Al Pacino: Um Dom Quixote em Hollywood

A minha filosofia? O homem é um pouco melhor e um pouco pior do que a sua reputação.

Para seu biógrafo, Al Pacino teria escolhido Dostoiévski, “embora ele não seja propriamente divertido”. Mas conheceu Larry Grobel em 1979. “Claro que, no início, desconfiei dele, já que era um jornalista que me vinha entrevistar e, até à data, eu nunca dera nenhuma entrevista. Quando li a entrevista que ele fizera a Marlon Brando, fiquei impressionado. Conhecendo o Marlon como eu conheço, se ele gostou de Larry e falou tão abertamente com ele… achei que também eu poderia falar.” E era altura. Em 1979, Pacino já deixara uma marca incomparável na história do cinema.

al pacino wandrin star

“Eu era realmente um ator das ruas, um cigano, sem casa nem dinheiro. Vivi em espeluncas, albergues e hotéis de segunda. Para mim, qualquer coisa que tivesse água corrente era um paraíso.”

Em 40 anos, só foram escritos dois livros sobre Al Pacino. A obra mais recente sobre o ator não é um relato biográfico, mas sim, um conjunto de entrevistas autorizadas, abrangendo o período 1979-2005. São conversas entre duas pessoas que se tornaram amigas. “O mais notável acerca do Larry foi que, no final da primeira entrevista, eu sabia mais sobre ele do que ele sobre mim. Ele interessa-se genuinamente pelas pessoas, por isso é tão bom escritor. Por qualquer razão, interessou-se por mim. Conhecemo-nos muito bem e perdoámo-nos um ao outro muitas vezes. Desculpei-lhe por ter escrito este livro. Espero que ele me perdoe por ter escrito o prefácio.”

Al Pacino entrou na consciência cultural ao interpretar ‘Michael’, o trágico herói da trilogia O Padrinho, um homem que se deixa levar pelo seu lado negro. Não se pode censurar ‘Michael Corleone’, mais do que ele se censura a si mesmo, e aí reside o génio de Pacino:

A complexidade dos papéis é a complexidade do homem. Grobel afirma que, ao longo dos anos, foi conhecendo o ator cada vez melhor e percebeu que todas as personagens que interpretou estavam dentro dele.

O realizador Garry Marshall acrescenta: “É estranho falar de vulnerabilidade e inocência em relação a alguém que interpretou alguns dos maiores assassinos do ecrã, mas ele é tão puro, honesto e artístico que lembra um pequeno Dom Quixote a caminhar por Hollywood.”

al pacino needle park
The Panic in Needle Park (1971).

Lawrence Grobel tinha duas imagens dele, antes de o conhecer: “Michael Corleone, é claro. Frio como gelo. A outra imagem era a de ‘Sonny Wortzik’, o assaltante inepto e de sexualidade confusa; o ladrão de bancos romântico com um sentido perverso de justiça.” Porém, o seu primeiro encontro com o ator não foi nada do que esperava. “Pareceu-me um homem tímido e cauteloso, enfadado por ser uma estrela. O seu apartamento consistia numa pequena cozinha com aspeto gasto, um quarto com a cama por fazer, uma casa de banho com a água do autoclismo a verter, e uma sala que parecia o palco de uma produção teatral sem dinheiro para os adereços. Eu conhecia pessoas pobres que viviam mais luxuosamente, por isso, simpatizei logo com aquele homem, cujas necessidades materiais eram obviamente escassas. Por toda a sala, viam-se cópias usadas de peças de Shakespeare e argumentos amontoados.”

Homem dedicado à sua arte, quase sempre foi avesso aos jogos de Hollywood e pagou o preço: Só em 1992 ganhou o Óscar que já era seu há mais de 20 anos. Muito mais do que um ator, Al Pacino é um artista.

INFÂNCIA DIFÍCIL

Alfredo James Pacino, filho único de Salvatore e Rose, nasceu no East Harlem, Nova Iorque, a 25 de Abril de 1940, passando a infância no South Bronx. Aos dois anos, os pais divorciaram-se e Al foi viver para o apartamento dos avós com a mãe. A sua alcunha era “o ator”, tal era o seu talento precoce, mas ambicionava ser jogador de basebol. Ainda assim, ingressou numa escola de arte teatral onde ensinavam o «Método», mas achou-o tão aborrecido que desistiu rapidamente.

Tinha 22 anos quando a mãe morreu, aos 43. Perdeu o avô um ano depois. Não viu o pai durante anos. Teve vários empregos; trabalhou num escritório, foi estafeta, vendedor de sapatos, supervisor de supermercado, ardina, engraxador e empregado de mudanças. Fez uma audição no Actors’ Studio de Lee Strasberg, mas foi rejeitado. Não desistiu e foi aceite quatro anos depois. Começou a entrar em diversas peças de teatro.

“Foi no palco que percebi, pela primeira vez, que conseguia ‘falar’. As personagens diziam coisas que eu nunca conseguira dizer; mas eram coisas que eu sempre quisera dizer.”

al pacino needle park 2Em 1968, venceu o prémio OBIE para melhor ator na peça The Indian Wants the Bronx. Arvin Brown viu o jovem Pacino a representar: “Ele tinha tanta violência dentro dele que despedaçou a linha mística que permite ao público sentir-se confortável. Pregou-me um susto de morte.” No ano seguinte, o ator conquista o seu primeiro Tony (o Óscar do teatro) pelo papel em Does the Tiger Wear a Necktie? na Broadway.

É atraído por Hollywood, recusando 12 propostas antes de se estrear em Pânico em Needle Park, em que interpreta um toxicodependente. Coppola viu e disse, “é este o ator que quero para o meu próximo filme”. Esse filme era O Padrinho. O estúdio não gostou, já que Pacino era praticamente desconhecido, e Coppola teve de se impor: “Se ele sai, eu também saio.”

Pacino relata: “ Não me queriam lá. Era difícil trabalhar. Mal acabava de filmar, ouviam-se risos parvos.” O Padrinho foi filmado fora de sequência, pelo que Pacino teve de interpretar cenas em estados psicológicos totalmente díspares, em dias seguidos. Mas um dos aspetos mais elogiados no filme é justamente a progressão da sua personagem – de filho pródigo regressado da guerra, que não se quer envolver nos assuntos da família, ao novo Don.

A seguir, Pacino decide fazer O Espantalho, (1973), uma das suas piores experiências. O filme não foi um sucesso artístico ou comercial. Deu-se mal com Gene Hackman, que tentava constantemente assumir o protagonismo. Pacino respondeu com o fulgurante Serpico, no mesmo ano, a sua terceira nomeação para os Óscares. Durante a cerimónia, estava nervosíssimo: “Pensei que demorava uma hora. Perguntei a Jeff Bridges, ‘está quase a acabar?’ ‘Não’, disse ele, ‘demora umas três horas’. Comecei a tomar Valiuns como se fossem rebuçados. Quando chegou a altura do ‘melhor ator’, estava tão arrasado dos nervos que comecei a pensar, ‘não consigo sequer levantar-me da cadeira! Felizmente, ganhou outro ator. Foi um alívio…”

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Em Serpico (1973).

Quando Pacino ganhou finalmente, 20 anos depois, ficou atrapalhado. Os aplausos de pé não ajudaram. Custou-lhe erguer o olhar do discurso e a oratória não foi das melhores. Parecia alguém que entrara no palco por acidente. Falou de uma rapariga que conhecera e que queria ser atriz. “Ela disse que a inspirei… lembro-me dela hoje.”

Hollywood não sabia como reagir ao talento de alguém que estava fora do esquema. É nomeado pela terceira vez em 1974, pelo trabalho espantoso em O Padrinho II. 30 anos depois, a Newsweek afirma que, neste filme, “Pacino oferece-nos talvez o maior retrato cinematográfico de sempre do endurecer de um coração”. A rodagem não foi fácil para Al. Entregou-se de tal maneira ao papel que foi parar ao hospital com um esgotamento.

AS CRIANÇAS SÃO AS MELHORES PROFESSORAS

Em 1975, Pacino regressa com Um Dia de Cão, interpretando um assaltante de bancos bissexual que pretende arranjar dinheiro para pagar a operação de mudança de sexo do companheiro. O argumento, baseado num caso verídico sobre um assalto mal sucedido e a avidez dos media, era controverso. Mas as críticas foram unânimes. Pacino é outra vez nomeado.

“Attica!!!!”:

Por esta altura, Hollywood já se rendera ao seu talento, mas Al permanecia um outsider. Ainda vivia em Nova Iorque num apartamento despretensioso, recusando-se a aceitar o rótulo de estrela. Sempre que podia, refugiava-se na sua paixão: O teatro.

No filme seguinte, Bobby Deerfield (1977), interpretou um piloto de corridas em crise de identidade. O filme ficou marcado pelos diferendos com o realizador Sydney Pollack. Mas Pacino queria expressar “o outro lado do narcisismo. O que acontece a uma superestrela quando é idolatrada e abandonada, a solidão, o isolamento”. O papel foi marcante, já que o ator iniciou uma relação com a coprotagonista, Marthe Keller, algo que ainda hoje se escusa a comentar.

Pacino e Marthe Keller em Bobby Deerfield
Pacino e Marthe Keller em Bobby Deerfield (1977).

Al decide voltar ao teatro, integrando o elenco de Ricardo III na Broadway. Antes disso, faz o papel de um advogado desiludido com o sistema judicial em … E Justiça Para Todos. Novamente nomeado, novamente ignorado.

O biógrafo Grobel conheceu Pacino enquanto este filmava A Caça, (1980) em que interpreta um polícia que tem de procurar um assassino entre a comunidade homossexual de Nova Iorque. A película foi mal recebida: “Lixo homofóbico, brutal, demente, incompreensível”, disse Rex Reed.

Tony Montana, em Scarface (1983) é um dos papéis de que Pacino mais se orgulha. Parece fácil… mas “é obrigação do actor que as coisas pareçam fáceis”. A realização de Brian De Palma, o argumento de Oliver Stone e a interpretação fantástica de Pacino tornaram o filme num clássico, embora tenha sido mal recebido na época. Al Pacino é assustador, no papel de gangster. Na sua opinião, “não nos podemos censurar enquanto atores, porque cortamos o instinto. Parte do modus operandi do ator é trabalhar com o inconsciente. Estamos sujeitos a cometer erros tremendos. Há que observar as crianças, as melhores professoras de arte dramática do mundo”.

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Scarface (1983).

Pacino continuou a explorar a sua arte, ao longo dos anos 80 e 90. Reencontrou Brian De Palma em Carlito’s Way, mas o passado não o perseguiu. Teve os inevitáveis flops.

“ESTOU-ME NAS TINTAS PARA OS ÓSCARES”

Ao longo da sua carreira, Al Pacino foi nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário, por O Padrinho (1972), Dick Tracy (1990), e Sucesso a Qualquer Preço (1992). E para Melhor Ator por Serpico (1973), O Padrinho II (1974), Um Dia de Cão (1975) e …E Justiça para Todos (1979). Foi nomeado 15 vezes para o Globo de Ouro, vencendo com Serpico, Perfume de Mulher e Anjos na América. (Este último papel também lhe deu o Emmy).

Achas que merecias o Óscar por O Padrinho II?

Acho que deves pôr as ideias em ordem acerca disso de “merecer Óscares”. Estás algo equivocado…

Não é o facto de não o receberes que te irrita. Mas sim, o facto de outro o ganhar, é isso?

Quem o ganha, merece-o. Merece-o porquê? Temos de dizer, “se estes atores fossem médicos e eu tivesse de fazer uma operação ao coração, qual escolheria?” Assim, já conversamos.

Estas coisas preocupam-te?

Deixa que te diga, honestamente: Não me interessa. Estou-me nas tintas.

al pacino oscar

CURIOSIDADES

“Nem acredito que vou contracenar com o Al-fucking-Pacino.”

A certa altura, Pacino comprou um luxuoso BMW. “Não me senti nada bem”, confessa. “Estacionei-o em frente a minha casa e pensei, ‘isto não tem nada a ver comigo! Vou devolvê-lo’.” No entanto, quando saiu, tinham-lho roubado. “Aí está menos um problema…”

O tabaco devastou-lhe a voz. É um Pacino resignado que, a meio de uma entrevista com Grobel, acende um cigarro. “Não tinhas deixado de fumar?” “São aqueles cigarros de ervas. Não se morre de cancro, morre-se de tédio. Cheira a marijuana, por isso sempre dá um ar cool. Mas tenho medo de alucinogénios ou coisas que alterem a mente. Fazem-me sentir desligado. É como viver com gaze à volta; tira-nos o poder, a energia, os limites da vida”.

Chris O’Donnell, com quem Pacino contracenou em Perfume de Mulher, ouvia-o, no camarim ao lado, “dia após dia, horas a fio… a experimentar a mesma frase de 30 maneiras diferentes… era inacreditável. Nunca vi tal coisa”. O ar intimidado da personagem de O’Donnell perante o ‘Coronel Slade’ inspirou-se na intimidação que o jovem ator sentiu ao contracenar com Pacino.

Mas a imagem pública de Al até o irrita:

“Esqueçam! Falharam o alvo completamente. Chega a ser ridículo. Quando eu desaparecer, escreverão boas coisas sobre mim, espero. E depois, desaparecerei como toda a gente. Kaput. Os vídeos tomarão conta da coisa e serei esquecido. Todos seremos. Não é um pensamento agradável, mas, por agora, só espero deixar um legado para os meus filhos. Algo com que eles consigam lidar. Para que saibam quem o pai é.”

Al Pacino aprecia o trabalho de Sean Penn, Johnny Depp e Russell Crowe: “Acho que estes três deviam fazer Os Irmãos Karamazov. “E Tom Cruise?”, pergunta-lhe o entrevistador. “Tom Cruise é uma estrela de cinema, categoria totalmente diferente. Tem um tremendo carisma e também é bom ator.” Curiosamente, Pacino foi escolhido por Oliver Stone para protagonizar Nascido a 4 de Julho, papel posteriormente atribuído a Cruise. Al não aceitou fazer Kramer contra Kramer, que deu o Óscar ao seu arqui-inimigo Dustin Hoffman. “Não achei que pudesse dar muito ao papel. Dustin fez um excelente trabalho e mereceu o prémio.”

Quando fez 50 anos, encontrou Bruce Springsteen na rua. O Boss, ao saber do aniversário do ator, tirou o casaco caro que envergava e ofereceu-lho. Os atores das gerações posteriores, como Hilary Swank, por exemplo, veneram Pacino. Costumam dizer, quando sabem que vão entrar num filme com ele: “Nem acredito que vou contracenar com o Al-fucking-Pacino!” Pacino reage com naturalidade: “Quando me deparo com isto, começo a cantar…”

PACINO EM DISCURSO DIRETO

[A morte.]

Podemos mudar de assunto.

Se eu morrer, podes escrever no meu epitáfio: “Ele estava a começar a resolver alguns dos seus problemas. Mais 10 ou 15 anos e teria sido feliz. Tinha feito tantos progressos!”

[Empregos.]

Que tipo de empregos estranhos tiveste?

Mudança de mobília… foi o trabalho mais difícil que tive. Quando somos homens das mudanças, olhamos primeiro para os livros. Toda a gente tem livros. Centenas. Põem-nos em caixas. É muito enganador; metem cinco mil livros de bolso em caixas. Também transportava objetos de arte. É maravilhoso quando levamos uma escultura muito valiosa e vamos contra uma parede. Aconteceu-me. Uma cabeça saltou dos ombros. Uma grande obra… e ouvi as famosas palavras: “Tens de pagar”.

[Os mafiosos verdadeiros.]

Conheceste figuras verdadeiras da Máfia?

Sim, em privado. Deram-me umas referências.

Para os observares?

Sim, exato.

E eles deixaram?

Sim.

E o que aconteceu?

Nada.

Ainda estão vivos?

Não posso responder.

O que vemos no ecrã baseia-se no que observaste?

Não.

Onde se encontraram? Num restaurante?

Oh… no céu. Na Estação Espacial 22.

[Cenas favoritas.]

Tens uma cena favorita, n’O Padrinho I e II?… um momento de que te orgulhes especialmente?

Tenho um momento no Padrinho II. Passa despercebido. Michael e o seu irmão Fredo estão em Cuba, a ver o espetáculo do Superman no clube noturno. Michael percebe que o irmão o traiu. É o meu momento favorito. Mas é subtil. Depois dessa cena fui levado para o hospital.

Por exaustão?

Sim. Filmávamos na República Dominicana. Fiquei fisicamente doente. Trabalhei simplesmente demasiado nesse papel.

[A barba.]

Pauline Kael, na sua crítica a Serpico, diz que quando deixas crescer a barba, não te distingue do Dustin Hoffman.

Quando ela disse isso já lhe tinham retirado o copo de shot das goelas?

É assim tão insultuoso para ti?

Ainda perguntas? (Risos)

É para te chatear.

A sério? Eu sou muito bonzinho. Sou mesmo simpático.

Veremos…

Temos tempo. Olha, se alguém diz uma coisa dessas, não consigo responder. Parece-me algo que lhe passou pela cabeça na altura. Não acho importante.

Kael escreve, “a cara impenetrável de Pacino e os seus comentários estranhos tornam a personagem remota”.

Estás a gozar ou quê?! Ela está chateada comigo? As coisas que irritam as pessoas… bom, às vezes, irrito-me comigo mesmo ao ver-me no ecrã. Penso, “aquele tipo pensa que é o quê, com aquele ar dengoso? Por que não toma um banho?” Mas esse filme, achei-o bom.

[Riscos.]

Não há muitas estrelas do teu calibre que se arrisquem a fazer Shakespeare na Broadway. Por que o fizeste?

Para deixar de fumar. Há outra razão? Não podemos fumar, se estamos a fazer Ricardo III. Há razões para as pessoas fazerem as coisas? O que é um risco? É um risco não correr riscos. Ficamos insípidos. Repetimo-nos.

Com Michell Pfeiffer em Scarface.
Com Michelle Pfeiffer em Scarface.

[Mulheres.]

Alguma vez tiveste medo de mulheres?

Sim.

Em que sentido?

Podemos depender delas para certas coisas, mas não podemos investir tanto poder em alguém; não é justo para nós ou para com a pessoa.

Estás a dizer que os relacionamentos acabam. Tiveste vários. Quem costuma pôr-lhes fim?

Tem sido mútuo. Acho que devo ter um grande medo de ser abandonado.

O que procuras numa mulher?

Gosto de mulheres que saibam cozinhar (sorriso malicioso). Isso está primeiro. O amor é muito importante, mas é preciso ter uma amiga, antes de tudo. Queremos chegar a um ponto em que possamos dizer, “a mulher que está comigo é também minha amiga”. Isto relaciona-se com confiança. E leva tempo. O amor passa por diferentes fases. Mas perdura. O amor perdura. No entanto, o amor romântico pode ser uma grande treta, digo-te. E pode magoar-te.

Os rompimentos com mulheres afetam-te de modo diferente, de cada vez?

Deixemos isso para outra altura.

Mas, de que modos diferentes te afetou quando aconteceu? Já te aconteceu sentires-te triste, alegre, devastado, neutro?…

Sim, é verdade.

Estás a deixar que a minha pergunta seja a tua resposta!

Reconheço uma pessoa que tem as respostas todas quando a vejo…

pacino devil's advocate
Devil’s Advocate (1997).

[Convites para entrar em filmes.]

Preferes esperar que uma proposta surja?

Sim. O fruto cai da árvore. Não a abanamos antes de ele estar maduro.

Mas há oportunidades perdidas, o fruto que apodrece no chão…

Não acredito que estou a ter esta conversa!

[Medos.]

E medos?

Tenho os normais. Medo da eletricidade.

[Álcool.]

Tiveste problemas com a bebida.

Não gosto de falar sobre isso, é uma coisa que não compreendo muito bem. Demorei um ano a perceber o que estava a fazer a mim mesmo e outro ano a deixar de beber.

Achas que terias conseguido sem a ajuda do Charlie?

Não.

Achas que estarias vivo?

Não sei.

Refletes sobre isso?

Só sei que, se estamos vivos, tudo é enriquecedor.

Nem sempre. Há muitas pessoas deprimidas.

Eu incluído.

O que te deprime?

Não sei. Será que a depressão é a perceção de que temos um bilhete de ida? Estou no carro, olho e vejo todas estas pessoas e penso, elas não querem estar aqui. Por isso, usam drogas ou álcool para fugirem. Tudo para não estarem aqui. E é muito compreensível.

Não achas que as pessoas ficarão surpreendidas ao ouvir-te dizer estas coisas?

Como hei-de saber o que as pessoas pensam de mim? Não estou preocupado com a projeção da minha suposta “personalidade”. Preocupo-me com o meu trabalho.

[Dinheiro.]

Como lidas com a forma como o dinheiro mede o valor das pessoas?

Ficas com uma cara tão séria quando perguntas essas coisas…

Enfim, são perguntas sobre dinheiro…

Fala com o meu agente. Ele é que o pede.

Não é ele que está a ser entrevistado.

Se acredito que me pagam mais, se faço um trabalho melhor? Nunca acreditei nisso. Tens de perguntar a Picasso. É tudo relativo.

al pacino Dog Day Afternoon
Dog Day Afternoon (1975).

[Os pais.]

Vês muitas vezes o teu pai?

Não.

E quando o vês, o que acontece?

Ele fala-me da vida dele. Passamos uma hora juntos ou assim.

Gostas dele?

Claro.

Sentes-te desconfortável com ele?

Não necessariamente. Não o conheço bem.

Tinhas muitas discussões com a tua mãe?

Sou como qualquer outra pessoa.

Não falas muito sobre a tua mãe.

Pois não.

Não sei muito sobre essa relação.

Que pena, não é? Pois eu também não sei.

Era muito complexa?

Só saberia se falasse sobre ela.

Ela morreu quando tinhas 22. O teu avô morreu pouco depois. Isso afetou-te de que forma?

Afeta-nos para a vida inteira. Eram-me muito próximos e amava-os muito.

Ainda pensas neles?

Sim, penso.

Nas raras ocasiões que vês o teu pai, falas sobre a tua mãe?

Nunca. Falar ia adiantar alguma coisa?

Bom, são as tuas origens. Na psicanálise, geralmente retrocede-se até à infância.

Sim, claro que se fala disso em psicanálise ou em privado. Mas não é o caso. Sou provavelmente tão complicado como outra pessoa qualquer.

[Escritores.]

Ainda te vês como uma personagem de Dostoiévski?

Já não. Há uns anos, sim. Agora sou mais uma personagem de Chekov. Cresci com muitos autores diferentes, de Balzac a Shakespeare. Sei que venho das ruas e não tive educação formal, mas li essas coisas e foi com os russos que mais me identifiquei. Ler salvou-me a vida.

[O passar dos anos.]

Há dias, fui ao aniversário de um bebé que fez um ano. Digo-te, o miúdo estava a olhar para a vela do bolo e tinha um ar… estava tão perplexo… não percebia o que se passava. Fico exatamente com aquele ar cada vez que faço anos. Um dia, quando ele for mais velho, verá o vídeo da festa e dirá, “naquela altura, percebi. Sabia o que se estava a passar”. Ele estava a encarar as coisas da maneira certa: “Que raio é isto?”

É tudo uma questão de dinheiro, poder, fama e de não cair do arame…

Achas mesmo, Larry?

David Furtado

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One Comment Add yours

  1. Tal como sugerido, David, vim até aqui.
    O Al Pacino sempre foi um dos actores que mais admirei, mas conhecia pouco ou nada da quem ele é fora do ecrã. Este artigo dá-nos uma grande visão do seu percurso. Muito interessante.

Comentários:

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