Carnival of Souls: Carnaval de Almas

Quando passam 50 anos do lançamento deste obra, e já que estamos na quadra adequada, lembrei-me de chamar a atenção para ela, até porque é um filme de culto, influente, mas praticamente desconhecido.

carnival of souls (1)

A primeira vez que ouvi falar em Carnival of Souls foi numa entrevista com a simpática Catriona MacColl, uma das divas de Lucio Fulci. A atriz falava dos seus filmes favoritos e revelou que tinha revisto recentemente esta obra de terror psicológico e mistério, género que lhe agrada mais que o cinema “gore”. (Estranha-se que tenha protagonizado as obras mais sanguinárias de Fulci.) Disse também que o remake de 1998 não presta (o que é verdade), embora lhe tenham posto o antetítulo de “Wes Craven apresenta”. Craven não teve qualquer envolvimento no remake, além de que a história foi completamente adulterada.

carnival of souls (3)Carnival of Souls influenciou George Romero – os seus zombies de Night of the Living Dead (1968) parecem parentes que caminharam sorrateiramente de uma obra para outra –; não passou despercebido a David Lynch ou Rod Serling, criador da série The Twilight Zone. Também Coppola parece ter visto a obra, já que uma cena de Apocalypse Now provém deste Carnival, o que não é necessariamente plágio.

Por último, M. Night Shyamalan, a meu ver, foi mais longe e pisou a linha entre homenagem e cópia. Pegou no conceito do filme ao realizar O Sexto Sentido, e o que muito se apontou de original nesta obra, partiu, afinal, de um filme obscuro, série B, de 1962.

carnival of souls (2)

Hoje, já não será tão obscuro. A legião de fãs desta pérola desconhecida aumentou com as exibições na TV, na versão teatral de 78 minutos. Depois de vaguear pelas sessões da meia-noite em cinemas independentes e de circular em cópias pirata durante décadas, o filme foi relançado em 1989, em Nova Iorque, obtendo uma nova legião de fãs. A Criterion editou, no ano seguinte, uma excelente edição especial de dois DVD, repleta de extras, incluindo a versão do realizador (com mais 5 minutos) e o filme obteve a notoriedade que há muito o iludia. O documentário nela incluído, chama-se apropriadamente The Film That Wouldn’t Die!

OS PESADELOS DE MARY

Já se disse também que a obra lembra Ingmar Bergman ou Jean Cocteau, no sentido em que não parece um filme americano, mas sim, europeu. Embora se note a influência de Psycho, lançado dois anos antes, há uma originalidade em Carnival of Souls que ainda hoje é inegável.

carnival of souls

É a história de uma jovem, ‘Mary’, (Candace Hilligoss) a única sobrevivente de um desastre de automóvel, quando este cai de uma ponte. Parte então para o Utah, onde aceita o trabalho como organista de uma igreja. Pelo caminho, avista um estranho edifício abandonado, que exerce em si uma estranha atração. Chegada à igreja e aceite o trabalho, ‘Mary’ entra também em contacto com o vizinho da hospedaria onde se aloja (um indivíduo repelente que não para de se atirar a ela) entre outras personagens. Uma delas é uma aparição estranha, de cara pintada de branco e olhar agoirento.

É então que ‘Mary’ começa a sentir-se cada vez mais desligada da realidade, entrando num mundo de pesadelo, que tanto pode ser interior como exterior. ‘Mary’ visita aquele estranho parque de diversões abandonado (algumas das melhores cenas do filme têm lugar aqui), sentindo uma estranha afinidade, e sempre com o estranho homem a surgir nas alturas mais inexplicáveis. O desfecho é uma “surpresa” inevitável.

O FILME QUE NÃO QUERIA MORRER

Herk Harvey (que nunca mais realizaria nenhum filme) teve a ideia para a obra quando passava de carro em Salt Lake City e avistou o Saltair Amusement Park, local que o arrepiou. Disse a um amigo, John Clifford, que trabalhava na mesma empresa cinematográfica, a Centron, para escrever um argumento baseado apenas nisso. Com uns ínfimos 30 mil dólares de orçamento, o próprio Herk Harvey interpretou o homem misterioso, o papel principal foi atribuído à desconhecida Candace Hilligoss, e os restantes atores foram contratados em Lawrence, Kansas, onde as filmagens decorreram durante apenas três semanas. Com tanta escassez de meios, até admira como conseguiram fazer Carnival of Souls. Depois de o distribuidor lhe cortar cerca de 5 minutos, foi lançado em drive-ins, nas então populares double bills, (juntamente com The Devil’s Messenger), fracassou e caiu no esquecimento.

O realizador Herk Harvey e Candace.
O realizador Herk Harvey e Candace.

Herk Harvey, formado em Teatro, voltou ao seu trabalho enquanto realizador de curtas-metragens educativas e industriais (realizou cerca de 400). Nos anos 70, o Saltair Amusement Park foi destruído por um incêndio. Os atores não singraram, mas o filme foi-se mantendo na memória da minoria que tinha assistido. Mas por que é hoje considerado um filme de culto?

Na minha opinião, muito se deve à atmosfera criada, que não é bem a que se esperaria de um filme série B dos anos 50 e 60. A fotografia é excelente. Como não havia dinheiro para efeitos especiais (e as técnicas eram rudimentares) a resposta foi a criatividade e truques óticos. A produção era quase amadora – o realizador teve de pagar 17 dólares pelos estragos na ponte, quando o carro cai ao rio. A música, totalmente composta por órgão, completa as imagens de modo perfeito.

A inexperiente Candace Hilligoss consegue também transmitir um sentimento de angústia e paranoia raramente visto neste tipo de obras. Poderia ter-se tornado numa “scream queen” deste tipo de produções, mas, inexplicavelmente, isso não sucedeu. A atriz confessou-se espantada com o revivalismo em 1989. “Abri o jornal no Metro, em Nova Iorque, e ali estava eu, na página central!”

O Saltair Amusement Park.
O Saltair Amusement Park.

Carnival of Souls sofre, ainda assim, de algum amadorismo. A montagem contém alguns cortes abruptos em que a imagem quase “salta”. Sidney Berger, no papel do engatatão de terceira, exagera um bocado, mas isto nem é bem uma crítica, já que a sua função é causar repugnância. Numa cena em que os cadáveres estão dentro do carro, no rio, um deles pode ver-se nitidamente a tremer de frio, isto porque a sequência, apesar de simples, demorou horas a concretizar. No início, o som não está sincronizado com a imagem, mas, como disse um crítico, até isso lhe dá uma aura de estranheza.

Vi filmes com orçamentos baixos, outros médios, outros altíssimos, mas nunca tinha visto nenhum como Carnival of Souls. Nota-se que não foi concebido para agradar a produtores nem públicos, é isso que também o distingue, até porque hoje sucede o inverso. Centenas de filmes de terror série B foram esquecidos; alguns porque seguiam fórmulas rotineiras, outros porque eram produtos de consumo imediato. Aqui parece que alguém teve ideias, reuniu algumas pessoas e criou um universo paralelo, uma espécie de cápsula que viajou pelo tempo e que, 50 anos depois, ainda surpreende. E isso não é nada fácil de conseguir.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s