A Última Traição de Martin Scorsese

Willem DafoeO filme seguinte do realizador seria The King of Comedy (1983). Tal como sucedera em Raging Bull, Robert De Niro foi o mais interessado no projeto. Martin Scorsese ambicionava filmar The Last Temptation of Christ, em que o ator representaria um controverso messias, à mercê das tentações terrenas. Em vez disso, cedeu e realizou um filme que não queria.

Martin Scorsese adquirira os direitos do romance de Nikos Kazantzakis, Paul Schrader já trabalhava no argumento e a Paramount financiá-lo-ia. Mas De Niro recusou o papel, já que não partilhava do complexo de culpa religioso de Scorsese. Em vez disso, disse ao cineasta que queria fazer uma comédia, atiçado pela crítica do realizador Mike Nichols, quando ambos estiveram envolvidos no projeto Bogart Slept Here. Nichols alegou que De Niro “não tinha piada”. “Diferendos criativos” afastaram tanto Nichols como De Niro. (O filme foi lançado com o título The Goodbye Girl, em 1977, com Richard Dreyfuss a vencer o Óscar de Melhor Ator.)

Robert De Niro, empolgado com o Óscar de Raging Bull, achava que superaria facilmente o desafio. Já que The King of Comedy se desenrola no meio televisivo, Scorsese sugeriu que filmassem nesse estilo. Era uma resposta aos críticos que haviam elogiado a “beleza” dos filmes anteriores do realizador, dizendo que certas imagens se poderiam emoldurar e pendurar na parede. Contudo, o seu diretor de fotografia habitual, Michael Chapman, discordou desta opção, sendo substituído por Fred Schuler.

A ideia do argumento ocorreu ao crítico de cinema Paul D. Zimmerman, 10 anos antes, ao assistir a um programa de TV em que David Susskind entrevistava caçadores de autógrafos sobre o modo como perseguiam sistematicamente as estrelas. Zimmerman ficou fascinado com a suposta intimidade com que estes indivíduos falavam dos atores. “‘Oh, é muito difícil trabalhar com a Barbra.’ Isto significava, no fundo, que Barbra Streisand os tinha mandado à merda.” Assim, Zimmerman escreveu a história de ‘Rupert Pupkin’ um aspirante a cómico, obcecado com o apresentador do talk-show mais visto na América, ‘Jerry Langford’, chegando a raptá-lo para ter os seus 15 minutos de fama.

Jerry Lewis, Robert De Niro e Martin Scorsese.
Jerry Lewis, Robert De Niro e Martin Scorsese.

O ator passou algum tempo em clubes de stand-up comedy, inspirou-se nos caça-autógrafos, em Robin Williams e John Belushi. Ao passear na Broadway, viu um manequim numa montra, vestido de maneira garrida. Comprou as peças da indumentária, deixou crescer o bigode e penteou-se de tal modo que parecia usar uma peruca. Como disse um crítico do Guardian, Mark Morris, “ao olhar para o seu bigode, percebíamos que se tratava de um homem que se achava engraçado mas não tinha piada e, além do mais, estava convencido que seria uma tragédia se o mundo ficasse privado dos seus dotes cómicos”.

O realizador pretendia Johnny Carson para o papel de ‘Jerry Langford’, mas este recusou. Depois de pensar em Frank Sinatra, Dean Martin e Orson Welles, optou por Jerry Lewis, uma escolha inesperada. A cena inicial resume, desde logo, o conceito da obra.

‘Masha’, uma histérica obcecada por celebridades, atira-se ao carro de ‘Langford’ e os créditos passam sobre a imagem fixa das mãos de ‘Masha’ coladas ao vidro, num plano filmado dentro do carro. Aqui Scorsese sublinha que, ainda que os fãs invadam a privacidade de uma celebridade, permanecem isolados dela, até porque são fãs, acima de tudo. Este conceito e este início mostram o génio de Scorsese em ação. Infelizmente, o filme ainda mal começara.

“PORTAS FECHADAS”

Meryl Streep foi sugerida para o papel de ‘Masha’ por De Niro, e encontrou-se com Scorsese para discutirem o papel, mas tanto a atriz como o realizador concluíram que não seria grande ideia. Scorsese reviu a personagem, tornando-a ainda mais histérica, com caráter predador, à beira de um esgotamento nervoso, optando pela atriz e comediante Sandra Bernhard.

The King of Comedy 1

Provenientes de escolas de representação díspares, Jerry Lewis e Robert De Niro não se deram bem. Lewis comentaria: “De Niro obviamente nunca ouviu o conselho que Noël Coward dava aos atores: O seu trabalho é saber as deixas e não ir contra a mobília. Ele [De Niro] não conseguia abandonar o papel ao fim do dia de trabalho.” O ator mais jovem viu-se obrigado a abordar o personagem de maneira diferente, sem recorrer a maquilhagem e outros truques, pelo que o desempenho se torna forçado. Surgiram tiques que se tornariam em clichés, futuramente, como o enrugar da testa quando tenta ser sincero, o semicerrar dos olhos, o inclinar da cabeça, um modo incontido de gesticular. Nada disto era convincente. Muitos comentaram que, depois do apogeu de Raging Bull, De Niro entrara num inegável declínio.

de niro e scorsese

Durante grande parte da rodagem, Martin Scorsese confessa que “estava doente”. “Fisicamente, não me sentia pronto para aquilo. Nalguns dias, só chegava às 14:30.”

“Não sabia por que estava no set. Estamos lá porque os atores e as câmaras também estão, e temos de filmar. Para mim, tem de ser mais do que isto. Não podemos fazer filmes para os amigos, temos de nos cingir ao que queremos.”

Se interpretarmos esta última frase como uma referência indireta a Robert De Niro, percebemos por que razão passariam sete anos até que ambos voltassem a trabalhar juntos, depois de quatro colaborações em sete anos.

Até o próprio Roger Ebert – fã incondicional de Scorsese e, como tal, nem sempre prima pela objetividade ao falar sobre as suas obras – ficou desconcertado com The King of Comedy, definindo-o de modo certeiro: “Qual é o meu problema com este filme? É uma questão que evito. Não tem um ponto de entrada emocional. Todas as personagens são portas fechadas.”

De facto, embora não seja como o descalabro New York, New York, The King of Comedy demonstra algum cansaço da dupla De Niro/Scorsese. O conceito do filme é interessante, a realização é competente, mas o resultado não cumpre a promessa. O facto de De Niro não ter grande piada funciona a favor do filme, embora o ator pretendesse que o personagem tivesse um desfecho glorioso.

EM PILOTO AUTOMÁTICO

After Hours, de 1985, tratou-se de um projeto que não foi desenvolvido pessoalmente pelo realizador, já que este travava outro “combate”, batendo-se por realizar The Last Temptation of Christ, mas a Paramount, receando má publicidade, cancelou a produção um mês antes do início das filmagens, apesar de os cenários e guarda-roupa já terem sido preparados. Esta derrota provocou grande frustração. “A minha ideia, nessa altura, foi recuar, não ceder a histerias e tentar matar pessoas”, confessou Scorsese à sua amiga Mary Pat Kelly. “Por isso, o truque foi tentar fazer alguma coisa.” Depois de rejeitar inúmeros argumentos, aceitou After Hours. “Achei que seria interessante voltar atrás e ver se conseguia fazer tudo muito rápido. Um completo exercício de estilo. E mostrar-lhes que não me tinham quebrado o ânimo.”

No ano seguinte, realiza The Color of Money (A Cor do Dinheiro), uma sequela de The Hustler, o clássico de 1961, também protagonizado por Paul Newman. Trata-se da continuação da história de “Fast Eddie” Feslon, o ás do bilhar. Newman venceu o Óscar de Melhor Ator, a terceira vez que tal acontecia num filme do realizador, sem que este fosse perdido nem achado. Neste caso, é justificável. O desempenho de Paul Newman é excelente, bem como o de Mary Elizabeth Mastrantonio (nomeada para Melhor Atriz Secundária) mas a realização, apesar de competente, assemelha-se a um trabalho feito por encomenda. Foi um êxito comercial e permitiu a Scorsese convencer a Universal a apoiar o filme que tanto queria realizar, uma produção de apenas 6,5 milhões de dólares, filmada em Marrocos.

UM “DISCÍPULO” INTELIGENTE

Harvey Keitel (Judas).
Harvey Keitel (Judas).

Em 1988, Scorsese alcança finalmente o seu grande objetivo: realizar The Last Temptation of Christ, provocando enorme polémica. Na leitura de Roger Ebert, “o cristianismo ensina que Jesus era tanto Deus como homem. O facto de poder ser ambos em simultâneo é o mistério central da fé cristã e o assunto desta obra. Para ser completamente homem, Jesus teria de possuir todas as fraquezas humanas, de estar sujeito a todas as tentações – já que, enquanto homem, teria de possuir o dom mais penoso concedido por Deus, o livre-arbítrio. Enquanto filho de Deus, teria obviamente despertado toda a vilania de Satanás, e este filme analisa o modo como experimentou a tentação e a superou”.

O filme não foi um ataque ao cristianismo, mas, ao abordar crenças seculares de modo tão invulgar, Scorsese despoletou a ira da Igreja Católica, que o encarou como uma blasfémia. No entanto, desde Raging Bull, Scorsese não se dedicava de corpo e alma a um projeto. Apesar dos rumores de que queria Robert De Niro para protagonista, o cineasta escolheu Willem Dafoe, um ator excecional, recentemente nomeado para o Óscar em Platoon. E, para ‘Judas’, voltou a convidar Harvey Keitel, a mesma escolha na produção cancelada anos antes. O ator aceitou com agrado:

“Marty e eu passámos horas e horas, dias e dias, a discutir religião e teologia. Não eram apenas conversas sobre diálogos entre personagens ou sobre o histórico Judas. Discutimos aquilo em que acreditávamos, coisas que não sabíamos, mas que sentíamos. O nosso sangue estava no projeto. Achámos que tínhamos de nos dedicar completamente, pois foi isso que as pessoas tinham feito antes de nós, há milhares de anos – deram o seu sangue por estas crenças.”

Keitel leu o livro de Kazantzakis, o que o inspirou ainda mais, e confessou-se fascinado pela interpretação de Judas por parte de Kazantzakis, não a de um traidor, mas de alguém que facilitou a Cristo redimir os pecados da humanidade: “Não vejo Judas como malévolo”, disse o ator. Como sempre, Keitel deu tudo ao papel e ao projeto, de uma maneira quase filosófica: “Achei que íamos mudar o mundo, e fizemo-lo, de certa forma, no modo como as pessoas religiosas encaram a relação entre Judas e Jesus. Há mais, além do que é relatado sobre a forma como ele traiu Cristo, do que eu lera. As pessoas têm sido conduzidas por uma via estreita, semeada de preconceitos. Era importante fazer o filme para ajudar a criar uma ponte entre a cristandade e o judaísmo, e talvez ultrapassar os preconceitos existentes, porque se alimentam da frase ‘Judas traiu Cristo’.”

Um aspeto fulcral que atraiu Harvey Keitel desde logo foi “agitar os preconceitos das pessoas acerca deste homem, cujo nome se tornou sinónimo de traição. O meu desejo de interpretar Judas foi a minha repugnância e o meu desprezo pelos preconceitos. A noção de que alguns homens, mulheres e crianças serão julgados pelos contornos dos seus ossos enoja-me e enraivece-me”.

Segundo Keitel, “Kazantzakis via em Judas um patriota que acreditava na obra de Jesus e servia uma causa que ambos apoiavam e pela qual ambos dariam a vida. Judas estava revoltado pelas injustiças do seu tempo; a desigualdade entre ricos e pobres, a opressão da liberdade religiosa, a violação do seu povo. O que vi foi o espírito de um homem revoltando-se contra isso, disposto a dar a vida por isso”.

Martin Scorsese e Harvey Keitel conheciam-se há mais de 20 anos, mas o ator foi capaz de o surpreender e de o desestabilizar. No final da obra, quando Jesus morre na cruz, é acometido de uma fantasia, a sua última tentação. Vê como a sua vida teria sido muito mais fácil se fosse um simples homem que tivesse criado uma família. Neste “sonho” chega à velhice, mas é visitado por um igualmente envelhecido Judas, que o condena por ter traído os seus seguidores, ao não aceitar a morte na cruz para redimir a humanidade.

No dia antes de filmarem esta cena, Keitel fez um estranho pedido ao realizador: Quando ele filmasse Judas, e Cristo estivesse fora da cena, será que Scorsese se podia deitar no leito de Jesus, para que Keitel pudesse dirigir-lhe as falas?

O pedido incomodou Scorsese, que ponderou. Nessa noite, foi ao hotel de Keitel e perguntou-lhe frontalmente:

“O que queres que eu faça, ao certo, amanhã?”
“Quero apenas que te estendas e que sejas Jesus para mim.”
“Mas o que vais fazer?!”
“Vou simplesmente ficar ali.”
“Vais simplesmente ficar ali?”
“Sim”, respondeu Keitel, “não me vou mexer”.
“OK, OK, OK, está bem”, respondeu o realizador, enervado.

No filme, embora não se veja, obviamente, é a Scorsese que Keitel fala. Assim, o “discípulo” e o “verdadeiro crente” dedica um discurso de traição a Scorsese. O realizador não lhe dava um papel há mais de 10 anos e, para muitos, desperdiçara o talento em filmes como After Hours e… A Cor do Dinheiro.

(continua…)

David Furtado

Advertisements

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s