Grandes solos de guitarra: Mark Knopfler, «Sultans of Swing»

Contexto: Álbum de estreia dos Dire Straits, 1978. Knopfler escreveu esta canção numa guitarra acústica ao estilo de Bob Dylan, depois de ter visto uma banda a tocar num pub. É a história impressionista de um grupo de músicos que toca por divertimento numa sexta-feira à noite, em Londres; inclui personagens como “Harry” e “Guitar George”. Knopfler era, na altura, professor, pelo que esta vinheta lhe chamou a atenção: Não pretendia fazer parte de uma banda deste tipo, mas sim, seguir a carreira musical.

mark knopfler dire straits (8)

“Estremecemos nas trevas, chove no parque, mas entretanto… a sul do rio paramos e não pensamos em mais nada…” Quando Knopfler compra uma Fender Stratocaster, altera a melodia mas mantém a letra. Adota os acordes de Del Shannon em «Runaway». Desenvolve uma técnica irónica, contrastando o lirismo na guitarra com um estilo vocal “adequado”. Ao ouvir Live at the Regal, de B.B. King, apercebe-se de que a guitarra pode ser um complemento da voz e decide tentar a sua própria versão desta abordagem.

Em 1978, no meio do boom do punk rock, «Sultans» foi uma pedrada no charco, visto que ninguém tocava neste estilo. Mas qual? Com influências dos blues e de JJ Cale, Knopfler criou algo que ainda hoje é referido como “estilo”. Frase comum: “Se pusermos muitas guitarras nesta gravação, parece Dire Straits”, criticou alguém. Pois, mas qual é esse Estilo?

É imediatamente identificável. Knopfler segue as escalas ortodoxas dos acordes, não se deixando limitar nem intimidar por elas. É uma guitarra límpida, com alguma compressão e uma tonalidade líquida. As notas não são subidas meio-tom, mas 1/3. Há um uso sincopado das double e triple stops – conjunção de duas ou três notas em uníssono, para criar uma afirmação – repare-se no riff constante que pontua o tema. Não se pode dizer que é country, rock ou blues, especificamente. É o tal “estilo Dire Straits”, por vezes tão renegado por ser tão despido de artifícios.

mark knopfler dire straits (30)

Situação real: Um eletricista que nos vem compor o quadro a casa. “Este tipo que tem aí a tocar… dedos de ouro. Conheço-o logo.” Nem sabe o apelido húngaro, e o nome da banda pode não lhe dizer nada. Mas o som é imediatamente cativante. Apela a todas sensibilidades. Ora, isto é algo raro, digno de Gershwin. E podemos identificar facilmente um tema de Chopin, mas o intérprete é mais difícil.

O primeiro solo de «Sultans of Swing» é um intermezzo com uso criativo de arpeggios. O segundo (e famoso) solo está longe da pirotecnia ao estilo de Van Halen. Mas a sobreposição dos acordes às notas resulta na perfeição, embora não seja uma equação complicada. É, ainda assim, matemática, e uma questão de contexto.

John Illsley, Mark, Pick Withers e David Knopfler, o quarteto que gravou o lendário «Sultans».
John Illsley, Mark, Pick Withers e David Knopfler, o quarteto que gravou o lendário «Sultans».

No mesmo álbum, «Down to the Waterline» é um tema de execução mais difícil e de maior complexidade, mas não é mais imediatamente identificável do que o solo sincopado de Knopfler com três acordes como pano de fundo, que todos reconhecem em «Sultans of Swing».

O mérito do compositor foi a criação de uma paleta. Havia muito mais a dizer… Neste caso, trata-se apenas de um guitarrista com apelido de pronúncia difícil, uma ideia que se afigura fácil e algo a transmitir. Parte tudo daqui. O génio, isto é.

David Furtado

Faixa original com apenas a guitarra e a voz:

Anúncios

2 Comments Add yours

  1. Roberto Hubner diz:

    Sultans of swing foi a primeira musica da minha vida!Eu tinha apenas 6 anos de idade.Ainda hoje, muitos que nem sabem que sou fan, comentam que essa musica nao envelhece, parece que foi composta a pouco tempo.Realmente, quando uma criança ouve uma musica, logo percebe que ela e antiga, mas Sultans soa frresca, parece sempre nova.E o tal “estilo Dire Straits”!!!!

    1. WilsonApolinário diz:

      Verdade cara! A unicidade do estilo faz com que a musica não envelheça. Há, também o fato de que outras bandas tenham se agrupado num estilo rotulado de rock, rock pesado, metal, etc. , cujo estilo não se desenvolveu, continuou na mesmice de acordes mais barulhentos do que melódicos. Envelheceram e se esgotaram. Mas sobrevivem aos gostos de muitos, ainda.
      Mark além de criativo sempre se renovou. É meu ídolo. A vida seria muito chata sem suas canções.

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s