso dizer que ele fez com que eu me saísse melhor.

Robert De Niro: Não importava o que ele fizesse, era sempre interessante. Eu estudava-o.

Robert Duvall: Ele estava a tomar um café, chamaram-no para uma cena; disseram “ação”, “corta”, e ele regressou à mesa e continuou a tomar o café… conferindo a toda a experiência uma fluidez que eliminava a sensação de “começo”…

Harry Dean Stanton: Tinha uma das personalidades mais multifacetadas que alguma vez conheci. Não o consigo definir.

Eva Marie Saint: Quando filmei com ele, havia vários takes e ele nunca dizia o mesmo. Por isso, eu também não o podia fazer. Era como se ele tivesse um instrumento de afinação perfeita e conseguisse tocar qualquer música.

Jack Nicholson: Somos todos “filhos” de Brando.

Matthew Broderick: Trabalhar com ele foi um dos momentos mais empolgantes da minha vida e carreira. Estava nervoso só com a ideia de o conhecer, como todos nós. Mas ele estava tão calmo que foi das poucas vezes que consegui esquecer-me de mim mesmo, enquanto ator. E julgo que isso aconteceu a muitas pessoas.

James Bacon (jornalista e amigo): Quando falávamos com ele, ele ouvia e interessava-se pelo que tínhamos a dizer. Talvez por isso fosse tão bom. Ouvia os outros atores e reagia.

Bette Davis: Temos muito em comum. Ele também fez muitos inimigos e é perfecionista.

Roger Ebert: O maior ator do mundo.

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Júlio César (1953).

LIÇÕES DE UM ATOR

“Uma das maiores lições que um ator tem de aprender é ‘não deixar a luta no ginásio’. Dito de outro modo, temos de deixar a emoção quase a ferver durante todo o dia, sem que ferva. Se dás tudo quando te filmam de longe, terás menos num plano médio e quando precisas mais dela, no plano do teu rosto.” Mas a maioria dos realizadores, segundo Brando, não entendia como trabalha um ator. “Não percebem como é difícil criar uma frágil impressão emocional e como é fácil quebrar o feitiço.”

O aspeto mais fatigante para Brando, como ator, era “ligar e desligar as emoções. Não é como ligar um interruptor da luz e dizer ‘vou ficar furioso e dar murros nas paredes’, após o que somos nós novamente. Se a cena é intensa e envolve sentimentos profundos, temos de pairar sobre esse território emocional durante horas, e isto pode ser muito exigente. Os realizadores não entendem pois nunca foram atores, ou, se o foram, eram maus”. Brando vinca também as diferenças entre um palco e a rodagem de um filme.

“No teatro, pode-se alterar a ênfase de uma cena, estabelecer os tempos e perceber através do público quais os pontos-chave emocionais. Mas, nos filmes, o realizador diz ‘corta’ e ‘revela’ e acabou-se. Na sala de montagem, podem tornar a cena em comida para galinhas.”

O realizador John Huston com Brando em Reflexos num Olho Dourado (1967).
O realizador John Huston com Brando em Reflexos num Olho Dourado (1967).

Segundo Brando, o ator não tem controlo sobre isto, a não ser que seja suficientemente experiente para jogar o jogo, assumir o comando e representar apenas o que quer e nada mais. “A moral disto é: Nunca deem hipótese a um realizador estúpido, egotista, insensível ou inapto.”

O PÚBLICO

Apocalypse Now (1978).
Apocalypse Now (1978).

Marlon Brando faz considerações pertinentes acerca do efeito que o cinema e os atores exercem em nós. Cita o exemplo de Hitler e o seu domínio das massas. “Como ele demonstrou, uma das características básicas da psique humana é o facto de ser facilmente manobrada pela sugestão. A nossa suscetibilidade a isto é fenomenal, e o trabalho do ator é manipular essa suscetibilidade.” Deste modo:

“As performances mais eficazes são aquelas em que os públicos se identificam com os personagens e as situações que enfrentam; os espectadores tornam-se atores nas suas mentes. É um processo natural se a história for bem escrita e se o ator não interferir.”

“Em último caso”, prossegue Marlon, “julgo que o que faz as pessoas separarem-se do seu dinheiro que custou a ganhar, para entrarem num cinema, é o facto de poderem saborear uma variedade de experiências humanas sem terem de pagar o preço normal por elas”. Comparando esta situação ao bungee jumping, sublinha que “os espectadores podem sempre voltar para cima depois de estarem à beira da morte, do mesmo modo que saem do cinema sem um arranhão”.

Na opinião de Brando, “não é por acaso que as peças são representadas no escuro, porque isto permite à pessoa excluir os outros e ficar a sós com as personagens; no escuro, os outros deixam de existir. Provavelmente, este processo começou antes do drama grego, em que os homens das cavernas, as crianças e velhos, contavam histórias e dançavam para combater o enfado”.

A PROFISSÃO MAIS VELHA DO MUNDO

Nas palavras de Marlon Brando, “a profissão mais velha do mundo é a representação, não a prostituição. Até os macacos representam. Se querem problemas com um, olhem-no fixamente e verão como ele finge que vai atacar, e tudo é executado para vos impressionar”.

Contar histórias é uma parte básica de todas as culturas, “já que as pessoas sempre tiveram necessidade de participar emocionalmente nas histórias, pelo que o ator sempre teve um papel importante em todas as sociedades. Mas ele nunca deve esquecer que é o público que faz realmente o trabalho, sendo o fulcro desse processo”.

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“Fiquei muito comovido com The Elephant Man, em que John Hurt retrata um homem da Inglaterra vitoriana, afligido por uma terrível doença que o desfigurou. Ele é ridicularizado e maltratado, mas, à medida que a história se desenrola, ele transforma-se em cada elemento do público que sempre manteve a dignidade perante as dificuldades ou o abuso. Quando vi o filme, chorei.”

“John Hurt é um ator muito bom e provou-o em diversos papéis, incluindo ‘Calígula’ na produção televisiva de I, Claudius, no qual foi brilhante. Mas também já vi representações fantásticas que não foram reconhecidas pelo público, porque a história estava mal escrita e era irrealista.”

Marlon examina as diferentes técnicas, citando o exemplo de Laurence Olivier. “Julgo que ele fez os seus melhores papéis no fim da carreira. Ele parece-me mais um arquiteto que um ator. Desenhava os seus papéis maravilhosamente, mas eram como esboços gravados numa folha de cobre. Dizia as mesmas frases sempre da mesma forma. Detestava improvisar e tinha de estruturar tudo, pelo que não se sentia bem comigo e com outros atores influenciados pela escola russa de representação.”

“Não é só o talento que torna um ator numa estrela. É necessário ter físico, personalidade, presença, aptidão. Greta Garbo não era grande atriz, mas tinha presença. Provavelmente, fez a mesma personagem em todos os seus filmes.”

“Mickey Rooney, por outro lado, é o herói desencantado do mundo da representação. Era muito baixo, com dentes tortos e não tinha sex-appeal, mas, como Jimmy Cagney, conseguia fazer quase tudo. Charlie Chaplin também era um dos melhores. Mas muitos tornaram-se estrelas de cinema apenas por fazerem de si mesmos. O seu aspeto e personalidade eram tão interessantes, atraentes ou intrigantes, que o público se satisfazia com apenas isso.”

Em Revolta na Bounty (1962) conheceu Tarita, com quem casaria.
Em Revolta na Bounty (1962) conheceu Tarita, com quem casaria.

Brando cita os três filmes de James Dean, comentando que o ator estava no caminho certo para se tornar num dos expoentes máximos, apesar de ser um exemplo desta última categoria. Nunca foram muito próximos, mas Dean telefonava a Brando com dúvidas e, por vezes, encontravam-se em festas. “Acho que ele me considerava um irmão mais velho ou um mentor. E eu correspondi. Via-se pelo seu olhar, pelo modo como se movia e falava, que sofrera bastante. Era atormentado por inseguranças, cuja origem nunca soube. Aconselhei-o a fazer terapia. Não sei se o fez, mas pode ser difícil para um rapaz torturado atingir a fama subitamente. Aconteceu o mesmo a Marilyn e a mim próprio.”

James Dean tentava copiar Brando. Certa vez, chegou a uma festa, tirou o casaco, amassou-o e atirou-o para um canto. “Eu chamei-o”, recorda Brando, “e disse-lhe: ‘Jimmy, tens de ser quem és, não quem eu sou. Não me tentes copiar. Não faças isso. É muito mais fácil tirar o casaco e pendurá-lo no cabide do que o apanhar do chão.’”

Brando e Dean.
Brando e Dean.

Quando se conheceram, Dean ainda estava a desenvolver as suas capacidades. “Ele foi muito bom em Giant. Já não me imitava. Só podemos imaginar o que teria sido 20 anos depois. Poderia ser um dos grandes. Em vez disso, morreu e ficou sepultado no seu mito.”

ENCONTROS IMEDIATOS DE VÁRIOS GRAUS

Quando Marlon filmou The Fugitive Kind (1960) com Anna Magnani, Tennessee Williams avisou-o de que a atriz, 16 anos mais velha, tinha a reputação de gostar de homens mais novos e dissera que estava apaixonada por Brando. “Ela tentou várias vezes que ficássemos a sós, sem que eu a encorajasse. Conseguiu-o no Beverly Hills Hotel e começou a beijar-me com grande paixão. Tentei corresponder, pois sabia que ela estava preocupada com o facto de envelhecer e perder a beleza. Por uma questão de bondade, retribuí os beijos, recusar seria um terrível insulto. Mas ela agarrou-me com tanta força… mordeu-me o lábio. Nesta situação, lembrei-me daqueles rituais de acasalamento dos insetos, que terminam quando a fêmea aplica o golpe mortífero. Começou-me a doer tanto que lhe agarrei no nariz e o apertei com toda a força, como se espremesse um limão. Isso assustou-a, e eu fugi.”

Anna Magnani:
Anna Magnani: “Avisaram-me acerca dela.”

Marlon Brando acreditava em JFK e apoiou-o, achando-o encantador mas também brilhante. Num jantar de angariação de fundos, o presidente andava pela sala, apertando mãos. Quando chegou ao ator, este disse-lhe: “Deve estar muito enfadado com tudo isto.” “Na realidade”, respondeu Kennedy, algo surpreendido, “não estou nada enfadado. Interessa-me saber a opinião das pessoas”. “Vá lá, não me diga que o diverte assim tanto estar a fazer conversa de chacha com estas senhoras de cabelo roxo…” “Eu gosto destas senhoras”, disse Kennedy. Brando insistiu, com um sorriso: “Então… não pode estar a falar mesmo a sério…”

“Ele sorriu-me com franqueza, percebendo que não o estava a criticar e entendendo que, por uma vez na vida, gostaria de ouvir um político dizer a verdade. Depois do jantar, um agente secreto disse que o presidente queria ver-me. ‘Isto será interessante’, pensei, e segui-o até ao quarto de Kennedy. Ele não comera durante o jantar, por estar tão ocupado a apertar mãos, pelo que queria que lhe fizesse companhia. Mas, antes disso, embebedámo-nos.”

O presidente mostrou-se interessado pelas mulheres de Hollywood e fez várias perguntas a Brando. Até que lhe disse: “Estás a ficar muito gordo para os papéis.” O ator respondeu: “Estás a brincar? Tens-te visto na TV ultimamente? O teu queixo nem cabe no ecrã. A tua cara parece a lua.”

Kennedy argumentou que era muito mais magro que Brando, e ambos foram comprovar na balança da casa de banho, os dois aos ziguezagues. “Não me lembro do meu peso”, diz Brando, “mas, quando ele subiu para a balança eu pus um pé no canto, tornando-o 11 quilos mais pesado, pelo que ele pesava mais que eu. ‘Vamos embora, gordo, perdeste’, rematei.”

Em A Countess From Hong Kong (1967), Brando foi convidado por Charlie Chaplin para um papel, o que orgulhou Marlon, já que este o considerava um génio. Contudo, no set, Chaplin descompunha e humilhava as pessoas, especialmente o filho Sydney, o que indignou o ator. “Ele está a ficar velho”, disse Sydney. “Não há desculpa para se ser tão sádico, especialmente com o próprio filho”, insurgiu-se Brando. “Um dia, cheguei ao set 15 minutos atrasado. Não tinha a razão do meu lado, mas, em frente a todo o elenco, Chaplin embaraçou-me, censurou-me, acusou-me de não ter ética profissional e de ser uma desgraça para a minha profissão. Não parava, e comecei a fumegar. Por fim, disse-lhe: ‘Sr. Chaplin, vou estar no meu camarim durante 20 minutos. Se me vier pedir desculpas durante esse período, eu considero não me meter num avião e regressar aos EUA.’”

Passados uns minutos, Chaplin apareceu, pediu desculpa e terminaram o resto da rodagem sem qualquer incidente.

“Charlie não nasceu malévolo. Como toda a gente, era a soma da sua herança genética e das experiências de uma vida. Ele sabia o que era tocante, engraçado e triste, patético e heróico; sabia mexer com as emoções do público e possuía um conhecimento intuitivo da personalidade humana. Mas nunca aprendeu o suficiente para conhecer o seu próprio carácter.”

“Ainda o vejo como, talvez, o maior génio que o cinema jamais produziu. Acho que ninguém tinha o seu talento, tornava os outros liliputianos. Mas, como ser humano, era uma mistura, como todos nós.”

Certa vez, uma mulher descobriu, no seu quarto, uma peça de lingerie que não lhe pertencia. Quando lhe perguntou o que era aquilo, Marlon riu-se, achando que isso desanuviaria o ambiente. Em vez disso, ela atirou-lhe com as chaves, numa argola com um bocado de madeira. “O sangue jorrou-me pela testa, pingando no chão. Tenho alguma resistência à dor e aquilo não me magoou assim tanto, mas não lho disse. Fiz de conta que desmaiei e cai lentamente no chão, espalhando o sangue pelo rosto com as mãos, para que parecesse pior. Ela começou a chorar e, em pânico, procurou ligaduras e disse que ia chamar o médico. ‘Não, não, eu fico bem’, disse eu. Reverti a situação e desativei a fúria dela, embora ela nunca se tenha esquecido daquela lingerie.”

Quando estava em Cannes, Marlon Brando ouviu dizer que Elizabeth Taylor, de quem gostava, e o marido, Richard Burton, de quem não gostava, se encontravam lá. Como os queria convidar para um evento de beneficência da UNICEF, que organizava, combinou almoçar com ambos no iate do casal. Era apenas meio-dia, mas Richard já estava bêbedo. “Ele era um bêbedo ruim e começou a fazer comentários racistas sobre os meus filhos taitianos.”

“A princípio não liguei, mas, como ele insistiu, disse-lhe: ‘Se fazes mais algum comentário desses sobre os meus filhos, atiro-te borda fora.’ Burton olhou para mim com os olhos inchados e palermas, e Elizabeth interveio: ‘Então, Richard, pára com isso.’ Ele não aceitou o desafiou, mas eu estava pronto para o atirar para o porto.”

TEMPERAMENTO EXPLOSIVO

O ator explica que passou por uma fase em que não controlava o seu temperamento e, por qualquer motivo, explodia, especialmente com os paparazzi. Quando ouvia uma cantora num clube noturno de Hollywood, achou que parecia um ganso rouco que já tinha passado fisicamente do seu auge. Era triste de ver, já que “ela fazia o seu melhor e esforçava-se”. Na mesa ao lado, várias pessoas ridicularizavam-na e humilhavam-na. “Comecei a enfurecer-me cada vez mais. Até que um deles me reconheceu e pediu-me o autógrafo, tocando-me no braço. Virei a minha mesa, fui à dele e disse: ‘Se queres viver, nunca mais me toques no braço.’ Aquilo até a mim me assustou.”

Quando ia para Chinatown jantar com Dick Cavett, disse a um paparazzo que o seguira o dia inteiro. “Olhe, estou aqui com um amigo, e já se fartou de tirar fotos o dia todo. Gostava que nos deixasse jantar em paz.” “Bom”, disse ele, “se tirar os óculos escuros e me der uma boa foto, eu penso no seu caso.” A reacção de Brando foi agredi-lo com um murro. “Na manhã seguinte, a minha mão parecia uma luva de basebol, achei que a partira e fui ao médico, que a radiografou e me disse que não era verdade. Fiquei aliviado, mas ele acrescentou, ‘tem de ir para o hospital. Vê essas linhas vermelhas no seu pulso? É septicemia. Se não se trata, pode perder o braço’.”

“Os dentes do fotógrafo tinham-me cortado o tecido de um tendão, e o médico disse-me que havia bactérias mais perigosas na boca de um ser humano, do que na maioria dos animais, exceto os macacos. Isto não me surpreendeu: Sempre achei que a boca de um paparazzo era uma pocilga de bactérias.”

“Passei vários dias hospitalizado, mas certifiquei-me de que ninguém soube que fora por bater num paparazzo.”

O ator recorreu a cinco psiquiatras diferentes, antes de descobrir que “a maioria deles são pessoas que se sentem confortáveis ao tentar controlar outros, já que não sabem lidar consigo próprios”.

OS ÓSCARES E A PROFISSÃO DE ATOR

“Não culpo aqueles que pensam doutro modo, mas nunca dei grande importância aos prémios atribuídos a atores. Não acho apropriado. Os Óscares, e tudo o que os rodeia, elevam tudo a um nível que julgo imerecido. Muitas pessoas que conheço, em Hollywood, e de quem gosto, levam-nos muito a sério e, com uma audiência mundial de um bilião de pessoas, é óbvio que muitos, em todo o lado, acham o mesmo. É esse o problema: Levam-nos demasiado a sério. Quando o mundo sofre tantos problemas graves, é perturbante que um evento tão inconsequente tenha assumido semelhantes proporções.”

O seu primeiro Óscar por Há Lodo no Cais. O segundo recusá-lo-ia.
O seu primeiro Óscar por Há Lodo no Cais. O segundo, recusá-lo-ia.

“Conheço pessoas que planeiam o que vão vestir na cerimónia com seis meses de antecedência e, se há hipótese de serem nomeadas, começam a decorar o discurso de aceitação. Se vencem, fingem que as palavras são espontâneas, mas estiveram acordadas durante meses e murmurar para o teto o que dirão.”

Segundo o ator, a cerimónia enraíza-se na obsessão de Hollywood pela auto-promoção. Quando foi nomeado por The Godfather, pareceu-lhe absurdo comparecer: “Celebrar uma indústria que sistematicamente deu uma imagem errónea e malévola dos índios durante seis décadas, enquanto, nessa altura, 200 estavam cercados em Wounded Knee, era ridículo. Mandei Sacheen Little Feather recusá-lo por mim, mas Howard Koch, o produtor, impediu-a de ler o discurso que eu escrevera, denunciando esta matéria e o racismo, em geral. Pouco a deixaram dizer, mas fiquei orgulhoso dela.”

Brando nem sabia do Óscar: “Não sei o que lhe aconteceu. A Academia deve ter-mo enviado, mas não sei onde pára.”

“Até o nome da organização, Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, é um exagero. Rio-me de quem considera o cinema uma arte, e os atores, artistas. Rembrandt, Beethoven, Shakespeare e Rodin eram artistas; os atores são formigas obreiras num negócio e trabalham por dinheiro. Por isso é que sempre se chamou, ‘o negócio do cinema’.”

Mas admite: “Sempre achei que um dos benefícios da representação é o modo como dá ao ator uma hipótese de expressar sentimentos que normalmente não poderia, na vida real. Julgo que a minha insegurança quando era pequeno, a frustração de não poder ser quem queria, de querer amor e não o ter, de perceber que não tinha valor, talvez me tenham ajudado como ator.”

Brando enfrentou vários problemas e tragédias no final da sua vida, mas nunca deixou de ser igual a si mesmo, embora tenha sido um homem de tantos rostos, no ecrã. No julgamento do seu filho, recusou-se a jurar em nome da Bíblia. “Embora acredite em Deus, não acredito da mesma forma que outros, por isso, preferia não o fazer.”

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. daysecabral diz:

    Obrigada pelo lindo texto que em minha humilde profissão engradece o ofício de ator e atriz.Eu estou encantada com suas postagens.Estão me fazendo amar ainda mais o cinema.

    1. Ainda bem que assim é, daysecabral. Muito obrigado.

  2. Bonito sincero e direto esse texto sobre o maravilhoso e inesquecível Marlon brando parabéns!

    1. Muito obrigado, Maria Claudia. Um abraço!

Comentários:

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