Por Mais Alguns Dólares: À hora certa em Almeria

O estrondoso sucesso de Por um Punhado de Dólares fez com que Sergio Leone pensasse numa sequela, ainda que com nervosismo. Não sabia como superar o filme anterior, face a uma indústria que esperava dele um novo western ao “estilo Cinecittà”.

Lee Van Cleef ('Coronel Douglas Mortimer).
Lee Van Cleef (‘Coronel Douglas Mortimer).

(Continuação do artigo anterior.)

Na feira cinematográfica de Sorrento, Por um Punhado de Dólares não tinha sido comprado por nenhum distribuidor. Por Mais Alguns Dólares foi comprado por 26 países num só dia, rendendo, apenas no mercado italiano, 5 milhões de dólares, entre 1965 e 1968, ao passo que o primeiro filme se ficara pelos 4,6 milhões.

“Parecia que, de todos os lados, me pressionavam no sentido de revelar o local exato de uma segunda mina de ouro”, desabafou Leone. “Diziam que o homem que fez Por um Punhado de Dólares nunca conseguiria realizar um filme de outro estilo. E isto conduziu-me a um bloqueio criativo. Estavam a desafiar-me…”

Sergio Leone contemplou outros projetos, mas acabou por concentrar-se na sequela, o que aliás ficara estabelecido no contrato inicial. “Encontrei-me com os produtores e disse-lhes: ‘Não sei se quero fazer mais nenhum western, mas vou fazê-lo só para vos irritar. E vai-se chamar… [o nome surgiu-me de repente] Por Mais Alguns Dólares.’ Claro que, na altura, não fazia ideia do conteúdo.”

Quando Por um Punhado de Dólares se tornou subitamente rentável, diversos filmes entraram em pré-produção, e Leone sentiu-se ainda mais pressionado. O termo western spaghetti irritou-o.

“Talvez o esparguete tenha substituído a corda com laço para apanhar os cavalos.” Achou que não passava de sinónimo para “italiano”, apesar do termo ser depreciativo nos EUA e noutros países. Do meio desta catadupa de produções, surgiriam, contudo, diversas obras memoráveis. O coargumentista Luciano Vincenzoni afirma que “Sergio criou empregos para 10 milhões de pessoas durante 10 anos”.

A LEI “PERTENCIA” AOS CÍNICOS

Belo uso do verbo. O realizador tinha o título, mas faltava-lhe a história, até que apareceu uma que lhe agradou: The Bounty Killer, assinada por Enzo Dell’Aquila e Fernando Di Leo. O trabalho foi comprado por uma alta soma, mas foram Leone e Vincenzoni que escreveram o argumento, tendo este último escrito os diálogos. Sergio Donati, que concebeu o humor barroco da obra, como a frase “este comboio pára em Tucumcari” e os “problemas de matemática” ao contar cadáveres, foi pago mas não recebeu crédito.

Nesta história de vingança, dois caçadores de prémios, um mais velho do que o outro, perseguem a mesma presa, ‘El Indio’ – o grande ator Gian Maria Volonté, novamente no papel de vilão. Foi aqui que as pesquisas de Leone se mostraram eficazes: “A personagem do caçador de prémios é ambígua, chamavam-lhe ‘o coveiro’ do Oeste. Era uma profissão que substituía a Justiça oficial, tinha de se matar para se existir.” E prossegue: “A vida no Oeste não era fácil… a lei pertencia aos mais cruéis e cínicos. Os seus sucessores foram a Máfia, a sociedade anónima do crime.” A obsessão pelos pormenores, típica de Leone, obrigou-o a pesquisar o armamento da época – calibre e alcance, modelo, marca – até se tornar num especialista.

“Onde a vida não tinha valor, a morte, por vezes, tinha um preço.” É este o prólogo do filme que conta de novo com Clint Eastwood, agora no papel de ‘Monco’, um irónico caçador de prémios. E houve mais dólares para Clint: No primeiro filme, tinham-lhe pago o bilhete de avião em turística e 15 mil dólares. Neste, garantiram-lhe 50 mil, um voo de primeira classe e uma pequena percentagem dos lucros.

NARIZ DE FALCÃO E OLHOS DE VAN GOGH

Depois de Volonté e Eastwood, faltava alguém para o papel de ‘Coronel Mortimer’, o mais velho dos caçadores de recompensas. Henry Fonda recusou. Leone tentou Charles Bronson que, pela segunda vez, recusou, achando que ia ser um acólito de Eastwood. O realizador chegou a um acordo verbal com Lee Marvin, mas o ator acabaria por preferir Cat Ballou, com o qual venceu o Óscar.

O tempo escasseava e Leone reparou num rosto num livro de referência, Academy Players. “Era uma foto antiga. Mas era aquele rosto que eu queria. Tinha um nariz de falcão e os olhos de Van Gogh.”

segio leone (19)

Leone foi a Hollywood à procura de Lee Van Cleef, de 40 anos, mas este desaparecera. Um agente disse-lhe que Van Cleef já não era ator, mas sim, pintor. E que sofrera um acidente de automóvel que o deixara a coxear. Ainda não conseguia correr e custava-lhe subir para um cavalo.

Por esta altura, 1965, Clarence Leroy Van Cleef Jr. era um ator desencantado. Estreara-se com o clássico western High Noon, em 1952, num papel secundário, algo que o perseguiu durante mais de 10 anos. Entrou em inúmeras séries de TV, desde Rin Tin Tin a Zorro, passando por Os Intocáveis, Bonanza, Perry Mason, Rawhide, (cuja estrela era Clint) Twilight Zone, e participou em O Homem que Matou Liberty Valance.

Mas Sergio Leone insistiu, pelo que, pouco antes do seu avião partir de regresso a Itália, Van Cleef e o seu agente visitaram o realizador no hotel, nos arredores de L.A. De botas pretas de cano alto, camisola gasta e uma gabardina suja, Van Cleef impressionou Leone na mesma. “Assinamos o contrato e amanhã vamos para Itália. Aceita 10 mil dólares?” O ator retorquiu, “está bem, mas tenho de terminar um quadro primeiro”. Dois dias depois, estavam ambos na Cinecittà, prontos para filmar, tendo o ator lido o argumento no voo para Roma… Ao seu lado, no avião, Leone perguntou-lhe o que achava. “É Shakespeariano”, respondeu Van Cleef, ainda atordoado com tão insólita sequência de acontecimentos.

“Eu vivia do subsídio de desemprego e dos royalties da TV, a minha mulher era a minha secretária, não tinha sequer dinheiro para a conta do telefone, que não era assim tão alta. Agora, o que tinha no bolso era a promessa de um filme e duas semanas pagas adiantadas.” Foi o primeiro passo para a “segunda carreira” de Van Cleef, que viria a participar em 12 westerns em nove anos, em Itália e Espanha, tornando-se, também ele, numa estrela internacional.

UM ESTRANHO EM TERRA ESTRANHA

A princípio, Lee Van Cleef teve dificuldades em adaptar-se, mas Clint assegurou-lhe que o realizador progredira no inglês. “Eles quase não falavam”, notou Van Cleef. “Até me admirou como tinham feito o filme anterior.” Em determinada cena, o ator constatou que se falavam cinco idiomas: “Grego, italiano, alemão, espanhol e um inglês cockney, que eu não percebia melhor do que o grego!”

A primeira cena filmada por Van Cleef, em que espreita pela janela de um hotel através de um telescópio, arrastou-se durante todo o dia, o que provocou o humor do realizador. “Fui à América, ele aceitou entrar num filme, nem sequer sabe do que trata e não me conhece. Voou até Itália, não teve tempo para dormir, comeu apenas uma sanduíche e não sabe uma palavra de italiano. E ali está ele, à janela!”

Vincenzoni recorda que Van Cleef, apesar de montar um cavalo dócil devido às mazelas do acidente, e de beber bastante, “era um anjo. Dava-se bem com todos. Até se daria bem com o King Kong”. Clint Eastwood aconselhou o colega a ir ver A Fistful of Dollars em italiano, logo que pudesse, para se “acostumar às coisas”. O ator fez isso e saiu de um cinema, em Roma, dizendo, “agora percebo… o argumento importa, mas o estilo ainda importa mais”.

clint eastwood

Desde o filme anterior, Ennio Morricone compusera nove (!) bandas sonoras. Desta vez, Leone quis um tema para cada personagem. “Ele tocava-me coisas no piano, até que eu dizia, ‘é essa!’” A música do relógio de bolso de Lee Van Cleef foi também ideia de Leone e o realizador costumava chamar ao filme Carillon, devido a este tema.

Clint desenvolveu o seu modo suave de falar na trilogia dos dólares, tom que se tornaria famoso e que evoluiu do primeiro para o segundo filme. A ex-companheira do ator, Sondra Locke, revela: “Ele disse que reparou no sussurro de Marilyn Monroe e o achava muito sexy. E, já que funcionara tão bem com ela, decidiu criar uma versão masculina.”

CIDADE QUE AINDA EXISTE

O orçamento mais elevado não impediu algumas gaffes, como o facto de Eastwood entrar ensopado num saloon e, no plano seguinte, surgir totalmente seco. Regressou o humor sarcástico e, por vezes, grotesco e insólito. Um vilão aparece com a cara coberta de sabão e só metade barbeada; as ruas de Santa Cruz estão cheias de galinhas, o posto do telégrafo cheio de ovos, e os personagens comem, deliciados, vários pratos, como o Coronel Mortimer, que degusta uma sopa de legumes e um pão numa cantina.

‘El Indio’ revela o seu plano de assalto ao banco, no púlpito de uma igreja barroca, perante os seus 12 “apóstolos”: “Gostava de vos contar uma pequena parábola. Era uma vez um carpinteiro…” Regressou também a cigarrilha, apesar de Eastwood ter pedido a Leone para não o sujeitar novamente ao suplício. “Mas, Clint, a cigarrilha é a personagem principal!”, argumentou o cineasta. Eastwood optou então por ter sempre à mão cigarrilhas de diferentes tamanhos, e passa a maior parte do filme a acendê-las ou a apagá-las.

As filmagens decorreram novamente em Espanha (Almeria, Colmenar e Guadix) com alguns interiores filmados em Roma. Uma cidade do velho Oeste inteira foi construída perto de Tabernas por Carlo Simi. Os atores principais ficaram no Grand Hotel, tal como Leone. O hotel não mudou muito. Um empregado ainda recorda que Van Cleef passava bastante tempo no bar e, por vezes, exagerava no whisky, tendo de ser ajudado a subir para o quarto. A ‘cidade do Oeste’ ainda existe, chamando-se agora ‘Mini-Hollywood’, um local de peregrinação para os admiradores do western spaghetti. A poucos quilómetros fica a vila de Los Albaricoques em Sierra de Gata, que surge no filme como ‘Agua Caliente’. A igreja/quartel-general de ‘El Indio’ é a igreja do século XVI de Santa Maria, em Turrilas.

Per Qualche Dollaro in Più ultrapassou La Dolce Vita, tornando-se no filme italiano mais rentável de sempre até 1971. Se, nos créditos americanizados de Por um Punhado de Dólares, o realizador surge com o pseudónimo “Bob Robertson”, numa homenagem ao seu pai, cujo nome artístico era Roberto Roberti, desta vez, assinou, de uma vez por todas, “Sergio Leone”.

David Furtado

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