Steve McQueen faria hoje 82 anos: Tributo ao “King of Cool”

O anti-herói mais memorável da história do cinema desapareceu em 1980. A sua carreira não foi muito longa, a sua vida também não. Mas ambas foram vividas em pleno. Tal como Steve disse, certa vez, “não sou um ator, sou um reator”. Hoje é o seu aniversário.

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Há 22 meses, quando comecei a escrever sobre Steve McQueen, não fazia ideia de que era um ser humano tão complexo. Todos possuímos muitas verdades; Steve possuía mais do que a maioria. Gradualmente, padrões e temas começaram a vir à tona, compondo o retrato de um homem atormentado, exasperante, mas extremamente caloroso.

Penina Spiegel, biógrafa.

A carreira de McQueen teve a sua génese numa série de TV, Wanted: Dead or Alive, (Procura-se Morto ou Vivo) que serviu de presságio. Não é politicamente correta, já que o ator interpreta um caçador de prémios, ‘Josh Randall’, cujo trabalho não é popular. Todos o rejeitam, desde criminosos a xerifes e empregados de bar, pensando que faz tudo por dinheiro. Só o espectador fica do seu lado. O papel foi feito à sua medida.

Wanted: Dead or Alive (1958–1961).
Wanted: Dead or Alive (1958–1961).

‘Josh Randall’ actua nos vazios da lei, seguindo o seu próprio código e, entre 1958 e 1961, a série foi um sucesso na CBS. Ao longo das filmagens, McQueen aperfeiçoou a técnica ágil de sacar rápido e de se mover com destreza. No genérico, arranca um cartaz dizendo “Procura-se Morto ou Vivo” e fita o espectador. Durante os 25 minutos seguintes, assistimos a essa busca. No dia do seu aniversário, façamos o mesmo, assinalando os seus maiores momentos e algumas curiosidades sobre o lendário “king of cool”.

O ator sempre teve uma obsessão pela autenticidade e não queria ser mais um cowboy da televisão. Por isso, teve a ideia de cortar a coronha e os canos de uma espingarda, tornando-a na sua imagem de marca.

Foi durante a rodagem da série que McQueen adquiriu a reputação de pessoa difícil. O amigo e ator Don Gordon reparou na impopularidade do colega e disse-lho. A resposta foi: “Estou aqui para trabalhar. Os tipos simpáticos podem fazer fila no centro de emprego.”

O produtor de Wanted: Dead or Alive afirma que “McQueen não era muito alto, não era nada de especial, fisicamente, mas havia qualquer coisa de diferente nele”. Tinha intuição para o papel, por isso, discutia com argumentistas, produtores e atores. Nem com o cavalo, Ringo, se dava bem: “Durante três anos, eu e aquele cavalo lutámos como dois fanáticos. Ele pisava-me, vezes sem conta, e eu dava-lhe palmadas no focinho. Acabámos por nos respeitar. No fundo, gostávamos muito um do outro… Ele nunca recuou e deu-me uma lição; provou ser mais esperto do que eu.” Mas o FBI não era tão compreensivo como Ringo e abriu um ficheiro sobre o ator, devido à sua imagem rebelde e inconformada e à “glorificação de um gangster” que a série supostamente retratava.

Ao longo de três temporadas, os EUA repararam na sua perícia a montar a cavalo e testemunharam o seu carisma. Alguns episódios são fracos, e o que os salva é o vigor e descontração de McQueen, que fez da série um laboratório de representação. Tentava dar a volta ao argumento e torná-lo mais credível. Chegou a enviar um produtor para o hospital com uma crise de nervos. Abandonou a série, alegando cansaço, mas o seu objetivo era o grande ecrã.

A ESSÊNCIA

“Procura-se morto ou vivo” foi também a missão de vários biógrafos, que procuraram a essência de McQueen e se surpreenderam com o que encontraram. No espaço de seis anos, foram publicadas cinco biografias. Os amigos e colegas recordam-no como “o maior filho da mãe que alguma vez existiu”. Por vezes, de lágrimas nos olhos. “Nunca chorei por Steve quando ele morreu”, recordou Elmer Valentine, chorando como um desalmado…

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Marshall Terrill afirma que “Steve McQueen era várias pessoas numa só. Honesto, desonesto, amável, odioso, modesto, presunçoso, inteligente, maduro, infantil… Era capaz de jurar amor eterno à esposa e ter um caso logo a seguir. Era forreta com os amigos, mas extremamente generoso com estranhos. Falava sobre os perigos das drogas, mas não conseguia evitá-las. Os paradoxos sempre me fascinaram e Steve McQueen era o derradeiro paradoxo”.

Terrill, autor de um autêntico tratado sobre McQueen, quis escrever um livro sobre o ator negligenciado debaixo da capa do rebelde.

steve mcqueen (50)As diversas biografias publicadas desde a sua morte incluem memórias da ex-mulher, Neile Adams, estudos de fãs, e todas documentam o seu lado negro. Mas acabam por se render às evidências: McQueen tornou-se um ícone cultural porque era igual a si mesmo. Havia sensibilidade debaixo da fachada.

Robert Relyea, o produtor de Le Mans (1971), passeava com Steve em França, em busca de locais onde filmar, quando descobriram um recinto de carrinhos de choque na pequena vila de Richelieu. Steve chamou seis miúdos de rua. Formaram equipas, e o ator deu 50 dólares ao dono. “Isto totalizou oito carrinhos”, diz Relyea. “Andámos nos carrinhos de choque a noite inteira, durante seis horas!”

Terence Steven McQueen nasceu em Beach Grove, no Indiana, em 1930, e passou parte da infância num reformatório, a California Junior Boys Republic, depois de ser abandonado pelos pais. Viveu com a mãe, durante algumas fases. “Lembro-me de o ver, uma tarde inteira, com as malas feitas, à espera que a mãe o viesse buscar, mas ela nunca apareceu”, recorda um responsável da instituição. McQueen conheceu diversos padrastos pouco simpáticos e cenas de pancadaria doméstica constante. A um deles, teve de dizer, “se me voltas a pôr as mãos em cima, dou cabo de ti”.

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Foi incorporado nos Marines, onde esteve vários anos, sendo despromovido de cabo a soldado algumas vezes, devido ao seu comportamento desordeiro. Passou mais de um mês na cadeia, antes de ser desmobilizado. Em 1952, fez uma audição no Actors Studio, de Lee Strasberg. Das duas mil pessoas que tentaram ser admitidas nesse ano, apenas McQueen e Martin Landau foram aceites. O aspirante estreou-se na Broadway, em 1955, com a peça A Hatful of Rain.

AJUSTE DE CONTAS

steve mcqueen (17)Anos mais tarde, depois de casar com Neile Adams, partiu em busca do pai. Na altura, já era uma estrela de cinema e queria dizer-lhe “consegui safar-me e tu não prestas”. Quando encontrou finalmente a casa do pai, a viúva deste revelou-lhe que o pai morrera recentemente: “Ele costumava ver o Wanted: Dead or Alive. E dizia, ‘às vezes, pergunto-me se este miúdo não será o meu filho…” McQueen veio embora e “conduziu calado o tempo todo, era uma grande frustração para ele”, recorda Neile. O ator tinha razões para se sentir revoltado e negligenciado. No entanto, quando a mãe morreu, compareceu no funeral e foi a única vez que alguém o viu chorar em público.

Durante a sua vida, Steve McQueen deu grandes somas a instituições de caridade. Preocupava-se com crianças sem lar e agia com discrição, através de intermediários. Só depois da sua morte se soube que dera milhões de dólares para ajudar os desfavorecidos.

Na época em que era o ator mais bem pago do mundo, uma instituição de solidariedade convidou diversas celebridades para um evento de angariação de fundos. Nenhuma apareceu, “a não ser Steve, que chegou na sua motorizada, perfeitamente descontraído. Isso tocou-nos bastante”.

Ao longo da vida, McQueen revisitava a Boys Republic. Os rapazes ficavam admirados ao vê-lo chegar e sentar-se no chão, de pernas cruzadas, para “os olhar de baixo para cima”, como dizia. Perguntava-lhes como corriam as coisas e aconselhava-os: “É difícil estar aqui. Mas acreditem que podem safar-se lá fora.” Ouvia os problemas dos miúdos, conseguia realmente conversar com eles e, no Natal, enviava sempre presentes.

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COMPROMISSO COM A REALIDADE

Uma das suas características principais era o desdém pelas astúcias e estratagemas do mundo do cinema; numa palavra, a “bullshit”. Ganhou tanto desprezo pelo meio que se desligou totalmente de Hollywood, reconhecendo que só fazia filmes por dinheiro e que se estava marimbando para as festas e para a hipocrisia. Recusou ofertas milionárias e papéis que foram posteriormente aceites por Clint Eastwood ou Martin Sheen, como sucedeu em Dirty Harry e Apocalypse Now. McQueen rejeitou também protagonizar The French Connection (1971), One Flew Over the Cuckoo’s Nest (1975) e Close Encounters of the Third Kind (1977).

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Alguns críticos afirmam que McQueen era uma estrela de cinema e não um ator. De facto, tinha por hábito reduzir os seus diálogos ao mínimo, baseando-se na expressão, na presença e sobretudo nos atos. “Não confundam movimento com ação”, disse Hemingway. McQueen adaptou o lema ao grande ecrã.

The Sand Pebbles (1966) foi a sua única nomeação para um Óscar. Em Papillon (1973), contracenou com Dustin Hoffman, uma das melhores interpretações da sua carreira. McQueen era mais experiente e deu um conselho ao colega quando este se viu atrapalhado com o papel: “Ouve, Dusty, contém-te. Não precisas de fazer tanto alarido. Livra-te disso. Mantém as coisas simples.” Em 1980, Hoffman admitiu que McQueen estava certo. O ator aconselhou Dustin a ter cuidado com as armadilhas fáceis da droga. “Não é da tua conta”, respondeu Hoffman. De facto, uma vez que McQueen bebia cerveja e fumava marijuana como um louco, não era grande exemplo.

Hoffman sobre McQueen em Papillon.
Hoffman sobre McQueen em Papillon. “Ele não só devia ter sido nomeado para o Óscar, ele devia ter ganho!”

Numa das cenas mais memoráveis do filme, ‘Papillon’ tem de pedir auxílio numa ilha de leprosos. Quando entra na cabana onde estes se encontram, o chefe pergunta-lhe, “gostas de charutos?” “Sim, quando os arranjo.” “Experimenta este”, diz o leproso. ‘Papillon’ pega no charuto e solta umas baforadas. “Como sabias que tenho lepra seca, que não é contagiosa?” “Não sabia”, responde ‘Papillon’. McQueen clássico.

O talento de Dustin Hoffman fez com que Steve desse o melhor de si para não ser ofuscado. Os dois atores encaravam-se com suspeita, já que se enquadravam em categorias diferentes: A estrela e o ator metódico. Mas Hoffman foi nomeado para o Óscar e ficou estupefacto quando McQueen foi esquecido: “Acho que o Steve devia ter sido nomeado e, mais do que isso, devia ter ganho!”, disse à imprensa.

No excelente Yang-Tsé em Chamas (1966) com Candice Bergen: A sua única nomeação para um Óscar.
No excelente Yang-Tsé em Chamas (1966) com Candice Bergen: A sua única nomeação para um Óscar.

No entanto, McQueen foi nomeado para o Globo de Ouro. Quando lhe telefonaram a dar-lhe a notícia, respondeu, “sinto-me muito honrado, é maravilhoso. Podem mandar-mo pelo correio, se ganhar?” “Não, tem de estar presente.” De acordo com Pat Johnson, “Steve não gostava das coisas ‘periféricas’ que rodeavam a sua profissão, os prémios e o glamour.

Nesse ano, Robert Redford foi o escolhido. Os problemas com as nomeações também derivavam do facto de “os colegas não gostarem dele”, reflete Phil Parslow. “Não necessariamente aqueles com quem trabalhava, mas os atores, de modo geral. Era competitivo. ‘Roubava’ filmes deliberadamente. Andou com as mulheres de muitos atores. Tinha tudo o que eles não tinham. Semeava invejas. Foi simplesmente ridículo, Steve não ter ganho nada por Papillon.”

RIVALIDADES

The Great Escape (1963).
The Great Escape (1963).

Os amigos e colaboradores concordam que McQueen tinha, por vezes, um feitio insuportável. Abusou do álcool e das drogas e não conseguia ser fiel ao matrimónio. Mas manteve a amizade com a primeira mulher, Neile Adams, até ao fim da vida. Neile entendia-o, mesmo quando este vinha com a conversa, “não significa nada. Não me contenho, querida”. Quando a esposa não aguentou, pediu o divórcio. Hoje, recorda-o sem rancores. Chad McQueen, o filho, reconhece que o pai não estava muito presente, mas sempre o tratou bem, “já que decidira que os filhos não teriam a infância dele”.

O seu grande competidor era Paul Newman, com quem contracenou em The Towering Inferno (1974). O modo como os nomes surgiriam no cartaz gerou tantas discussões – ambos queriam aparecer primeiro – que foi adotada a solução de colocar os nomes lado a lado, um ligeiramente acima do outro. Só então McQueen concordou. Outro aspeto curioso foi o facto de inicialmente lhe terem proposto o papel de Newman, o do arquiteto. “Não, quero antes o do bombeiro”, disse McQueen. A ex-mulher, Neile, retorquiu, “mas, Steve, o bombeiro só entra a meio do filme, é um papel mais pequeno!” “Não interessa.”

McQueen sabia que as pessoas se identificariam mais com aquele papel e estava certo. E já tinha experiência. Anteriormente, num dia em que entrava nos estúdios, viu um incêndio na porta ao lado e juntou-se aos bombeiros. Os produtores deitavam as mãos à cabeça, alegando os problemas com a seguradora que tais atitudes por parte de um ator implicavam. Mas McQueen era direto. “Que raio havia de fazer? Podia ajudar, não podia? Estava ali, não estava?”

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Outro rival era Bruce Lee, que lhe deu lições de artes marciais e lhe tinha uma inveja terrível. A ambição de Lee era ser o “Steve McQueen asiático”.

Quando Lee alcançou algum sucesso, escreveu uma carta altiva a McQueen: “Vês, sou mais famoso do que tu!” Steve enviou a Bruce Lee uma foto autografada, dizendo, “para Bruce, o meu fã número um”. A resposta foi um telefonema histérico de Bruce Lee, com o seu inglês macarrónico: “Steve, I kill you, I kill you!”

O PIOR DOS SETE

The Magnificent Seven (1960) contou com um elenco de futuras estrelas – Charles Bronson, James Coburn, Eli Wallach e Robert Vaughn – todas a tentar o protagonismo. A vedeta, Yul Brynner, teve alguns problemas, já que os atores tentavam roubar as cenas. McQueen era o pior. Não conseguia carregar simplesmente uma espingarda, tinha de agitar os cartuchos, tirar o chapéu, olhar para o céu e fitar o coprotagonista, Brynner, que, em primeiro plano, já fumegava.

Brynner explodiu, dizendo aos produtores que estava farto. McQueen respondeu com um “quero lá saber do tipo. Sou meio surdo de um ouvido, sou disléxico, já não me fizeram nada que ele me possa fazer”.

Steve com
Steve com “Done Fadeway”, perdão, Faye Dunaway…

O aclamado Norman Jewison trabalhou com McQueen duas vezes, em The Cincinnati Kid (1965) e The Thomas Crown Affair (1968). Neste último, McQueen queria o papel de aristocrata, mas Jewison recusou. “Nem pensar, Steve, não consegues fazer de aristocrata.” O ator insistiu tanto que convenceu o realizador a dar-lhe uma oportunidade. Steve contracenou com Faye Dunaway, a quem chamava, pelas costas, “Done Fadeway” (esquecida, acabada). “Steve tinha cá um feitio…”, relembra Jewison com humor. Mas o realizador sabia lidar com a estrela.

“A certa altura, demos-lhe um buggy, para uma cena em que ‘Thomas Crown’ acelera pela praia fora. É claro que Steve acelerou com o buggy pelas dunas e pela beira-mar… Pregou um susto dos diabos a Faye! Mas era mesmo deste tipo de coisas que ele gostava”, ri-se Norman Jewison.

MCQUEEN PERSEGUE MCQUEEN

Durante a rodagem de The Great Escape, Steve chegava sempre atrasado. “Mais atrasados chegavam os carros da polícia que o perseguiam diariamente”, recorda o realizador John Sturges, “apareciam alguns minutos depois, para lhe passarem a multa por excesso de velocidade. Tivemos de lhe dizer: ‘Steve, não podes conduzir pelo meio de galinhas, nem podes sair da estrada e voltar a entrar, para fazer uma ultrapassagem…’”

James Coburn, o realizador John Sturges, Steve e Charles Bronson no set de The Great Escape.
James Coburn, o realizador John Sturges, Steve e Charles Bronson no set de The Great Escape.

McQueen batalhou para ampliar a sua personagem (Virgil Hilts), incluindo uma corrida de motorizadas em que é perseguido pelos motociclistas nazis. “John”, disse ao realizador, “tenho uma ideia que pode animar isto…” No entanto, nas cenas que em que ‘Hilts’ é perseguido pelos alemães, John Sturges deparou-se com um problema: McQueen conduzia muito mais rápido do que os motociclistas alemães. A solução foi deixar Steve conduzir ele próprio, enquanto ‘Hilts’. Depois, equipava-se com o capacete e uniforme do exército alemão e integrava as tropas. Devido à astúcia da montagem, não se percebe que Steve McQueen persegue Steve McQueen. Executou todas as cenas de fuga, mas o famoso salto por cima da barreira de arame farpado foi executado pelo duplo Bud Ekins, já que a seguradora não permitiu tal risco.

Quentin Tarantino afirma, entusiasmado, que é “o filme de três horas mais curto” que já viu. “E há aquela personagem fantástica, ‘Virgil Hilts’… parece que passa o filme todo à espera da oportunidade para fugir! E estamos todos com ele, quando foge.” Na realidade, Steve fugiu inadvertidamente à morte em 1969, a noite em que Charles Manson assassinou Sharon Tate e mais três pessoas, em casa de Roman Polanski. McQueen era amigo de Tate e combinara jantar com ela, mas, à última hora, desmarcou o encontro. Teria sido a quinta vítima de Manson.

FENÓMENO CULTURAL

The Cincinnati Kid (1965).
The Cincinnati Kid (1965).

Os seus posters não têm uma aura revivalista: A morte de McQueen não foi um mistério como a de Marilyn Monroe, nem um acidente brutal como a de James Dean. Morreu aos 50 anos, depois de uma batalha contra o cancro do pulmão.

O ator deu origem a um fenómeno. Filmes, séries de TV e canções aludem ao seu entusiasmo pela vida e à sua “coolness”. Artistas tão diferentes como os Prefab Sprout ou Sheryl Crow prestaram-lhe homenagem. Os Sprout deram o nome dele a um álbum em 1985, e Crow editou um single chamado «Steve McQueen». A canção de Crow refere as estrelas pop de hoje “que mais parecem atrizes pornográficas”, e lamenta a ausência da autenticidade de McQueen, “de heróis que partiram estrada fora para não regressar”.

McQueen foi também a estrela de vários filmes publicitários da Ford, já que a sua imagem é indissociável do Mustang que conduziu na irrepetível perseguição de Bullitt, em 1968. Graças aos truques da montagem, Steve surgiu a conduzir o novo modelo da Ford, como se nem tivessem passado 40 anos.

Em 2000, McQueen adquiriu estatuto de filósofo, no filme, The Tao of Steve. Participava regularmente em corridas de motos e automóveis, tendo partido um pé numa delas. Quando foi convidado para a seguinte, não recusou, participando com o pé engessado, cheio de dores, e acabando a prova num dos primeiros lugares, entre profissionais do meio automobilístico que ficaram a admirá-lo. “Ele não é só uma estrela com a mania…” “Correr é viver. Tudo o que acontece, antes ou depois, é apenas uma espera.” Esta frase de Le Mans expressa a paixão que McQueen sentia pelas competições. Pensou seriamente em desistir do cinema para se dedicar às corridas.

Verificando a sua moto.
Verificando a sua moto.

A Prisvideo (via Studio Canal e Universal) lançou há poucos anos, em Portugal, a lendária série Procura-se Morto ou Vivo em packs de nove discos. Infelizmente, não editou a terceira temporada. O trabalho desenvolvido pela Studio Canal, a nível de extras e material bónus, não admira, se considerarmos a popularidade do ator e da série em França, algo que ainda hoje se mantém.

OS DIAS DE MCQUEEN

Apesar de mulherengo incurável, tinha o seu código. Contracenou com Natalie Wood em Love with the Proper Stranger (1963). Wood tinha por hábito conquistar todas as coestrelas com quem trabalhava, mas McQueen resistiu já que era amigo do marido de Wood, Robert Wagner. (Anos mais tarde, porém, terá compensado a oportunidade perdida.) A grande paixão de McQueen, contudo, foi Ali MacGraw, que conheceu durante a rodagem de The Getaway, de Sam Peckinpah, em 1972. A banda sonora de The Tao of Steve, relembra: “We’ll get away, just like McQueen did with MacGraw when they were in that groovy film by Peckinpah.”

McQueen não cedeu aos avanços de Natalie Wood por ser amigo do seu marido, Robert Wagner. A situação originou um respeito mútuo.
McQueen não cedeu aos avanços de Natalie Wood por ser amigo do seu marido, Robert Wagner. A situação originou um respeito mútuo.

Os últimos capítulos da sua vida são amargos. McQueen perdeu a batalha contra uma forma rara de cancro do pulmão, provocada pela exposição ao amianto. Os últimos meses foram dramáticos. Escondeu a doença, até que admitiu numa entrevista gravada em privado: “Isto deu-me cabo do coiro. Já não consigo fazer o que gostava de fazer. Mas confio em Deus.” Tentou todo o tipo de terapias alternativas. Quem o viu nos últimos tempos, espanta-se com o modo como o cancro lhe minou o corpo. Os olhos azuis estavam acinzentados. Deu tudo por tudo para sobreviver. Faleceu vítima de ataque cardíaco, depois de uma operação, numa clínica em Juarez, no México. Um fotojornalista tirou fotos de um cadáver irreconhecível. As suas cinzas foram espalhadas sobre o Oceano Pacífico.

Ao volante do Ford Mustang que nunca conseguiu adquirir.
Ao volante do Ford Mustang que nunca conseguiu adquirir.

Fica a memória de um homem que reuniu uma coleção de mais de 100 motos e automóveis raros, aviões e brinquedos. Em 1984, a coleção foi leiloada, atingindo valores astronómicos, já que Steve McQueen fazia de questão de ficar com os automóveis e motos dos filmes em que participava. Mas o único que não conseguiu ter foi o mais famoso de todos: O Ford Mustang de Bullitt.

A pequena comunidade de Slater, no Missouri, a terra natal de Steve durante os primeiros 10 anos da sua vida, também o celebra desde 2007. Foi lá que o seu tio Claude, um agricultor, o educou.

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Slater comemora o “Steve McQueen Day”. Steve nunca esqueceu as suas raízes e apreciaria a modéstia da celebração. O “king of cool” continua vivo, afinal.

Steve McQueen deu a sua última entrevista a um estudante de liceu, Richard Kraus, durante as filmagens de The Hunter, em 1980, o seu derradeiro filme. Sobre a experiência, Kraus diz:

“Ele tornou-me a sua prioridade naquele momento. Foi muito respeitoso. Eu era só um estudante a trabalhar para o jornal do liceu, tentando entrevistar uma grande estrela. Tive muita lata. Primeiro tentei falar com o seu duplo, Loren James, e perguntei se podia entrevistar McQueen e tirar-lhe a foto. Loren disse, ‘ele nunca deixa que o fotografem e nunca dá entrevistas’.”

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“Segui McQueen até uma das camionetas e perguntei-lhe se o podia entrevistar e tirar-lhe uma foto. Ele disse, ‘claro’, e que eu devia regressar à noite quando estivessem a filmar. Disse que eu devia arranjar questões para lhe colocar. Corri para casa e sentei-me com a minha família à mesa, a escrever perguntas. Depois, regressei à escola.”

“Encontrei-o a meio da filmagem de uma cena. Quando ela acabou, ele viu-me no meio da multidão e disse a todos que ia fazer uma pausa. Sentámo-nos numas escadas. O mais estranho foi que a equipa de filmagens formou um grupo à nossa volta, assistindo à entrevista, já que sabiam que ele nunca as dava.”

“Quando terminámos e eu me ia embora, ele perguntou se podia acrescentar mais. Eu não consegui acreditar que me ia embora sem lhe perguntar se tinha mais alguma coisa a dizer e, em todas as entrevistas que fiz desde então, incluí essa pergunta no fim. Ele pôs o braço em redor do meu ombro e acompanhou-me por um corredor, longe de tudo e todos, e falou-me sobre a importância de viver e aprender. Foi um momento especial. Ele podia falar com qualquer repórter do mundo e transmitir o que dizia a milhões de pessoas, mas preferiu falar com um estudante de liceu.”

steve mcqueen (23)A entrevista foi publicada no jornal do liceu de Richard Kraus, The Federalist, UCLA’s Daily Bruin, e em Portrait of an American Rebel.

KRAUS: Qual foi o seu primeiro filme?

MCQUEEN: [Antes de responder, alguém da equipa gritou, The Blob. Steve ficou embaraçado.] Não falemos disso. Não quero falar desse filme. Próxima pergunta.

KRAUS: Planeia fazer mais filmes num futuro próximo?

MCQUEEN: Isso é uma grande interrogação. Quando terminar este, gostava de me sentar a tomar o pequeno-almoço descansado, para variar, e logo se vê. Gostava de fazer um filme de ação/aventura. Gosto de variar. Gostei de Love with the Proper Stranger, uma comédia. Diverti-me a fazer The Sand Pebbles, que era essencialmente um drama, e também Bullitt, um filme de ação. Por isso, vês que gosto de papéis diferentes. O meu primeiro filme foi The Blob… Fiz papel de rapazinho. Foi quando tinha uns 25. Nasci tarde para o mundo da representação.

KRAUS: E qual foi o seu passado?

MCQUEEN: Meti-me em muitos sarilhos quando era miúdo, coisas a que, nos dias de hoje, ninguém ligaria. Roubos e bebida, mas drogas nem por isso, já que não eram consideradas coisas más na altura.

KRAUS: Ser famoso interfere na sua vida privada?

MCQUEEN: Sim. O mais importante é termos a nossa identidade, mas nunca descurarmos a obscuridade. É essa a chave, mas o dinheiro faz-me sentir bem.

KRAUS: Tem estado sob o olhar do público nos últimos anos, mas, mesmo quando fez filmes, não deu entrevistas. Porquê esse silêncio?

MCQUEEN: Para começar, não tenho nada a dizer. Além disso, acho que a imprensa é uma treta. Mas tenho um certo respeito pela juventude, e foi por isso que concordei em dar esta entrevista para o teu jornal.

KRAUS: Quando foi entrevistado pela última vez?

MCQUEEN: Uma década… quanto é isso? [Alguém diz ‘10 anos’.] Então foi há 10 anos. Já nem me lembro de quem me entrevistou.

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KRAUS: Que conselho daria a jovens que querem ser atores?

MCQUEEN: É muito “caro” ser ator, custa tempo e dinheiro. Não aconselho ninguém a sê-lo. Sou um dos que teve sorte. Mas se decidires ser ator, prepara-te para desistires de tudo o resto e viver uma vida sã. Isso inclui comer e dormir em condições. Deves “ver” a vida para que possas retirar-lhe as camadas e usá-la no teu trabalho. Aprender coisas na rua ajudou-me muito no meu trabalho. Não sou um ator “académico”. Tens de te preparar para seres rejeitado cinco vezes por dia. Aí entra a importância da família. A família dá-te a força de uma rocha.

KRAUS: Quem eram os seus ídolos de adolescente?

MCQUEEN: Bom, acho que não te lembrarias de nenhum deles.

KRAUS: Mas os professores também leem o nosso jornal.

MCQUEEN: Mas isto não é para os professores. É para os alunos.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Belén diz:

    Fantástico artículo. Muy completo. Enhorabuena. No sé si he entendido bien, pero ¿el caballo de Steve en la serie “Wanted dead or alive” se llamaba Ringo? Creo que Tessari veía esta serie…
    Y nuevas fotos con la moto que no había visto. Este hombre es una fuente inagotable.

    1. Hola, Belén. Sí, en la serie, lo caballo se llamaba “Ringo”. Quizás fue una inspiración para Tessari… Pensé que tenías todas las fotos de Steve y su moto… Gracias!

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