William S. Burroughs: “El Hombre Invisible”

O rosto de Lee, e toda a sua pessoa, pareciam, à primeira vista, totalmente anónimos. Ele aparentava ser um agente do FBI, ninguém em concreto. Mas a ausência de ornamentos, de qualquer coisa remotamente pitoresca ou barroca, distinguia e definia Lee, pelo que, ao segundo olhar, não o esquecíamos.

«Os Diários de Lee», 1953.

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O homem para quem a palavra era um vírus, nasceu a 5 de fevereiro de 1914, em St. Louis, Missouri, na família de um industrial abastado (o seu avô era o inventor da máquina de calcular Burroughs). Em 1936, formou-se em Literatura Inglesa em Harvard e viveu em Chicago e Nova Iorque. Embora tivesse um rendimento mensal de 200 dólares, proporcionado pelos pais, passou vários anos a trabalhar em diversas profissões, tais como exterminador de baratas, operário fabril e copywriter publicitário.

william burroughs david furtado (5)Em 1943, Burroughs conheceu as figuras chave da Geração Beat, Jack Kerouac e Allen Ginsberg, em Nova Iorque, por intermédio de Lucien Carr, e impressionou-os com a sua erudição, humor irónico e atitude reservada.

Sendo mais velho, assumiu o papel de mentor, encorajando Kerouac e Ginsberg nas suas tentativas de escrever ficção e poesia. Embora tivesse colaborado na escrita de um romance policial com Kerouac, Burroughs não se via como escritor, e a sua procura de identidade conduziu-o deliberadamente a uma vida criminosa.

Tornou-se viciado em drogas, em 1944, uma experiência que se tornou central na sua obra e na sua persona pública. Em 1947, começou a viver com Joan Vollmer. Joan era viciada em benzedrina, e o casal mudou-se para New Orleans, para o Texas e finalmente para a Cidade do México, onde se podia obter drogas com maior facilidade.

A Geração Beat dava os primeiros passos e Kerouac ainda não tinha publicado o emblemático On the Road, um livro com um longo historial de rejeições. Entretanto, Burroughs também escrevera um livro beat, com uma prosa seca e lacónica. Começara a trabalhar em Junky em março de 1950, seguindo uma rotina diária, que incluía injeções de morfina. Cerca de um ano depois, enviou o manuscrito a Lucien Carr, em Nova Iorque. Segundo o autor James Campbell:

“Poucos editores estariam dispostos a apreciar uma obra como esta, “repleta de drogas, armas, sexo dúbio, desrespeito pela lei e por todos os valores sociais. Numa perspetiva comercial, o romance de Burroughs nem sequer tinha a vantagem do sensacionalismo barato. Não pretendia ser identificado como um livro da Geração Beat, ou como um diagnóstico da patologia do pós-guerra. Não tinha nenhum do romantismo irrefletido e vagabundo de Kerouac.”

Em Setembro de 1951, Burroughs matou acidentalmente Joan Vollmer, durante uma festa desregrada em que alguém sugeriu uma brincadeira género Guilherme Tell – Joan colocou um copo na cabeça e Burroughs alvejou-a na têmpora. Acusado de negligência criminosa, Burroughs foi libertado sob caução. Mais tarde, afirmou que a morte de Joan lhe deu a motivação literária que sempre lhe faltara, e escrever passou a ser uma tentativa permanente de libertação.

A  notícia da morte de Joan Vollmer.
A notícia da morte de Joan Vollmer.

Allen Ginsberg, que na época atuava como agente de Burroughs e Kerouac, conseguiu que Junkie (como se intitulava o manuscrito) fosse publicado numa edição de bolso, de ficção policial barata, os pulp books. A obra foi editada em maio de 1953, com uma capa demasiado romanesca para o seu conteúdo, e com o pseudónimo “William Lee”. (Burroughs não queria que os pais o identificassem como o autor de um livro tão escandaloso.) Para equilibrar a balança, a Ace Books optou por uma edição dupla, um formato comum, na época: Junkie surgia acompanhado de Narcotics Agent de Maurice Helbrandt: as memórias de um agente da polícia.

A capa original, ao estilo pulp fiction.
A capa original, ao estilo pulp fiction.

Outra particularidade era o texto de apresentação, que também dava uma ideia errónea da obra: “William Lee é um toxicodependente inveterado e sem arrependimento. Conta-nos, nas suas próprias palavras, como foi um fugitivo; como foi diagnosticado de paranoico esquizofrénico, relata-nos a sua total ausência de valores morais. Mas… percebemos que se tratava de um documento que poderia prevenir o público para a ameaça da droga, de uma forma mais eficiente do que qualquer texto alguma vez publicado.”

O editor inseriu notas de rodapé, com o intuito de “proteger o leitor”, nas quais se dizia que o autor se distanciava “de factos medicamente comprovados para justificar os seus atos”. Notas como, “esta passagem contradiz as autoridades médicas” ou “esta afirmação é um boato”, abundavam ao longo do texto. Na edição, era também incluído um glossário de jive talk e da linguagem da subcultura dos junkies. O editor pediu a Burroughs que escrevesse um prólogo autobiográfico, explicando como é que um licenciado em Harvard se tornara toxicodependente. Só no final dos anos 70, a obra viria a ser publicada na versão integral, incluindo passagens previamente censuradas.

Na época, isto não pareceu incomodar Burroughs. Comentou que a obra de Helbrandt não era “tão má como esperava” e disse a Ginsberg que se estava “marimbando para os prefácios, explicações e desculpas” que os editores incluíssem no volume.

Tendo em conta o clima antidroga da América do pós-guerra, é notável que a obra tenha sido publicada. Um ano depois, Junky já vendera mais de 113 mil cópias, número bastante respeitável para a época. Durante muito tempo, foi um livro de culto, hoje é um clássico.

Junky é mais do que um relato autobiográfico da toxicodependência de Burroughs. Embora lembre, por vezes, o estilo dos romances policiais de Raymond Chandler, o romance é uma espécie de sequela de You Can’t Win de Jack Black, o livro favorito de Burroughs durante a infância.

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Ao enveredar pelas drogas, Burroughs foi admitido numa sociedade marginal que não era, afinal de contas, pior do que a chamada “sociedade normal”. No entender do biógrafo Ted Morgan, “os viciados eram umas tristes figuras, roubando, pedinchando crédito, sofrendo de apatia, mas os cidadãos da sociedade convencional não eram melhores: informadores, polícias corruptos, médicos hipócritas. Ao escrever que experimentou drogas por curiosidade e acabou viciado, Burroughs oculta o verdadeiro motivo, a sua atração por uma sociedade de proscritos, sendo o uso do junk um modo de lhe garantir a entrada”. Sob este ponto de vista, o junk ajudou-o a ganhar a aceitação que nunca tivera.

Depois da morte de Joan Vollmer, Burroughs viajou até à América do Sul, em busca de uma droga: o yage. As suas cartas para Ginsberg descreviam as experiências em cidades, selvas e montanhas do Equador e do Peru, e foram mais tarde compiladas em The Yage Letters (1963). Abandonou a América do Sul e mudou-se para Tânger, onde podia viver sem grandes despesas e obter as drogas de que necessitava.

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Em fevereiro de 1957, Jack Kerouac visitou-o em Tânger, onde Burroughs levava uma vida solitária, numa reclusão quase total. Aperfeiçoara a arte de passar despercebido, e os miúdos da rua chamavam-lhe “El Hombre Invisible”.

Kerouac começou a datilografar as centenas de páginas manuscritas em que Burroughs estivera a trabalhar, e que se tornariam numa obra para a qual o próprio Kerouac sugeriu o título – o famoso (ou infame) Naked Lunch.

Burroughs continuou a trabalhar no livro até à sua publicação, em 1959. Em Tânger, a sua dependência aumentara, e as verbas familiares esgotaram-se. Partiu para Londres, onde se sujeitou a uma desintoxicação.

william burroughs david furtado (4)Durante este período, foram publicados The Soft Machine (1961), The Ticket That Exploded (1962) e Nova Express (1964). Em 1965, depois de viver algum tempo em Paris, mudou-se para Londres, onde permaneceu durante oito anos, após o que regressou a Nova Iorque. Uma década depois, mudou-se para Lawrence, no Kansas, onde viveu e trabalhou até à sua morte, em 1997.

O estilo de Burroughs é uma fusão invulgar da autobiografia, da sátira, do grotesco e, nos seus últimos trabalhos, inclui elementos específicos do western, da ficção científica e das histórias policiais; além da técnica experimental “cut-up, fold-in” – a montagem dos elementos do texto de uma forma mais ou menos aleatória, tal como a perceção sensorial.

Autor da trilogia Cities of the Red Night, Place of Dead Roads e The Western Lands, William Burroughs é uma das três figuras dominantes da Geração Beat, a par de Kerouac e Ginsberg, e a sua influência não abrange apenas o mundo william burroughs david furtado (1)literário, mas também a música e o cinema. David Cronenberg filmou a versão possível de Naked Lunche, em Blade Runner, Ridley Scott aproveitou o título e a atmosfera de uma das suas obras. Na música, Burroughs influenciou grupos como os Velvet Underground e os Rolling Stones, e músicos como Laurie Anderson, Patti Smith e Lou Reed, além de ter inspirado o movimento punk e de ser o autor de vários termos que se tornaram comuns, tal como a expressão “heavy metal”.

A 18 de maio de 1983, Burroughs era aceite pelo sistema: foi nomeado membro da American Academy and Institute for Arts and Letters. No entanto, comentou: “Há 20 anos, estas pessoas diziam que eu devia estar na cadeia. Agora, dizem que eu pertenço ao clube delas. Nessa altura, não lhes dava ouvidos e agora também não o faço.”

William Burroughs sempre foi um fora-da-lei: esteve preso, matou a mulher, foi toxicodependente, passou a maior parte da vida exilado dos Estados Unidos, era um homossexual assumido numa altura em que homossexualidade era um delito criminal. E, no entanto, tornou-se numa das figuras mais influentes do século XX, com o seu chapéu e gabardina, impecavelmente vestido, como um detetive literário determinado em expor os sistemas de controlo e a hipocrisia dos valores sociais.

David Furtado

(Nota: Este artigo é adaptado do prefácio da minha tradução de Junky.)

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