Aguenta-te, Canalha: Um assassino altruísta

Depois de Aconteceu no Oeste, Sergio Leone enveredou por uma obra que se desenrola no contexto da Revolução Mexicana – Giù la Testa, também conhecido como A Fistful of Dynamite, Once Upon a Time… the Revolution, Duck, You Sucker e, em Portugal, como Aguenta-te, Canalha.

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O filme explora um dos temas principais de toda a obra de Leone: A amizade. Neste caso, um ex-bombista do IRA, ‘Sean’, junta-se a um bandido, ‘Juan’, que pretende assaltar o Banco de Mesa Verde e vê no talento para as bombas de ‘Sean’ o seu passaporte para os cofres.

O contexto político da obra não era o que mais preocupava Leone: “Sou um socialista sem ilusões, a ponto de me ter tornado anarquista. Mas, já que tenho consciência, sou um anarquista moderado que não anda por aí a pôr bombas… quer dizer, experimentei todas as mentiras da vida. E o que sobra no fim? A família, o meu derradeiro arquétipo, trazido até nós desde a pré-história… e que mais há? A amizade. E é tudo. Sou pessimista por natureza. Nos filmes de John Ford, as personagens olham pela janela com esperança. Nos meus, têm medo de abrir a porta. E, se o fazem, é provável que apanhem uma bala entre os olhos.”

Aguenta-te, Canalha é um “Zapata western“, pertence ao subgénero “dentro do subgénero” – filmes com a Revolução Mexicana em pano de fundo. Nesta obra, o conflito encontra-se na fase turbulenta em que Huerta está prestes a ser derrubado. Um camponês mexicano ingénuo (Rod Steiger) acredita apenas na amizade e na sua família; fala diretamente com Deus e detesta quem perturba a ordem no seu país. Encontra então um revolucionário profissional irlandês com um passado conturbado (James Coburn) e tenta usá-lo para atingir os seus fins. No entanto, tornam-se amigos. O revolucionário perde as ilusões e o camponês acaba por se envolver inadvertidamente na Revolução.

Leone e Fulvio Morsella idealizaram a história, transformada num rascunho por Sergio Donati e em guião por Luciano Vincenzoni. O orçamento era elevado, pelo que os produtores queriam um ator conhecido para o papel de ‘Juan’. Donati desenvolvera o personagem a pensar em Eli Wallach, o ator já estava disposto a participar. Quando Leone lhe comunicou o sucedido, desentenderam-se.

Rod Steiger, Sergio Leone e James Coburn.
Rod Steiger, Sergio Leone e James Coburn.

AMERICANOS MODESTOS

Os financiadores exigiram que Leone fosse o produtor e, para a realização, a United Artists recomendou o jovem Peter Bogdanovich. Quando o americano chegou a Roma, em vez de se dedicar ao projeto, começou a organizar sessões privadas do seu próprio filme Targets para a aristocracia pseudointelectual de Roma e até para alguns amigos de Leone. O produtor pressionou-o e Bogdanovich, auxiliado pela mulher, conseguiu redigir 12 páginas em inglês, em duas semanas. Ao lê-las, Leone empalideceu e achou que era erro de tradução, pelo que pediu uma nova. O resultado foi idêntico.

O cineasta, irado, obrigou Bogdanovich a assinar todas as páginas. Enviou-as para a United Artists, com uma nota: “Foi este o realizador que me recomendaram.” Três dias depois, recebeu um telegrama dos EUA: “Por favor, mande esse senhor e a esposa de regresso a Nova Iorque, em classe turística.” “Mostrei-lhe o telegrama e aconselhei-o a não exibir Targets muitas vezes nos EUA.” Bogdanovich regressou e, já em território americano, escreveu na imprensa artigos de mau gosto a ridicularizar Leone e os italianos.

Anos mais tarde, o “modesto” Bogdanovich criticaria com a mesma frieza com que realiza: “Não sou grande fã de Leone, mas acho-o um grande realizador. Os seus filmes são cínicos e desprovidos de poesia. É como os palermas do Spielberg e do Lucas e todos eles. Fazem os filmes com os quais cresceram, vezes sem conta.”

As conversações com Sam Peckinpah também fracassaram. Leone ocupou o posto de realizador, mas, embora pretendesse fazer uma comédia social e não um filme político, deparou-se com problemas. “Fui obrigado a mudar o título Once Upon a Time the Revolution para Giù la Testa que significa ‘abaixa a cabeça’ e também, ‘sai da frente’.) O filme começa com uma citação de Mao Tse-Tung: “A revolução não é um jantar social, um evento literário, um desenho ou um bordado. Não pode ser efetuada com elegância e cortesia. A revolução é um ato violento.” Esta citação foi eliminada da versão americana, ainda que Leone tivesse cortado a última frase, “… pelo qual uma classe derruba outra”.

A certa altura, Clint Eastwood admitiu que foi convidado para desempenhar um papel, provavelmente o do Irlandês, quando falava num seminário do American Film Institute. Um aluno disse-lhe: “O filme é bom.” Resposta: “Ai é? Não o vi.”

Rod Steiger degustando um frango.
Rod Steiger degustando um frango.

“NÃO ME FALES DE REVOLUÇÕES…”

O filme é dominado por dois grandes desempenhos. Um é o de James Coburn, o bombista com um trauma do passado, que nos é revelado progressivamente através de flashbacks; um intelectual que fuma marijuana e se comporta como um diletante: “Quando comecei a usar dinamite, acreditava em muitas coisas… agora, só acredito na dinamite.” O que ‘Juan’ pretende é a nitroglicerina do bombista, à qual apelida de “água benta”. É mais uma grande criação de Rod Steiger que vencera o Óscar, três anos antes, por No Calor da Noite. Praguejando com sotaque de Speedy Gonzales, é responsável por vários momentos humorísticos.

A certa altura, ‘Juan’ vira-se, irritado, para ‘Sean’ e dá-lhe uma palestra eloquente sobre a filosofia revolucionária:

“Não me venhas falar de revolução! Eu sei do que estou a falar quando falo de revoluções. Os que leem livros vão ter com os que não sabem ler livros e dizem ‘precisamos de mudança’. E os pobres fazem então a mudança. A seguir, os que leem livros sentam-se à volta de grandes mesas e falam e falam, e comem e comem. E o que aconteceu à gente pobre? Estão mortos! É essa a tua revolução. Por isso, por favor, não me fales de revoluções…”

É então que ‘Sean’ reflete acerca do livro que estava a ler e o atira para a lama. Na capa, lê-se Sobre o Patriotismo de Bakunin.

“ABAIXA-TE, PARVO”

Rod Steiger, discípulo do Método do Actors Studio, não gostava de westerns. Não se deu especialmente bem com Sergio Leone, mas viria a dizer numa entrevista: “Prefiro muito mais trabalhar com uma pessoa talentosa que seja irritante como o diabo, e ele conseguia sê-lo… e eu também… do que com uma pessoa sem imaginação. Ele tinha uma tremenda noção do conceito, tinha aquele filme dentro da cabeça. Era isso. Uma grande visão… e um ego a condizer!” Após vários conflitos verbais, Steiger pediu desculpa por ter insultado o realizador e fez o que lhe era dito. Sergio Leone deu-lhe a volta: “Depois de 25 takes, Steiger estava demasiado cansado para ir buscar os seus truques do Actors Studio. E, assim, sem os seus habituais maneirismos, Rod foi absolutamente brilhante.”

James Coburn era mais pacato. Todos os que intervieram nas filmagens concordam:

Coburn fazia o seu trabalho com calma e sensatez, por vezes, mediando conflitos entre colegas que se exaltavam. “Com ele, é simples”, disse Leone. “Explicamos a cena, ele diz, ‘sim, senhor’, e vai fazê-la.”

James Coburn rejeitara participar em Aconteceu no Oeste, algo de que mais tarde se arrependeu. O ator recordou, em 1981: “Quando li o guião [de Aguenta-te, Canalha], não o achei nada de especial. Só colaborei com Sergio, nesse filme, porque um dia estava a jantar com Henry Fonda e lhe perguntei: ‘Que tal foi trabalhar com Sergio?’ E ele disse-me: ‘É o melhor realizador com quem alguma vez trabalhei.’ E eu retorqui: ‘Estás a brincar?’ E ele disse: ‘Não, a sério!’ Por isso, fiz o filme e adivinhem… estreou nos Estados Unidos com o título Abaixa-te, Parvo e ninguém o foi ver!”

As filmagens decorreram entre Abril e Julho de 1970 em Los Filabres, Almeria, Guadix, Burgos e Granada. O Banco de Mesa Verde é um edifício de Burgos. A estação ferroviária é a estação de Almeria. As fundações da ponte destruída no filme ainda lá estão, bem como os postos donde ‘Sean’ e ‘Juan’ a detonam.

Durante a preparação, Leone mostrou ao diretor de fotografia diversos quadros para mostrar o que pretendia. Los Desastres de la Guerra, uma série de 80 gravuras de Goya, foram a sua inspiração. O conteúdo político do filme foi incompreendido na época e causou controvérsia, especialmente por parte dos cineastas de esquerda.

Mais uma vez, com uma evocativa banda sonora de Ennio Morricone, que inclui o tema-título, com a frase cantada “Sean, Sean, Sean”, Aguenta-te, Canalha é uma obra muito diferente dos restantes filmes de Leone. É um trabalho que apreciamos cada vez mais quando o revemos. Morricone, no tema «March of the Beggars» (que acompanha o assalto ao banco), chegou a citar Eine Kleine Nachtmusik de Mozart. Entre 1965 e 1970, o ocupado compositor concebera 25 bandas sonoras.

Sergio Leone disse que “um assassino pode demonstrar um sublime altruísmo, ao passo que um homem bom pode matar com total indiferença”. Leone viria a realizar apenas mais um filme, a obra-prima Era Uma Vez na América, 13 anos depois. Mas já tinha sido autor de uma revolução cinematográfica. “A revolução não é um jantar social, um evento literário, um desenho ou um bordado. Não pode ser efetuada com elegância e cortesia. A revolução é um ato violento.” No plano artístico, Leone foi então um assassino altruísta.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Aprigio Alves de Oliveira Filho diz:

    Para os cinéfilos que gostam de citações políticas este é realmente o mais engajado dos westerns de leone. Quando saiu em VHS com muitos minutos de sua metragem cortados (se não me engano, cerca de 27 min.) ficou parecendo um corpo humano esquartejado e minha apreciação não foi boa. Mas agora com os minutos recuperados eu o considero excelente.Pode não ser realmente o melhor dele, mas é melhor do que a maioria dos western realizados depois dele. A marca de Leone está lá, seus closes estão lá, sua marca registrada está lá, como um selo indelével.

    1. É verdade, Aprigio, há bastante conteúdo político neste filme. Nos tempos do VHS cortavam tudo, desde a duração ao formato da imagem. Embora tenha algum saudosismo desses tempos, não há dúvida que o DVD nos ofereceu novos mundos em filmes que já conhecíamos. Não será o melhor filme de Leone, mas trata-se, quanto a mim, de um realizador que primou pela qualidade ao invés da quantidade. Não esqueçamos e excelente banda sonora de Ennio Morricone, que tão bem traduzia as suas imagens musicalmente.

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