Lou Reed faz 70 anos: A Metáfora da Cidade Dividida

Lou Reed faz hoje 70 anos. É uma lenda por vários motivos, um dos músicos mais influentes de sempre. Uma forma de o homenagear será contar a história de um dos seus álbuns mais marcantes, Berlin, de 1973. Hoje é considerada uma das obras mais dramáticas da história do rock, um ciclo de canções sobre sexo, drogas, solidão e violência psicológica. Mas, na época, Berlin foi recebido com espanto e desaprovação.

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Quero ser o maior escritor desta terra de Deus… quero fazer rock ‘n’ roll que esteja à altura d’ Os Irmãos Karamazov.

“Tinha de tirar Berlin do meu sistema ou explodia. Foi muito doloroso. Não quero passar por aquilo outra vez”, disse Reed na altura. Tendo em conta o teor do álbum, não espanta. Ouvi-lo é o mesmo que olhar para um abismo sem pestanejar. Foi talvez a experiência mais arriscada de toda a sua carreira.

Em 1973, Lou Reed já era uma lenda e, quando anunciou que ia fazer um disco com o produtor Bob Ezrin (Alice Cooper, Pink Floyd), esperou-se um registo comercial. No entanto, até o reputado crítico Lester Bangs (grande fã de Reed) o descreveu como “o álbum mais deprimente de sempre”.

O poster original da RCA, que não soube como promover o álbum.
O poster original da RCA, que não soube como promover o álbum.

Berlin foi gravado em Londres e Nova Iorque, no Verão de 1973, com a participação de diversos virtuosos: Steve Hunter, Dick Wagner, Steve Winwood e Bob Ezrin, bem como os respeitados Randy e Michael Brecker, nos saxofones. Os baixistas foram dois dos melhores de sempre: Tony Levin e Jack Bruce, dos Cream, que apenas ia colaborar numa faixa, mas gostou tanto que ficou até ao final das sessões.

“Todos disseram, ‘não o faças, Lou, estás a pedi-las…’ Por isso, fizemo-lo. E os resultados foram muito estranhos”.

“BERLIN ÉS TU”

 Reed nunca visitara Berlim, mas gostou do simbolismo da cidade, achando que refletia a temática das canções, a história de duas pessoas numa relação destrutiva.

“Berlim é uma cidade dividida [em 1973], e sucedem por lá coisas potencialmente violentas. Não é a América, embora alguns personagens pareçam americanos. Pareceu-me simplesmente melhor do que chamar-lhe ‘Omaha’.”

O compositor explica que o trabalho “foca a violência, tanto mental como física. O mais importante é a relação entre as duas personagens centrais. O narrador expressa o seu ponto de vista, que não é particularmente agradável”. Já muito se especulou acerca do disco. Nico, a antiga vocalista dos Velvet Underground, revelou que Reed lhe escreveu cartas, dizendo, “Berlin és tu”.

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No início dos anos 70, a popularidade nas tabelas de vendas pertencia a James Taylor ou aos Yes. De repente, surgiu um trabalho de alguém que queria fazer discos do seu próprio tempo, e não da época em que se inseria. Depois do único grande sucesso mainstream da carreira de Reed, «Walk on the Wild Side», (do álbum Transformer), esperar-se-ia algo nessa linha.

Bob Ezrin afirma que “Lou poderia ter enveredado por outros ‘Transformers’, mas preferiu fazer uma obra que mergulha na intimidade do autor, de forma memorável”. Ezrin, que fez uma produção excecional, também mergulhou nas trevas do álbum e, no final das gravações, sofreu um esgotamento nervoso; dirigiu-se a um hospital e pediu que o internassem. Antes disso, porém, conferenciou com Reed, e concluíram que talvez fosse melhor fazerem um favor ao mundo e esconderem aquela ‘coisa’ que tinham gravado. A companhia discográfica, por seu lado, ficou “horrorizada”. Como alguém disse, “não é propriamente o Cats”…

lou reed berlin returns to stage

Na época, a Rolling Stone sublinhou que “Berlin é amargo e não faz qualquer concessão. É um dos melhores discos conceptuais de sempre. Não tem nada de ‘bonito’, não possui moralismos de nenhuma ordem. Reed é um dos poucos artistas sérios a fazer música, hoje em dia, e seria de esperar que as pessoas parassem de lhe dar sermões”.

 

BELEZA NAS TREVAS

lou reed berlin regressa (4)Berlin não ficou datado. É um álbum orquestral e melodioso, dotado de um minimalismo sombrio; uma demonstração do talento de Reed. Começa com o piano de Allan Macmillan, numa atmosfera à Kurt Weill, e muda de ritmo com «Lady Day», uma evocação de Billie Holiday. No terceiro tema, «Men of Good Fortune», Reed cita Dostoiévski. “Os homens afortunados muitas vezes provocam a queda de impérios; enquanto homens de começos humildes muitas vezes não podem fazer nada. E eu? Simplesmente não quero saber.” O cinismo aumenta em «How do You Think it Feels?», com Reed a perguntar, “como achas que nos sentimos depois de estarmos a pé cinco dias, por termos medo de dormir?”

O álbum não dá grandes hipóteses de descontração. Em «Oh, Jim», Reed canta, num tom sarcástico, “os teus amigos da onça dão-te comprimidos, dizem que é bom para te curar as maleitas”. «Caroline Says II» é um tema suave e acústico, quase romântico, o que contrasta com a letra… “Caroline diz, levantando-se do chão, podes bater-me à vontade, mas já não te amo.” Na canção seguinte, «The Kids», Reed canta: “Vão-lhe tirar os miúdos porque disseram que não era boa mãe. A cabra miserável não conseguia dizer não a ninguém.” Neste tema, um coro infantil grita pela mãe. Terão dito às crianças que nunca mais iriam ver as suas próprias mães, o que explica os gritos arrepiantes (embora Bob Ezrin desminta este rumor). Em «The Bed», a protagonista corta os pulsos “numa noite estranha e agoirenta”. O narrador, empedernido, não se comove.

A elegância de «Sad Song» explicita o conceito do álbum e os objetivos de Reed ao longo da sua carreira: Tentar ver a beleza no meio das trevas.

A SEGUNDA DIGRESSÃO

34 anos depois, em 2007, Reed concretizou a ambição de realizar uma digressão mundial baseada no disco. O espetáculo foi recebido com entusiasmo em Nova Iorque, onde estreou, na Austrália e nalgumas das salas mais conceituadas da Europa. No ano seguinte, foi lançado um DVD que regista este momento histórico.

O produtor do disco, Bob Ezrin, e o cenógrafo Julian Schnabel juntaram-se a Lou Reed e a uma banda de 30 elementos, incluindo uma secção de cordas e outra de metais, além de um coro infantil. Sharon Jones e Antony Hegarty também participaram.

Numa entrevista dada nesta fase, o autor confessou: “Berlin é sobre ciúmes, raiva, humilhação. Todos passamos por problemas sérios com mulheres. A vida é assim. Mas espero nunca mais experimentar esse tipo de relação, essa cólera terrível.”

AS ALFINETADAS DE REED  

Conhecido pela sua frontalidade, por vezes, incómoda, Lou Reed acha que o rock “se tiver mais de três acordes, é jazz”. Mas não fica por aqui:

“Se amanhã Deus aparecesse e me perguntasse: ‘Queres ser presidente?’, eu responderia ‘não’. ‘Queres ser político?’ ‘Não.’ ‘Queres ser advogado?’ ‘Não.’ ‘O que queres fazer?’ ‘Quero tocar guitarra rítmica.’”

Nas notas de Metal Machine Music, um álbum de feedback, escreveu: “A paixão — o REALISMO — o realismo foi a chave. (…) A maioria não gostará disto e eu não vos censuro, de todo. (…) A minha semana é melhor que o vosso ano.”

As gravações de Berlin decorreram num ambiente pesado. Ezrin, que tinha 23 anos na altura, relembra: “Claro que as drogas rodearam o projeto, e muitos de nós abusaram.” Hoje, quando perguntam a Lou Reed o que recorda das sessões, este responde: “Nada.”

A meio da gravação, a mulher de Reed, Betty, tentou suicidar-se. “Arrasámo-nos psicologicamente nesse álbum”, diz Reed. O cantor fez a digressão original de Berlin completamente alcoolizado, drogado e intratável, tendo de sair do palco com taquicardia e espasmos, em pelo menos um concerto. Gritava aos roadies e destruía o equipamento.

"Não paguei bilhete, por isso... que se foda."
“Não paguei bilhete, por isso… que se foda.”

A digressão foi retratada em Rock and Roll Animal, editado meses depois de Berlin. Reed entrava em palco e alguém pedia um antigo êxito. A resposta era “shut the fuck up!”. Fez algo parecido no concerto de inauguração da Casa da Música, no Porto. Ao ver os convidados maçados na primeira fila, cruzou os braços e disse-lhes, com ar enfadado: “Não paguei o bilhete, não foi? Pois… Por isso, que se f…” Reed não aprecia públicos passivos e sem espírito crítico.

Nos anos 70, era, a par de Keith Richards, um dos músicos no topo da lista dos que poderiam morrer de overdose. A sua morte chegou a ser noticiada por uma agência. Felizmente, Reed abandonou o álcool e a droga há mais de 30 anos. Quando lhe perguntaram por que se dedicou ao Tai Chi Chuan, respondeu que era “melhor do que esvaziar uma garrafa de whisky em 20 minutos”. “Como vive em Nova Iorque?” “Cuidadosamente… como um porco-espinho a fazer amor.”

Se é verdade que um artista não pode dar ao público o que ele quer, correndo o risco de morrer enquanto artista e de extinguir a consciência do público, Reed provou-o. Foi pena que nenhuma das digressões tivesse passado por Portugal… para o cantor dar mais umas alfinetadas. Tal como disse a crítica Lisa Robinson, referindo-se a Lou: “Quando o rock se torna pretensioso e acomodado, aparece sempre alguém que lhe dá um pontapé no…”

David Furtado

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One Comment

  1. Lou Reed sempre será o melhor outsider da cultura rock ‘n’ roll. Fuck the system!!!

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