Martin Scorsese e O Touro Enraivecido: “Embora soubesse lutar, prefiro recitar”

Raging Bull 2O realizador marcou definitivamente os anos 70 com duas obras-primas, Mean Streets e Taxi Driver. Em 1980, fragilizado por um divórcio e pelo fracasso de New York, New York, Scorsese respondeu com o melhor filme da sua carreira: Raging Bull.

“Não sou um realizador de Hollywood, sou um realizador apesar de Hollywood.”

Embora Martin Scorsese odiasse boxe, assistiu a imensos combates, captando pormenores como o sangue a pingar das cordas, o que incorporou no filme. Também observou Robert De Niro a combater no ginásio da 14th Street, ainda que, por vezes, o castigo corporal que o ator sofria, o fizesse virar a cabeça. De Niro desceu do ringue e perguntou-lhe:

“Viste?”

“Sim, sim…”, respondeu Scorsese.

“Faço isto por ti, sabes?”, respondeu o ator antes de voltar ao combate.

A biografia filmada de Jake LaMotta, que contou com a colaboração deste, deprimiu-o. Quando acabou de ver o filme, perguntou à mulher: “Eu era mesmo assim?” “Não. Eras pior.” O pugilista recorda que Martin Scorsese não queria realizá-lo, embora já tivesse lido o guião há muito tempo. “Talvez por estar a sair de uma fase terrível, um divórcio e tudo isso, ele achasse que podia filmar a história da minha vida. E foi preciso que o Bob [De Niro] o convencesse.”

A editora Thelma Schoonmaker, que já trabalhara com Scorsese em Who’s That Knocking at My Door (1967), Woodstock (1970), em que ambos foram editores, além de Street Scenes (1970), regressou em 1980, como responsável pela montagem de Raging Bull, pelo qual ganhou um Óscar. O outro foi para Robert De Niro. Scorsese não venceu o galardão, mas Schoonmaker afirma: “O meu Óscar é dele. Foi ele que desenhou os storyboards de tudo aquilo, de todas as cenas de combate, o que essencialmente me deu o prémio.” A editora seria, a partir de então, uma peça-chave nos filmes do cineasta.

raging bull scorsese (1)

Segundo Schoonmaker, por esta altura, “Bob e Marty comunicavam com o olhar. ‘´Vamos filmar outro take.’ ‘OK.’ Não era preciso falarem. E Bob teve uma paciência incrível:

‘O que tenho de fazer?’ ‘Vais levar um soco na têmpora esquerda.’ E faziam isso 15 minutos. ‘E agora?’ ‘Vais levar um soco na têmpora direita.’ [Risos] Não havia um punho dentro da luva, mas De Niro tinha de girar a cabeça sem parar, a todas as velocidades possíveis…”

O PODER DO SILÊNCIO

A editora explica que “todas as cenas de combate foram filmadas de maneira diferente, para refletir o estado de espírito de Jake LaMotta. Quando ele vence, tudo é em campo aberto, nítido. E o Marty quis pôr-nos dentro do ringue com ele. Quando ele perde devido a um pormenor técnico, a abordagem é muito diversa; filmou como se fossem as profundezas do Inferno; o árbitro surge desfocado, parece que saem labaredas do ringue; a certa altura, nem vemos a cara de Bob, ofuscada por uma corda. É tudo vago, desnorteado… no combate com o seu grande opositor, Sugar Ray Robinson, há vários efeitos sonoros bizarros, como o rugir de um animal selvagem, um leão ou um tigre. E foi aqui que o responsável pelo som, Frank Warner, nos ensinou o poder do silêncio.”

De Niro treinou com o próprio Jake LaMotta, combatendo com ele cerca de mil rounds em seis meses. “Não tenho a mínima dúvida de que ele poderia ter lutado profissionalmente depois daquilo”, assegura LaMotta, que treinou Robert, juntamente com o mesmo treinador que preparara Stallone para os filmes de Rocky. LaMotta era exigente: “Cabeça para cima!”, gritava. “Queres que as pessoas pensem que eu era um idiota?” Acabaram os dois com olhos negros. O pugilista comentaria, anos depois: “Nunca vi nada assim. E depois engordou 30 quilos… Queria saber a marca dos charutos que eu fumava. E eu disse, ‘que diferença faz, fuma um qualquer!’ Mas ele insistia. Falou comigo horas e horas, fez-me um milhão de perguntas, tentando psicanalisar-me, e conseguiu.”

Raging Bull 5Thelma Schoonmaker concorda, recordando a cena em que LaMotta começa a suspeitar que o irmão dorme com a esposa. “Andas a foder a minha mulher?” Joe Pesci reage com espanto: “Eu? Mas sou teu irmão!” Isto porque Scorsese sussurrou a De Niro, “diz ‘mãe’, em vez de ‘mulher’”, pelo que a reação de Pesci foi genuína. Os dois atores eram exímios no improviso, e esta colaboração resultou em vários diálogos mantidos no filme. Algumas vezes, quando De Niro não estava a ser filmado, dava deixas a Pesci, e este repetia-as.

O marido de Thelma Schoonmaker, o realizador Michael Powell, idolatrava Mean Streets e Taxi Driver, pelo que quis visitar os sítios onde tinham sido filmados. Numa destas excursões, foram ao ginásio onde De Niro treinava. E foi Powell que disse: “Parece-me tudo ótimo, menos as luvas. São vermelhas.” Decidiu-se que o filme seria filmado a preto e branco, apesar de tal ser um perigo para as bilheteiras.

Mas o realizador decidiu arriscar. Na sua autobiografia, Jake LaMotta já pressagiara a opção: “Às vezes, à noite, quando olho para trás, sinto que estou a ver um filme a preto e branco sobre mim mesmo.” Por outro lado, devido às quantidades de sangue a esguichar, a brutalidade seria atenuada.

“TEMOS DE FILMAR ISTO AGORA”

Quando De Niro se preparava para o papel, visitou repetidamente Vickie LaMotta, a segunda ex-mulher do pugilista; conversaram sobre a vida de ambos e assistiram a velhos filmes caseiros. Depois, o ator e o realizador refugiaram-se nas Caraíbas para reverem o script de Paul Schrader. No dia em que as filmagens começaram, o argumentista enviou-lhes um telegrama: “O Jake fez as coisas à maneira dele, eu fiz à minha maneira, agora, vocês fazem-no à vossa.”

raging bull scorsese (2)

Tanto De Niro como Scorsese tinham terminado relacionamentos recentemente, e as ex-mulheres, tal como as de LaMotta, acusaram-nos de negligência emocional e física, mais um paralelismo. As cenas em que o pugilista se masturba na cadeia foram substituídas por uma, bastante intensa, em que De Niro bate com a cabeça na parede, gritando “porquê? Porquê? Porquê?”, algo que vira LaMotta fazer durante as longas conversas entre ambos.

A United Artists não estava convencida de que o guião revisto de Raging Bull obtivesse grandes lucros, apesar do orçamento de 10 milhões de dólares. “Ainda era um sério risco comercial”, comentou o executivo Steven Bach.

“Contudo, as trevas em que Jake LaMotta habitava não eram as de um inseto, mas as de um homem perdido nos mistérios e na dor da sua própria natureza violenta.”

O filme contava ainda com os “auspícios” de The Deer Hunter, também protagonizado por De Niro e aceite pelo público. Rocky, cujos direitos pertenciam aos mesmos produtores, Robert Chartoff e Irwin Winkler, era um sucesso garantido, pelo que a United Artists financiou outro filme sobre um pugilista, que, no ponto de vista dos executivos, seria um fracasso.

Foi Robert De Niro que reparou em Joe Pesci ao ver um filme na TV, The Death Collector, sugerindo o ator a Scorsese. Pesci já não filmava há oito anos e, quando o chamaram, respondeu: “Não quero voltar a representar se não me derem um papel em que prove que sou bom.” De Niro explicou-lhe: “É um bom papel, não um grande papel.” Pesci aceitou e seria nomeado para Melhor Ator Secundário.

Dúzias de atrizes queriam interpretar ‘Vickie’, mas foi Joe Pesci a sugerir Cathy Moriarty, de 17 anos, por tê-la visto num retrato, na parede de uma discoteca de New Jersey. A jovem já visitara o restaurante de Pesci, que se afirmou seduzido pela sua voz rouca e sexualidade prematura. A inexperiente Moriarty nunca ouvira sequer falar de Robert De Niro, mas, quando a viram, ator e realizador souberam que era ideal.

De Niro nunca ficaria satisfeito ao engordar ligeiramente para o papel. Por isso, mal terminaram as cenas de boxe, propôs-se a recuperar os sete quilos que perdera ao entrar em forma, para representar o jovem ‘Jake’. E mais 15 ou 20. Seria um triunfo de força de vontade. Aos 36 anos, reconheceu que só teria mais dois para sujeitar o corpo a tais extremos. “Temos de filmar isto agora”, disse a Martin Scorsese.

DE 65 A 98 QUILOS

It reminds me of the movies Marty made about New York
Those frank and brutal movies that are so brilliant
‘Fool For Love’ meet ‘The Raging Bull’
They’re very inspirational, I love the things they do

Lou Reed, «Doin’ The Things That We Want To»

Para tornar o filme mais realista, o cineasta colocou o diretor de fotografia Michael Chapman dentro do ringue em todos os combates, filmando o olhar fulminante dos oponentes. Baseando-se num livro de dança, Chapman, o realizador e o ator coreografaram todos os movimentos como passos de um bailado, com diagramas de pés e setas no ringue. Entre takes, De Niro pediu que lhe arranjassem um saco de areia, no qual batia incessantemente para não se desconcentrar.

Raging Bull 3

As cinco semanas previstas para a rodagem dos combates tornaram-se em 10, já que filmar desta maneira era moroso.

Uma das virtudes de Scorsese não era a paciência, pelo que este se retirava para a sua caravana, onde ficava a ouvir os The Clash. De repente, saía e gritava, “já está quase no fim o lado A do disco, Michael, o que estás a fazer?” Pouco depois, partia cadeiras contra a parede.

Mas foi Chapman a assegurar-se de que os atores não se magoavam. Isto não impediu que Joe Pesci partisse uma costela numa cena em que treina De Niro.

Seguiu-se uma pausa, em que De Niro e Harvey Keitel viajaram pela Europa. Foi nesta altura que o ator insuflou, comendo tudo o que via, para as sequências do início e do final de Raging Bull. Keitel, um fanático pela forma física, olhava, divertido, enquanto o amigo devorava massas e bebia cerveja. Quando regressou aos EUA, o ator passara de 65 quilos de peso a… 98.

A transformação de De Niro.
A transformação de De Niro.

As duas últimas semanas de rodagem foram um suplício; o ator não conseguia atar os sapatos, dobrar-se, tinha os pés doridos, pressão sanguínea alta e dificuldades em respirar. Até a sua voz se transformara num murmúrio rouco. A sua enteada olhava-o com incredulidade e repugnância, evitando que o padrasto conhecesse os seus amigos. Foi o apogeu da carreira de Robert De Niro, a sua maior transformação, e os colegas comentaram que seria impossível superar aquilo.

Thelma Schoonmaker ri-se, ao rever uma cena em que Joe Pesci diz a De Niro para tirar a barriga da frente da TV: “Poucos atores se deixavam filmar assim. Reparem na linguagem corporal dele, no olhar… ele transformou-se totalmente em Jake LaMotta.”

Desta vez, tal como em Mean Streets, Scorsese usou, para banda sonora, temas conhecidos e não recorreu a um compositor específico. O tema mais famoso do filme, que surge no genérico, é Cavalleria Rusticana: Intermezzo (1890) de Pietro Mascagni, obra que costumava ouvir com o seu pai enquanto pequeno. Este início, em que LaMotta dança em câmara lenta num ringue vazio, é justamente a cena preferida de Scorsese, em todos os seus filmes.

O realizador, empenhadíssimo, supervisionou a montagem como um fanático. A certa altura, a marca do whisky Cutty Sark não estava suficientemente nítida, o que levou à remontagem da bobina inteira. O produtor, Winkler, queixou-se que “ele editava a película centímetro a centímetro”. Scorsese ripostou: “Se não me deixares mudar, tiro o meu nome do filme.” Só entregou o produto final quatro dias antes da estreia.

“Os críticos não sabiam o que fazer do filme”, relembra Schoonmaker. “Lemos as primeiras e terríveis críticas na Variety e no The Hollywood Reporter e eles avisavam os distribuidores para que o recusassem. Não foi um bom dia para nós!” Um crítico comenta: Na altura, ninguém pensou que se tornaria num clássico, já que vai contra tudo o que Hollywood faz hoje. Não é um filme feel good.”

Scorsese “perdeu” como Melhor Realizador, em 1980.

Um crítico salientou, há cerca de 10 anos: “Foi um elogio para ele, não lhe darem o Óscar. Ele é demasiado ‘bad boy’. Se lho derem, um dia, será tipo, ‘palmada nas costas’.”

Tal sucederia com The Departed em 2007, uma obra a anos-luz da genialidade de Raging Bull. Com O Touro Enraivecido, Scorsese desperta em nós empatia por um homem nada simpático, talvez porque haja características dele em nós mesmos, aspetos que não nos agradam tanto.

Numa cena, sozinho no camarim, um brilhante De Niro ensaia:

“Embora eu não seja nenhum Olivier / Preferia… e embora não seja nenhum Olivier / Se ele lutasse com Sugar Ray / Diria / Que importa mais a peça que o ringue. / Por isso dêem-me um… palco / Onde este touro se possa enraivecer. / E embora eu soubesse lutar / Prefiro recitar /… É isso o entretenimento.”

(continua…)

David Furtado

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