Comprámos um Zoo! (We Bought a Zoo) – “20 segundos de coragem”

We Bought A Zoo PosterComprámos um Zoo! (We Bought a Zoo) de Cameron Crowe é um filme ao estilo do autor de Jerry Maguire: Uma comédia para todos os públicos, dirigida a grandes audiências, mas que vale a pena ver.

Matt Damon é ‘Benjamin’, um pai viúvo que não consegue ultrapassar a dor provocada pela perda da esposa. Incapaz de comunicar com os filhos, que também não lidam bem com o desgosto, ‘Benjamin’ despede-se do emprego e procura novo rumo e novos ares. Decide comprar uma casa longe do centro urbano, mas o local tem uma particularidade: Um jardim zoológico falido nos seus terrenos, onde vivem animais selvagens que enfrentarão um destino incerto daí a poucos meses. O pai e ambos os filhos conhecem a equipa que tem cuidado do espaço, cuja tratadora é ‘Kelly’ (Scarlett Johansson). ‘Benjamin’, ainda que angustiado, dá um salto no escuro e aceita o desafio de comprar a casa e reconstruir o zoo.

Baseando-se numa história verídica, Cameron Crowe realiza com a segurança e fluidez de obras anteriores como Quase Famosos (2000) e Jerry Maguire (1996). Sem ser uma obra-prima, nem ambicionar tais voos, Comprámos um Zoo! é um “feel good movie”, só que Crowe consegue adicionar-lhe mais uma dimensão, é aí que reside o seu talento. John Hughes concebia películas para adolescentes que apelavam a públicos de todas as idades, e Crowe possui um dom semelhante. Retomando temas das suas anteriores obras, o realizador volta a abordar as pessoas apanhadas em encruzilhadas, tentando recomeçar do zero, mas sem saber como.

Há inteligência na forma como o material é abordado, a comédia coexiste com o drama e até com alguns instantes genuinamente comoventes.

Os diálogos estão bem escritos e as interpretações são acima da média. Matt Damon adiciona mais um trabalho importante à sua carreira. Aqui e ali, recorre a velhos tiques de outros papéis, mas, quando é necessário, sobe um nível e consegue irritar-se a ponto de lhe sobressaírem as veias do pescoço. Num registo entre o simpático e o atormentado, dificilmente conseguimos apontar algo ao ator. Se a escolha tivesse sido Ben Stiller (que foi considerado para o papel) Comprámos um Zoo! perderia o seu ponto de equilíbrio.

O seu irmão, ‘Duncan’ (Thomas Haden Church) desempenha aqui um papel muito similar ao de Sideways (2004): A humorística “voz da consciência” de ‘Benjamin’, com teorias muito próprias sobre o certo e o errado. Mas, ainda assim, sábio. É ele que o aconselha a voltar a interagir com pessoas para superar o desgosto. Aliás, há uma nota subliminar acerca da comunicação. Na cena em que se despede, ‘Benjamin’, criativamente esgotado, sugere um artigo sobre o “i”pocalipse. Contrastando, temos sequências posteriores na natureza e a sua interação, várias vezes cómica, com tigres, ursos, um leão e vários animais. Além disso, o filme vinca, a meu ver, com lucidez, o lugar que os animais e os seres humanos devem ocupar nas nossas vidas.

we bought a zoo

REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO

Tendo sido jornalista musical da Rolling Stone (experiência recordada no semiautobiográfico Quase Famosos), Cameron Crowe realiza como uma canção de rock de Springsteen no seu melhor: Aborda temas complexos sob uma capa aparentemente superficial, dentro do registo “comédia familiar e drama”. A música, obviamente importante para o realizador, ouve-se aqui nos momentos certos: O filho, ‘Dylan’ surge acompanhado de «Buckets of Rain», de 1974. Em Jerry Maguire, Cameron Crowe já utilizara «Shelter from the Storm» do mesmo disco de Bob Dylan. Pelos vistos, Blood on the Tracks é um álbum chave para o realizador. Surge também um tema de Neil Young, «Cinnamon Girl», sonoridade bem adaptada à cena.

Não podemos deixar de referir a presença do escocês Angus Macfadyen (num papel secundário à medida de Braveheart) e Patrick Fugit (que interpretara o jovem Crowe em Quase Famosos). E… Scarlett Johansson. A beleza da atriz poderia torná-la num bibelô, mas Johansson foge ao estereótipo, num papel que, infelizmente, não foi mais desenvolvido.

O lema de ‘Benjamin’ é “sempre achei que só precisava de 20 segundos de coragem e conseguia ultrapassar tudo”. Apesar do otimismo, não há saídas fáceis para o personagem. Mas, numa altura em que somos assolados com tantas notícias deprimentes, vale a pena comprar um bilhete para este zoo – talvez esqueçamos, por instantes, as agruras do último telejornal. Talvez até nos faça sorrir, o que, nos tempos que correm, é uma boa perspetiva.

A consistência da realização; um filme sem pretensiosismos, é o que se encontra aqui. E algumas cenas a puxar à lágrima fácil. Fugit e Johansson sem grande oportunidade para aprofundarem os seus papéis.

David Furtado

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