Aconteceu no Oeste: Um nascimento e uma morte

O que podem ter em comum os escritores Umberto Eco e Graham Greene, e realizadores tão díspares como George Lucas, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, John Carpenter, Martin Scorsese e Stanley Kubrick? Uma admiração enorme por este filme, o western que pôs fim aos westerns, realizado por um italiano.

Aconteceu no Oeste bronson

Harmonica: A recompensa por este homem é de 5.000 dólares, certo?
Cheyenne: Judas contentou-se com 4.970 a menos.
Harmonica: Não havia dólares nesses tempos.
Cheyenne: Mas filhos da mãe… sim.

Excetuando O Colosso de Rodes, o seu primeiro filme, e a trilogia dos dólares, Sergio Leone só assinou mais três obras, Once Upon a Time in The West, Duck, You Sucker e Once Upon a Time in America, embora tenha efetivamente realizado sequências de My Name is Nobody, entre outros filmes que produziu. Ao preparar-se para realizar Aconteceu no Oeste, Leone reuniu-se com Bernardo Bertolucci e Dario Argento, os dois coargumentistas. Só o título da obra estava assente: C’era una volta, il West, e o objetivo era discutir clichés do western que pudessem ser utilizados num filme original.

Claudia Cardinale com Leone.
Claudia Cardinale com Leone.

“Bernardo e eu escrevíamos aquilo que mais apreciávamos nos westerns”, explica Dario Argento, “depois, fazíamos uma amálgama e Sergio ouvia-nos. Ele fascinava-me imenso quando descrevia de antemão os movimentos de câmara adequados a determinada cena. Para mim, era como Dante declamando os seus versos”.

Aconteceu no Oeste está repleto de referências a filmes como Johnny Guitar, Shane, O Homem que Matou Liberty Valance, A Desaparecida, entre outros, embora sejam difíceis de apontar. Depois de combinar todas estas componentes da mitologia do Oeste, Leone começou a demoli-las uma a uma, confiando o guião a Sergio Donati. Para controlar o projeto, o cineasta fundou a sua própria companhia, em 1967, a Rafran, denominação inspirada pelos nomes das suas filhas, Raffaella e Francesca. Disse à Paramount que este filme ia ser mais pessoal do que a trilogia dos dólares e que seria realizado para si mesmo, e não para o público. As conversas com os dois coargumentistas foram-se arrastando durante dois meses (segundo Leone), três ou quatro (segundo Bertolucci) e seis, (segundo Argento). Bertolucci recorda que, já nessa altura, Leone falava sobre o projeto Era Uma Vez na América.

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O FIM DE UM SONHO

A fusão de conceções dos três autores da história parece ter sido tão completa que ainda hoje Bertolucci e Argento reclamam a autoria de várias ideias, desentendendo-se em pormenores como “a cena da mosca”. No início do filme, uma mosca importuna um cowboy, pousando-lhe repetidamente na cara e nos lábios. O homem enxota-a e acaba por aprisioná-la dentro do cano do revólver, ouvindo, feliz, o seu zumbido. É curioso que apenas tenha sido usada uma mosca. Para tal, puseram mel nos lábios do ator, e o pequeno animal não precisou de mais incentivo.

Henry Fonda, Claudia Cardinale, Sergio Leone, Charles Bronson e Jason Robards.
Henry Fonda, Claudia Cardinale, Sergio Leone, Charles Bronson e Jason Robards.

A base da narrativa era a chegada da civilização e do progresso à fronteira rural, sob a forma de uma via-férrea transcontinental. Mas o verdadeiro conceito residia em contrastar a ficção popular do “era uma vez…” com as bases históricas, “lamentando o fim da Era gloriosa do western enquanto fábula. Aproximava-se mais dos labirintos de Jorge Luís Borges do que dos tratamentos tradicionais de Hollywood”, constata o biógrafo de Leone, Christopher Frayling. Imperdoável de Clint Eastwood, foi exaltado por estas mesmas características supostamente “inovadoras”, mais de 20 anos depois. Mas, quando termina Aconteceu no Oeste, todos os estereótipos do western desapareceram para sempre. Terminou o sonho e a comunidade utópica suportada pelas epopeias de John Ford.

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A FACE DO DESTINO

Leone, que, por esta altura (1967) já visitara os Estados Unidos diversas vezes, viajou pelos desertos do Colorado, Arizona e Novo México. Visitou Monument Valley, onde surpreendeu um dos seus colaboradores, explicando de que ângulo John Ford filmara várias películas. Mas o seu intuito era outro. “Quis pegar nos estereótipos do western: A maior prostituta de New Orleans, o bandido romântico; o assassino com veia para homem de negócios, o homem de negócios com a mania que é pistoleiro e o vingador solitário”, explica Sergio Leone. “Quis homenagear o western, demonstrando simultaneamente as mutações que a sociedade americana sofria na época. Portanto, a história é sobre um nascimento e uma morte.”

'Jill McBain' (Claudia Cardinale).
‘Jill McBain’ (Claudia Cardinale).

O cineasta planeou um caleidoscópio de referências que tornaram Aconteceu no Oeste num filme que ultrapassa as fronteiras do próprio western, sendo apelidado de pós-modernista. Ao passo que, nos filmes anteriores, as personagens centrais eram homens, Aconteceu no Oeste é sustentado por uma mulher, uma prostituta chamada ‘Jill McBain’, interpretada por Claudia Cardinale. Para o romântico bandido mexicano ‘Cheyenne’, o realizador optou por Jason Robards. ‘Harmonica’, o homem com um trauma do passado, em busca de vingança, uma figura vagamente fantasmagórica e omnipresente como o destino, Leone escolheu Charles Bronson, que, aos 47 anos, obteve o seu primeiro papel principal.

O ATOR FAVORITO DE SERGIO LEONE

Charles Bronson.
Charles Bronson.

Para Sergio Leone, Charles Bronson foi o melhor ator com quem trabalhou. Convidara-o para participar em Por um Punhado de Dólares, mas Bronson recusou, já que Leone era desconhecido e a premissa do western spaghetti lhe pareceu duvidosa, além de que era um remake de uma obra de Akira Kurosawa. O filme tornou Clint Eastwood numa estrela, e Leone insistiu que Bronson participasse em Por Mais Alguns Dólares. Desta vez, achou que seria ofuscado por Eastwood e voltou a recusar. O papel foi atribuído a Lee Van Cleef, que se tornou numa celebridade. “De facto, não é importante o que Leone filma, mas sim, o modo como filma”, comentou Bronson, tal como Van Cleef, antes dele. Para O Bom, o Mau e o Vilão, Leone insistiu que Bronson fosse o Vilão, e o ator estava ansioso por participar. No entanto, assinara o contrato para Doze Indomáveis Patifes e o papel foi para Eli Wallach.

Com Aconteceu no Oeste, o realizador voltou à carga. Sergio Leone filmava rostos como se fossem mapas e deu-lhe o papel de ‘Harmonica’, a misteriosa personagem de face granítica que une toda a narrativa. O filme foi um grande êxito e catapultou-o para o estrelato. Na Europa, deram-lhe a alcunha de “il brutto” e, em França, era “le sacre monstre”. Bronson enveredou posteriormente por uma carreira no cinema europeu, com alguma relutância, mas saindo-se bem, o que motivou, anos depois, o seu regresso aos EUA. Chegou a ser o ator mais bem pago do mundo, mas conotado com filmes violentos e cada vez mais medíocres. Depois de Sergio Leone, nunca teve a oportunidade de trabalhar com um grande realizador.

É curiosa a forma como os westerns “esparguete” lançaram Clint Eastwood (o que seria dele hoje? Nada!), Lee Van Cleef e até Eli Wallach, que ficaria para sempre conotado com O Bom, o Mau e o Vilão, apesar de ter um “antes” e “depois” na sua carreira. Já era um ator respeitado.

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Para o mau da fita, finalmente… Sergio Leone conseguiu o ator adorado pelos americanos devido aos seus papéis de defensor da justiça – Henry Fonda – que aqui interpreta um assassino sádico e sem escrúpulos, que nem crianças poupa.

“Eu estava reticente”, diz Fonda. “Nunca ouvira falar dele. Mas vi os filmes anteriores e telefonei a um ator que lá entrava e que me disse: ‘Ele é maravilhoso, vais adorar, não queiras saber do argumento, vai!’ Por isso, para interpretar este vilão, fui a um optometrista, para me arranjar lentes que tornassem os meus olhos castanhos, deixei crescer o bigode e… tentei criar o aspeto de um filho da puta! Chego ao estúdio, em Roma, e Leone olha para mim e fica dececionado. Ele queria os meus olhos azuis e eu não sabia porquê.”

“Na cena em que eu [no papel de Frank] apareço, vêem-se quatro ou cinco tipos com ar agoirento, armados, é um momento terrível!”, comenta Henry Fonda. “Segue-se um massacre. A câmara foca um miúdo aterrado, a ver estas pessoas a avançar… à frente delas, está uma figura, e a câmara move-se lentamente… e percebi que Leone me contratou para que o público dissesse, ‘Jesus Cristo, é o Henry Fonda!’ [Risos.]”

Filmando um close-up de Henry Fonda.
Filmando um close-up de Henry Fonda.

As conversas entre Argento, Bertolucci e Leone originaram um guião onde constam diversos diálogos como os que se seguem:

No início do filme, ‘Harmonica’ confronta três homens cujo porta-voz é ‘Snaky’, um membro do bando de ‘Frank’.

Harmonica: Onde está o Frank?
Snaky: O Frank mandou-nos.
Harmonica: Trouxeram um cavalo para mim?
Snaky: Bom, parece que… trouxemos um cavalo a menos.
Harmonica: Trouxeram foi dois a mais.

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Frank: Como se pode confiar num homem que usa cinto “e” suspensórios? O homem nem nas próprias calças confia.

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Jill: Se quiseres, podes deitar-me na mesa e divertir-te. E até podes chamar os teus homens. Nenhuma mulher morreu disso. Quando acabares, só preciso de uma banheira de água quente e serei exatamente o que era dantes… só terei é mais uma memória suja.
Cheyenne: [suspirando] Fazes bom café, ao menos?

O MATRIARCADO AMERICANO

Cardinale nas filmagens.
Cardinale nas filmagens.

‘Jill McBain’ é a figura que anula as outras personagens estereotipadas – começa por ser uma prostituta desiludida para se tornar uma pioneira e fundadora relutante da primeira cidade do Oeste: Sweetwater. No final, ‘Harmonica’, o último dos cowboys, diz adeus a ‘Jill’, abre a porta e observa a rua: “Sweetwater vai ser uma bela cidade.” ‘Jill’ espera que ele regresse, um dia. ‘Harmonica’ despede-se com um dúbio, “um dia”.

Leone afirma que há ambiguidade neste desfecho: “Por um lado, é otimista, já que nasceu uma grande nação… um parto difícil, mas foi a violência que permitiu esse nascimento. Por outro lado, é pessimista, uma vez que, com o fim do Oeste, acabaram os americanos com coragem e abriu-se caminho ao grande matriarcado americano. A grande força da vida americana – parte da sua grande História de sucesso, baseia-se em mulheres com pulso de ferro. Estou certo de que a avó de Rockefeller veio de um bordel em New Orleans.”

A rodagem, desta vez, decorreu em Espanha, Itália, mas também em Monument Valley, nos EUA. Logo no primeiro dia, Jason Robards apareceu completamente bêbedo. Depois de um sermão de Leone, nunca mais o fez. Só voltou a interferir nas filmagens a 6 de Junho de 1968, o dia em que Robert Kennedy foi assassinado. Robards, em lágrimas, pediu a Leone para não trabalhar, e o realizador ordenou que ninguém trabalhasse nesse dia.

Leone e Jason Robards.
Leone e Jason Robards.

Claudia Cardinale deu-se bem com Bronson, afirmando que ambos eram introvertidos. Henry Fonda fazia inúmeras perguntas a Leone: “Seguro o copo com a mão esquerda ou com a direita?” Leone disse-lhe que sempre o venerara como ator e pediu-lhe para não perguntar semelhantes futilidades. Mas Fonda insistiu que era extremamente disciplinado e se considerava um soldado dirigido por um general (o realizador), “e sem o direito a cometer o mínimo erro”.

PRESENTE ENVENENADO

Ennio Morricone compôs uma banda sonora que nos faz imaginar extensões a perder de vista. Não utilizou as chicotadas ou os pios de corvos que incorporavam as bandas sonoras dos filmes anteriores. O tema de ‘Harmonica’ (aliás, a personagem não tem nome, só se chama ‘Harmonica’ devido ao facto de a tocar durante o filme, um pormenor relacionado com a sua sede de vingança, como se descobre no final) derivou do facto de Morricone considerar o instrumento “sinistro”, ao contrário da conceção mais romântica do instrumento tocado em redor de fogueiras pelos cowboys. Com três notas inconfundíveis e um arranjo magistral, a harmónica diz tudo sobre a personagem de Bronson.

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O tema de ‘Jill’ foi concebido anteriormente, mas, tal foi a adoração que Leone sentiu pela criação de Morricone que a música guiou o filme. Quando Claudia Cardinale desce do comboio, o som foi sincronizado com a velocidade do guindaste que segurava a câmara nessa cena, embora ninguém adivinhe ao ouvir a melodia, uma das mais belas do compositor, e uma obra de arte independente – A perfeita união entre imagem e som:

Já ‘Cheyenne’, o astucioso simpático, recebe um tratamento de banjo e assobio, com Leone a dar instruções repetidas a Morricone. Este, desesperado, tocou finalmente algumas notas, e Leone disse: “É isso..!”

Este filme monumental, que pode até ser encarado como um presente à América, foi mal recebido nos Estados Unidos, embora ainda permaneça um dos maiores êxitos de bilheteira de sempre em França. Umberto Eco e Graham Greene elogiaram o trabalho de Leone, com Greene a afirmar que Aconteceu no Oeste foi o melhor filme da década de 60, perante uma plateia de jornalistas surpreendidos. Outros entusiastas da obra de Leone eram os jovens George Lucas, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, John Carpenter e Martin Scorsese, que dissecavam os filmes do cineasta, plano a plano.

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Este filme, de facto, foi o fim dos westerns. Pegou em tudo o que fora feito até então, expulsou-o de forma magistral, inovadora e definitiva. Vi muitos westerns dos anos 70, 80, 90, mas nada que se lhe compare. O género definhou, alguns foram extraordinários, mas nenhum que parecesse uma obra que mereça ser apreciada numa galeria de arte, quase. O argumento e os temas, tudo é completamente demolidor. A banda sonora é uma peça à parte, que pode ser ouvida sem imagens, porque nós imaginamos as nossas.

Stanley Kubrick também admirava Once Upon a Time in the West e perguntou a Leone: “Por que razão só gosto das bandas sonoras que Morricone compôs para os seus filmes?” Ao que Leone retorquiu: “Deixe lá. Eu não gostava muito de Richard Strauss até ver 2001 – Odisseia no Espaço!

David Furtado

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5 Comments Add yours

  1. Vitor Louçã diz:

    Não concordo com o facto do papel do Robards ser o menos importante, uma das varias coisas que torna este filme em algo magistral, é o seu balanço, mesmo no GBU o Van Cleef desaparece algures no filme. Sinceramente acho que os 4 actores principias, (Bronson,Cardinale, Robards e Fonda) são isso mesmo principais.

    Abraço

    Vitor Louçã

  2. Aprigio Alves de Oliveira Filho diz:

    Nesse ponto estou de acordo com o Vítor Louçã. Sua presença é tão importante quanto a dos outros. Ele tem um charme, um balanço todo especial ao chegar nos lugares; é o contraponto romântico, galanteador e o bonachão que cria frases geniais. Leone definiu magistralmente as características de cada personagem central. Uma obra de arte que pode ser colocada lado a lado com qualquer pintura de qualquer grande pintor.

    1. Olá, Aprigio. Obrigado pelo comentário. Realmente, “Aconteceu no Oeste” está tão bem estruturado e filmado que, se retirássemos qualquer pormenor ou personagem, o quadro desequilibrava-se. Sim, uma obra de arte, não um simples filme. Sem esquecer a banda sonora inesquecível de Ennio Morricone, que tão bem o completa e integra.

  3. Emanuel Neto diz:

    “Aconteceu No Oeste” é sem qualquer dúvida um filme genial e quem disser o contrário está a mentir! Eu também acho que Robards é o elo mais fraco do lote de 4 protagonistas mas mesmo assim com uma boa prestação. Claudia Cardinale é deslumbrante e partiu muitos corações a muitos cinéfilos. Fonda e Bronson têm desempenhos magníficos.
    A ideia de Leone em fazer de Fonda um vilão foi excelente e chocou o público americano. Mas se eu estivesse no lugar de Leone em vez de escolher Fonda como Frank eu teria escolhido um destes atores que faria o público americano saltar da cadeira: Charlton Heston ou então… John Wayne!!
    Mas é claro que Wayne, purista como era, nunca aceitaria uma coisa destas…

    1. Isto são opiniões e variam. Sempre achei que Robards cumpre, e bem, o seu papel. A Claudia Cardinale partiu o coração a toda a gente. Podia ser Wayne ou outro ator conotado com os westerns. Henry Fonda parece sempre irónico por ter desempenhado tantos heróis do género Tom Joad. E de repente é o facínora. John Wayne talvez fosse demasiado radical! Mas quem sabe? Sergio Leone podia fazer com que isso resultasse, não duvido. E esta banda sonora…

Comentários:

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