Por um Punhado de Dólares: Contos de fadas para adultos

Além de Por um Punhado de Dólares, Sergio Leone realizou “apenas” mais seis filmes, O Colosso de Rodes, Por Mais Alguns Dólares, O Bom, o Mau e o Vilão, Aguenta-te, Canalha, Aconteceu no Oeste e Era Uma Vez na América. E foi quanto bastou para lhe garantir um lugar no panteão dos grandes cineastas. Depois de examinar o seu último filme, Once Upon a Time in America, descrevo agora a génese do seu primeiro sucesso.

clint eastwood (1)

Não é impressionante o modo como a trilogia dos dólares resistiu ao tempo, se considerarmos os seus aspetos inovadores. Conjugando influências como o teatro de marionetas, as tradições carnavalescas ou a comedia dell’arte, aliando-as a um modo muito próprio de filmar e a um uso inovador da música, Sergio Leone deixou uma influência duradoura. Continua também a ser um realizador apreciado simultaneamente pela crítica e público.

Leone cresceu fascinado pelos westerns americanos e, quando realizou os seus western spaghetti, adotou uma perspetiva literalmente homérica. “Penso que o melhor autor de westerns foi Homero, já que escreveu histórias fabulosas sobre proezas de heróis como Aquiles, Ajax ou Agamemnon, todos eles, protótipos das personagens desempenhadas por Gary Cooper, Burt Lancaster, Jimmy Stewart e John Wayne. Há as batalhas, os conflitos, os guerreiros e as suas famílias, além das grandes viagens e travessias. Os heróis gregos, durante a sua curta existência, defendiam-se com lança e espada, ao passo que os do Oeste confiavam no rápido sacar da arma. É basicamente a mesma coisa.” A figura central da trilogia dos dólares, o Homem sem Nome, é, deste modo, “um arlequim, já que é mais trapaceiro do que os outros. Seria um cavaleiro andante, mas é demasiado adulto para tal”, explica o realizador.

Sergio Leone nasceu no meio cinematográfico italiano – o pai era realizador – e começou a carreira muito jovem, como assistente de realização em inúmeras produções italianas e filmes como Quo Vadis ou Ben-Hur, películas que aproveitaram as facilidades económicas da Cinecittà. Por vezes, a sua função era certificar-se de que os soldados romanos não usavam relógio de pulso (ou sapatilhas, como viria a suceder em Spartacus). Coordenava os figurantes enquanto ia aprendendo com realizadores americanos como Robert Aldrich ou William Wyler. Em 1952, trabalhou num filme como segundo assistente de realização, a par de outro futuro realizador, Lucio Fulci. Conheceu Orson Welles, de quem também foi assistente, e outras figuras do cinema mundial. A sua presença nas produções da Cinecittà era requerida, já que Leone, além de ser uma autêntica enciclopédia ambulante do cinema, adquirira grandes conhecimentos técnicos sobre a arte cinematográfica.

“TENS DE SER REALISTA, SERGIO”

Clint Eastwood a 9 de abril de 1964 em Madrid, pronto para começar as filmagens de Por Um Punhado de Dólares.
Clint Eastwood a 9 de abril de 1964 em Madrid, pronto para começar as filmagens de Por Um Punhado de Dólares.

Obteve, por fim, o financiamento para realizar Il Colosso di Rodi (O Colosso de Rodes), em 1960, uma obra bem sucedida nas bilheteiras, mas que não satisfez a sua criatividade. Tudo mudou quando foi ver Yojimbo de Akira Kurosawa. Procurava um projeto e achou que aquele filme de samurais se podia transformar num excelente filme de cowboys. Baseando-se no guião de Yojimbo, concebeu uma parábola em redor de uma “encarnação do Anjo Gabriel”, um anjo exterminador, incluindo referências a westerns como Shane. Ao escrever o argumento, Leone apercebeu-se da “estranha fraternidade entre as marionetas do teatro siciliano tradicional” e os seus “amigos do Oeste selvagem. Os detalhes são diferentes mas as motivações dos seres humanos são simples e as situações não mudam”.

As suas obras tornaram-se “contos de fadas para adultos”, segundo dizia, mas não eram um elogio à América, já que o realizador considerava que “os americanos têm o péssimo hábito de diluírem o vinho das suas ideias mitológicas na água do modo de vida americano – um modo de vida que, refira-se, não interessa a ninguém com a cabeça no lugar. Pretendi mostrar a crueldade daquela nação”.

Concluiu que os duelos nada tinham de cavalheiresco e que as pessoas desse tempo eram bem mais brutais do que se imagina. Leone reuniu muita informação sobre o velho Oeste e chegou a visitar a Biblioteca do Congresso, onde surpreendeu o bibliotecário com os seus conhecimentos. “Penso que um conto de fadas capta a imaginação quando o cenário é extremamente realista. Esta fusão de realidade e fantasia transporta-nos para outra dimensão, a dos mitos e das lendas.”

Para ator principal da obra que idealizara, então intitulada O Magnífico Forasteiro, Leone gostaria de ter contratado Henry Fonda, mas o agente do ator nem se deu ao trabalho de lhe mostrar o guião. Pensou depois em James Coburn e Charles Bronson, que também não estavam interessados. Cliff Robertson foi a quarta escolha, a quinta foi Rod Cameron… a sexta foi uma sugestão de Claudia Sartori, que trabalhava no departamento italiano da agência William Morris e aconselhou o realizador a assistir a um episódio da série Rawhide. “Quero o James Coburn!”, protestou Leone. “Se queres realizar o teu filme, tens de ser realista, Sergio”, contrapôs Sartori, antes de lhe mostrar o referido episódio, com um ator chamado Clint Eastwood.

O BLOCO DE MÁRMORE

Leone e Eastwood.
Leone e Eastwood.

Acerca desta opção, Leone explicaria mais tarde: “Diz-se que, quando perguntaram a Miguel Ângelo o que viu em determinado bloco de mármore – que escolheu entre centenas de outros –, respondeu que vira Moisés. Eu responderia o mesmo, se me perguntarem por que escolhi Clint Eastwood, só que ao contrário. Direi que vi, simplesmente, um bloco de mármore. E era isso que eu queria.”

Clint ficou intrigado com o argumento e simpatizou com o pitoresco realizador. Ao trabalhar com o ator americano, a comunicação foi um problema. Clint Eastwood admitiu que o seu italiano “consistia em ‘ciao’ e ‘arrivederci’ e Sergio não falava uma palavra de inglês”. No entanto, por intermédio de muita linguagem gestual e de uma intérprete, lá se foram entendendo. A única coisa que o realizador sabia dizer era “watch me!”. Deste modo, exemplificava o que pretendia dos atores. “Clint, watch me! Vais aqui, vais ali, e logo a seguir, bang bang!”

Clint Eastwood: “Na verdade, Sergio não sabia nada sobre o Oeste. Ele era simplesmente um bom realizador; tinha ideias próprias. E o facto de não saber só o ajudava. A sua aproximação aberta e quase adolescente – e não digo isto num sentido depreciativo – deu ao filme um visual inédito… ele fez coisas num western que assustariam qualquer realizador americano. Nos westerns americanos, nunca se filmava o tiro e a vítima a cair, no mesmo plano. Era considerado demasiado violento pelos censores. Achávamos isto uma estupidez, claro, mas Sergio não sabia estas coisas, pelo que havia uma frescura na sua abordagem.”

Eastwood escolheu o guarda-roupa, mas foi obrigado por Leone a fumar um “toscano”, uma espécie de cigarrilha, o que lhe desagradava, já que não era fumador. O ator recorda: “Perguntem à maior parte das pessoas de que tratam aqueles clint eastwood (6)filmes e elas não sabem. Mas reconhecem o visual [faz o gesto de afastar o poncho para trás das costas] e reconhecem o da-da-da-dum [cantarola o início do tema de O Bom, o Mau e o Vilão] e a cigarrilha e a pistola e todas essas pequenas imagens.” De facto, nunca se vira, nos westerns americanos, um personagem atirar uma perna de borrego na direção de várias pessoas, depois de lhe dar algumas dentadas vorazes.

SUCESSO SEM CRÍTICAS

Com restrições orçamentais, Leone e restante equipa filmaram em Hojo de Manzanares, 35 quilómetros a Norte de Madrid e também em Almeria, região espanhola que a ditadura de Franco votara ao desprezo, pelo que a sua paisagem era muito semelhante às do velho Oeste. Quase no final das filmagens, o dinheiro acabou, e a produção só prosseguiu com empréstimos e diversas manobras financeiras, graças a um punhado de dólares, dir-se-ia. Tal como era hábito, em Itália, o filme foi dobrado na pós-produção, pelo que, em determinada cena, o Homem sem Nome abate cinco vilões com apenas quatro tiros. A estreia da obra, entretanto rebatizada Per un Pugno di Dollari, foi um desastre.

clint eastwood (8)Em Agosto de 1964, Clint Eastwood ficou horrorizado ao saber que o filme só seria lançado três anos depois nos EUA, pelo que não ajudaria a sua carreira. Perdera seis semanas na Europa para nada. A película estreou em Florença, num cinema bafiento, situado num beco. Com o mínimo de publicidade e sem receber uma única crítica, boa ou má, o passa-palavra funcionou. Seis meses depois, Por um Punhado de Dólares ainda era exibido no mesmo cinema de Florença, tendo começado a ser apresentado, entretanto, em Roma, Milão e Turim, tornando-se num sucesso de proporções gigantescas. A procura era tanta que as cópias em Technicolor (combinação de três negativos, um amarelo, um vermelho e um verde) foram enviadas à pressa, e algumas delas com uma só matriz, pelo que o público, nalguns cinemas, viu o filme todo a vermelho. Um dos espectadores saudou o realizador: “Ah, signor Leone, que lindo filme! Muito bonito, todo vermelho! Que ideia brilhante!”

MÚSICA VISÍVEL

Outro espectador de Por um Punhado de Dólares foi Dario Argento, que assinaria o argumento de Aconteceu no Oeste com Leone, alguns anos depois. Era, na altura, crítico de cinema do Paese Sera.

“A minha reação foi entusiástica, mas outros críticos italianos disseram que o filme era terrível. Fui vê-lo em Roma com três amigos. Ficámos surpreendidos, pois era um western ao qual apenas sonháramos assistir… o Oeste histórico não era tão imaginativo, tão doido, tão cheio de estilo nem tão violento.”

clint eastwood (2)

Sergio Leone começou então a conceber uma sequela, à medida que apareciam imitações do seu filme, protagonizadas por heróis com nomes como Apocalypse Joe, Dynamite Jim, El Diablo, Roy Colt, Winchester Jack, Navajo Joe ou Pecos, em obras de qualidade execrável. Um ator italiano de westerns spaghetti chegou a auto-intitular-se Clint Westwood. Instalara-se uma febre lucrativa e um termo que Leone não considerava depreciativo.

Ennio Morricone foi o compositor da banda sonora. Aliás, contribuiu muito para a atmosfera de todas as obras de Sergio. Tinham sido colegas de escola na infância, tendo-se reencontrado muitos anos mais tarde. As sonoridades que criou são compostas por gritos animalescos, assobios, e instrumentos utilizados de formas pouco ortodoxas; trompetes, tuba, oboé, guitarras de 12 cordas, clássicas e elétricas, toques de sinos, caixas de música, surgindo com frequência a voz da soprano Edda Dell’Orso. Estes sons intrigantes não são apenas ilustrativos da atmosfera carnavalesca da história; “comentam” o comportamento dos personagens, integrando a ação e sublinhando a inevitabilidade de certos atos. Preenchem de tal forma o aspeto visual, que Bernardo Bertolucci comentou que “a música de Morricone, em determinadas cenas, torna-se quase um elemento visível do filme”.

David Furtado

Anúncios

3 Comments Add yours

  1. Aprigio Alves de Oliveira Filho diz:

    Aliás não só o filme, mas o seu autor, Sergio Leone, deveria ser obrigatório nas escolas, nas disciplinas de história, história da arte e educação artística. Se ele tivesse nascido no período do Renascimento poderia ter sido um grande pintor ou escultor ao lado de Leonardo da Vinci, Michelangelo, Bruneleschi, etc. Ele filmava como se estivesse pintando e esculpindo ao mesmo tempo.

    1. Sem dúvida, Aprigio. A teoria de que devia ser ensinado nas escolas não é tão mirabolante. Não sei se o ensinam em cursos de cinema, mas deviam fazê-lo. (Acho que é incontornável.) Leone era muito influenciado pela pintura e conseguiu usar essa influência de modo criativo, original e genial. A meu ver, nota-se isto, mais do que nunca, em “Once Upon a Time in America”.

      Um abraço. E comente sempre que queira.

      David

  2. Aprigio Alves de Oliveira Filho diz:

    Obrigado David e um grande abraço para você também. A qualquer momento posso voltar.

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s