Era Uma Vez na América: Pesadelo Cómico sobre a Existência

Durante os anos 70, Sergio Leone participou em seis produções como O Meu Nome é Ninguém (1973), onde foi assistente de realização, e assinou 10 filmes publicitários em Itália, além de integrar o júri de diversos festivais de cinema, como sucedeu em Cannes. Rejeitou realizar O Padrinho. Admiradores e críticos já perguntavam o que acontecera a Sergio Leone. Foram, de certa maneira, anos perdidos, mas o cineasta deu tudo o que tinha ao seu projeto seguinte.

Robert De Niro e Sergio Leone.
Robert De Niro e Sergio Leone.

O romance do gangster Harry Grey, The Hoods, foi publicado em 1953. Leone não ficou particularmente entusiasmado com a obra, a nível literário, mas achou que daria um bom filme, em parte por ser uma narrativa sobre gangsters, e os cowboys de Leone sempre se comportaram como tal. Depois de terminar as filmagens de Aconteceu no Oeste, em 1968, telefonou ao agente literário de Harry Grey, acabando por se encontrar com ele em Nova Iorque, num café mal afamado. Grey respondeu com “sim, não, talvez”. Mas Leone “através daquele labirinto de monossílabos” conseguiu conceber metade do filme nessa noite, segundo revela.

Grey não se opôs, e o cineasta procurou comprar os direitos da obra, descobrindo que já tinham sido vendidos. Em 1976, contactou o produtor Alberto Grimaldi, pedindo-lhe auxílio e conseguindo os direitos. Norman Mailer foi então encarregue do argumento, trabalho que Leone classificou de “versão Rato Mickey”. Por isso, escreveu ele próprio o guião (que difere bastante do livro) em parceria com cinco argumentistas italianos. Os diálogos foram traduzidos para inglês por Stuart Kaminsky, que admirava Leone e considerava os seus filmes “pesadelos cómicos sobre a existência”.

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O realizador estava determinado em distanciar-se dos clichés dos filmes sobre a Máfia e dos dois “Padrinhos” de Coppola. Ironicamente, depois de pensar em dezenas de atores, acabou por assegurar a participação de Robert De Niro, o que deu alento definitivo à produção.

De Niro tentou interferir na escolha do restante elenco e dar demasiadas sugestões ao realizador. A certa altura, questionou o enquadramento de uma cena e espreitou pela câmara, concluindo que, afinal, o cineasta tinha razão. Leone respondeu: “Ainda bem que achas, Bob, porque o realizador sou eu.”

Sergio fazia a mímica habitual, explicando o que pretendia de determinada cena, e De Niro começou a perguntar-lhe, “como é que farias isto?” Depois da demonstração, comentava: “És muito bom…” Mas Leone achava que “Bob vive o argumento. Repete-o 10 mil vezes em casa e, quando tinha de desempenhar um homem velho, ‘era’ um homem velho”.

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Numa cena em que De Niro sai da prisão e é recebido por James Woods, Leone queria que começasse a chover a meio e fazer um grande plano.

“Estava à espera, em cima de um grande guindaste”, recorda James Woods. “Não se podia usar máquinas de chuva, devido à amplitude do plano. E eu pensei, ‘só Sergio Leone esperaria por Deus, para que começasse a chover a meio do take!’ E confiasse que, ao dizer ‘ação!’, Deus lhe fizesse a vontade. Para meu espanto, filmámos e, a meio do take, começou a chover…”

Já todos queriam trabalhar com o realizador. Seguiram-se, além de Woods, Tuesday Weld, Joe Pesci, Jennifer Connelly, Elizabeth McGovern, Treat Williams, Danny Aiello, Burt Young e Darlanne Fluegel. Com tantos talentos, o realizador teve de proceder de modo totalmente diferente, tal como confessou a James Woods: “Eu costumava estruturar a cena, a posição das câmaras e só depois ligava os actores ‘à tomada’. Agora, com vocês, tenho de reestruturar tudo e filmar como um documentarista. Nunca trabalhei assim, mas acho revigorante.”

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SPIELBERG E SCORSESE ESTUPEFACTOS

Era Uma Vez na América é a história de quatro amigos que crescem juntos, tornando-se gangsters. Já na idade adulta, Noodles, o mais astuto, tenta impedir Max de assaltar o Federal Reserve Bank, mas o ambicioso amigo não recua. Noodles denuncia então os três amigos à polícia, o assalto corre mal, os companheiros são mortos e Noodles foge de Nova Iorque, suportando um complexo de culpa durante 30 anos. Recebe então uma misteriosa carta que o faz regressar. É quando Noodles revisita as suas memórias que, tal como no filme, acabam por ser peças de um puzzle.

No entanto, a personagem principal de Era Uma Vez na América é o tempo. Outros subtemas são um amor que se torna numa obsessão, uma ambição desmedida pelo poder que se revela vazia, a traição e a amizade.

“Agora, a culpa é mais importante do que a vingança, a introspecção já não é sinal de fraqueza, as relações entre os personagens importam realmente e a violência é brutal”, afirma o biógrafo de Leone. Uma das cenas mais bonitas, aquela em que Deborah lê a Noodles uma passagem do «Cântico dos Cânticos», não estava incluída no argumento, bem como outras que foram adicionadas em cima da hora. O filme é construído como um quebra-cabeças, ao estilo de Citizen Kane, desenrolando-se em três períodos diferentes: Anos 20, anos 30 e anos 60, sem seguir uma ordem cronológica.

A música de Ennio Morricone é uma obra-prima dentro da obra-prima. Segundo o compositor, “determinados excertos intervêm no filme quando a câmara ‘fita’ os olhos de um personagem. A música destaca então o que lhe vai na alma.”

A nível visual, Era Uma Vez na América é também impressionante, tendo sido publicado um livro que compara as cenas às pinturas que as inspiraram. Os quadros de Edward Hopper foram a principal referência de Leone, entre eles, Nighthawks, Drug Store e New York Movie. O ilustrador do Saturday Evening Post, Norman Rockwell, foi outra inspiração, bem como o pintor austríaco Gustav Klimt. Quando Spielberg e Scorsese visitaram Roma, Leone mostrou-lhes a pesquisa que fizera e o modo como utilizou os quadros, o que deixou os dois americanos estupefactos.

Nesta cena, em que 'Deborah' dança ao som do gramofone, Leone empregou a iluminação e o enquadramento de um quadro de Degas.
Nesta cena, em que ‘Deborah’ dança ao som do gramofone, Leone empregou a iluminação e o enquadramento de um quadro de Degas.

Influenciado pela pintura, Leone era frequentador habitual e um apaixonado pelo Museu do Prado. Goya, Velásquez, Miró e De Chirico foram alguns dos artistas que inspiraram a fotografia dos seus filmes. Magritte era o seu favorito e chegou a filmar uma sequência inteira de Era Uma Vez na América (a de Deborah a dançar ao som do gramofone) com a iluminação e o enquadramento de um quadro de Degas. Eli Wallach confirma que “Sergio ia buscar muito aos pintores”, acrescentando à lista os nomes de Vermeer e Rembrandt.

Do guarda-roupa aos adereços, tudo tinha de estar perfeito. Numa cena de rua, Leone supervisionava em cima de um guindaste. Foram realizados 26 takes, porque havia sempre qualquer coisa que desagradava ao realizador – um carro não arrancava na altura certa, um espaço vazio entre figurantes… ao 27º tudo corria bem, mas, a dois segundos do fim, Leone berrou “corta! Corta, não, mata!” Uma figurante olhara para a câmara. Ao 35º, o realizador ficou satisfeito perante uma equipa técnica arrasada dos nervos.

O TEMPO FOGE

Era Uma Vez na América foi o produto de 15 anos de investimento emocional por parte de Leone. Realizaram-se audições a mais de três mil actores – 500 delas filmadas – para 80 papéis. A rodagem durou nove meses, (com 15 dias de intervalo) em Paris, Veneza, Roma, Canadá, New Jersey, Florida e Nova Iorque. Uma única cena, em que Noodles vai buscar Deborah para jantarem num restaurante de Long Beach, dura cerca de cinco minutos. O interior foi filmado num teatro de Montreal; o exterior do teatro era um edifício em Nova Iorque; a viagem de carro decorreu em New Jersey, a paisagem atlântica é a do Adriático. Se o realizador via uma foto de um camião do lixo, dizia que tinha de ser esse. A equipa técnica mostrou-lhe todos os camiões do lixo americanos imagináveis. Não havia hipótese. Tiveram de construir um, exatamente como ele o idealizara.

Jennifer Connelly (a jovem 'Deborah').
Jennifer Connelly (a jovem ‘Deborah’).

O realizador acabou por filmar 10 horas de material, cortando-o para seis, já que concebia um filme em duas partes. A produtora rejeitou, e Leone aprovou uma versão final, com três horas e 45 minutos. Seria o filme mais longo alguma vez produzido em Hollywood desde Novecento de Bertolucci. Acabou por ser cortado a golpes de cutelo pela Warner Brothers, sendo lançado com menos uma hora de duração, pelo que a crítica e o público ficaram literalmente à deriva, os atores indignados e Leone furioso.

James Woods recusou-se a assistir à versão truncada e comentou: “Três semanas antes do filme estrear, foram buscar o editor do Academia de Polícia e esquartejaram-no. O filme foi arrasado pela crítica, tal como devia. O estúdio não fazia ideia de que ia criar um autêntico escândalo ao interferir na visão de um grande artista. Mas que manobra estúpida! Espero que queimem a merda do negativo.” 

A produtora é capaz de o ter feito. Em Cannes, em 1984, Era Uma Vez na América foi exibido na versão aprovada por Leone, sendo aplaudido e reconhecido. Foi esta a versão lançada em VHS e que se encontra disponível em DVD.

O crítico Roger Ebert comenta: “O filme é demasiado longo? Sim e não. Sim, no sentido em que é necessária verdadeira concentração para compreender a construção da história de Leone, em que tudo pode, ou não, ser um sonho de ópio, um pesadelo, uma memória ou um flashback; além de que temos de seguir as personagens e as suas relações mútuas ao longo de 50 anos. Não, no sentido em que se assiste ao filme continuamente e de modo compulsivo, e o público não se enfada à medida que o épico se desenvolve.”

Universalmente considerado um dos melhores filmes de sempre, Era Uma Vez na América, mais uma vez, não foi um êxito nos Estados Unidos. Mostra-nos uma terra prometida que não cumpre as suas promessas, um mundo de desespero, corrupção, onde ninguém consegue fazer a diferença. Leone conseguiu, ainda assim, encontrar uma beleza dolorosa neste pesadelo cómico sobre a existência.

David Furtado

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3 Comments Add yours

  1. Aprigio Alves de Oliveira Filho diz:

    Provavelmente o maior diretor desse século.

  2. Aprigio Alves de Oliveira Filho diz:

    Corrigindo:quis dizer provavelmente o maior diretor do século XX, pois já estamos no XXI.

    1. Um dos maiores realizadores da História do cinema, em suma.

Comentários:

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