Taxi Driver: “You Talking to Me?”

Foi em 1976 que o mundo ficou a conhecer o solitário taxista ‘Travis Bickle’, na obra de um realizador até então semi-desconhecido. Taxi Driver é um dos raros filmes que não perdeu o impacto desde a estreia, tanto na linguagem cinematográfica como no conteúdo. Resultou da sintonia entre Robert De Niro, Martin Scorsese e Paul Schrader, que recorda: “Estávamos os três no local certo, na altura certa.” Entremos então no táxi de ‘Travis’ para desmistificar uma das obras-primas do cinema moderno.

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Robert De Niro conversa com o espelho: “Estás a falar comigo? Então com quem estás a falar? Aqui só estou eu. Com quem julgas que estás a falar? Ah, sim?…” O argumento dizia apenas, “Travis fala com o espelho”, e De Niro improvisou: “Conheço a maneira de trabalhar do Marty e sei que ele deixa as câmaras filmar. Às vezes, saem coisas boas. Pareceu-me adequado, falar assim… é algo que todos já fizemos.”

Durante alguns meses, De Niro perdeu a personalidade. Em toda a sua representação, apercebemo-nos de uma metamorfose: Da cabeça aos pés, não estamos a observar um ator ou um personagem, mas sim, uma pessoa. Com este trabalho fora de série, De Niro foi nomeado para o Óscar. Jodie Foster, com 12 anos, foi também nomeada, bem como Bernard Herrmann (pela banda sonora). Taxi Driver foi ainda candidato a Melhor Filme, mas Scorsese já começava a incomodar muita gente e a ter “azar” nos Óscares. A obra venceu, contudo, a Palma de Ouro em Cannes.

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Na fase de preparação, De Niro convidava Jodie Foster para sair, mas não dizia nada, para que a jovem atriz se habituasse à sua companhia. À mesa de um café, e quando Foster já estava farta de tal comportamento, De Niro ensaiou com ela as cenas exaustivamente, lançando frases inesperadas para a surpreender. Seguia um método: “Primeiro, há que saber o texto de cor e repeti-lo ao ponto do tédio. Só depois podemos improvisar um pouco”, recorda Foster.

Albert Brooks relata que Robert De Niro apenas se relacionava com quem contracenava. “Ele ‘era’ aquele tipo nas filmagens e nos intervalos.” Cybill Shepherd confessa que não foi difícil mostrar-se assustada, na cena em que Robert entra pelo escritório adentro. “Pregou-me um grande susto. Foi realmente pavoroso.”

“SOLIDÃO MASCULINA ERRANTE”

taxi driver scorseseTaxi Driver é a história de um ex-fuzileiro, jovem solitário, sem educação nem objetivos, que se torna taxista. Testemunhando a corrupção da grande cidade, decide compor o que está mal, cortando a direito, e o filme culmina numa autêntica fantasia psicopática. Um projeto de baixo orçamento tornou-se numa das obras mais poderosas da História do cinema, tendo sobrevivido ao teste do tempo. Todos os elementos se conjugaram, desde os atores ao argumentista e ao compositor – o lendário Bernard Herrmann, autor de muitas bandas sonoras de Hitchcock e que aqui assinou o seu último e genial trabalho. Herrmann faleceu um dia depois de dirigir a orquestração.

As personagens passam da mera teoria, tornando-se realistas. Paul Schrader explica que o filme é um “documentário sobre a mente” e que resultou do encontro com Scorsese e De Niro: “Nem tínhamos de verbalizar ideias. Já todos tínhamos sentido a alienação e a revolta de ‘Travis’.” E Scorsese acrescenta: “Há pessoas que têm apenas fantasias. Há outras que as põem em prática, e ‘Travis’ é uma destas pessoas.”

Durante uma fase solitária da sua vida, ocorreu a Schrader a ideia do táxi como uma metáfora para a solidão. Terminado o seu primeiro casamento, instalou-se no apartamento de uma ex-namorada quando esta se ausentara, outras vezes, dormia no carro. O tempo livre era passado em cinemas pornográficos. “Andava à deriva”, recorda Paul Schrader, “a viver no meu carro em Los Angeles. Senti uma dor na barriga, fui ao hospital e disseram-me que tinha uma úlcera. Foi quando concluí que já não falava com ninguém há duas ou três semanas. Andava a flutuar numa espécie de caixão de aço pela cidade”.

“Antes de o escrever, reli O Estrangeiro de Camus e A Náusea de Sartre. O argumento foi escrito pelo melhor dos motivos: autoterapia. A metáfora do táxi ocorreu-me como representativa de um certo tipo de solidão masculina errante. Escrevi duas versões do script, sem parar, durante 10 dias, em fevereiro de 1972. Aquilo saltou para fora de mim como um animal.”

No guião, ‘Travis Bickle’ é descrito como tendo “vagueado até aqui de uma terra onde faz sempre frio. Um país onde os habitantes raramente falam”. Schrader torna-o num psicótico à beira do penhasco, que escolheu Nova Iorque para palco da sua gloriosa insanidade, tal como descreve no argumento: “A fantasia suicida do psicopata, a sua glorificação.” “Nova Iorque é o sítio para onde se vem para se estar só”, reflete Schrader. “Apenas se pode estar só e retratar adequadamente a solidão num local repleto de gente.”

NA PELE DE OUTRA PESSOA

taxi driver scorsese (1)O argumentista escreveu um guião que agradou a todos os que o leram na sua fase embrionária – Brian De Palma foi um dos que quis realizá-lo –, mas ninguém acreditava que um projeto tão niilista pudesse ser aceite por Hollywood. Paul Schrader tinha já alguma possibilidade de veto, uma vez que fora um dos argumentistas de Yakuza (1974). Algumas propostas queriam realçar o aspeto bélico da história, outras, o lado romântico. Propuseram-lhe Jeff Bridges para o papel principal e Robert Mulligan e Irvin Kershner para realizadores. Schrader recusou estas abordagens. Martin Scorsese também não lhe agradava especialmente, até que viu Mean Streets (1973) e concordou em conhecê-lo. O argumentista sugeriu Robert De Niro para o papel principal e enviou-lhe o script para Itália, onde o ator filmava Novecento de Bertolucci, uma rodagem morosa. “E ficámos a saber que o Bob [De Niro] tinha intuição para personagens como o ‘Travis’”, revela Schrader. “O Bob só existe quando está na pele de outra pessoa.”

Os atores não poupam elogios ao argumento. Jodie Foster afirma que é um dos guiões mais brilhantes que já leu. Também Scorsese ficou impressionado e soube que tinha de o realizar, mas, como não possuía grande curriculum, não conseguia financiamento. Mean Streets, com um desempenho de Robert De Niro aclamado pela crítica, foi uma das peças chave. Pouco tempo depois, o ator ganhou o Óscar por O Padrinho II. “Essa conjugação de fatores ajudou bastante”, diz Scorsese.

No seu primeiro dia de folga das filmagens de Novecento, De Niro conduziu até uma base americana. Entrou na messe e travou conhecimento com alguns jovens do Midwest, estudando-lhes os maneirismos e o modo de falar, pormenores que integrariam a sua interpretação de ‘Travis’. Durante interrupções mais longas nas filmagens, regressava a Nova Iorque. Tirou uma licença de taxista e guiou um táxi pela cidade. Alguns passageiros reconheceram-no: “Você é o ator, não é? Deve ser difícil arranjar trabalho nos dias que correm.”

SITUAÇÕES POUCO POÉTICAS

Conseguido o financiamento de apenas 1,3 milhões de dólares da Columbia Pictures, Martin Scorsese obteve alguma liberdade na escolha dos atores. Harvey Keitel, a quem originalmente pedira para interpretar o trabalhador da campanha eleitoral, preferiu o papel de chulo, construindo a personagem do nada. Os contributos eram aproveitados e valorizados pelo realizador, que estabelecia uma atmosfera em que todos podiam criar.

Mas nem tudo foi tão poético como referem as versões oficiais. De Niro tentou seduzir Cybill Shepherd, isto apesar de Diahnne Abbott, sua namorada, ter um pequeno papel no filme. A atriz afirma que, quando recusou os seus avanços, De Niro começou a tratá-la como uma imbecil e a fazer troça dela. O realizador alinhou, e Shepherd acusa-o de tentar fazer dela “alvo das suas fantasias sexuais”. Na cena em que ‘Travis’ acompanha ‘Betsy’ a um cinema pornográfico, Scorsese decidiu filmar num cinema real na 42nd Street, muito tarde, pelo que a atriz precisou de guarda-costas para a protegerem dos doidos que andavam pela zona. “Por momentos, tive a certeza que me pediram para fazer o filme com o único intuito de me humilharem”, diz Shepherd. De acordo com um observador, De Niro “maltratava as pessoas, se decidia que elas não estavam ao seu suposto nível”.

De Niro (na cena em que assustou Cybill Shepherd) e Scorsese.
De Niro (na cena em que assustou Cybill Shepherd) e Scorsese.

Scorsese andava nervoso, cada vez mais dependente da cocaína e ambicionando retomar e estabelecer o seu lugar como cineasta da contracultura, depois de um filme mais ligeiro, Alice Doesn’t Live Here Anymore (1974). O realizador filmou tudo do ponto de vista de ‘Travis Bickle’, e o próprio táxi foi transformado numa personagem. Segundo Michael Chapman, (director de fotografia) De Niro era bom condutor, por isso, Scorsese e Chapman agachavam-se no banco de trás do táxi, o técnico de som ia na mala, e filmavam pela noite fora. “De certa maneira, é um filme de terror”, explica Scorsese, “um filme gótico de Nova Iorque, como lhe chamávamos. Mas não quisemos criar um novo estilo nem nada disso”.

Scorsese nas filmagens.
Scorsese nas filmagens.

HARVEY KEITEL E JODIE FOSTER

Martin Scorsese queria Jodie Foster para o papel da prostituta menor de idade ‘Iris’. A certa altura, Paul Schrader conheceu uma prostituta verdadeira nas ruas de Nova Iorque, Billie Perkins, achando que encontrara a idealização do personagem que escrevera, tendo telefonado a Scorsese para que se encontrassem no dia seguinte. Ambos tentaram moldar ‘Iris’ a partir desta rapariga, e Jodie Foster encontrou-se com ela. “Não serviu de nada”, revela a atriz. “Só se expressava com clichés.”

taxi driver scorsese (7)Apesar do virtuosismo fulgurante de De Niro, Harvey Keitel também demonstra o seu grande talento no papel de ‘Sport’, tendo-se inspirado num chulo de Hell’s Kitchen, em Nova Iorque, onde morava. O papel, originalmente, era muito mais pequeno – sendo composto por meia dúzia de frases –, mas o ator pediu a Scorsese para o expandir: “Disse que tinha uma ideia acerca do tipo e o Marty concordou.”

Keitel descreve como foi trabalhar com Jodie Foster: “Tinha apenas 12 anos, mas era muito intuitiva e inteligente. Recordo-me de uma vez em que a mãe dela, uma senhora adorável, se cruzou comigo e me começou a dar alguns conselhos sobre Hollywood… E ali fiquei, a ouvir respeitosamente, até que Jodie se cansou e disse: ‘Oh, mãe, ele já sabe isso!’ Olhei para Jodie e sorri.”

“QUEM LHE FALOU DE MIM?”

Scorsese é elogiado pela sua mestria na concepção de diversas cenas, como aquela em que ‘Travis’ fala com ‘Betsy’ ao telefone de um átrio e a câmara se move lentamente até focar um corredor vazio e se fixar lá. Outra situação ocorreu na garagem, em que a câmara “parte” de ‘Travis’ e filma em redor, num ângulo de 360º, regressando a ‘Travis’. A equipa técnica não percebia por que motivo o realizador fazia isto, mas hoje apreciamos tais pormenores como a descrição do estado mental de ‘Travis’, em total desagregação. Outros detalhes técnicos, como o plano demorado do Alka-Seltzer a desfazer-se em água, foram “homenagens” de Scorsese a Jean-Luc Godard. Esta, em particular, foi literalmente retirada de 2 ou 3 Choses que je Sais d’Elle, filme de 1967.

No final, depois da tentativa falhada de assassinar um candidato à presidência, ‘Travis Bickle’ tenta salvar ‘Iris’, o que dá origem a uma carnificina. Agindo como um cyborg, protagoniza a violenta e famosa cena final, uma proeza técnica. De Niro recapitula que o ambiente, durante a rodagem, não foi nada pesado. “Estávamos ali, no meio de sangue e tripas, enfim… brincávamos.” O último plano, visto de cima, foi particularmente difícil de concretizar já que a equipa não filmava num cenário. A solução foi radical: Cortar o teto. O problema foi que o prédio começou a desfazer-se.

Keitel preferiu o papel de 'Sport'.
Keitel preferiu o papel de ‘Sport’.

O final de Taxi Driver suscitou dúvidas a muitos espectadores. Segundo Schrader e Scorsese, o momento em que ‘Travis’ parece ver algo no retrovisor do táxi – imagem que entretanto se perde numa mistura de sinais de néon – simboliza algo que lhe captou a atenção, insinuando que a violência poderá novamente ser desencadeada por este homem que se move pela cidade como uma bomba relógio.

Depois de Taxi Driver ser lançado, Paul Schrader chegava ao escritório, quando a secretária lhe disse que tinha alguém à sua espera. Schrader entrou, e um jovem desconhecido perguntou-lhe: “Quero saber quem lhe falou de mim.” “Fiquei espantado e disse-lhe, ‘deixe-me ver se percebo: Você é taxista e acha que lhe roubei a história?’ Mas ele insistiu ‘não, nunca guiei um táxi. Quero saber quem lhe falou de mim!’ Foi então que percebi que tínhamos criado a ‘coisa real’.”

Em 1981, John Hinckley, Jr. seguiu os passos de ‘Travis’, tentando assassinar o presidente Ronald Reagan. Além de admirador do filme, que vira vezes sem conta, Hinckley desenvolvera uma obsessão por Jodie Foster, que, segundo ele, esteve na origem do seu ato.

Obra fulcral dos anos 70, que estabeleceu definitivamente Robert De Niro e Martin Scorsese como dupla lendária da 7ª Arte, Taxi Driver continua perturbador, intrigante e genial. É difícil ficar indiferente ao modo franco e realista com que aborda aspetos complexos do ser humano. Tal como disse Robert De Niro, já todos falámos com o espelho.

David Furtado

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