Euro-crime: Um género “unchained”

Para terminar a ronda dos melhores filmes que vi o ano passado, depois de The Miracle Worker e The Big Red One, termino com uma das “descobertas” que fiz. Foi um subgénero, o poliziotteschi ou euro-crime, os filmes policiais italianos dos anos 70.

tomas milian euro-crime
Tomas Milian em Squadra Volante (1974).

O cinema italiano encontrou um grande filão nos western spaghetti, género fundado por Sergio Leone e que conta com obras extraordinárias de outros realizadores. Chegou a ponto de um ator se auto-intitular “Clint Westwood”, tal foi o sucesso de A Fistful of Dollars e das duas sequelas. Entre 65 e início de 70, estes filmes foram criados e exportados. No início da década de 70, Dario Argento realizou The Bird With The Crystal Plumage, que, embora não fosse o primeiro giallo, lançou o rastilho para dezenas destes filmes, dirigidos ao grande público, uma mistura de mistério e terror em que o assassino só é revelado no fim. Deu origem a um frenesim, e até alguns filmes de Brian De Palma são hoje considerados gialli (no plural).

A meio da década, os gialli começaram a decair em popularidade e o poliziotteschi reinou. Uma vez que os americanos foram buscar imenso ao cinema italiano, os italianos, por seu turno, basearam estas obras em quatro pilares norte-americanos e êxitos do início dos anos 70: The Godfather, Dirty Harry, The French Connection e Serpico.

Maurizio Merli, o 'Comissário de Ferro'.
Maurizio Merli, o ‘Comissário de Ferro’.

Sendo fã destes quatro filmes, acho extraordinário o modo como as histórias e os clichés são recriados. A meio da década, a Itália sofria uma onda de criminalidade sem precedentes, pelo que o público ansiava por alguma espécie de entretenimento ou equalizador no cinema. Isto originou obras em que o polícia está em desacordo permanente com a autoridade corrupta ou passiva, e age por si mesmo, confrontando grandes esquemas de tráfico de droga, assaltos a bancos, raptos, etc., de forma tão violenta como os criminosos. Fabio Testi e Oliver Reed protagonizaram o excelente Revolver (1973) do sempre fiável Sergio Sollima.

Milano Calibro 9 de Fernando Di Leo, é outra obra fundamental, com a indispensável garrafa de J&B sempre a aparecer. (Até há um fórum que discute isso, “spot that J&B bottle”.) Deste período, muitos conceitos e bandas sonoras foram parar a filmes de Tarantino; pequenas pérolas de Ennio Morricone e de outros compositores menos conhecidos.

Tomas Milian no papel de 'Rambo' em Il giustiziere sfida la città (1975).
Tomas Milian no papel de ‘Rambo’ em Il giustiziere sfida la città (1975).

Houve três atores que se impuseram: Franco Nero, Maurizio Merli e Tomas Milian. Nero teve a carreira mais internacional. Merli foi o “Comissário de Ferro”, escolhido por ter o mesmo tipo físico de Nero, embora possuam estilos muito diferentes. Tomas Milian estudou no Actors Studio e era um autêntico maverick. Começou em filmes italianos sérios, foi um louco total nos westerns, embarcou nos policiais, entrou na comédia e chegou a Hollywood, interpretando papéis em JFK, Traffic e Amistad, entre outros. Até em Miami Vice participou.

Os realizadores que se celebrizaram no género foram Fernando Di Leo, Stelvio Massi, Enzo G. Castellari, autor do original The Inglorious Bastards, uma imitação disfarçada de The Dirty Dozen, e Umberto Lenzi, que parecia não falhar um alvo, muito antes de Cannibal Ferox, género canibalesco que despertou polémica e aficionados.

No final da década de 70, o cinema italiano ia perdendo a preponderância, e foi quando surgiram os imitadores americanos que literalmente o esventraram. O poliziotteschi entrou em desespero e começaram a juntar-lhe comédia em excesso, algo em que Tomas Milian embarcou, no papel de ‘Nico Giraldi’, com desempenhos cada vez mais histéricos, que o levaram a dizer “basta”.

Merli em Roma Violenta (1975).
Merli em Roma Violenta (1975).

Maurizio Merli, cuja primeira aparição tinha sido num filme de Luchino Visconti, O Leopardo, faleceu aos 49 anos, em 1989, vítima de ataque cardíaco, no final de um jogo de ténis, à frente da filha. Merli nunca mais conseguira recuperar a aura dos policiais. Protagonizou um excelente western, Mannaja (1977), mas o seu carisma contagiante está patente nestes filmes. Merli levava tanto a sério os papéis, que tinha a fama de bater realmente nos duplos e atores durante as cenas de pancadaria. Colidiu com Tomas Milian, ator genial, com um ego do tamanho de um arranha-céus, mas fizeram juntos um dos melhores policiais da época: Roma a Mano Armata (1976).

Havia espaço para tudo. Milian, por exemplo, leu The First Blood e convenceu Lenzi a realizar um filme em torno de ‘Rambo’ (Syndicate Sadists), a primeira vez que o personagem surgiu no cinema, ainda que num contexto urbano. Tomas Milian montava bem a cavalo, mas com motos não era tão hábil, pelo que foi substituído por duplos.

euro-crime (4)O camaleónico ator cubano Tomas Milian viria a encarnar o imortal ‘Er Monnezza’, pequeno vigarista cheio de piada, chegando a escrever os próprios diálogos. Depois do inacreditável bandido mexicano perito em facas, ‘Cuchillo’, que trocou as voltas a Lee Van Cleef (“Nunca me conseguirás apanhar. Nem conseguias apanhar um caracol manco!”), encarnou vários papéis que punham os italianos em pé, a bater palmas nos cinemas. Fez três filmes com Lucio Fulci, todos excelentes, Beatrice Cenci, Don’t Torture a Duckling e Four of the Apocalypse. Mas a sua encarnação de ‘Er Monnezza’ em El Trucido e lo Sbirro (1976) originou La Banda del Trucido, no ano seguinte, em que rouba o filme ao protagonista. O personagem ainda hoje é tão popular em Itália, que, no Carnaval, muitos se mascaram como ele.

Milian desempenhou dois papéis, ‘Monnezza’ e o seu irmão gémeo, (muito parecidos, de facto!) ‘Il Gobbo’, o Corcunda, em La Banda del Gobbo (1978), personagem ressuscitada de Roma a Mano Armata. Este sim, um grande vilão. Pelo contrário, ‘Monnezza’ é detentor de uma sabedoria e linguagem (calão que Milian apendeu nas ruas de Roma) muito próprias. Foi um fenómeno. O realizador Bruno Corbucci aproveitou este perfil para uma série de filmes que começaram com o engraçado Squadra Antiscippo (The Cop in Blue Jeans) mas que descambou numa série de sequelas com humor cada vez mais fácil e brejeiro. Foi o próprio Milian, ao que consta, a pôr fim a este descalabro, numa altura em que bebia quatro garrafas de vinho por dia, além de ser viciado em estupefacientes.

Os policiais caíram no esquecimento. Dario Argento revitalizou o giallo com o genial Tenebre (1982). Lucio Fulci, que dizia cobras e lagartos de Argento, contra-atacou com o infame e ainda mais brutal giallo The New York Ripper, no mesmo ano. A partir daqui, o cinema italiano perdeu a força de outrora. Surgiria La Vita è Bella de Roberto Benigni e Cinema Paradiso (1988) que apresentou Giuseppe Tornatore ao mundo.

O poliziotteschi acabou por ser uma espécie de esponja; absorveu um género e expulsou outro. Houve outro realizador excecional, Damiano Damiani, que viria a realizar a primeira série de O Polvo, já nos anos 80. Amer (2009) foi um inesperado e curioso exame visual aos gialli dos anos 70. Mulheres bonitas, navalhas e as bandas sonoras inventivas.

Os poliziotteschi também estrearam em Portugal, por vezes, com anos de atraso, mas tem-lhes sido dada bastante atenção em DVD, nos EUA, Inglaterra e, claro, Itália. Podemos esperar muitas perseguições, tiroteios, pancada, humor com ironia italiana, representações estrondosas de Tomas Milian, o inconformismo do ‘Comissário de Ferro’ e o talento inconfundível do ‘Django’ original, que sempre foi “unchained”: Franco Nero. Tal como este subgénero.

David Furtado

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