Porquê escrever sobre cinema?

Já me questionei sobre o motivo que me leva a escrever sobre cinema. É uma questão de partilha. Desde miúdo, sempre quis saber mais sobre os filmes ou os atores de que gostava. Como funciona um filme, como interage a equipa, como surgiu a ideia, sem me sentar apático num cinema. Por isso, comprava sempre o Semanário Vídeo, porque as pessoas que lá escreviam – não recordo nenhum nome, infelizmente – faziam-no por amor à camisola. Notava-se nos textos uma paixão pelo cinema, não uma extrapolação do ego, como é o caso de muitos críticos, desde o início dos tempos, em Portugal e em todo o lado.

al pacino Dog Day Afternoon
Al Pacino em Um Dia de Cão (1975).

Havia e há casos de graxa a produtoras, a cineastas, a distribuidores, mas, nesse semanário, procuravam informar ao máximo, e esse desembaraço nota-se logo. É o caso de algumas pessoas cuja opinião respeito – é independente, às vezes, incómoda. Mas dizem o que acham e têm bagagem para isso. Portanto, não tenho grande consideração pelos “críticos do sistema”, os dos grandes jornais nacionais. (E isso notou-se na idolatria pelo Clint Eastwood, que surgiu por alturas de Imperdoável, em 92. Foi uma moda que se instalou.) Não gosto da arrogância com que se expressam, das palavras impenetráveis que usam, como se detivessem um conhecimento sobre-humano, incógnito e inerente ao espectador. Há quem saiba muito de cinema em Portugal, que goste e seja aficionado e divulgado. E há pessoas que sabem distinguir o trigo do joio. Não serão tão conhecidas, mas mereciam, embora eu nem sempre concorde com elas, o que é normal.

O primeiro texto que escrevi foi despoletado pela minha adolescência, em que era fã incondicional do Clint Eastwood. Na altura, 1988, ninguém falava dele. Era da craveira do Chuck Norris ou do Van Damme. Nessa altura, o Tom Cruise era a melhor coisa que atingiu a Terra desde Jesus Cristo. Emprestaram-me uma cassete VHS do Dirty Harry numa sala de aula e adorei. Devorei todos os seus filmes, até me fazia sócio de um videoclube por causa de um único. E assim vi e gravei, entre muitos outros, os dois filmes que ele fez com o orangotango “Clyde” e são bastante divertidos. Se dissermos isto ao público de J. Edgar, são capazes de nos fitar com incredulidade. “O quê? Um filme com um macaco? Recuso-me a acreditar em tal coisa.” Por volta de 2006, li uma biografia que me desgostou e escrevi o meu primeiro texto de fundo sobre um ator.

Foi agridoce. O homem não era quem eu pensava e, a partir daí, separei as águas. Ao ler inúmeras biografias sobre realizadores e atores, percebi que uma coisa é a obra, outra é a pessoa, como disse Marlon Brando. Isto apesar de haver muitos livros que “exaltam a lenda”, outros que vasculham o caixote do lixo como uma do Anthony Perkins. Estabeleço o limite. Não vou difundir os seus gostos sexuais, por muito explícitos que estejam descritos. Quando deixei de ter ídolos no cinema, comecei a apreciar os trabalhos com mais clareza e tentar exprimir-me sobre isso da maneira mais direta. Os textos foram sendo publicados e geralmente eram longos, mas acho que nunca meti palha em nenhum.

Cada pequeno ou grande elogio, deu-me vontade de fazer melhor. Quando escrevi um sobre Charles Bronson, ouvi, num comentário de corredor: “Está a exaltar a mediocridade.” Uma vez, entrei numa redação e estava um monte de exemplares com um trabalho meu na capa (por acaso, a foto era uma montagem que fiz no paint ou coisa assim) e ninguém viu. Nem eu vi! Perguntei pelos jornais do dia e alguém me disse agressivamente, “está uma pilha à porta”. Tough room.

Quando saiu o primeiro artigo, (o do Clint) reparei que um colega me fitava com um olhar tão fulminante que parecia querer destruir o Colosso de Rodes. Fui ver os exemplares do dia e tinha sido capa. Decidi continuar. Achei que estava no bom caminho.

Não tenho paciência, tempo nem destreza para ver tantas estreias. Prefiro ler pessoas em cuja opinião confio e continuo desligado da crítica dos jornais nacionais. Uma vez disseram-me com humor, “outro artigo sobre cinema do século VIII?” Outra pessoa disse-me, “ninguém tem olhos? Ou um olho pelo menos?” “O seu texto vai parar a África e cá ninguém lê?” Ri-me. Não me posso queixar: Quem escreve não procura muita gente que goste, basta um gostar, e tenho tido sorte com alguns editores. Sei que os meus textos são lidos mas nunca escrevi para um público específico. Quando muito, escrevo para o miúdo ou graúdo que gosta realmente de cinema.

Lamento que 90 % do público português veja o cinema como um entretém, um programa domingueiro e bata palmas a slogans e a jogos de computador no ecrã. Lamento que a memória cinéfila deste povo não vá além de 2005. Lamento que sejamos bombardeados com os cineastas ou atores da moda, os efémeros favoritos de quem não percebe nada de cinema e anseia a idolatria cega. Lamento que não haja espírito crítico. Lamento que se consiga ver filmes em IPhones. Para quê?… só se for para dar mais trabalho a oftalmologistas.

É claro que o cinema vive das novidades, tal como eu procurava novidades no videoclube ou nos jornais e isso dá outra história. Fui ver filmes com outra pessoa, em grupo, sozinho, anos a fio. Mas esta mania das pipocas, da Cola e do último do George Clooney provoca-me um certo asco, bem como os remakes. Por exemplo, há coisa mais ridícula que um remake de um filme com o Steve McQueen e a Ali MacGraw, realizado pelo Sam Peckinpah? Sim, um com Alec Baldwin e Kim Basinger, The Getaway. Como disse Joni Mitchell, “ninguém disse ao Van Gogh, ‘pinta outra vez a Noite Estrelada, meu!’”

É por isso que gosto de saber que tipo de pessoa é o Al Pacino. Por que diabo demorou tanto tempo a ganhar um Óscar? Por que motivo ele não dormiu e bebeu uma garrafa de vinho inteira antes da cena inicial de Dog Day Afternoon. Queria parecer que não dormira. Queria ter um ar ansioso, cansado, angustiado. Recusou os primeiros takes, antes disto. É essa dedicação, essa entrega, que respeito e admiro. E todos os atores e atrizes têm vidas como nós. Algo diferentes, sim, mas são feitos da mesma matéria, sujeitos a pressões e têm de criar, o que não é uma função mecânica. Hollywood não é o manto de glamour que nos atiram para cima. Por cada atriz que singrou, há 5000 aspirantes que caíram no mundo da pornografia nas redondezas da cidade dos anjos caídos: Los Angeles.

“A consciência não existe! Trai-se a mulher, lixa-se o próximo e telefona-se à mãe no Dia da Mãe”, como disse Pacino no Perfume de Mulher. Ir ao cinema é como ir à missa ao domingo. Entopem o passeio todo para irem rezar e confessar os pecados. Cá fora, vale tudo; ninguém quer saber da arte, nem de Deus, nem de nada. Eu que o diga, já que tive de fazer umas 50 manobras para chegar a casa, certa vez, já que fiquei com o carro entalado à porta da igreja, entre uns quantos que iam à Missa do Galo ou coisa que o valha.

Uma vez, disseram-me, “os críticos de cinema são uns frustrados porque queriam ser realizadores, e os críticos de música são músicos frustrados”. Nunca fiz crítica de música, embora adore música. Não me acho capaz de realizar um filme. Só fiz uma vez crítica de cinema. Talvez pudesse ser ator, sim, gostava de tentar. Mas “somos todos atores”, como disse Marlon Brando: “Alguém me aplaudiria se eu fosse um bom canalizador?”

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Gostei demais desse texto ( não vi-lhe a data!) por ”n” motivos, entre eles não gostar jamais de Clint E. ( exceto por ”Bird”, belíssimo!) e quando ele colocou uma cadeira vazia no debate americano, mostrou a que veio…. finalmente. Os ídolos são inevitáveis, me parece. Como Brando. Estou a rever pela oitava vez todos os chefões e nos extras o que diz Coppola é maravilhoso, não sei se tu vistes, David. Vale a pena. E Pacino não se dirigia a ele, somente através do seu advogado…. então meu ídolo ficou…… maculado. Mulheres são irredutíveis: são românticas, pronto. A racionalidade foge às carreiras diante de um depoimento assim: é preciso explicar pois deixei de procurar pelos filmes dele……. ah, como não ficar tristonha, como?

    Um pedido: queria que tu visses O Som ao Redor, chegou aí?! vi 4 vezes, picado, até entender……. e também foi difícil de ouvir/escutar…….. o diabo do som, r s r s r. .Abraços gratos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    1. Obrigado, Maria Luiza. Não acho os ídolos “inaceitáveis”. Todos precisamos de os ter. Admiro o talento de muitas pessoas, não necessariamente as pessoas. No caso de Clint Eastwood, nem o talento nem a pessoa.

      Sim, vi os “chefões”… os Padrinhos, como lhes chamamos em Portugal. Com o comentário – e é verdade que vale a pena. Sabe que isso de se dirigirem através do advogado quando há problemas não é nada de especial. É “business”. Não há que ficar tristonha. Há uma coisa que por vezes as pessoas esquecem: É muita pressão ser um actor conhecido em todo o mundo. Espera-se que gere dinheiro, anda tudo a correr atrás deles para assinarem autógrafos, vasculham-lhes a vida, fotografam-nos na praia… para muitos, é fácil perder a noção da realidade. Queria andar com essa cruz atrás? Eu não. Depende do modo como se lida com as coisas. Há sempre o reverso da moeda.

      O Som ao Redor de Kleber Mendonça Filho? OK, vou averiguar. Gostei do Tropa de Elite, mas conheço muito mal o cinema brasileiro. Abraços!

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