Óscares: Curiosidades e outras quantas indignidades

Agora que acabou a euforia dos Óscares, já podemos falar deles com alguma lucidez. Se fossemos enumerar todas as injustiças e indignidades dos Óscares, escreveríamos um tratado.

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George C. Scott: O primeiro ator a recusar um Óscar.

É impossível não dar os parabéns a Christopher Plummer, o autor do comentário da noite: “Só tens mais dois anos que eu, querido, onde estiveste a minha vida toda?” A competir com outro gigante, Max Von Sydow, Plummer finalmente ganhou um Óscar. Ainda há pouco tempo o vi em Inside Daisy Clover (curiosamente, uma crítica aos bastidores do studio system), onde o ator protagoniza uma cena sem cortes que revi umas quantas vezes, uma lição de representação. Já para não falar das dezenas de filmes em que entrou, sempre competente e intocável.

Intocável como Sean Connery, quando venceu a estatueta por Os Intocáveis. Convenhamos, foi outro Óscar de carreira. Jeff Bridges, idem. Até a própria Meryl Streep, se houvesse justiça nos Óscares, (e embora eu não a aprecie particularmente) já merecia, pelo menos, uns seis. Faz algum sentido ganhar três e ser nomeada para 17? Detém ainda o recorde nos Globos de Ouro: 26 nomeações e oito ganhos.

Christopher Plummer: "Onde esiveste toda a minha vida?..." Realmente...
Christopher Plummer: “Onde esiveste toda a minha vida?…” Realmente…

Ao ver Christopher Plummer, lembrei-me de Ennio Morricone, provavelmente o maior compositor de bandas sonoras de sempre, com temas tão evocativos que até fazem parte da nossa vida. Deram-lhe uma esmola em 2007: Um Óscar honorário, depois de apenas cinco nomeações. Compositor de 504 bandas sonoras? E ele aceitou-o das mãos de Clint Eastwood, falando em italiano e emocionado. Dá vontade de dizer, “mas a Academia está a gozar com o quê?”

Outro exemplo ridículo é Al Pacino. Desempenhou papéis inacreditáveis desde O Padrinho em 1972. Só 20 anos depois, o ‘Coronel Slade’, “oohh-ha”, lhe deu o galardão. Porque a Academia deve ter metido na cabeça que se tornaria absolutamente patética se não lhe desse nada. Passaram outros 20 anos desde o Óscar de Pacino. Este ano, foi nomeado para um Razzie. Faz sentido? Completamente. Apesar de, entre 1992 e 2012, as suas representações não serem tão emblemáticas… um Razzie?

O “MERECIDO” ÓSCAR

Uma estação televisiva fez várias peças, antes e depois dos Óscares. Deram esse trabalho a uma pessoa que não se fartou de repetir, “o merecido Óscar”. Repetia isto ad eternum. Passo a palavra a alguém que comentou essa mesma expressão…

Achas que merecias o Óscar por O Padrinho II?

Acho que deves pôr as ideias em ordem acerca disso de “merecer Óscares”. Estás algo equivocado…

Não é o facto de não o receberes que te irrita. Mas sim, o facto de outro o ganhar, é isso?

Quem o ganha, merece-o. Merece-o porquê? Temos de dizer, “se estes atores fossem médicos e eu tivesse de fazer uma operação ao coração, qual escolheria?” Assim, já conversamos.

Estas coisas preocupam-te?

Deixa que te diga, honestamente: Não me interessa. Estou-me nas tintas.

Quando comecei a trabalhar em jornalismo, falaram-me de algumas expressões a evitar: “Cenário dantesco”, “amálgama de ferros retorcidos”, “a bola não entrou por uma unha negra”, “ a grande maioria”, que já é grande, lógico. E agora, temos mais uma, “o merecido Óscar”.

Desde que Roberto Benigni fez um discurso espalhafatoso, os vencedores têm a mania de começar com histerias, aos berros… Aonde para a Halle Berry? Tanto espalhafato com o Monster’s Ball… Ganhou, ou melhor, “mereceu” o mesmo que Pacino.

Outra coisa que não entendi foi como premiaram um filme francês mudo. É Hollywood a querer imitar os galardões do cinema europeu. Os Óscares são uma farsa brutal, mas não admira que as pessoas se deixem levar pelo glamour, porque passam a semana a trabalhar, veem os hits do cinema e falam disso. 90 por cento dos portugueses fazem isso (os que têm trabalho). Têm lá tempo ou vontade para criar espírito crítico. É totalmente compreensível. Por isso, os Óscares são capa da imprensa cor-de-rosa por estes motivos. Charlize Theron faz pose no seu vestido… Versace?

A PORTA QUE NUNCA PINTARAM

Recuando aos anos 50. Havia uma porta de um magnata da MGM que estava gasta do lado de fora, onde tantos aspirantes a tinham empurrado. Ele gabava-se disso. Tanto que, quando alguém disse que a porta devia ser pintada, recusou-se: “É para que saibam a quantidade de gente que entrou aqui a pedir castings, e a meia dúzia que saiu com a minha aprovação.” Outro, mais interessado no fator carnal, fazia questão que todas as atrizes que entrassem em qualquer filme da MGM dormissem com ele. E há muitos nomes na IMDB, alguns famosos.

Marisa Tomei terá recebido um Óscar por "engano", o que não põe em causa o seu mérito. No fim de contas, Meryl Streep é recordista, ganhou três sem mérito. Porque é disso que se trata: Contas.
Marisa Tomei terá recebido um Óscar por “engano”, o que não põe em causa o seu mérito. No fim de contas, Meryl Streep é recordista, ganhou três sem mérito. Porque é disso que se trata: Contas.

O que dizer de Citizen Kane? Nomeado para nove, ganhou um. Em 1941, foi vaiado por metade da sala e aplaudido pela outra metade, e só venceu por Melhor Argumento Original, um sarcasmo da Academia, visto que a história se baseava no poderoso magnata William Randolph Hearst, que se encarregou pessoalmente de destruir a carreira de Welles.

A Dustin Hoffman perguntaram, em 1973, o que achava dos elogios que recebera por Papillon, e o ator saiu-se com esta: “Acho que Steve McQueen devia ter sido nomeado para Melhor Ator, e mais, devia ter ganho!” McQueen foi outro caso. Nomearam-no para o Óscar por The Sand Pebbles em 1966. Porquê? Porque a Academia, novamente, tinha de o mencionar, não o podia evitar. Uma vez telefonaram a McQueen, dizendo que o iam nomear para um prémio. Este respondeu. “São muito amáveis. Podem mandar pelo correio, caso ganhe?” Não ganhou nada, claro.

E o que dizer de Marisa Tomei? A meu ver, uma mulher deslumbrante e uma boa atriz. Quando venceu o Óscar de Melhor Atriz Secundária no papel de ‘Mona Lisa Vito’ em My Cousin Vinny (1992), correu o rumor de que Jack Palance lera o primeiro nome da lista em vez do nome correto. A Academia não admitiu nenhum lapso, mas ainda hoje ouvimos falar do “caso Marisa Tomei”. Esta mulheraça até podia ganhar 20 Óscares a fazer o pino que eu não me importava nada. E esteve muito bem em My Cousin Vinny com o seu sotaque de Brooklyn e grande expressividade. Interessará mesmo se Jack Palance se enganou?…

POR DETRÁS DA PASSADEIRA

E voltamos ao ponto de partida.

Há todo um trabalho promocional por detrás dos Óscares que não é divulgado. Há inúmeras festas, receções, o beija-mão a pessoas poderosas; os atores têm de lá estar e, não há expressão para isto em português, “work the room”. Têm de ser simpáticos, acessíveis, autopromover-se. Se assim não for, não há Óscar. Al Pacino viveu durante anos em Nova Iorque, recusando-se a ir para Los Angeles e a entrar neste esquema. Preferiu continuar com o autoclismo a verter num apartamento da Manhattan. Resultado: Dustin Hoffman e Robert De Niro embolsaram Óscares. Ele não.

De Niro venceu a estatueta de Melhor Ator Secundário por o Padrinho II. E Al Pacino não o merecia, nesse filme? Porquê? Quanto a mim, foi uma injustiça tenebrosa, que, felizmente, não deteve a carreira de Pacino, que nos daria personagens tão intensas como ‘Tony Montana’, de Scarface, papel que nem recebeu uma nomeação.

Entre tantos outros... Anthony Perkins. Nem nomeado foi por Psycho. Aliás, Alfred Hitchcock foi nomeado para CINCO Óscares e não ganhou um. O que dá a Meryl Streep o direito de ganhar três? $$$.
Entre tantos outros… Anthony Perkins. Nem nomeado foi por Psycho. Aliás, Alfred Hitchcock foi nomeado para CINCO Óscares e não ganhou um. O que dá a Meryl Streep o direito de ganhar três? $$$.

“Nem só de estatuetas se faz a festa, o vestido da Angelina Jolie…”, diziam nas notícias do dia. Se doassem o preço dessa tralha do Versace às crianças que morrem diariamente de fome em África, seria melhor, não? Podiam ir a qualquer loja de Beverly Hills alugar um trapo qualquer, ninguém notava. Estamos aqui a falar de arte ou de uma passadeira de carne? “The Meat Parade”, como disse George C. Scott, que também mandou o Óscar à fava pelo seu trabalho em Patton, indignado com o modo com que estes prémios destruíam carreiras. Vejo esta gente na passadeira vermelha, a fazer pose, e não sei o que uma passagem de modelos tem a ver com artistas ou atores.

Também Marlon Brando, outrora membro da Academia, a mandou passear com o Óscar por O Padrinho. Isto não impediu que fosse nomeado novamente em 1974 por Last Tango in Paris, pela… Academia.

Em 1965, Lee Marvin ganhou o Óscar por um papel que nem acho que seja o seu melhor, apesar de divertido. O discurso: “Metade disto pertence a um cavalo algures no Vale [San Fernando Valley]”. Causou grande celeuma pois nem agradeceu aos produtores, realizadores, colegas… Resposta de Marvin: “Queriam que fizesse o quê? Que agradecesse ao papá e à mamã?”

David Furtado

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