Pintar a Manta: Paint Your Wagon ou Os Maridos de Elizabeth

Andava há uns tempos a tentar encontrar um título para o site. O “melhor” que me surgiu foi «Hand me Down That Can O’ Beans», porque Lee Marvin canta esta canção numa cena divertida de Paint Your Wagon (1969), em que Clint Eastwood parece estar genuinamente a rir-se como nunca o vi. Mas a mais representativa é «Wand’rin’ Star» e isso diz mais comigo, até por causa da letra. (A anterior envolve uma lata de feijões.) Mas tudo é  melhor que ter o nome pregado ao cabeçalho. Adiante.

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Não sou fã de musicais, aliás, este é o único que consigo ver, porque esses momentos não são excessivos nem aborrecem, especialmente quando são Lee ou Clint Eastwood a protagonizá-los. Talvez Clint até cante melhor que Marvin, mas o tema que captou a imaginação popular, tornando-se num clássico, foi «Wand’rin’ Star».

Sempre me disseram que a banda sonora e o filme foram um grande êxito em Portugal, onde estreou com o título Os Maridos de Elizabeth, mas o contrário aconteceu nos EUA: Um fiasco. A rodagem foi complicada. O realizador Josh Logan viria a dizer: “Desde que Átila, o Huno, varreu a Europa, deixando 500 anos de total negrume, não existiu um homem como Lee Marvin.” O ator assinou um contrato de um milhão de dólares, mas o modo como encarava a indústria do cinema dava azo a episódios como o que aconteceu com Barbra Streisand, pouco depois de concluída a negociação. Passou pela mesa onde a atriz estava sentada e pôs-lhe uma nota de 20 dólares ao lado do prato. “Para que é isto?!”, perguntou ela, surpreendida. “Oh, não sei. Provavelmente é mais do que fizeste a noite passada.”

Nos jornais, as histórias sucediam-se, algumas desagradáveis. Joshua Logan teve de emitir um comunicado de imprensa, a certo ponto: “Caros senhores, alegam que Lee Marvin ficou tão irritado comigo que usou as minhas botas da mesma forma que um cão usa um poste, o que é falso. Primeiro, quando Lee Marvin está sóbrio é o mais gentil dos cavalheiros. Além disso, é respeitador e um bom amigo. Logo, seria impossível que o fizesse enquanto sóbrio. Segundo, quando está embriagado, seria igualmente impossível, visto que anda aos ziguezagues, tentando desesperadamente retomar o equilíbrio. É um bêbedo cómico e burlesco, pelo que lhe seria difícil fazer pontaria.”

Mas Jean Seberg (a ‘Elizabeth’) era fã do sentido de humor irreverente de Marvin. Numa cena, tinha de olhar candidamente para um ribeiro e colocar o rosto muito perto da água. Estavam a filmar quando Lee saltou de uns arbustos, gritando, “Pára, pára!” “Meu Deus, o que se passa?” perguntou a atriz, espantada. “Não sabes que os peixes estão a f… aí dentro?”

As confusões na produção levaram o ator (que não se dava com Clint Eastwood) a tentar substituir o realizador Josh Logan. Telefonou a Richard Brooks e pediu-lhe ajuda, uma vez que andava tudo “de cabeça perdida”. Já não era o primeiro a fazê-lo, mas diga-se que, no final, Lee sentiu admiração por Logan ter aturado todo o caos que foi a filmagem no Oregon, com cenários a caírem, figurantes descontrolados, atores a trocarem de namorada, etc. Por isso, Lee resmungava, “these cocksuckers don’t know their asses from… Kavoom!” Abandonava as filmagens. Mais tarde, era encontrado nas redondezas, serenamente a pescar, ou num bar ali perto.

Revi o filme há cerca de um mês e até acho a dinâmica entre os “dois maridos de Elizabeth”, Clint e Lee, bastante engraçada, embora este último seja mais cómico do que Clint, o que também tem a ver com a relação entre “Pardner” e “Ben”. É um western/comédia/musical/romance descomprometido, sem um argumento muito expansivo ou profundo apesar da sua longa duração, talvez por isso, não tenha sido bem recebido.

Marvin não era pessoa de guardar muitos souvenirs do passado. Da sua carreira, tinha apenas o Óscar pelo seu papel duplo em Cat Ballou, o sapato com que Vivien Leigh lhe bateu, numa cena de Ship of Fools, (assinado por ela) e o disco de ouro que ganhou pelo sucesso inesperado do tema «Wand’rin’ Star».

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Carlos Vieira diz:

    Obrigado, David, por este seu trabalho sobre o filme “Os Maridos de Elizabeth”. tão bem descrito e que me trouxe à memória um filme marcante, onde se destaca o tema musical, inesquecível para mim.

    1. Obrigado pelo comentário, Carlos. Ainda bem que gostou.

Comentários:

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